Uma das chaves teóricas para compreensão do mundo atual é reportarmo-nos aos processos econômicos do período anterior, para compreendê-lo e extrair os elementos necessários para a análise do presente. Para conter as crises clássicas do capitalismo, a tendência universalmente aceita pelas economias capitalistas centrais, no início do século XX, foi investir na planificação da produção como mecanismo de superação da tendência de queda da taxa de lucro.
O caminho desenvolvido foi a modernização conservadora, via racionalização da produção, correspondendo a um novo ajuste entre estrutura e superestrutura, no sentido de recompor a unidade entre relações sociais de produção e aparelhos de dominação. Visto por Gramsci (2008) como expressão extrema da modificação molecular já contida no desenvolvimento das forças produtivas, da economia capitalista, o fordismo será o solo fértil da recomposição das taxas de lucro e consequente período de entesouramento de capital no início de século XX.
A racionalização da produção e do trabalho, por meio da disciplina9 e da
ordem exterior ao mundo da produção, é associada a um determinado modo de viver, de pensar e de sentir a vida. O controle da moralidade fora o método recorrente para formar o “gorila amestrado”, nas palavras de Taylor, formando um novo tipo de trabalhador e de homem. Tornando-o, o homem, um tipo de trabalhador maquinal, suprimindo o antigo senso psicofísico do trabalho profissional, que demandava uma participação ativa da inteligência, da fantasia, da iniciativa do trabalhador (GRAMSCI, 2008). A racionalização transcende a esfera da vida e torna-se ditadura nas plantas das fábricas.
Estavam postos, assim, os fundamentos da produção em massa através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; por meio do controle dos tempos e movimentos pelo cronômetro taylorista e da produção em série fordista; agora a existência do trabalho parcelar pela fragmentação das funções; pela separação das atividades de elaboração e de criação no processo de trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas (ANTUNES, 2011); e pela constituição do trabalhador maquinal, movido de acordo com o ritmo da esteira e do trabalho parcelado.
A grande indústria capitalista transformou-se, modificando os hábitos de consumo, impondo uma nova dinâmica à produção e à circulação, criando estratégias morais de consumo, gerando demandas na base do circuito produtivo. Porém, o que fomentou o desenvolvimento do capital na primeira metade do século XX também foi responsável pela sua desestruturação. A produção em massa levou a sucessivas crises de superprodução, ao desenvolvimento das forças sindicais que ganharam relevo na cena política, com a massificação e concentração de trabalhadores.
Uma mudança paradigmática se anunciava. Para coibir a força política dos trabalhadores, novos mecanismos são desenvolvidos para minar as bases da organização do trabalho. O salto tecnológico, a automação, a robótica e a microeletrônica invadiram o mundo da fábrica, incidindo no desenvolvimento das relações de trabalho e de produção do capital. A tendência era substituir a força de trabalho viva por trabalho morto, passado e acumulado por meio da revolução dos meios de produção, alterando substancialmente
9 Em Americanismo e Fordismo, em especial no item a ‘racionalização da produção e do trabalho’, Gramsci
(2008) discorre sobre as formas de controle da vida do trabalhador para além da fábrica. A lei de proibição do álcool, juntamente com o puritanismo das relações monogâmicas e estáveis e com o controle do consumo dos trabalhadores por inspetores nos Estados Unidos, imprime um comportamento psicofísico ao trabalhador, impondo-o a liberar todas as suas energias apenas nas relações produtivas da fábrica.
as forças produtivas, reagrupando e deslocando o trabalho massificado e concentrado para pequenas células produtivas.
Dessa forma, emerge um novo processo de trabalho em que o cronômetro e a produção em série e de massa são substituídos10 pela flexibilização da produção, pela
especialização flexível (ANTUNES, 2011). Então surge um novo padrão de gestão da força de trabalho. Como síntese de um processo mais amplo, o toyotismo surge como catalizador de um moderno modelo produtivo, descolado da planta da fábrica tradicional, desnacionalizado. Esse fenômeno mina a organização dos trabalhadores e seus direitos. A grande empresa, símbolo do capitalismo monopolista, dá lugar ao trabalho realizado em pequenas unidades produtivas, domésticas.
O trabalhador, antes transformado em engrenagem maquinal, gradativamente sofre retração, chegando quase a desaparecer. Surge um novo tipo de assalariado, um novo tipo de homem trabalhador, fragmentado em unidades produtivas, estilhaçado na sua organização trabalhista. Nasce um trabalhador célula do sistema produtivo.
Vê-se a fragmentação do trabalho acondicionada pela tecnologia, permitindo que o capital exerça maior controle sobre a força do trabalho e também maior exploração. O trabalho agora não precisa mais ser limitado nos tempos da indústria e nas paredes dela. Ele pode ser realizado na pequena oficina, na sala de casa, sem tempo de duração pré- definido, pois o contrato do número de peças e o tempo para entrega determinam os tempos de trabalho, que suprimem o tempo do não trabalho. Toda regulamentação legal e moral fora tolhida dos direitos de segunda geração.
