4.4. Tezde Karşılaştırılan NoSQL Veritabanları
4.4.1. MongoDB
4.4.1.2. Mimarisi ve Kullanım Alanları
Os dois primeiros capítulos apresentados problematizam alguns aspectos do processo de expansão do capital na região das três fronteiras ao destacarem a estreita relação entre os elementos legais contidos no modelo socioeconômico com aqueles que ocorrem de maneira mais obscura, mas não menos importantes. Neste percurso foram constatadas as aproximações e os distanciamentos dos trabalhadores em relação às diferentes ocupações possíveis na região da Ponte da Amizade, como também algumas características das biografias e das narrativas dos interlocutores consideradas fundamentais para a realização deste estudo. Assim, explicitou-se a grande mobilidade existente dentro das atividades desenvolvidas na fronteira com o Paraguai, as esperanças depositadas no circuito sacoleiro e a possibilidade, sempre presente, de escolhas que podem levar ao enriquecimento rápido.
Partindo das conversas realizadas e de notícias publicadas em jornais, este capítulo apresenta uma sistematização da organização e do funcionamento do circuito sacoleiro, problematizando as transformações ocorridas no seu interior. Como se indicou anteriormente, a fronteira de interesse nesta pesquisa se destaca pela intensidade de seu comércio internacional. Segundo Grimson (2005), as diferenças políticas, econômicas e fiscais existentes entre os diversos países instigam o surgimento de um conjunto de práticas sociais que busca beneficiar-se de tal situação para obter vantagens e aproveitar das discrepâncias existentes entre os valores e as mercadorias facilmente encontradas no mercado das cidades limítrofes. Neste sentido, inúmeras atividades direcionadas a possibilitar a grande comercialização entre Brasil, Paraguai e Argentina surgem e desaparecem acompanhando as transformações políticas e econômicas mais amplas, como o processo de liberalização e de reformulação das bases produtivas.
Durante a década de 1990 a região referida vivenciou uma intensa movimentação de compristas motivada pelos valores competitivos das mercadorias negociadas em Ciudad del Este, pela baixa no preço do dólar, pela fragilidade na fiscalização da Receita Federal e pelo desemprego estrutural que atingia a população brasileira. Milhares de trabalhadores visitavam diariamente as vielas do município paraguaio atrás dos melhores preços com o intuito de revender as mercadorias de forma mais lucrativa nos diferentes lugares do território brasileiro. Muitos sacoleiros atravessavam o país em comboios para transportar a maior quantidade possível
de produtos, utilizando outros trabalhadores para auxiliarem nos serviços executados, gerando uma grande rede de negócios e ocupando um contingente populacional significativo (Cardin, 2006).
Contudo, visando dificultar a saída de dinheiro do Brasil e a entrada de mercadorias sem o pagamento dos impostos correspondentes, a Receita Federal paulatinamente foi estabelecendo políticas de fiscalização mais rigorosas, limitando as possibilidades de atuação de sacoleiros, laranjas e cigarreiros. Assim, outras estratégias foram desenvolvidas e fortalecidas com o objetivo de garantir a manutenção da subsistência de uns e da lucratividade de outros, resistindo deste modo aos esforços do governo brasileiro em impedir tais práticas. Sem considerar sua relevância no contexto nacional, as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores brasileiros e paraguaios que visam beneficiar-se da compra, da venda e da circulação das mercadorias disponibilizadas em Ciudad del Este podem ser consideradas fundamentais na vida econômica e social do extremo oeste do Estado do Paraná.
Embora não existam números oficiais atualizados referentes à participação da população economicamente ativa de Foz do Iguaçu/PR em atividades ligadas diretamente ao comércio paraguaio, é possível supor que sejam elevados. Levando em consideração dados do Cadastro Social da Prefeitura Municipal contata-se que, no ano de 2006, 26% daquela população encontrava-se desempregada enquanto que 40,23% estava na informalidade, considerando que esta categoria, segundo o departamento responsável pelas informações, abrange os trabalhadores sem carteira, os autônomos e os subempregados. Logo, devido ao número expressivo de trabalhadores sem registro, é possível pensar que as ocupações vinculadas ao mercado de Ciudad del Este se configuram como importantes formas de complementação de renda para um amplo conjunto de famílias iguaçuenses, quando não a única forma de sobrevivência (Cardin, 2009c).
