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4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA

4.4. Mikorizal infeksiyon ve spor sayısı

A democracia indireta ou representativa surge diante da impos- sibilidade do exercício de democracia direta nas sociedades de massas, gerando uma atuação limitada dos cidadãos nas esferas políticas. Neste contexto relegou-se ao cidadão como principal papel de participação polí- tica a ação de voto. No entanto, sucessivas crises ocorridas nas socieda- des democráticas contemporâneas, tendo por base demandas bastante variadas e complexas, de difícil consecução muitas vezes pelo Estado, são indicativo de insuficiência deste modelo e da necessidade de uma conexão mais sólida e contínua entre políticos e cidadãos54.

Estas crises espelham déficits democráticos que podem e devem ser minimizados através da implementação de processos deliberativos. Neste diapasão, Habermas sustenta que o desabrochar da política delibe- rativa55 não depende de uma cidadania capaz de agir coletivamente e sim, da institucionalização dos correspondentes processos e pressupostos co- municacionais, bem como do jogo entre deliberações institucionalizadas e opiniões públicas que se formam de modo informal56.

Segundo o autor: 54

FARIA, Cristiano Ferri Soares de. O Parlamento aberto na era da internet: pode o povo colaborar com o legislativo na elaboração das leis? Brasília: Câmara, 2012. p. 32-35.

55

Democracia deliberativa aqui entendida através do modelo comunicativo de democra- cia habermasiano com o foco da política baseado no processo argumentativo de for- mação da opinião e da vontade capaz de orientar as decisões políticas.

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(…) this principle itself refers to the discursive redemption of norma- tive validity claims, for it anchors the validity of norms in the possibi- lity of a rationally founded agreement on the part of all those who might be affected, insofar as they take on the role of participants in a rational debate. In this view, then, the settling of political questions, as far as their moral core is concerned, depends on the institution a- lization of practices of rational public debate. (...) This implies the institutionalization of legal procedures that guarantee an approximate fulfillment of the demanding preconditions of communication required for fair negotiations and free debates57.

Portanto, a legitimidade democrática para Habermas está não somente na busca racional-comunicativa de consenso a respeito das nor- mas, mas, na medida em que se dificulta o atingimento deste consenso em sociedades complexas, reside este sim, no consenso a respeito do procedimento que viabilize esta lógica comunicativa58.

Em outras palavras, a vantagem democrática deve residir na implementação de correspondentes processos e pressupostos comunicacio- nais que permitam este jogo de deliberações institucionalizadas e formação

racional de opiniões. “A ênfase não está no resultado do processo demo-

crático, mas na deliberação, na comunicação e nos procedimentos que regulam a participação e que possibilitam que a opinião pública discur- siva alcance as instâncias decisórias”59. Neste viés, observa-se que as contribuições características de uma democracia deliberativa devem so- mar esforços juntamente com a democracia representativa visando a re- dução de déficits democráticos e uma maior legitimidade do sistema.

Jean Cohen define o conceito de democracia deliberativa da se- guinte forma:

The notion of a deliberative democracy is rooted in the intuitive ideal of a democrative association in which the justification of the terms and

57

HABERMAS, Jürgen. Op. cit., 2003. v. II, p. 20-21. Tradução livre do autor: “Este princípio em si refere-se à redenção discursiva dos anseios por validade normativa, por fundar a validade das normas na possibilidade de se chegar a um consenso raci- onal entre todos os envolvidos, desde que estes se invistam no papel de participantes do debate racional. Nesse sentido, a resolução de controvérsias políticas, no que diz respeito ao seu âmago moral, depende da institucionalização de praticas de debate público racional. (...) Isso implica a institucionalização de procedimentos legais que garantem uma satisfação aproximada das desafiadoras precondições de comunicação requeridas para que haja negociações justas e debates livres”.

58

HABERMAS, J. Further Reflections on the Public Sphere. In: CALHOUN, Craig (ed.). Habermas and the Public Sphere. The MIT Press. 1992. p. 447-449.

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conditions of association proceeds through public argument and reasoning among equal citizens. Citizens in such an order share a commitment to the resolution of problems of collective choice through public reasoning, and regard their basic institutions as legitimate inso- far as they establish a framework for free public deliberation60. Complementando as características deste tipo de democracia, é possível afirmar que a democracia deliberativa é construída sobre três princípios: proteção e autonomia privada dos cidadãos; participação livre e democrática de cidadãos na comunidade política; e independência fun- cional de uma esfera pública que opere como um espaço comunicacional intermediário entre o sistema e a sociedade61. A institucionalização da política deliberativa, por sua vez, requer precisamente a ampliação da esfera pública, através da criação de arenas políticas de qualidade capazes de viabilizar as exposições de motivos e permitir o confronto de argu- mentos62.

