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Dois autores têm sido considerados os principais defensores da hipótese do pro- tocrioulo afroportuguês: Lenz (1928) e Martinus (1996). A hipótese do protocrioulo afroportuguês baseia-se nas semelhanças estruturais das línguas crioulas, sobretudo no tocante aos marcadores de tempo, modo e aspecto (TMA), e no fato de grande parte das línguas crioulas possuírem vocábulos de origem portuguesa. Para essa teoria, a relexificação — processo de substituição do léxico de uma língua, definido por Lefebvre (1998: 16, tradução nossa) como “[...] um processo mental que cons- trói novas entradas lexicais copiando os vocábulos de um léxico já estabelecido e substituindo suas representações fonológicas por representações derivadas de outra língua”19 — seria a responsável pelas diferenças lexicais existentes entre as línguas

crioulas20.

Rodolfo Lenz é autor de um dos primeiros estudos sistemáticos sobre o papia- mentu, trazendo discussões gerais sobre a língua e dados históricos sobre Curaçao, bem como uma gramática (com afirmações gerais sobre fonética, classes gramati- cais, processos de formação de palavras e sintaxe) e análise etimológica de alguns vocábulos. Em sua obra, Lenz não discute a hipótese do protocrioulo extensiva e sistematicamente, construindo uma argumentação que sustente seu ponto de vista. De fato, sua opinião no tocante à origem do papiamentu encontra-se dispersa no decorrer de sua obra, mesclada com suas discussões. Discordando da crença de que o contato entre o espanhol e as línguas indígenas deu ensejo à formação do papiamentu, Lenz (1928: 210, 325-328) advoga que o papiamentu surgiu a partir de um crioulo português (ele usa o termo “português aprendido imperfeitamente”21 19Citação original: “[...] a mental process that builds new lexical entries by copying the

lexical entries of an already established lexicon and replacing their phonological represen- tations with representations derived from another language.”

20A despeito de a ideia de relexificação ter sido formalizada mais detalhadamente por

Lefebvre em 1998, em seu estudo sobre o crioulo do Haiti, muitos autores, como é o caso de Lenz (1928) e Martinus (1996), já empregavam essa mesma ideia anos antes.

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— tradução nossa) falado pelos escravos africanos. Assim sendo, a base do papia- mentu (sua influência mais antiga) seria portuguesa, não sendo os judeus sefarditas e seus escravos os responsáveis por todos os elementos portugueses encontrados no papiamentu. Quanto à maior proximidade do papiamentu moderno com o espanhol (com uma proliferação de vocábulos provenientes da língua hispânica), Lenz (1928: 80, 144, 326) explica que o vocabulário inicial (quase exclusivamente) derivado do português foi aos poucos sendo assimilado ao espanhol, em virtude da forte presença dessa língua no Caribe22. Em síntese, para Lenz (1928: 194, tradução nossa):

[...] o papiamentu se formou em Curaçao desde 1648, com base na linguagem crioula negro-portuguesa trazida pelos escravos desde os barracões da costa africana. Contribuiu para sua formação, em primeiro lugar, o espanhol falado nas ilhas e na costa da Venezuela; e em segundo lugar, o holandês falado pelos donos políticos da região. O interesse linguístico se concentra naturalmente naqueles vocábulos que criaram formas crioulas especiais, distintas de sua base portuguesa, espanhola ou holandesa. Palavras que guardam sua forma primitiva podem ser formas antigas e populares que, em conformidade com as leis fonológicas, não deveriam mudar, ou são palavras ‘cultas’ modernas23.

Na obra de Martinus (1996) é que a hipótese do protocrioulo será discutida detalhadamente, com argumentos favoráveis à sua adoção para explicar a origem dos crioulos em geral e sobretudo do papiamentu.

Martinus (1996: 12-14) defende que as semelhanças entre os crioulos portugue- ses, encontradas especialmente no nível fonológico, seriam decorrentes das caracte- rísticas do protocrioulo afroportuguês (do qual todos os crioulos atlânticos suposta- mente descenderiam), com as diferenças se devendo às diversas línguas de substrato

22A partir dessa afirmação, supõe-se que o autor possivelmente se referia ao processo de

relexificação, a ser discutido na seção 4.3.2.

