O cinema na praça além da importância social, ele tem uma importância poética mesmo. A coisa do cinema de guerrilha. Eu, acho assim, o cinema que vai para o povo. O Cinema na Praça além de exibir filme nacional, ainda exibe curta-metragem nacional. Onde você vê curta-
metragem na verdade? Camilo Cavalcante – Cineasta.178
Claro e escuro, luz e sombra, palavras contratantes empregadas tanto para designar os períodos do dia e da noite, como para se referir à sétima arte. A correspondência é tão imediata que ao ouvir a palavra cinema, não é raro, florescer na mente a imagem de uma sala fechada despida de luminosidade. Mas, não é apenas isso, pois a escuridão geralmente causa medo, estranheza. O que atrai nessa sala fechada é o efeito luminoso projetado na tela. De modo parecido, o fascínio que a lua, estrelas e o sol provocam, vem da luz que emanam. Ser humano se encanta pelo que brilha e resplandece. Luz tem força simbólica... Luz divina... Idéia brilhante... Luz da vida, emprega-se também para expressar o que está para além do tangível. Afora o brilho, tem o movimento, que igualmente seduz. E para arrebatar tem emoção com a reprodução das cenas da vida em imagens dinâmicas. O ato de ouvir e contar história que acompanha e enleva a humanidade desde a aurora dos tempos. Se Junta a esse conjunto, atores, diretores, efeitos especiais, propagandas que acabam por motivar e atrair pessoas a entrarem na sala escura.
Final da tarde, na bilheteria do cinema, em uma fila grande, pessoas esperam a vez para serem atendidas. Outro grupo numeroso, com os olhos atentos no letreiro, observa os filmes que estão em cartaz e as sinopses. Alguns adolescentes reunidos conversam alto e dão risadas, estão esperando o horário da próxima sessão de um filme. Para comprar pipoca e refrigerante outras duas fileiras se formam, uma para pagar e a outra para receber os produtos.
Um casal chega apressado segue em direção ao letreiro. O rapaz parece
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Depoimento disponível no vídeo: “Cinema na Praça” (2003), de Tiago Delácio sobre o Projeto na cidade de Olinda.
chateado, por poucos minutos, não chegaram no horário. O filme desejado, já tinha começado e a próxima sessão só às 21 horas. Resolvem, então, substituir por outro, olham como se estivessem escolhendo em um cardápio, precisava ser um longa- metragem que agradasse e que não precisassem esperar muito. Encontraram um filme que começaria em poucos minutos. Correm para a bilheteria. Passo a passo, vão se aproximando, compram os ingressos e pagam com o cartão de crédito. Olham as horas, não têm tempo para comprar as pipocas. Vão para a fila de acesso ao cinema. Ao entrarem encontram as luzes da sala ainda acesas, examinam as poltronas vazias. Ela aponta para umas cadeiras bem na frente, no centro, mas ele parece prefere sentar-se mais no fundo da sala. Acabam, entrando no acordo, as poltronas da sexta fileira são, enfim, ocupadas. Em volta observam que pessoas conversam, umas sorriem. Ela avista um conhecido e acena com a mão. Logo depois, veste uma blusa de manga comprida, sente um pouco de frio, por causa do ar condicionado.
Chega o horário marcado para o início da sessão, as luzes se apagam. As pessoas interrompem a conversa, acomodam-se melhor nas poltronas. O silêncio se faz necessário. A atenção é direcionada agora para a grande tela. Um clarão rompe a escuridão, como uma fogueira acesa à noite. Um desenho animado, exibido antes do filme principal, informa sobre os equipamentos de segurança da sala, as saídas de emergência em caso de incêndio. Alerta que o cinema é equipado com geradores, em caso de falta de energia elétrica, a sessão continua normalmente. Lembra, ainda, aos espectadores para desligarem seus telefones celulares. Encerra, desejando a todos uma ótima sessão. Passa-se os trailers e o filme em seguida começa.
Essas situações são ilustrativas do ritual comumente conhecido, que pode ocorrer atualmente, em uma sala convencional – localizada em um Shopping Center. Outro ritual, bem diferente do que ocorre nas salas escuras, acontece em outro local, onde é a natureza que determina o horário, a interrupção ou suspensão da sessão – uma praça pública.
No mesmo horário, final da tarde, na Praça Tomé de Sousa, chega o veículo, – Kombi – que transporta alguns equipamentos e cadeiras plásticas
brancas. Estas são arrumadas em fileiras em frente ao Elevador Lacerda. Esse movimento, no entanto, parece chamar pouco a atenção das pessoas que estão na Praça, isso porque, neste momento, um exuberante espetáculo rouba a cena. As pessoas se detêm sobre o brilho dourado do Sol sobre as águas da Baía de Todos os Santos.
