No rol dos escritores do chamado Romance de 30 do Nordeste, Rachel de Queiroz merece destaque com seu livro de estreia O Quinze, que problematiza até mesmo o papel da mulher nas letras brasileiras para aquele período histórico e literário. Basta rememorarmos a crítica incisiva de Graciliano Ramos:
O Quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos
maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. [...] Deve ser pseudônimo de sujeito barbado [...] (RAMOS, 1979, p.137).
Pelo excerto podemos observar o fato gritante de Graciliano Ramos ter considerado o aspecto “ser mulher nova” um critério digno de nota. Rachel de Queiroz aparece como “a primeira voz feminina a marcar presença no processo do romance moderno” (ALVES, 1978, p.33), o que ocasionou grande impacto, afinal “[...] espantava à crítica da época o fato de uma voz feminina retratar a seca e o cangaço, usando uma terminologia árida e agreste num magro romance, valendo-se de uma técnica onde já demonstrava alta capacidade de observação” (ALVES, 1978, p.33). Assim, essa voz gerou muita curiosidade e expectativas ao redor do livro, tornando a história instigante tanto para o leitor comum quanto para o leitor especializado.
A respeito da repercussão da obra de Rachel de Queiroz, Bueno (2006) reforça que “o livro simplesmente estourou no ambiente literário brasileiro, chamando a atenção
35 de escritores de primeiro plano e ganhando uma segunda edição logo no ano seguinte ao seu lançamento” (BUENO, 2006, p.124). Três dos principais críticos contemporâneos do romance inaugural da escritora, como Augusto Frederico Schmidt, Agripino Grieco e Gastão Cruls demonstraram grande entusiasmo pela obra, inclusive, devido à sua aproximação com o romance naturalista da seca, sendo, entretanto, um avanço com relação a essa perspectiva porque mostra o antes, o durante e o depois da tragédia e seus reflexos sobre o comportamento e o destino dos personagens.
Para Agripino Grieco, Rachel de Queiroz “realizou algo de mais humano, que o Brasil todo pode ler e entender. [...] Numa adolescência graciosa de tom, a narradora surpreende-nos, não pela novidade que inventa, mas pela novidade que tira da velharia [...]” (GRIECO apud BUENO, 2006, p.125). Mesmo falando do problema climático, a narrativa coloca no cerne da discussão a relação entre tradição e modernidade, entre o homem e a terra, mas para conseguir êxito nesta novidade, a escritora utilizou-se da história paralela de famílias diferentes economicamente: a família de Conceição e Mãe Nácia e a de Vicente versus a do retirante Chico Bento e Cordulina.
O enredo destaca como primeiro plano narrativo a história de Conceição e sua avó Mãe Nácia, que anseiam por chuva no sertão de Quixadá. A jovem professora diverge da avó, até mesmo nas tradições patriarcais, afinal a moça ainda estava solteira e não pensava em se casar. Conceição nutre uma paixão platônica pelo primo e vaqueiro Vicente. Contudo, analisa a impossibilidade desta relação se concretizar com êxito, devido à diferença cultural capaz de separá-los.
No segundo plano narrativo localizamos a história do vaqueiro Chico Bento e de sua família, composta pela mulher Cordulina, a cunhada Mocinha e cinco crianças, cujos nomes conhecemos apenas três: Josias, Pedro e Duquinha. Esta família é nitidamente oposta à de Conceição e Mãe Nácia, pois Chico Bento não apresenta subsídios necessários para suprir as necessidades materiais da família e precisam fugir da seca em direção a Fortaleza. A maior parte do romance narra o drama vivido pela família até chegar ao destino de viagem, e, durante o trajeto, observamos como se constroem o percurso e as dificuldades que precisarão ser superadas.
O Quinze “[...] pôde tocar no drama da seca, na condição feminina e no processo de urbanização que começava a se generalizar no país, a partir de uma história extremamente simples que pareceu a muitos críticos até simples demais” (BUENO, 2006, p.132). Entre inúmeras ocorrências, esta “história simples” ainda surpreende
36 porque traz à tona a vida de uma família migrante, que necessita se retirar de sua terra natal, a fim de sobreviver, apesar da limitação de suas potencialidades humanas.
Em nossa pesquisa bibliográfica, pudemos notar que grande parte da crítica foi favorável ao romance de estreia daquela jovem escritora, suscitando muita atenção à dinamicidade da narrativa.
Todavia, se quisermos conhecer as particularidades de O Quinze, Ivan Bichara diz que: “É preciso conhecer o Quixadá para entender Rachel, o mundo da infância em que abriu os olhos para a vida, reinventado por ela nos romances, nas crônicas, nos contos, no teatro, nos inúmeros artigos para jornais e revistas” (BICHARA, 1992, p.xxiii). A seu ver, a escritora revela-nos um sertão sofrido pela seca e pela fome. A história de Chico Bento e de suas crianças se converte na história de todos, por isso, no ano em que veio a público, a obra levou ao país não só os problemas da seca como fenômeno climático, mas sobretudo as angústias e anseios de uma família, que representada pelo vaqueiro, sua mulher e filhos, passa por essa experiência. No estudo já citado, Bueno (2006) mostra as duas estratégias narrativas do romance, evidenciando os obstáculos sociais e climáticos que se manifestam no enredo.
O Quinze movimenta-se em duas narrativas que dialogam entre si, mas ao mesmo tempo indicam diferenças ideológicas e políticas na cosmovisão da autora. Desta maneira, a infância e a família, sob a ótica de Rachel de Queiroz, ganharam uma dimensão crítica e dramática ao mesmo tempo. A vida exala do tecido literário, em virtude disso, o perfil das personagens está dotado de uma verossimilhança estrutural que reforça o caráter político da arte.
Em virtude da retirada dos personagens, a força dos eventos narrados vai revelando a infância dos meninos, relacionada com as atitudes do pai e da mãe. Diante disso, Bueno pontua levemente a relevância da presença das crianças na obra para qualificar a narrativa da seca:
[...] Chico Bento tem diante de si o caminho inóspito pelo sertão que o levará de Quixadá a Fortaleza. Ao trilhar esse caminho, deixa para trás a cunhada, que acaba aceitando trabalhar para uma doceira de estação de trem em troca de casa e comida, um filho fugido com os ciganos e um outro morto por ter comido mandioca brava crua. A morte do menino Josias é bem exemplo da novidade tirada da velharia a que se referiu Agripino Grieco (BUENO, 2006, p.130).
Ao mostrar os eventos que determinam a morte de uma das crianças, a narrativa acaba sensibilizando, muito mais o leitor, para o drama vivido por Chico Bento e sua
37 prole. Assim, ao destacar a imensa fome do garoto, o que o leva a comer uma raiz nociva, a escritora faz o leitor se conscientizar do desespero em que se encontrava aquela criança, os outros meninos e toda a família. Os temas da infância e da família, devido à dramaticidade do evento, dão margem a uma reconfiguração da “Literatura das secas”, de teor naturalista.
Assim como em A Bagaceira, a crítica deste romance concedeu maior ênfase às questões sociológicas e históricas. Supomos que isso tenha ocorrido em virtude da dificuldade em conceber outras abordagens de estudos para as obras de arte surgidas ao longo daquele momento histórico. Além disso, sabemos que as crianças são personagens secundárias, o que dificultaria um debate mais acirrado sobre seu papel na narrativa.