23Citação original: “[...] el papiamento se ha formado en Curazao desde 1648, sobre la base

del lenguaje criollo negro-portugués que traían los negros esclavos desde los barracones de la costa africana. Contribuyó a su formación en primer lugar el español hablado en las islas i la costa de Venezuela, i en segundo lugar el holandés hablado por los dueños políticos de la rejión. El interés lingüístico se concentra naturalmente en aquellas voces que han creado formas criollas especiales, distintas de su base portuguesa, española u holandesa. Palabras que guardan su forma primitiva pueden ser antiguas populares que, en conformidad con las leyes fonolójicas, no se debían cambiar, o son palabras «cultas» modernas.”

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e aos vários padrões demográficos determinantes da influência das línguas de subs- trato e de superstrato. No tocante ao aprendizado do protocrioulo, advoga-se que os escravos aprendiam a língua durante o tempo em que ficavam confinados nos depó- sitos de escravos ou nos engenhos de açúcar situados na costa ocidental africana e na região do Congo e Angola (áreas sob o domínio português) antes de partirem para os seus destinos (MARTINUS, 1996: 15; JOUBERT & PERL, 2008: 139). Com relação ao papiamentu, há autores que discordam desse ponto de vista. Rona (1970: 5), por exemplo, afirma que as similaridades entre as línguas crioulas não provam que essas línguas descendem de uma origem comum, um protocrioulo, muito menos que esse protocrioulo seja de base afroportuguesa, tendo se disseminado da costa ocidental africana para diversas partes do mundo. Para o autor, a teoria do pro- tocrioulo se apoia em dois pressupostos: (i) um externo — o comércio de escravos realizado pelos portugueses e a necessidade de se comunicar com os cativos; (ii) um interno — as semelhanças entre as línguas crioulas devido ao elemento português. Rona (1970: 5-6) considera os dois pontos basilares errôneos e apresenta argumen- tos para sustentar seu ponto de vista. Quanto ao pressuposto externo, segundo o autor, além dos portugueses, os espanhóis e holandeses também participaram ati- vamente do tráfico negreiro. Ademais, a comunicação constante entre colonizadores e escravos não seria imprescindível e, mesmo nas situações em que ela existia, não havia regularidade para dar origem à formação de um crioulo. No âmbito interno, o autor aponta que nem todos os traços similares entre as línguas crioulas poderiam ser explicados como sendo portugueses. Além disso, mesmo os traços que admitem uma procedência portuguesa teriam nessa língua uma de suas fontes, mas não a única. A explicação para as semelhanças deveria ser buscada não no português, mas nas línguas africanas faladas na costa da Guiné. Essa argumentação de Rona pode ser desconstruída a partir de registros históricos de que, dentre as diversas nações engajadas no tráfico negreiro pelo menos nos séculos xv e xvi certamente, mas também nos séculos xvii e xviii, os portugueses sempre tiveram supremacia e destaque; assim, nada mais natural do que a língua portuguesa ter sido a escolhida como veículo de comunicação para esse comércio.

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Também rebatendo a teoria do protocrioulo, Lessa (1975: 18-23) anterior- mente questionou a existência de uma língua ou protolíngua de base portuguesa, afirmando que não havia provas conclusivas para considerar que essa seja a expli- cação para a influência do português no papiamentu. Segundo ele, essa influência seria originária da comunidade sefardita (e seus escravos). Para Andersen (1974: 59), por seu turno, os itens lexicais de base portuguesa no papiamentu poderiam ter diferentes procedências: teriam se originado na África ou nas ilhas de Aruba, Bonaire e Curaçao por influência dos judeus falantes de português ou ainda nos dois lugares. Essa procedência múltipla dos elementos portugueses no papiamentu tam- bém é advogada por outros autores. Maurer (1998: 199), por exemplo, menciona, como possíveis fontes dos elementos (afro)portugueses no papiamentu, os escravos, que tinham algum conhecimento de um pidgin ou crioulo de base portuguesa; os holandeses e judeus sefarditas que tinham morado em Recife durante a ocupação holandesa (1630 a 1654); europeus que conhecessem alguma forma de português; a comunidade sefardita, que tinha o português como língua materna. Joubert & Perl (2008: 138), por seu turno, consideram que a influência portuguesa no papiamentu possivelmente emana de três pontos: (i) dos africanos, falantes de uma variedade afroportuguesa; (ii) dos judeus sefarditas; (iii) dos trabalhadores estrangeiros vin- dos da ilha da Madeira, dos Açores e de Portugal. Já Grant (2008a: 52-55) advoga que nem todos os elementos provenientes do português entraram no papiamentu a partir das mesmas fontes, seguindo o mesmo caminho e ao mesmo tempo. Assim, o estrato português seria bastante heterogêneo, com diferentes formas de português podendo ter influenciado o papiamentu, a saber: (i) um pidgin afroportuguês (ou luso-africano); (ii) uma variedade luso-asiática; (iii) o guene, dialeto secreto falado em Curaçao até os anos 180024; (iv) o judeo-português ou o português usado pelos