Ao esconder-se, o sol apaga o dia e saúda com beleza o aparecimento da lua e das estrelas. Estas têm brilho sutil, não chega a pujança do sol que permite que o mundo seja visto. Grandiosa luminosidade, que ofusca outros pontos de luz menos intensos. Ao adormecer, o sol, permite generosamente que a luz da lua e das estrelas possa ser notada. Assim, para perceberem-se os pontos de luz, precisa-se da escuridão. Luz e sombra um existe em função do outro.
Semelhante o que ocorre com as estrelas e a lua, onde se torna necessário a presença do grande tecido negro para serem vistas, acontece com o espetáculo montado em frente ao Elevador. Ele também precisa da ausência de uma luz mais intensa para que as imagens brilhantes sejam apreciadas na tela. É, justamente, essa transição do dia para a noite que a equipe do Cinema na Praça aguarda para começar a atividade.
Cadeiras arrumadas, banner com o nome do Projeto posicionado ao lado da sorveteria, equipamentos instalados e a tela montada na parte coberta do Elevador. Chega o horário da sessão, o sol ainda brilha exuberante. As cadeiras estão vazias. Um vendedor ambulante é o primeiro a chegar. Acostumado assistir aos filmes na Praça, em toda sua vida nunca fora ao cinema, o preço do ingresso está acima das suas possibilidades financeiras. Aproxima-se acanhado e pergunta se terá cinema. O coordenador do Projeto avisa que estão esperando anoitecer. Ele senta-se na primeira fila, olha para a tela branca, fica por alguns minutos, levanta-se e avisa que voltará mais tarde.
Dois senhores aposentados e um garoto também chegam e aguardam a sessão, são costumados a assistir aos filmes do projeto. O garoto, nunca entrou em uma sala de cinema, apesar de ver aos filmes na televisão, gosta da Praça, porque tem a tela grande, a qual considera muito melhor. Os dois senhores, já aposentados, têm décadas que entraram na sala escura.
Outra moça senta-se em uma cadeira, no centro das fileiras. Ela é pedagoga, trabalha em um colégio. Sempre que tem tempo gosta de assistir aos filmes exibidos na Praça, é uma amante da sétima arte. Por isso, freqüenta outras salas de exibição.
Em seguida, chega uma moça com duas crianças, são suas filhas. Elas pedem pipoca. Ela nega e a criança menor chora. Promete, então, comprar na hora do filme. Não adianta, a menina chora com mais veemência. A mãe pega-a pela mão e sai em direção ao pipoqueiro. Ela leva as crianças, porque o cinema é caro e as meninas gostam, para elas é uma diversão. Chegam em casa contando os acontecimentos que viveram na Praça.
Aos poucos os espectadores vão chegando... As pessoas saem do elevador, observam a estrutura, às vezes perguntam do que se trata, quando ficam sabendo que é cinema de graça, perguntam o nome do filme que será exibido. Alguns demonstram alegria e procuram uma cadeira para sentar-se, outras seguem seu caminho. Aparece gente também de outros pontos da Praça, olham o movimento e se aproximam... Logo as cadeiras estão todas ocupadas e algumas pessoas já aguardam em pé a exibição do filme. O sol se despende sem pressa. Enquanto isso, as pessoas conversam. A moça pedagoga encontrou outro fã de cinema e enredam uma conversa. As meninas que queriam pipocas, agora estão distraídas com outras crianças presentes. O vendedor ambulante, que foi o primeiro a chegar, já retornou e conversa sobre futebol com um senhor e com o rapaz que vende bala. Aliás, futebol parece motivar as conversas, outro grupo também fala sobre as expectativas do jogo do Bahia.
Quase meia hora de espera e com o céu um pouco claro, a primeira imagem é projetada na tela. As pessoas voltam à atenção para o filme. As crianças que estavam em pé são chamadas para sentar-se nas cadeiras ou no colo dos pais. O filme é apresentado com legenda em inglês, pois a Praça é, também, freqüentada por turistas de diversos países. A noite agora não demora a chegar, e com ela a visibilidade fica melhor.
O vendedor de água mineral passa correndo, pára um instante e olha para as imagens, muda de direção, coloca a caixa de “isopor” no chão e começa a assistir
ao filme. O mesmo ocorre com o engraxate, a vendedora de mingau, de picolé, o senhor que vende cafezinho e cigarros, com uns universitários... Todos estavam de passagem. Acontece igualmente com o casal de turistas mineiros, os namorados argentinos, as três amigas que moram no Rio de Janeiro, o grupo vindo do Mato Grosso do Sul, os dois senhores paraibanos, as duas moças alemães...
Olhos paralisados, com a atenção totalmente voltada para as cenas brilhantes, o público “parece" não se dar conta do barulho e do que ocorre em seu entorno. Neste instante parece que estão mergulhando em outra atmosfera. Bem diferente da situação vivida em uma sala escura, onde o silêncio é uma regra, quando não respeitado desperta o espectador da sua perfeita ligação ao mundo das imagens.