A institucionalização da dinâmica de formação discursiva da vontade política se dá através de um modelo de circulação de poder. Se- gundo Márcia Nina Bernardes, este modelo pressupõe uma divisão de tarefas entre o sistema político e as esferas públicas, levando em conside- ração a limitação destas tanto para tomada de decisões quanto para a sua implementação.

Abordamos na primeira parte deste capítulo que nos processos de deliberação envolvidos nas esferas públicas é que se articulam e se acordam as opiniões públicas capazes de exercer influência sobre as ins- tâncias decisórias do sistema político63. Aprofundando esta análise a par- tir do modelo de circulação de poder habermasiano, podemos dizer que o poder político circula entre o mundo da vida – domínio privado da vida

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COHEN, J. Deliberation and democratic legitimacy. In: HABERMAS, J. Further Reflections on the Public Sphere. In: CALHOUN, Craig (ed.). Habermas and the Public Sphere. p. 446. Tradução livre do autor: “A noção de democracia deliberativa está enraizada no ideal intuitivo de uma associação democrática na qual a justifica- ção dos seus termos e de suas condições de prossegue por meio de um debate público e de um processo de raciocínio entre cidadãos iguais. Cidadãos de tal ordem compar- tilham entre si um compromisso com vistas à resolução de problemas dependentes de escolhas coletivas, tomadas por meio de um processo de raciocínio público, além de considerarem suas instituições fundamentais como legítimas na medida em que esta- belecem uma moldura para livre deliberação pública”.

61

RASMUSSEN, Terje. Two faces of the public sphere: the significance of internet communication in public deliberation.

62

COSTA, Sergio. Op. cit., 2002. p. 187.

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social – e o sistema político, passando pela esfera pública como zona de intercâmbio de influências. De um lado, a influência gerada na esfera pública é capaz de transformar-se em poder comunicativo por meio dos filtros dos procedimentos democráticos institucionalizados que pode ser convertido em poder administrativo do sistema político através de políti-

cas públicas e programas sociais. Em sentido oposto, “os programas ad-

ministrativos criam as condições necessárias para a existência das orga- nizações da sociedade civil e, portanto, da própria esfera pública”64.

O modelo de circulação do poder habermasiano explica como a esfera pública afeta e é afetada pelo sistema. Para desenhar este modelo

Habermas se vale do “modelo de comportas” de Bernard Peters. De acor-

do com este modelo, segundo Marcia Bernardes:

(...) o poder político circula em um eixo entre o centro (sistema políti- co) e periferia (esfera pública). O centro do sistema político, como uma poliarquia, é composto pelos órgãos da administração, pelo sis- tema judicial e pelas instituições formais de formação da vontade po- lítica, que incluem o parlamento, as eleições políticas e a competição partidária. A capacidade de agir desses diferentes órgãos varia de acordo com a densidade administrativa. O parlamento, por exemplo, é o órgão mais adequado para identificar e tematizar problemas so- ciais, mas não tem a mesma capacidade de atuação dos órgãos da administração. Às margens do centro do sistema político, há uma es- pécie de periferia “interna”, constituída de instituições capazes de autoadministração ou de funções estatais delegadas tais como univer- sidades, sistemas de seguros, fundações, etc. A periferia “exterior”, a seu turno, é a esfera pública, com seus canais de comunicação infor- mais e entrecruzados que permitem que os inputs gerados no mundo da vida possam ser tematizados e enfeixados na forma de opiniões públicas65.

Atentos a processos democráticos como este, os autores delibe- rativos procuram pensar a democracia sob a perspectiva de participação efetiva nos processos de tomada de decisão. Enxergam a política como mais que mero jogo de barganha, não limitando a participação democráti- ca apenas ao voto. Como resultado, buscam incentivar a produção de decisões de interesse público mais legítimas, consensuais, racionais e justas, reduzindo eventuais déficits democráticos, aperfeiçoando a demo- cracia liberal representativa com práticas participativas e deliberativas66. 64 Ibid. 65 Ibid. 66

A participação social não deve ser compreendida como o oposto da representação política, visto que a participação não implica em não representação. Práticas deliberativas reproduzem muitas vezes uma lógica representativa semelhante àquela adotada no poder legislativo, porém seu diferencial consiste na qualidade e legitimidade dos resultados produzi- dos, na especialização dos temas debatidos e na possibilidade de alteração das preferências dos cidadãos ao longo do processo, na medida em que se encontram expostos a informações produzidas por setores da sociedade civil diretamente envolvidos com o tema objeto da prática deliberativa em questão67.