judeus sefarditas (e seus escravos); (v) alguns elementos de línguas crioulas de base portuguesa faladas na Alta e/ou Baixa Guiné; (vi) os poucos traços portugueses atribuídos ao espanhol falados nas Antilhas; (vii) o dialeto português falado no nor- deste do Brasil, mais especificamente em Recife, Pernambuco. Essa variedade era conhecida não só pelos judeus sefarditas, já que muitos deles tinham vivido no Brasil

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antes de se estabelecer em Curaçao, mas também pelos holandeses, que provavel- mente aprenderam alguma coisa desse dialeto durante os anos em que estiveram no comando da região.

Mesmo defendendo a hipótese do protocrioulo afroportuguês, Martinus (1996: 14, tradução nossa) aponta que a principal lacuna dessa hipótese seria o fato de “[...] seus defensores falharem até agora em elaborar um arcabouço preciso e consistente para ela e em apresentar dados empíricos fortes na combinação de pressupostos e argumentos lógicos a partir dos quais a teoria se constitui.”25. Contudo, para ele, isso

não diminui seu valor, já que muitos autores (como VALKHOFF, 1966; GRANDA, 1970 apud MARTINUS, 1996: 15) têm fornecido evidências de que uma língua franca do tipo desse crioulo afroportuguês de fato existiu no contexto do comércio de escravos26. Assim, em sua obra, Martinus (1996) busca construir sua teoria da

forma mais acurada possível, trazendo dados que sustentem suas assertivas.

Segundo Martinus (1996: 1), em cerca de 1640, se inicia a formação do papi- amentu a partir de vários dialetos afroportugueses provenientes da costa ocidental africana, que se destacava no comércio escravocrata. O português era a língua do- minante nesse comércio não apenas entre os portugueses, mas também entre outros conquistadores, como os holandeses27. O amplo contato desses colonizadores com as

populações locais (sobretudo com as mulheres) permitia a difusão da língua portu- guesa (e também do crioulo afroportuguês) para amplas regiões. De acordo com o autor, havia uma consciência do papel de destaque que o português tinha dentro da

25Citação original: “[...] its supporters failed so far in building a precise and consistent

framework for it and in presenting hard empirical data to fill in the combination of logical assumptions and arguments it consists of.”

26Conforme mencionado na seção 3.4 do capítulo 3, o estudo de Teyssier (1959: 227-250)

evidencia que realmente é possível defender a existência de uma variedade de língua falada pelos escravos e diferente das demais.

27Até mesmo na colônia holandesa da Batávia, na Indonésia, no século xvii, o português

era mais falado que o holandês ainda que não tenha havido uma maciça presença portu- guesa na região, exceto como prisioneiros de guerra e visitantes ocasionais e passageiros (BOXER, 2002: 140). Segundo esse historiador, escravos e criados domésticos vindos da África haviam trazido para a região um crioulo de origem portuguesa, que passou a ser falado por holandeses e mulheres da classe social intermediária, muitas vezes suplantando o uso da língua materna. Mesmo esse costume recebendo muitas críticas, os holandeses não o abandonaram, pois, diferentemente de outros colonizadores (portugueses, ingleses e franceses), viam como uma honra o aprendizado de uma língua estrangeira.

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indústria escravocrata. Falar português ou estar próximo de alguém que o falasse facilitava as transações e, desse modo, todos aqueles que queriam ser bem-sucedidos dentro dessa indústria obrigatoriamente acabavam aprendendo algum tipo de por- tuguês.