Enquanto expressão máxima do toyotismo, nas palavras de Harvey (1992) e de Antunes (2011), a acumulação flexível pode ser sintetizada como um tipo de produção que confronta a rigidez do fordismo. Ou seja, a flexibilização se apoia nos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. “Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente
10 O monumental câmbio sofrido nas forças produtivas não invalida a continuidade do taylorismo/fordismo.
Como apontou Chasin (1999), baseado em Marx, o novo, no capitalismo, nunca é totalmente novo. O novo está sempre permeado pelo velho. Marx, em O 18 Brumário de Louis Bonaparte, ilustra com a frase: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.
intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional” (HARVEY, 1992, p. 140).
O padrão inaugurado com a acumulação flexível denota rápidas mudanças no padrão de desenvolvimento desigual do capitalismo. Mutações são constatadas entre setores da economia, entre regiões do mundo, transferindo e criando um amplo movimento do emprego para o setor de serviços, associado a novos circuitos produtivos e com a implantação de indústrias em países em desenvolvimento. O movimento da desnacionalização e reagrupamento segue uma velha tendência do capital de buscar mão de obra mais barata e pouco regulamentada. Dessa forma, amplia-se a produção sem ampliar os custos com capital variável. O resultado desse processo é o rebaixamento dos custos do capital variável nos complexos indústrias.
Diante das complexas formas de ser e de existir da sociabilidade humana, o capital instaura uma reorientação geral nas formas de produção, ocasionando profundas mudanças no mundo de quem vive da venda da força do trabalho, segundo as palavras de Antunes (2014).
As mudanças num padrão produtivo podem se apresentar mais ou menos desenvolvidas, dependendo do ponto de vista capitalista, ou expurgadas dos elementos do padrão anterior, ou ainda modificadas pelo processo histórico particular de cada país, “de maneira que há modos e estágios de ser, no ser e no ir sendo capitalismo, que não desmentem a anatomia, mas que a realizam através de concreções específicas” (CHASIN, 1999, p. 3).
Essa transição expressa um processo particular no modo de produção capitalista. No capitalismo, nada é totalmente novo, pois o velho sempre se faz presente. As novas forças de produção realizam uma conciliação com o antigo. Mas, em vez de as velhas forças e relações serem extirpadas pelo novo, a alteração social se faz mediante a conciliação entre o novo e o velho (CHASIN, 1999).
O excesso de capacidade de produção, a partir dos anos 1960, traz perda de lucratividade às indústrias. Logo, o incremento do investimento em novas tecnologias de automação e de substituição do trabalho vivo passa a permear as metas do capital. Associado ao lastro financeiro que o período anterior havia gerado, tem-se, com isso, um novo paradigma no mundo da produção. Essa nova dinâmica implica numa nova
tendência nas formas de produção. A resultante de todos os processos anteriores provoca a redução do capital produtivo, especialmente em sua forma variável.
A partir da eclosão da crise nos anos 1970, a retração do capital variável não significou redução das empresas ou de suas capacidades produtivas. Ao contrário, durante o período verificou-se um crescimento das empresas e da capacidade produtiva, descrita por dois eixos. O primeiro, substantivado com a intencional e sistemática aplicação da ciência à produção, quase como uma atualização do legado de Taylor, com seu método de organização do trabalho, não apenas nas fábricas como também nas unidades autônomas de produção, com o uso da tecnologia e especialmente com a atualização e inovação da gerência científica, vai permitir o controle da produção não mais para massas, mas em just in time.
Braverman (1974, p. 82) nos ajuda a compreender a gerência científica ao esclarecer que ela “significa um empenho no sentido de aplicar os métodos da ciência aos problemas complexos e crescentes do controle do trabalho nas empresas capitalistas em rápida expansão”. Tal compreensão compõe o cenário explicativo das últimas décadas do século XX. O grau acelerado de desenvolvimento da ciência em algumas áreas do saber, associado às exigências de recomposição das taxas de lucratividade, expressa a retomada atualizada da gerência científica como mecanismo impulsionador de uma nova fase do capital ou de uma reatualização do funcionalismo, com suas instituições exercendo papéis específicos na sociedade, à medida que as novas técnicas são impostas sem o consentimento prévio dos indivíduos.
A gerência científica não se preocupa com a contradição, apenas a naturaliza. O que lhe importa é ajustar e adaptar a força de trabalho aos interesses e necessidades do capital. Essa expressão explicita a verbalização do modo de produção capitalista. A nova gerência produtiva ocupa-se do ajustamento do trabalhador ao processo produtivo. O adestramento sai da fábrica e é incorporado nas escolas de psicologia, de recursos humanos, de logística e da sociologia industrial. Dessa forma, um corpo intelectual passa a difundir uma nova ideologia para o mundo da produção. As consequências não são outras senão uma drástica e estrutural mudança nas formas de produção, tradicionalmente incorporadas ao toyotismo.