Como observa Davi (2009), há uma estreita relação entre as atividades desenvolvidas no Paraguai e a vida cotidiana dos moradores da fronteira, expandindo as consequências da fiscalização da Receita Federal para além dos trabalhadores e atingindo a cidade como um todo.
Para o cotidiano de uma cidade que depende e sobrevive em grande parte do comércio inter-fronteiras, o trabalho dos sacoleiros e laranjas acaba por se tornar profissão de uma quantidade expressiva de pessoas, apesar de não oferecer carteira assinada, ou quaisquer outros direitos assegurados pela legislação trabalhista. As pressões e ataques não atingem exclusivamente esses sujeitos nas suas condições de moradia, saneamento básico, alimentação. Como Foz do Iguaçu apresenta-se como um município que depende muito dos
consumidores de produtos vendidos no Paraguai e demais turistas, tal conjuntura tende a afetar toda a estrutura econômica e social do município (Davi, 2009, p. 112-113).
Neste contexto, adentrar as transformações nos padrões de trabalho existentes dentro do circuito sacoleiro pode ajudar no desenvolvimento de um melhor entendimento das dinâmicas da população fronteiriça. Para isso, busca-se apresentar e discutir as relações de trabalho existentes na região da Ponte da Amizade em três momentos. Primeiramente expondo o processo de fortalecimento do circuito e o modelo organizativo desenvolvido durante a década de 1990. Esta fase corresponde ao período clássico da atividade dos sacoleiros, período no qual eles ficaram nacionalmente conhecidos, tendo suas formas de atuação muito difundidas. Depois, partindo da crise estabelecida no modelo de funcionamento anterior, pretende-se analisar as formas de organização originadas principalmente após a construção da nova aduana da Receita Federal e do fortalecimento dos processos de fiscalização pelos agentes públicos. Para finalizar, apontam-se algumas particularidades existentes nas práticas dos trabalhadores pesquisados, destacando os processos de adaptação e resistência.
3.1 – O período clássico do circuito sacoleiro.
Como foi demonstrado no primeiro capítulo, Ciudad del Este foi fundada e promovida sobre políticas de incentivo ao comércio internacional e ao turismo. Desde muito cedo chamou atenção de paraguaios residentes em outros departamentos do país, como também de muitos estrangeiros, onde se destacam as comunidades árabe e asiática. Rapidamente o vilarejo existente na década de 1950 tornou-se uma das cidades com maior movimentação de dinheiro no mundo, despertando ambições e o interesse de muitos trabalhadores que migraram para a região fronteiriça. Com a formação do microcentro e a disponibilização de uma imensa variedade de produtos com preços muito inferiores aos praticados no Brasil e na Argentina, lentamente as ruas e vielas do município paraguaio começaram a ser totalmente ocupadas pelos mais diferentes tipos de compristas.
Turistas-turistas em busca de importados, lembranças e presentes; camelôs comprando para abastecer suas barracas; ambulantes adquirindo mercadorias baratas para revenda e
incipientes atacadistas e atravessadores fazendo estoques de produtos específicos com o objetivo de distribuir para outros pontos do território brasileiro. Durante as décadas de 1970 e 1980, o comércio de Ciudad del Este era vivo e movimentado, mas ainda não se encontrava vinculado às complexas redes que atualmente compõem o circuito sacoleiro. Os primeiros trabalhadores que visitavam o microcentro para comprar, transportar e revender mercadorias, embora possuíssem clientes fixos, atuavam de forma independente. Eram pequenos investidores que disponibilizavam seus recursos na aquisição de bebidas, perfumes e armações de óculos para oferecerem e abastecerem inúmeros estabelecimentos nas grandes cidades brasileiras.