Quanto ao período em que se deu a gênese do papiamentu, para Martinus (1996: 2, 29-30), no começo do século xvii, o papiamentu já era falado em Cu- raçao28, o que seria sustentado, por exemplo, pela presença de traços do holandês

dos séculos xv e xvi, como a manutenção de vogais simples em contextos nos quais atualmente aparecem ditongos e a ocorrência em algumas palavras de ft, ao invés de cht, no papiamentu. Segundo o autor, no século xvi e começo do xvii, o processo de ditongação no holandês já estava completo, com o /u/ > /ui/ (havendo o estágio intermediário /y/) e o /i/ > /ei/. Quanto ao encontro ft, ele seria um resquício frísio-holandês de acordo com Van Loey (1954: 96 apud MARTINUS, 1996: 30). Já que o papiamentu possui formas derivadas do holandês em que ocorrem vogais simples (e não ditongos) e ft em lugar de cht, como pakus ‘loja, depósito’ (hol mo- derno pakhuis), kakushi ‘fezes’ (hol moderno kakhuis ‘privada, banheiro’), kinipi ‘beliscar’ (hol moderno knijpen), strika ‘passar a ferro, engomar’ (hol moderno strijken), hèft & hèftu ‘costurar, suturar, coser’ (hol moderno hechten) (exemplos retirados de MARTINUS, 1996: 29-30), isso comprovaria que o papiamentu já es- tava em uso no começo do século xvii e tinha tomado emprestadas as formas do holandês antes que as mudanças mencionadas ocorressem nessa língua.

Em sua discussão da hipótese (ou reformulação, de acordo com as palavras do autor), Martinus (1996: 119-145) relaciona o papiamentu ao kabuverdianu, de- fendendo que a língua crioula surgida nas ilhas de Cabo Verde, a partir da relação entre os colonizadores portugueses e escravos africanos, foi levada anos mais tarde

28Assim, para o autor, a formação do papiamentu teria se iniciado cerca de 50 anos antes

do que é usualmente assumido, ou seja, meados do século xvii (conforme apresentado no capítulo 1). Essa discrepância, aparentemente muito grande, se dilui se considerarmos que Martinus (1996: 2) situa o início do desenvolvimento da língua caribenha por volta de 1640, data não muito distante do meio do século. Ademais, mesmo o papiamentu estando presente na ilha no começo do século xvii, sua cristalização foi sendo consolidada no decorrer do século.

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para Curaçao, dando origem ao papiamentu29 (língua que teria uma base afropor-

tuguesa a partir do kabuverdianu, recebendo, mais tarde, influências sobretudo do holandês e do espanhol). Segundo o autor, para entender profundamente a gênese e a evolução do papiamentu, é necessário que se conheçam com detalhes a colonização e o destino dos diversos povos que ocuparam as ilhas de Cabo Verde (MARTINUS, 1996: 191). Assim sendo, as conexões entre o Caribe e o continente africano sempre ocupam uma posição de destaque em seu pensamento.

Dois outros pontos da análise de Martinus (1996: 125-130) devem ser desta- cados. Primeiramente, ao tratar da difusão do protocrioulo afroportuguês, o autor enfatiza não apenas o papel dos depósitos — onde os escravos permaneciam por tempo indefinido até serem vendidos e aprendiam algum ofício (tornando-se carpin- teiros, artesãos, pedreiros, ferreiros, alfaiates, trabalhadores de engenhos de açúcar, entre outros), a religião e, é claro, o crioulo português —, mas também o das crian- ças. De acordo com alguns dos esparsos registros da época, um número considerável de crianças cabo-verdianas falava o crioulo como primeira língua. Além disso, é possível que houvesse uma preferência por crianças (normalmente entre 4 e 15 anos) no comércio de escravos pelo fato de elas: (i) se adaptarem com mais facilidade a diferentes ambientes; (ii) demandarem menos espaço e alimentação durante o trans- porte; (iii) serem mais fáceis de controlar dentro dos navios; (iv) terem seu valor elevado na medida em que iam ficando mais velhas; (v) poderem se reproduzir em alguns anos, trazendo novos escravos para seus donos (MARTINUS, 1996: 128-130). Junto a esses fatores que certamente traziam mais lucros para o comércio de escra- vos, tal política de preferência por crianças (muitas das quais tinham o crioulo como língua materna) teve um papel fundamental na aquisição do crioulo e sua posterior difusão para diferentes regiões, entre elas a ilha de Curaçao.