E mais gente chega para o Cinema na Praça. Muitas pessoas em pé, de braços cruzados, – homens e mulheres acompanhados ou sozinhos, casais abraçados, crianças. Com o passar do tempo à posição desconfortável cansa, alguns se sentam no chão. Foi o que ocorreu com duas turistas, que vinham da praia, resolveram comprar sorvetes, quando viram que tinha cinema, mudaram de idéia, estenderam a canga no chão e sentaram. Próximo às moças várias crianças e adolescentes “em situação de risco”, homens e mulheres que moram nas ruas, sentados ou deitados no chão. Esses grupos são freqüentadores da Praça, e também das sessões semanais de filmes. Ficam sempre na frente, bem pertinho da tela.
De modo parecido com os outros acontecimentos que ocorrem na Praça, têm pessoas também que chegam, assistem só por um tempo e saem. A grande maioria, no caso desse filme, permaneceu.
A noite segue aprazível com o vento refrescante que vem do mar. Semblantes concentrados nas imagens. Alguns saboreando suas pipocas e acarajé. O filme parece agradar a todos, vez por outras, sonoras risadas são ouvidas. As crianças rolam no chão. Rostos alegres, sorrisos nos lábios. Algumas imagens provocam enternecimento. O longa-metragem, filmado em Salvador, apresenta cenas dos lugares que são bem peculiares àquelas pessoas, – o Pelourinho e o Elevador Lacerda aparecem nas cenas. Para o turista, o lugar também pode parecer
“familiar”, alguns se encontram hospedados no Centro Histórico, e quando, não, certamente, já passou por alguma das ruas mostradas no filme.
Cerca de uma hora e meia de projeção, a história chega aos últimos instantes. A sessão continuou cheia até o final. Aparecem os créditos do filme, alguns ficam lendo, mas a maioria levanta-se das cadeiras ou do chão. Alguns, ainda, segurando o saco com o resto de pipoca. Não foi difícil perceber a satisfação exposta nos sorrisos das pessoas, principalmente das crianças, que estavam deitadas no chão. Elas que nunca foram a uma sala de exibição, pulam contentes, comentando, repetindo as frases do filme.
O feixe de luz se desvanece sob a tela, as pessoas se dispersam, vão para sorveteria, sentam-se em algum banco ou vão olhar a paisagem. Muitos descem o Elevador ou vão em direção à Praça da Sé ou Rua Chile.
Essa magia preenche a Praça sempre às quartas-feiras, apresentando a arte do cinema para muitas pessoas que nunca foram a uma sala de exibição, e mesmo para aqueles que conhecem, têm a oportunidade de vivenciar uma experiência totalmente diferente. No caso desse filme, não foi difícil encontrar pessoas que o tinha visto, – no cinema ou em DVD – no entanto, o fato de terem gostado do longa-metragem, soma-se à situação especial das imagens projetadas na tela gigante, que acabam por atrair as pessoas.
A Kombi do Projeto posiciona-se novamente no centro da Praça. Agora é hora de recolher as cadeiras, os equipamentos, enrolar o banner e desmontar a tela... Enquanto isso, um breve passeio pela Praça faz perceber, que o fluxo de pessoas diminuiu, também na saída e entrada do Elevador. Alguns vendedores ainda permanecem na Praça. A concentração de pessoas ocorre mais na sorveteria. Nos bancos em frente para o mar, os casais aproveitam a tranqüilidade para namorar. Outras pessoas ficam apreciando a vista. Turistas, crianças, adultos e idosos que moram na rua, prostitutas, ambulantes, pessoas pedindo dinheiro, transeuntes, formam o quadro noturno da Praça.
Cadeiras arrumadas na Kombi, os equipamentos guardados, os colegas de trabalho se despedem. Uns garotos que permaneceram olhando a equipe desfazer o cenário, com sorriso, acenam dizendo “até semana que vem!”. A resposta alegre é
imediata: “até a próxima semana!”. A equipe elabora uma programação mensal para as exibições dos filmes, mas de modo geral, “quem” decide realmente o horário e se terá sessão é a natureza – o sol e a chuva.179 Se não chover, certamente, o cinema voltará a animar a Praça. Mas no decorrer da semana, é possível que a Kombi viaje levando esse encantamento para outras praças dos bairros de Salvador. Isso, porém, descortina outro capítulo dessa história, faz parte das demais atividades desenvolvidas pelo Projeto. E “pegando” carona na Kombi que sai da Tomé de Sousa, passa-se a conhecer o roteiro que acaba por revelar o início desse filme: a origem do Cinema na Praça. Mas, antes, para o melhor entendimento da história conhece-se a seguir um pouco da história do cinema em Salvador. Percurso que revela que as ações itinerantes e, em praças, marcam a cidade desde que os primeiros clarões foram projetados nas telas baianas. Também o entrecho que marca o nascimento do Projeto.
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Os cancelamentos das sessões do Cinema na Praça ocorrem, sobretudo, devido as intempéries. Podendo acontecer, também, quando algum evento agendado ou inesperado ocupa a Praça como comícios, passeatas – quando as pessoas concentram-se no logradouro – protestos, alguns shows, o carnaval e as comemorações natalinas.