Muitas vezes estes trabalhadores, que começavam com pouco recurso, cresciam e prosperavam economicamente, dominando certos setores comerciais. Revendedores que gradativamente tornaram-se os responsáveis pelo fornecimento de bebidas importadas em grandes centros comerciais do país e que apenas abandonaram suas atividades com o fortalecimento da concorrência. No entanto, tais práticas, que ainda não eram dominantes no período referido, começaram a se tornar cada vez mais habituais no final da década de 1980 e começo de 1990. O processo de democratização do Brasil e a crise econômica associada à liberalização econômica foram fundamentais para o inchaço destas atividades, ampliando a concorrência entre os trabalhadores, exigindo sua organização e transformando o comércio do Paraguai em um formigueiro humano, onde inúmeras pessoas buscavam a sobrevivência e formas de superar a recessão e a fiscalização.
De maneira concreta, as práticas de trabalho dos primeiros sacoleiros lentamente começaram a se modificar. Até aquele momento os trabalhadores atuavam sozinhos dentro de duas possibilidades, sendo a primeira comum entre os moradores de outras regiões do país e a segunda entre a população do próprio município de Foz do Iguaçu. No primeiro caso, os trabalhadores saíam de suas cidades de origem utilizando carros próprios ou ônibus de linha, faziam as compras encomendadas e levavam as mercadorias para os clientes. No segundo, moradores de Foz do Iguaçu adquiriam e estocavam determinadas mercadorias, transportavam e as distribuíam em diferentes localidades. Neste último caso, existem duas especificações ou possibilidades. Não era raro o sacoleiro de Foz do Iguaçu possuir um local para o armazenamento dos “volumes” no município onde ele pretendia distribuí-los.
Neste sentido, durante o desenvolvimento do estudo e mais especificamente das relações cotidianas com os trabalhadores, conheceu-se um sacoleiro que durante a década de 1980
trabalhava com a revenda de armações de óculos na cidade de São Paulo. Ele realizava compras semanais em Ciudad del Este e estocava-as em um pequeno apartamento no centro da capital paulista para posteriormente visitar os clientes e repassar os produtos. Contudo, durante a década de 1990, o mercado em que atuava começou a ser dominando pela comunidade coreana, forçando-o a abandonar a “vida de muambeiro”. Assim, pegou o dinheiro que tinha conseguido guardar durante os anos que trabalhou no incipiente circuito e abriu uma ótica em Foz do Iguaçu, a primeira de um conjunto de cinco lojas que abriria nos últimos quinze anos, construindo uma grande rede especializada em lentes e armações.
A segunda especificação diz respeito à forma como os sacoleiros oriundos de Foz do Iguaçu faziam a distribuição das mercadorias. Diferentemente dos sacoleiros de fora, que faziam compras encomendadas, o trabalhador iguaçuense que se aventurava no ramo precisava conquistar seus clientes, passando de porta em porta, apresentando e oferecendo seus produtos. Outra história escutada durante a pesquisa diz respeito à forma de atuação dos trabalhadores especializados em bebidas importadas. Entre estes eram comuns visitas às principais casas noturnas dos grandes centros do país para oferecer os produtos que negociavam. Estas situações configuravam-se como momentos marcados por trocas de “gentilezas” e fidelização do futuro cliente. Embora as práticas relatadas façam referência a situações ocorridas em décadas passadas, as constantes notícias de apreensão de bebidas pela Receita Federal fazem crer que elas ainda ocorram.
O aumento significativo no número de trabalhadores na busca pela sobrevivência no mercado de Ciudad del Este e os esforços para ampliar os rendimentos obtidos fortaleceu a concorrência entre eles e fomentou as primeiras organizações dentro do circuito. Longe das complexas redes de relações existentes na atualidade, mas apresentando os primeiros esboços daquilo que se tornaria a sua hierarquia interna, no final da década de 1980 e começo de 1990, a utilização de trabalhadores no auxílio do transporte de mercadorias pela Ponte da Amizade foi rapidamente disseminada. Dentro de um esquema mais simples do que o atual, os sacoleiros, visando transportar uma quantidade maior de volumes, começaram a cooptar e a contratar informalmente jovens que realizavam pequenos serviços nas proximidades da fronteira para ajudá-los no carregamento das compras e, em troca, os sacoleiros ofereciam pequenas comissões pelos serviços prestados.