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4. SONUÇ

6.6. Sosyal Medya Siyasal İletişi Birlikteliğinin Önemi

6.6.5. Milliyetçi Harelet Partisi’nin Referandum Sürecindeki Sosyal Medya

No capítulo anterior, observamos que a classe trabalhadora enfrentou arrocho salarial nos anos 1980 e 1990, significando perdas sucessivas do poder de compra. Em se tratando do salário-mínimo, a depreciação remonta ao início do golpe civil-militar de 1964 (CACCIAMALI et al, 1994 e VELLOSO, 1990).

De acordo com a nossa avaliação, as medidas econômicas favoráveis ao desequilíbrio da balança comercial, desfavoráveis ao reajuste do salário-mínimo e à geração de empregos, adotada nos anos 1990, postergaram para a década seguinte à expansão da chamada “Faixa C”.

Cabe salientar que “é preciso considerar o longo período de estagnação dos anos 1980 e 1990, que levou à manutenção de elevados níveis de miséria e pobreza e ao atrofiamento da classe média” (QUADROS, 2013, p. 33).

Ainda de acordo com o autor,

Este quadro sombrio, de alto desemprego e queda sistemática dos rendimentos, foi profundamente modificado com o crescimento econômico mais elevado, ainda que taxas inferiores às históricas (1930-80) e às dos países emergentes e da América Latina nos anos 2000 (QUADROS, 2013, p. 33).

Entretanto, é falsa a percepção de que os anos 1990 consistiram em década perdida, pois o princípio da reordenação fiscal emerge como a prioridade para o Governo Cardoso nesse período.

A reordenação fiscal tem características e resultados ambíguos, pois não foi um fator limitador para a escalada dos gastos sociais e nem eliminou o déficit público, ao contrário, pois a dívida interna pública líquida mais do que dobrou no Governo FHC. Por outro lado, dispositivos causadores de desordem fiscal foram desligados, não apenas atingindo o Governo Federal mas também entes subnacionais.

Por exemplo, é desse período a proibição de operações de Antecipação de Receita Orçamentária, largamente utilizado até então pelos entes subnacionais.

103 Após o Plano Real, é bom destacar, os governos não puderam mais contar com o chamado Efeito Tanzi (popularmente conhecido à época como imposto inflacionário). Era bastante comum que liquidações de despesas públicas fossem postergadas para que a inflação elevada representasse em aumento de arrecadação.

Essa realidade econômica brasileira, com reordenamento fiscal e medidas prejudiciais à recomposição salarial e geração de emprego na primeira década do Plano Real, é carregada de contradições internas. Obviamente, as restrições da política econômica postergaram o crescimento da Faixa C, a classe trabalhadora consumidora, mas carregaram dentro de si elementos capazes de subsidiar o que aconteceu a partir de 2004, a segunda década de vigência do Real.

O incrementalismo dos anos 1990 e 2000 resultou no aumento do financiamento de políticas favoráveis à classe trabalhadora consumidora. Trabalhamos com o argumento segundo o qual, nos anos 1990 e 2000, ocorre um incrementalismo social como manifestação da maior responsividade do Estado, gerando uma ascensão horizontal e uma inclusão dependente.

Como havíamos explicitado alhures, Pzreworski (1996) considera como governos responsivos aqueles que promovem os interesses da população, escolhendo políticas “que uma assembleia de cidadãos, tão informados quanto o Estado, escolheria por votação majoritária, sob os mesmos constrangimentos institucionais”.

Tal responsividade não pode ser desconectada do aprimoramento institucional e burocrático que lhe dê sustentação.

Um dos autores que dá visibilidade e tematiza o aprimoramento institucional e burocrático é Edson Nunes (2003). Ao analisar o que denominou como “gramática política brasileira”, concebeu o conceito de “universalismo de procedimentos” em que se pode discutir essa maior responsividade estatal na sociedade brasileira, como parte integrante de um conjunto complexo de transformações na relação entre o Estado e a sociedade.

De acordo com o autor, são quatro as gramáticas políticas brasileiras: o clientelismo, o corporativismo, o insulamento burocrático e o universalismo de

104 procedimentos. As três últimas gramáticas emergem no cenário brasileiro no primeiro Governo Vargas (1930-1945), dialogando permanentemente com a primeira (o clientelismo).