Os possíveis benefícios destas práticas deliberativas se dão em três dimensões: ganho de legitimidade no processo decisório; aproveita- mento da inteligência social na elaboração legislativa e de políticas públi- cas e; aumento da transparência e controle sobre os atos políticos. Neste viés alinhado em grande medida à teoria habermasiana, conta-se com a contribuição dos teóricos participacionistas como Carole Pateman e Ben- jamin Barber que defendem a necessidade de implementação de proces- sos de participação direta da sociedade no Estado, e a corrente deliberati- va representada, além de Habermas, exemplificativamente por James Fishkin e Robert Luskin68.

A corrente deliberativa vai além da participativa, defendendo a necessidade de implementação de processos de engajamento que possibi- litem efetivamente ampla participação, em igualdade de oportunidades, e ampla margem para argumentação e diálogo. Portanto, não se trata da simples disponibilização de instrumentos de participação direta na demo- cracia. Exige-se um aprofundamento dos processos e plataformas, capa- zes de permitir um intenso intercâmbio de informações, impressões, ex- periências, argumentos e ideias entre políticos e cidadãos. Além disso, é necessária a incorporação de mecanismos que tenham por base princípios deliberativos e garantam a possibilidade efetiva de: (i) acompanhamento, (ii) compreensão e (iii) interferência. Para isto é fundamental a garantia de: (i) transparência; (ii) accountabillity (controle); (iii) institucionaliza- ção dos mecanismos interativos; e (iv) capacitação para o debate.

O autor Archon Fung sustenta que os déficits democráticos po- dem e devem ser minimizados através da implementação de processos deliberativos específicos pautados em representação e responsabilização

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FARIA, Cristiano Ferri Soares de. Op. cit., p. 66.

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Diversos autores propuseram modelos participativos diante do cenário de crise do modelo representativo: Pateman 1970, Mansbridge 1980, Barber 1984, Fung 2003, Avritzer 2002 e 2009. E modelos deliberativos: Cohen 1989, Fishkin 1991, Habermas 1992, Gutmann 1996, Bohman 1996, Dryzek 2000.

(accountability), incentivando governos mais responsivos69. Nas palavras de Fung:

Este mecanismo bivalente de representação e responsabilização (ac- countability) pode produzir governos responsivos, com espaços mo- destos de participação nas áreas de elaboração de leis e de políticas, desde que reunidas condições favoráveis tais como eleições competi- tivas, partidos fortes com plataformas claras, vigoroso sistema publi- co de avaliação de alternativas de políticas, um eleitorado informado, suficiente isolamento do Estado em relação à economia, e um hábil aparato executivo do Estado. Para muitos problemas públicos e den- tro de condições menos favoráveis, entretanto, essa instituição míni- ma baseada em eleições periódicas falha em assegurar um nível de representação política e responsabilização (accountability) que torne o governo responsivo70.

Benjamin Barber, defensor da incorporação de práticas partici- pativas em regimes democráticos, em seu livro Strong Democracy de- fende a incorporação de processos de participação política efetiva. Para isto sugere a sofisticação do sistema para atingir uma democracia forte

(“strong democracy”), em oposição ao que chama de uma “democracia fraca”, que pauta a participação social apenas para a elaboração da consti-

tuinte. Para o autor, esta mudança implicaria na criação premente de um sentimento de comunidade, similar à concepção de soberania popular de Rousseau71.

Levando em consideração a razão legítima de existência da de- mocracia representativa em sociedades contemporâneas, justificada ante- riormente neste trabalho, vale reforçar o fato de que a democracia delibe- rativa não deve ser vista como excludente da democracia representativa, mas sim como um modelo distinto que contem recursos fundamentais para o complemento desta e melhoria da democracia na sociedade con- temporânea. A democracia deve buscar ampliar as práticas relacionadas à democracia deliberativa, em complemento aos outros mecanismos previs- tos constitucionalmente, buscando aproximar a democracia cada vez mais da racionalidade pressuposta na democracia deliberativa – dialógica, in- tersubjetiva e, comunicativa.

Portanto, contextualizada a importância da democracia delibera- tiva em sociedades contemporâneas, a qual representa necessariamente

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FARIA, Cristiano Ferri Soares de. Op. cit., p. 32-35.

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FUNG, Archon. Democratizing the policy process. Oxford University Press, 2006. p. 669.

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uma vantagem qualitativa nas esferas públicas por via de utilização destas tanto pelo Estado quanto pela sociedade civil, exploraremos agora um caso bem sucedido de implementação destes ideais, promovido pelo município de Porto Alegre, no Brasil, através da iniciativa do Orçamento Participati- vo. Analisaremos primeiramente o funcionamento desta iniciativa, por tratar-se de um exemplo de democracia deliberativa que merece atenção, fazendo em seguida a conexão com a esfera pública conectada, por tratar- se do objeto deste trabalho.

Benzer Belgeler