6. Alanya Maarif Oteli
1.6. Millet Mektepleri
A definição de desastre é um conceito em disputa. Não existe ainda, na literatura internacional e nacional, um consenso sobre a definição do que seria um desastre. Entretanto, isso não significa que essa não seja uma questão relevante e a falta de consenso não levou a estagnação da discussão. Desastres são fenômenos multidimensionais, pois são eventos totalizantes. Desastres englobam uma coletividade de processos e eventos interseccionais - sociais, ambientais, culturais, políticos, econômicos, físicos, tecnológicos - que acontecem através de variados períodos de tempo (OLIVER-SMITH, 1998, p. 178). Oliver-Smith aponta que há algumas áreas de preocupação em comum entre os autores desse debate. Há certo consenso de que definições que focam no agente natural ou tecnológico do desastre divergem a atenção da natureza fundamentalmente social do mesmo. O desastre é definido por suas dimensões e expressões socioculturais, tanto o fenômeno como suas causas. Ou seja, o desastre é uma construção social.
No âmbito da Sociologia, há um profícuo debate em curso sobre os fenômenos denominados desastres. Uma gama de interpretações vem se desenvolvendo, sem que houvesse, até o momento, um consenso estabelecido. O que se pode, contudo, depreender até aqui, como um aspecto comum das discussões, é que os desastres ditos naturais não são, para a ciência supra, objetos cuja investigação repousa centralmente em variáveis independentes relacionadas intrinsecamente com os fenômenos naturais. A compreensão dos desastres para a Sociologia focaliza centralmente a estrutura e dinâmica social que, num âmbito multidimensional e multiescalar, dá ensejo a variadas interpretações acerca das relações sociais territorial, institucional e historicamente produzidas (VALENCIO, 2009b, p. 5).
Há um caráter transescalar no fenômeno do desastre. Primeiramente, podemos pensar no acontecimento físico trágico pontual, não-rotineiro, que provoca uma concentração espaço temporal de danos. A esse acontecimento, dá-se o nome de crise aguda. Mais além, há o desastre como processo histórico social estruturante que vulnerabiliza certas parcelas da população. As relações de poder que perpassam a sociedade realizam a manutenção das injustiças e desigualdades sociais, criando assim os afetados preferenciais e as condições nas quais a situação da crise aguda é produzida. Assim, desastres seriam processos sociais,
endógenos a sociedade, compreendidos como crise social crônica. A crise aguda pontual explicita essa vulnerabilidade existente, apenas tornando visível o desastre já em curso. Por último, há também o desastre em relação ao tempo civilizacional global, que por meio de uma racionalidade vinculada ao modo de produção capitalista, favorecendo os detentores de meios de produção e de capital, criamos um mundo inexoravelmente catastrófico ao sistematicamente marginalizar certos grupos sociais. Ainda segundo Oliver-Smith (1998), essas diferentes definições de desastre são conciliáveis. Todavia, atualmente é a voz dos que tomam conta dos ‗eventos pontuais‘ que tem prevalecido na disputa científica.
Nos estudos conduzidos no contexto brasileiro, o desastre apresenta-se como um processo social, historicamente construído, produto da manifestação de três crises que ocorrem simultaneamente na sociedade. Essas crises se expressam tanto por meio de acontecimentos na esfera pública, quanto no âmbito privado. Dentre essas crises podemos destacar a crise civilizacional, a crise crônica e a crise aguda (VALENCIO, 2012 apud VIANA, 2015, p. 60).
O paradigma defendido por Oliver-Smith (1998), Quarantelli (1998, 2005, 2015), Valencio (2009a, 2009b, 2010, 2011, 2012, 2014), Irvine (2004, 2006, 2007, 2009), Viana (2015) e outros é o paradigma da vulnerabilidade. Acserald (2002) afirma que aqueles que margeiam a sociedade, assim como a atenção governamental, vivenciam um processo de vulnerabilização. Esse paradigma enfatiza a necessidade de olharmos para os desastres além do acontecimento físico, mas considerar os fatores econômicos e sociais que fazem as pessoas e suas condições de vida serem inseguras. Susan L. Cutter (2005) resume bem a questão
quando afirma: ―A questão motivadora para esse novo paradigma não é ‗o que é um desastre‘, mas sim ‗o que faz pessoas e lugares vulneráveis (e resistentes) a ameaças ambientais e
eventos inesperados?‖ 12.
Ao conceberem os desastres enquanto processos sociais, os autores contestam a
denominação de ‗desastres naturais‘, porque resumi-los a condição de ‗naturais‘
deslegitimaria o debate político e social entorno da produção e responsabilização dos atores
frente aos desastres (VALENCIO, 2012). O qualificativo ‗natural‘ desloca responsabilidades,
serve de base para um discurso de fatalidade e de inevitabilidade da tragédia. Segundo essa vertente, a sociedade é catastrófica, e há processos de vulnerabilização e produção de risco que devem ser considerados.
12
Tradução nossa: The motivating question for this new paradigm is not 'what is a disaster', but 'what makes people and places vulnerable (and resilient) to environmental threats and unexpected events?
Um desastre é sempre um acontecimento que corrói a cultura institucional de proteção na medida em que a noção de segurança que a embasa não passa no teste da realidade concreta (DOMBROWSKY, 1995). Se um desastre aconteceu é porque as regras e os procedimentos adotados pelas autoridades competentes, responsáveis por garantir a segurança da sociedade nessas circunstâncias, foram insuficientes ou mesmo equivocados, ocasionando considerável sofrimento social (VALENCIO, 2014). A despeito de que as falhas técnicas se evidenciem por meio da desproteção aos grupos mais fragilizados in loco, oriunda de certas práticas de defesa civil e dos demais órgãos operativos na emergência, há um lastro histórico que favorece a aparição das mesmas. No caso dos animais afetados nos desastres, há insistentes mecanismos sociopolíticos que, em diferentes escalas espaciais e de tempo, os conduzem sistematicamente a um destino coletivo trágico. ―Resumindo, a vulnerabilidade de pessoas e grupos cria consequências desastrosas. O fator de ameaça externo desencadeia um
processo social, cujo resultado varia muito‖ (IRVINE, 2009, p. 4, tradução nossa13
).
Assim, desastres também são constantemente desencadeados pelo próprio sistema humano de relações, resultando em tanto crises agudas como crônicas. Portanto tomamos o conceito de desastre como um fenômeno que entrelaça acontecimento físico e elaboração cultural, como afirma Quarantelli (2005). O mesmo autor aponta que ―o entremear das explicações do desastre como crise aguda e como crise crônica suscita uma possibilidade
analítica que não deve ser desconsiderada‖ 14 :
A interface analítica que propicia compreender os desastres, simultaneamente, como crise aguda e crise crônica na esfera social apresenta vantagens e desvantagens interpretativas. Entre as vantagens, está a de poder fazer convergir aspectos da situação em si com a do processo no
qual esta situação é produzida, ou seja, capturar as particularidades do
momento mais crítico sem desconsiderá-lo como parte de uma tessitura socioespacial dinâmica mais abrangente (VALENCIO, 2012, p. 15).