Segundo Bresser-Pereira,

o clientelismo e o corporativismo são instrumentos de legitimidade política; o insulamento burocrático, a forma através da qual as elites modernizantes e tecnoburocráticas e empresariais promovem o desenvolvimento; o universalismo de procedimentos, a afirmação lenta e de um regime racional-legal e eventualmente democrático (NUNES, 2003, p. 11-12).

Para Nunes, “o universalismo de procedimentos e o insulamento burocrático são muitas vezes percebidos como formas apropriadas de contrabalançar o clientelismo” (p. 33).

Nesse sentido,

O universalismo de procedimentos, baseado nas normas de impersonalismo, direitos iguais perante a lei, e checks and balances, poderia refrear e desafiar os favores pessoais. De outro lado, o insulamento burocrático é percebido como uma estratégia para contornar o clientelismo através da criação de ilhas de racionalidade e de especialização técnica.

Cabe destacar que, na concepção de Nunes, as gramáticas refletem a interação entre governo e sociedade, transformando-se mutuamente.

O processo de abertura democrática, nos anos 1980, pode ser compreendido como um universalismo de procedimentos, no sentido de se reconhecer direitos sociais anteriormente privativos aos trabalhadores formais e que beneficiavam as massas urbanas.

Destacamos que ocorreu, nos anos 1990, dois processos incrementais que se completam: o fiscal e o social. Refletem uma responsividade com setores empresariais e com o mundo do trabalho.

Um histórico sobre o incrementalismo fiscal pode ser encontrado em trabalhos de pesquisadores como Varsano (2000), remontando ao Governo Sarney (encerramento da Conta Movimento no Banco do Brasil) e incluindo as

105 modificações fiscais subsequentes, já no Governo FHC, como as Leis Camatas I e II e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Institucionalmente, o ordenamento fiscal é caracterizado pela lei complementar nº 18-A, de 199923, transformada na Lei de Responsabilidade

Fiscal, a lei complementar 101/2000. No artigo VI da referida lei, encontramos que a administração pública deve se pautar pela “transparência na elaboração e divulgação dos documentas orçamentários e contábeis, enunciados em linguagem simples e objetiva” (art VI, XI) e “o amplo acesso da sociedade às informações sobre as contas públicas e procedimentos de aplicação dos recursos públicos” (art VI, XII), favorecendo o controle social e prevendo “a adoção de medidas corretivas e punitivas de eventuais desvios” (art VI, XIII).

Objetivava-se, além do mais, “a adoção de política tributária previsível e estável” (art VI, V), “a limitação de gastos continuados a nível prudente” (art VI, VI), como forma de se promover “a prevenção de déficits imoderados e reiterados, de modo a assegurar a compatibilidade entre as aspirações da sociedade quanto às ações estatais e a receita própria efetiva” (art VI, I).

Há, nesse marco legal, um ganho no accountability. De acordo com Loureiro (2001, p. 76), “em países democráticos, a conduta fiscal dos governos é sempre sensível às reações do eleitorado e às demandas dos grupos de pressão”. Nesse caso, há que se levar em conta a relação entre o governo em exercício, o controle institucional e a sociedade civil.

Nesse sentido, “alguns [governos] são mais efetivos e ágeis do que outros em corrigir o déficit orçamentário ou controlar o endividamento” (idem).

Em uma primeira geração da literatura pertinente, segundo Loureiro (2001, p.76), “a orientação ideológica do partido no poder” operou como um marcador importante para compreender tais distinções, pois governos de direita tendiam à estabilização monetária e os de esquerda à expansão do gasto público.

Entretanto, após os anos 1970, “com a recessão e a crise fiscal que atingiram as economias capitalistas, surgiram novos modelos explicativos”,

106 enfatizando os períodos eleitorais como força contrária às políticas restritivas e mais favoráveis ao aumento de gastos públicos.

Atualmente,

com a internacionalização dos mercados e a desregulamentação dos fluxos de capitais, começa-se a observar uma tendência à homogeneização da política macroeconômica entre governos com diferentes orientações ideológicas, realçando-se, como fatores fundamentais das políticas monetárias e fiscais, a mobilidade internacional dos capitais e o regime cambial [...]até os anos 70, as variações das políticas macroeconômicas nestes países estavam relacionadas com a coloração partidária do governo e o grau de institucionalização de suas estruturas corporativas. Mas, a rápida convergência dessas políticas, nos anos 80, tem a ver com a internacionalização da economia (LOUREIRO, 2001, p. 76-77)

Do ponto de vista institucionalista, demonstra Loureiro (2001, p. 77), são importantes

as características do sistema de governo, da estrutura partidária e das regras eleitorais, que geram governos majoritários ou de coalizão mais ou menos estáveis e, portanto, mais ou menos capazes de impor as metas fiscais propostas (Roubini e Sachs, 1989; Schick,1993; Steinmo, 1989).