Outro aspecto distintivo da análise de Martinus (1996: 2, 119-122, 142-145) diz respeito ao papel dos judeus dentro da indústria escravocrata. Segundo o autor, a atuação dos judeus no comércio de escravos tanto na África quanto no Caribe não tem recebido a devida atenção dos estudiosos das línguas crioulas. Considerar tal

29Essa linha de pensamento também é defendida por Jacobs (2012a), como se verá na seção

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fator poderia trazer uma explicação alternativa para a existência de crioulos portu- gueses somente em locais onde houve uma forte presença judaica. E é exatamente isso que Martinus faz: ele mostra que os judeus, provenientes de Portugal, formavam parte da população branca de Cabo Verde no começo do século xvi (aproximada- mente em 1512-1515, bem antes da chegada dos sefarditas em Curaçao), atuando no comércio e controlando muitas instâncias nas ilhas, como a alfândega. Essa pre- sença marcante dos judeus nunca foi aceita de forma pacífica pelos habitantes do arquipélago, tanto que, em 1515, foi promulgada uma ordem de proibição à en- trada de novos judeus em Cabo Verde, a qual, entretanto, não foi cumprida. Em Curaçao, os judeus sefarditas também constituíam uma importante parcela do te- cido social (como será visto na seção 4.4.3), atuando não apenas como colonos, mas também como comerciantes de escravos (muitas vezes, combinando as duas ativida- des). Martinus (1996: 142) aponta que esse papel dos judeus no tráfico negreiro tem sido negligenciado, bem como sua identidade linguística e proveniência. Para ele, os estudos em geral enfatizam a emigração de judeus do Brasil para o Suriname e as antigas Antilhas Holandesas, deixando de mencionar a entrada nessas regiões de judeus portugueses provenientes da África Ocidental, mais precisamente das ilhas de Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé — exceção feita ao estudo de Henriquez (1988). Martinus (1996: 144-145) tem justamente uma postura diversa — seguida também por Jacobs (2012a: 294-300), conforme seção 4.3 —, apontando ligações entre os judeus portugueses da região da Alta Guiné (como Cacheu), Amsterdã e Curaçao através de alguns nomes que atuaram fortemente nas três regiões.

No plano linguístico, para sustentar a hipótese de que o kabuverdianu e o papiamentu (e ainda o kriyol de Guiné Bissau e Casamança) estão relacionados, Martinus (1996: 146-191) traz comparações nos níveis fonético, morfológico e sintá- tico que demonstram a ocorrência supostamente das mesmas mudanças na entrada de palavras de étimo português nos crioulos, com o papiamentu compartilhando inclusive as alterações secundárias, exclusivas do kabuverdianu das diferentes ilhas, e aproximando-se ora das variedades de Barlavento, ora das de Sotavento. Para o autor, as semelhanças são tão fortes que seria impossível negar uma origem comum para os três crioulos. A passagem de /v/ para /b/ e a metátese, por exemplo, são

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alguns dos traços mais característicos compartilhados pelo papiamentu e pelo kabu- verdianu (o que pode não ser apenas coincidência), conforme, respectivamente: (i) pt ventear > pp bencha / kv bentia ‘abanar, escolher, catar’; (ii) pt dormir > pp drumi / kv (variedade das ilhas de Sotavento) drumi ‘dormir’ (MARTINUS, 1996: 168, 174). No nível sintático, é possível citar o uso do demonstrativo es ‘esse’, que, em papiamentu, deve estar seguido pelos advérbios de lugar aki ‘aqui’, ei ‘lá’, aya ‘lá (mais distante)’, remetendo, respectivamente, a ‘este’, ‘esse’ e ‘aquele’, e também o uso recorrente da voz passiva (MARTINUS, 1996: 183).

Dentre as transformações fonéticas aventadas por Martinus (1996: 146-180), é possível conjecturar que, em alguns casos, a mudança já tenha ocorrido no próprio português, e essa forma já alterada foi a que entrou no papiamentu e nos demais crioulos. É o caso, por exemplo, de:

(6) a. assimilação do /e/ antes de sílaba acentuada: pt medir > pp midi / kv (variedade das ilhas de Sotavento) e kg midí ‘medida’;

b. tratamento do /u/ final: pt pato > pp curaçolenho patu / kv (va- riedade das ilhas de Sotavento) e kg patu / pp arubano pato / kv (variedade das ilhas de Barlavento) pote ‘pato’30;

c. evolução do ditongo /ei/ (/ei/ > /e/ > /i/) (quando seguido por dife- rentes consoantes, sendo a mudança condicionada pelo contexto ou não): pt manteiga > pp manteka / kv manteka ‘manteiga’; pt azeite > pp zeta / kv azete/zete ‘óleo cru, azeite’; pt peixe > pp pishi / kv peshe ‘peixe’.

Essa possibilidade de as mudanças já terem ocorrido no próprio português, contudo, não oferece nenhum descrédito às discussões de Martinus, sendo necessárias pesqui- sas mais aprofundadas para determinar em qual das línguas o processo ocorreu.

Benzer Belgeler