Conforme indicado pela literatura (PIERREHUMBERT, 1980; REIS, 1995; LADD, 1996;
WICHMANN, 2000) alguns correlatos acústicos da prosódica correlacionam-se de forma
mais evidente com a expressão da atitude, a saber o tempo, a intensidade e a curva de frequência fundamental. Para esse estudo, descartamos a hipótese de lidar com o parâmetro intensidade, por não termos controlado o fator da distância entre o microfone e a boca do falante.
No que se refere ao tempo, fizemos duas medidas: uma da duração total do enunciado e uma segunda que foi a duração das sílabas proeminentes dos enunciados (HALLIDAY,
1967). Cada enunciado possui uma sílaba proeminente. Contudo, notamos que relativamente, em função do número de sílabas dos enunciados, havia outras tônicas que também se destacavam. Nesses casos, como o número de sílabas não foi uma variável controlada, optamos por medir a duração daquelas que, na análise auditiva, foram enfatizadas pelos locutores.
A seguir, temos um exemplo de como foi feita a medida da duração dos segmentos:
Figura 24: Forma da onda, espectrograma e curva de F0 do enunciado "Traz o café".
Na figura 23, ilustramos a segmentação dos enunciados para medir a duração dos segmentos. Para essa tarefa, utilizamos como base o espectrograma de banda larga, de modo a identificarmos as fronteiras dos segmentos. O programa de análise acústica utilizado fornece, ao se colocar o cursor nas fronteiras, o tempo utilizado pelo falante para produzir cada segmento.
Além da medida de duração das sílabas proeminentes e das tônicas, medimos também o movimento melódico dessas mesmas sílabas. Assim, no que se refere à curva de frequência fundamental, os parâmetros selecionados foram o ponto inicial e final do enunciado, bem como a F0 inicial, medial e final de cada sílaba proeminente. Esses pontos são considerados pela literatura aqueles que melhor representam o traçado de frequência para análise quantitativa. A seguir, temos um exemplo de como foi feita essa segmentação:
Figura 25: Forma da onda e curva de F0 (valores em Hz) do enunciado “Pára”, do locutor Bia.
No exemplo da figura 25, os valores iniciais e finais de cada sílaba representam o tipo de movimento melódico que foi encontrado em cada sílaba. No caso do exemplo acima, a primeira sílaba é nivelada num nível mais baixo de frequência, enquanto a sílaba final, átona, apresenta um movimento descendente, porém num nível melódico mais alto que a sílaba tônica do verbo. Durante a produção, percebe-se que, pelo fato de o enunciado ter sido reproduzido pela terceira vez, infere-se uma atitude de impaciência do locutor.
As medidas de F0 inicial e final nos ajudaram a verificar a taxa de variação melódica: diminuímos a frequência fundamental inicial da frequência final. Essa variação nos aponta que tipo de movimento melódico (ascendente, descendente ou nivelado) é utilizado mais frequentemente para focalizar as sílabas consideradas proeminentes.
Além disso, procuramos observar qual a posição do enunciado a sílaba proeminente ocorre. Esse dado foi observado porque, na literatura, é defendido que, para se perceber a modalidade, o locutor produz movimentos melódicos relevantes no final do enunciado. Dessa forma, procuramos investigar se o mesmo ocorre no caso de ordens e pedidos.
A hipótese defendida por ANTUNES (2007), segundo a qual, ao expressar a atitude, o
locutor não altera a modalidade do enunciado, é por nós compartilhada. Para a autora, uma questão parcial com interesse não perde suas marcas prosódicas – contorno melódico descendente, com início alto – pelo fato de o locutor acrescentar e de o alocutário perceber uma atitude, por exemplo, de interesse. Da mesma forma, adotamos
como pressuposto que o padrão prosódico das forças ilocucionárias de ordem ou pedido não é alterado pela expressão da atitude. Antes, a atitude soma-se ao fator modalidade, bem como à força ilocucionária, o que funciona como uma pista para as inferências do ouvinte.
Em relação ao alinhamento, observamos se o pico de F0 na sílaba proeminente estava alinhado à parte inicial, medial ou final da vogal dessa mesma sílaba. Para isso, foi medida a duração da vogal dessas sílabas e em seguida registramos em que momento da produção da vogal se alinhava o pico de F0. Assim, determinamos quatro pontos de alinhamento: inicial (I), medial (M), final (F) e nivelado (N). Essas informações foram analisadas de forma a percebermos se existe alguma correlação entre força ilocucionária a alinhamento, conforme apontam MORAES e COLAMARCO (2006), bem como se há
correlação também em relação à atitude.
As informações de duração, frequência fundamental e alinhamento foram alocadas em uma tabela, de modo a receberem o tratamento estatístico. Encontra-se, a seguir, nos quadros 8, 9 e 10, um exemplo de como foram arrolados os dados quantitativos e qualitativos dos enunciados e das sílabas proeminentes. Na tabela, alocamos os valores de duração total do enunciado (DTE), frequência fundamental inicial do enunciado (F0ie), frequência fundamental final do enunciado (F0fe), F0 medial (F0me). A coluna “forma da curva no enunciado” foi utilizada para anotarmos manualmente o desenho da curva melódica:
Quadro 8: Dados quantitativos e qualitativos A (enunciado)
Endnciado Número
de sílabas
DTE F0ie F0fe F0me
Forma da cdrva no endnciado 3 0,431 122 153 141 3 0,431 122 153 141 2 0,335 118 150 105 2 0,537 192 223 192 2 0,537 192 223 192
No quadro 9, temos sílaba proeminente (SP), duração (dur), F0 inicial da sílaba (F0is), F0 final da sílaba (F0fs) e F0 medial da sílaba (F0ms). A coluna “mais valores” foi utilizada quando ocorreram movimentos em que apenas três pontos não foram
suficientes para caracterizar a melodia. A coluna “forma da curva na sílaba” foi utilizada para anotarmos manualmente o desenho da curva melódica.
Quadro 9: Dados quantitativos e qualitativos B (sílabas proeminentes)
Sílabas proeminentes SP ddr F0is F0fs Taxa de variação melódic a F0ms Mais valores ? Forma da cdrva na sílaba 1 0,170 122 128 6 125 2 0,178 142 153 11 144 1 0,166 118 108 -10 218 1 0,162 192 125 -67 155 2 0,217 169 223 54 202
No quadro 10, apresentamos um exemplo de como fizemos o registro da sílaba proeminente, indicando 0, para a sílaba tônica e 1 para a proeminente, e em que ponto da sílaba ocorreu o alinhamento (AS) do pico de F0.
Quadro 10: Dados quantitativos e qualitativos C (sílabas proeminentes/ alinhamento)
Proeminência AS 0 F 1 F 1 M 0 I 1 F 1 M
Outro cálculo feito foi o da taxa de velocidade da variação melódica. Esse cálculo PE feito dividindo-se a diferença entre o ponto inicial e final de F0 pela duração da unidade a ser medida. No nosso caso, interessa os valores da taxa nas sílabas proeminentes dos enunciados de ordem e pedido. Esse resultado nos indica se a velocidade da variação é lenta ou rápida. Dessa forma, uma vez anotados os dados nas respectivas tabelas, passamos às análises estatísticas. Os procedimentos estão descritos a seguir.