Vale dizer que, historicamente, muitos autores consideraram existir um “déficit de accountability” na América Latina (MORENO, CRISP, SHUGART, 2003).

Para Moreno et al, a solução para tal déficit não seria a proliferação de Agências Reguladoras (no original: “is not the rapid proliferation of new non-

elected agencies of superintendence”), como inclusive aconteceu nas

sociedades latino-americanas nos anos 1990, mas a promoção de um controle social envolvendo a sociedade civil, o que engloba promover a inserção social de milhões de cidadãos.

Os autores supracitados alegam que o accountability é relacional, englobando o desenho institucional, a performance das instituições e a participação plural da sociedade.

107 A partir do exame da literatura, é interessante notar que o aperfeiçoamento do controle e da responsabilização de governantes e burocratas está ligado à ruptura com antigas estruturas de dominação calcadas na pauperização de parcela da população.

Dizendo de forma ainda mais explícita, a deflagração de um processo capaz de reduzir desigualdades e ampliar a renda pode vir a fortalecer a demanda por maiores avanços sociais, mas também fazer aflorar relações conflituosas anteriormente silenciadas, a partir de então visível pela disputa pelo controle político, seja da agenda, ou de um governo. Essa é uma hipótese de trabalho importante, mas não é testada em nossa tese.

Ainda assim e, nesse sentido, a estruturação de políticas sociais seria um empreendimento positivo para o aperfeiçoamento do funcionamento das instituições latino-americanas.

Em relação ao incrementalismo social, identificamos alguns indícios importantes em sua existência, que serão apresentados no presente capítulo.

Loureiro e Abrucio (2002) definem o incrementalismo como uma “contraposição analítica e normativa em relação à visão totalizadora de mudança, fundada numa concepção tecnocrática e insulada”, ocasionada pela inclusão de um maior número de atores sociais na definição de agenda e no processo decisório.

Essa inclusão leva aos formuladores de Políticas Públicas a optarem por mudanças progressivas e sucessivas em pequena e média escala, com determinado grau de dependência entre elas, formando o que se denomina como

path dependence.

Para Levi (apud CAMARASA, 1997), Path dependence “significa que um país, ao iniciar uma trilha, tem os custos aumentados para revertê-la”, graças à complexidade da relação interinstitucional e entre atores políticos distintos, “como prática decorrente de um processo amplamente negociado entre diversos atores políticos” (ABRUCIO e LOUREIRO, 2002).

Nosso argumento se baseia em 1) reconhecimento de direitos nos anos 1980, no contexto do que Nunes (2003) denomina de “universalismo de procedimentos”; 2) reordenamento fiscal, o que inclui na cultura administrativa a

108 noção de responsabilidade fiscal, remontando à estabilização econômica dos anos 1990; e 3) a recomposição salarial com ampliação do crédito dos anos 2000, combinada à queda de preços relativos dos bens de consumo duráveis.

Portanto, não significa dizer que ocorreu a substituição de um momento pelo outro, considerando que estão ligados de maneira intrínseca, havendo sucessivas mudanças pontuais e sem reformas estruturantes.

É importante rememorar que, para Loureiro e Abrucio, o incrementalismo poderia ser entendido como “o modo mais compatível com modelos democráticos de tipo consensual que, na clássica acepção de Arendt Lijphart, são de qualidade claramente superior às democracias de tipo majoritário” (LOUREIRO e ABRUCIO, 2002).

O caso brasileiro “estaria dentro do modelo consensual, na medida em que as reformas das políticas públicas devem passam por ampla negociação entre partidos, líderes subnacionais, grupos sociais e até mesmo o Judiciário”, gerando “políticas que (...) podem ser mais coerentes e efetivas, não sujeitas a mudanças abruptas ou movimentos erráticos” (idem).

A eleição presidencial de 2002, na avaliação de Singer (2012), representa um ponto de inflexão na atuação política do Partido dos Trabalhadores, vencedor com uma plataforma de mudança com preservação das consideradas conquistas da estabilização do Real. Ao adotar o princípio da recomposição, o governo do PT iniciou uma segunda fase do Plano Real, marcado pelo crescimento da Faixa C e redução da pobreza e desigualdade.

A vitória do PT na eleição geral de 2002 e depois, em 2006, 2010 e 2014, foram guiadas pela composição com grupos empresariais, adoção de padrões de governança, compromisso com o superávit primário, dentre outros elementos que não representam ruptura com o momento anterior.

Pode-se dizer que a composição política com setores diversos da sociedade atende à necessidade de se reconhecer a realidade pluralista do Estado brasileiro.

Outros autores também associaram o incrementalismo às concepções pluralistas de Políticas Públicas.

109 De acordo com Dahl e Lindblon (apud CAMARASA, 1971),

El incrementalismo es um método de acción social que toma la realidade existente como uma alternativa y compara las probables ganancias y perdidas de alternativas estrechamente vinculadas, haciendo ajustes relativamente pequenos en la realidade existente [...] El incrementalismo permite tanto la supervivência como la alteracion continua de la organizacion operante.

Para Dahl (1971), as políticas públicas incrementais podem ser explicadas pelo que nesse texto chamamos de jogo de coordenação, no qual grupos de interesses estão em interação com as instituições governamentais.

Grandes decisões demandam satisfazer ou negar as demandas de parcela da sociedade, de modo que adotar perspectivas inteiramente novas geram um custo, algumas vezes considerados impertinentes pelo gestor.

Em poliarquias, os grupos sociais poderiam participar de alguns processos decisórios governamentais, mas sobretudo exercem vigilância sobre os governos e lideranças políticas, em maior ou em menor grau. Em períodos eleitorais, os grupos poderiam ou não optar por reconduzir esses líderes políticos.

No livro Poliarquia e oposição (200524), Dahl se diz inclinado a utilizar o

“termo "democracia" [apenas] para um sistema político que tenha, como uma de suas características, a qualidade de ser inteiramente, ou quase inteiramente, responsivo a todos os seus cidadãos”, enquanto o termo poliarquia é utilizado para democracias liberais em que esta característica não está plenamente atendida.

Entre outras razões, destaca-se a questão da igualdade política, pois, “para um governo continuar sendo responsivo durante certo tempo, às preferências de seus cidadãos, considerados politicamente iguais, todos os cidadãos plenos devem ter oportunidades plenas” (idem).

As oportunidades seriam:

110 1. De formular suas preferências. 2. De expressar suas preferências a seus concidadãos e ao governo através da ação individual e da coletiva. 3. De ter suas preferências igualmente consideradas na conduta do governo, ou seja, consideradas sem discriminação decorrente do conteúdo ou da fonte da preferência. Adaptando para o contexto dos países em desenvolvimento, como o Brasil, podemos compreender que a ausência de reconhecimento de parcela da população atua em prejuízo às instituições democráticas.

Guilhermo O’Donnel (1998) chama a atenção para o fato de que haveria uma ligação estreita entre democracia e certos aspectos da igualdade entre indivíduos que são postulados não apenas como indivíduos, mas como pessoas legais, e conseqüentemente como cidadãos — isto é, como portadores de direitos e obrigações que derivam de seu pertencimento a uma comunidade política e de lhes ser atribuído certo grau de autonomia pessoal e, conseqüentemente, de responsabilidade por suas ações

Nesse sentido, é interessante notar que o incrementalismo social decorreria dos direitos reconhecidos na Constituição Federal de 1988 vis-à-vis um imbricado sistema de reconhecimento e não-reconhecimento, à medida em que a universalização de determinados serviços públicos ocorre em normalidade institucional e sem explícita demanda dos vulneráveis.

Mesmo considerando o terreno das grandes decisões políticas, precisamos registrar o fato de que o ajuste fiscal promovido nos anos 1990 não impactou negativamente nos indicadores sociais, a elaboração de novas políticas e a ampliação dos gastos públicos. É dos anos 1990, por exemplo, a universalização da educação fundamental e a criação do Fundo Nacional para o Desenvolvimento do Ensino Fundamental (FUNDEF).

Alegamos que o incrementalismo social brasileiro, em que se observam avanços sociais apesar do ajuste fiscal dos anos 1990, deixa menos escasso o serviço público essencial.

Essas dimensões ampliaram o acesso aos bens de cidadania, termo aqui cunhado para designar serviços e formação de habitus no sentido de se promover a inserção social.

111 De acordo com Bourdieu, o “habitus é um operador, uma matriz de percepção e não uma identidade ou uma subjetividade fixa” (Bourdieu, 2002, p. 8325), sendo um sistema de disposições aberto, permanentemente afrontado a

experiências novas e permanentemente afetado por elas”. Salienta que “é durável, mas não imutável” (Bourdieu, 2002, p. 83).

Observa-se que o acesso aos bens de cidadania, ou cívicos, é aqui compreendido como uma parte integrante da economia dos bens simbólicos, incluindo o reconhecimento dos indivíduos como cidadãos e a habilitação intelectual e emocional para a participação social.

Jessé Souza (200326) analisa determinado tipo de habitus, denominado

como precário, refletindo um “tipo de personalidade e de disposições de comportamento que não atendem as demandas objetivas para que, seja um indivíduo, seja um grupo social, possa ser considerado produtivo e útil em uma sociedade do tipo moderna e competitiva” (2003, p. 63), em que o grupo ou o indivíduo poderiam “gozar de reconhecimento social com todas as suas dramáticas consequências existenciais e políticas”.

O habitus precário seria resultante de uma falta de pré-condições, na transmissão moral e nas condições objetivas de vida, de se formar um habitus primário, que por sua vez

implica um conjunto de predisposições psicossociais refletindo, na esfera da personalidade, a presença da economia emocional e das pré-condições cognitivas para um desempenho adequado ao atendimento das demandas (variáveis no tempo e no espaço) do papel do produtor, com reflexos diretos no papel do cidadão, sob condições capitalistas modernas (p. 66)

Quais as dimensões em que opera tanto a construção do habitus primário quanto o precário? São, para Souza, as condições objetivas de vida, a transmissão familiar e intergeracional de valores e um complexo sistema opaco e intransparente de reconhecimento social, sobre o qual recai o conceito de justiça e a sua aplicação.

25 BOURDIEU, Pierre. Entrevistado por Maria Andréa de Loyola. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2002. 26 SOUZA, Jessé. (Não) Reconhecimento e subcidadania, ou o que é “ser gente”? Lua Nova nº 59, 2003.

112 À medida em que o habitus seria “a incorporação nos sujeitos de esquemas avaliativos e disposições de comportamentos a partir de uma situação socioeconômica estrutural” (SOUZA, 2003, p. 62), existe uma correlação entre a oferta e a regulação da escassez dos bens de cidadania, de modo que os problemas de acesso desses bens cívicos ultrapassam a mera oferta de serviços públicos, mas também inclui o tempo livre, o consumo e a forma como as trocas simbólicas se dão no contexto social.

Obviamente, o Estado possui papel central na oferta de alguns bens cívicos, como a saúde, a educação e a segurança pública; também o desenvolvimento do transporte, incentivos públicos à sua utilização, além da comunicação e desenvolvimento do mercado.

A noção de inserção social é, assim, vinculada à construção de um habitus primário que incorpore as noções de cidadania e justiça, regulando as relações entre mercado, Estado e sociedade.

Consideramos como inserção dependente o processo marcado pela presença do Estado na oferta sucessiva de serviços públicos sem que tenha se resolvido a dimensão da transmissão familiar e geracional de um habitus primário.

O Estado responsivo nesse contexto de inserção dependente reflete um conjunto coordenado mais complexo de reconhecimento de direitos, pois a sua atuação é decisiva para o contínuo aprofundamento da inserção social, oferta de serviços e políticas públicas que mantenham os trabalhadores inclusos no mercado consumidor de massa.

Conforme expusemos anteriormente, a nossa metodologia incide sobre variáveis captadas por indicadores, considerando a dimensão cultural e a transmissão familiar de valores sociais invariantes.

Fixamos a nossa análise nos dados capturados nas variáveis, cabendo futuramente a continuidade das reflexões acerca dos bens cívicos e a inserção social dependente.

Entretanto, não é estranho ao institucionalismo abordar questões relativas às transformações culturais e às relações de poder entre grupos sociais. Em

113 outras palavras, o aperfeiçoamento do accountability se dá à medida em que os indivíduos se veem empoderados.

Nas novas poliarquias latino-americanas, conforme destacou O’Donnel (1998), há ligação direta entre a autonomia dos indivíduos e o funcionamento das instituições.

Consideramos essa autonomia como fruto de transmissões intergeracionais de dispositivos morais, no sentido atribuído a Souza (2003) e há pouco explanado.

As mudanças demográficas consistiram, no período analisado, como veremos, no aumento relativo dos indivíduos economicamente ativos, possibilitando uma oportunidade para a ampliação da renda per capita no futuro. Nesse caso, é importante assegurar a expansão dos empregos e a melhoria da