A consequência mais imediata desse processo é a pacificação, a manipulação e o ajustamento da “máquina” humana. O controle não é mais realizado por um chefe de
setor, de produção, mas por contratos formais ou informais de altíssima produção. A gerência e o controle da produção não são mais feitos pela figura humana, pela coerção e assédio moral, pelo constrangimento, pela compra e venda da força de trabalho, mas pelo contrato, pelo risco de perder a encomenda, pela vergonha e frustração de não atender ao pedido no tempo hábil, elementos estes produzidos pela nova forma de pensar e agir da psique da classe trabalhadora.
Em síntese, a habituação dos trabalhadores ao modo capitalista de produção deve ser renovada a cada geração, tanto que as novas gerações de trabalhadores não são formadas dentro das matrizes de gestão de trabalho anteriores, mas em novas modalidades.
Por certo, nessa massa cultural o capital produtivo não sofre retração somente por causa da gerência científica, mas também por ela, pois é por esse viés que teremos uma mudança cultural da consciência dos trabalhadores, das determinações do trabalho e das tecnologias que passam a compor o mundo da empregabilidade.
O segundo eixo da transformação da produção ou da redução do capital variável é a tecnologia. Por certo, o modo capitalista de produção está continuamente se expandindo a novas áreas de trabalho, inclusive àquelas recentemente criadas pelo avanço tecnológico e emprego do capital à nova indústria ou à nova forma de produzir (BRAVERMAN, 1974). É comumente requintada e aperfeiçoada, de modo que a pressão sobre o trabalho é incessante.
A necessidade de ajustar o trabalhador ao trabalho em sua forma capitalista e de superar a resistência natural à intensificação tecnológica mutável não desaparece com a renovação de gerações de trabalhadores e também não termina com a ‘geração científica do trabalho’, mas se torna um aspecto permanente na sociedade capitalista (BRAVERMAN, 1974).
A fisiologia do trabalho tonifica-se na nova era. Realiza-se por meio das máquinas, da robótica, das tecnologias de informação, do trabalho morto, substitutivo do trabalho vivo. A produção assume aspectos abrangentes, desterritorializados, desnacionalizados, desumanizados.
Os últimos anos do século XX foram marcados por essa fisiologia do trabalho. O aperfeiçoamento do aparato tecnológico, subscrito no paradigma eletrônico
que englobou todos os setores da economia — da agricultura às indústrias criativas (tecnologias da informação e comunicação), na consolidação do paradigma da biotecnologia e na emergência da nanotecnologia. Esses aprimoramentos produzem, com rapidez, e em nível global, na agenda manifesta de decisores privados e públicos, “um símbolo de ‘modernidade’ dotado de prestígio e de forte capacidade legitimadora” (ERBER, 2010).
Esse processo se expressa no bojo da competitividade internacional. Tido como pilar central de qualquer modelo competitivo, a inovação é associada aos investimentos em modernização e estratégias de produção, visando à redução do custo de estoques e à redução do consumo de matérias-primas. Dentre as técnicas e métodos utilizados, o Manual de Oslo11 foi orientador de muitos processos incorporados às
empresas.
Com o advento da ciência moderna e dos processos de intensificação tecnológica, a produção assume formas diversas, na aparência, formas desconexas. Aquilo que antes estava petrificado nos processos industriais tradicionais agora se dissolve em tantas outras aplicações, desenhos e estruturas. A partir de então, as ciências duras assumem a prevalência sobre qualquer outra expressão do conhecimento.
As duas últimas décadas do século XX constituíram-se em divisor de águas, assinalando grande mudança no papel das ciências e na produção. A necessidade de recomposição das taxas de lucratividade do capital foi o grande motor que alavancou e sustentou todo o processo de mudança em grande escala no mundo capitalista, tanto para os países periféricos do capitalismo, como também para os desenvolvidos.
Segundo Braverman (1974), a ciência é, depois da força de trabalho, a mais importante propriedade social a converter-se num auxiliar do capital no processo de desenvolvimento das forças produtivas. A ciência nada custa ao capital, visto que ele tão somente explora o conhecimento acumulado ou apenas financia a sua sistematização, custeando a educação científica, a pesquisa e os laboratórios.
11 O Manual de Oslo: proposta de diretrizes para coleta e interpretação de dados sobre inovação tecnológica
foi desenvolvido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – Departamento de Estatísticas da União Europeia, em atenção ao Artigo 1º da Convenção firmada em Paris, em dezembro de 1960.
Com a força de trabalho e a ciência a seu dispor, o capital implementa um vastíssimo processo de reestruturação, visando recuperar o seu ciclo reprodutivo e, ao mesmo tempo, atualizar o seu projeto de dominação societal, abalado pelos conflitos com a força de trabalho (ANTUNES, 2011).
As mudanças nos processos produtivos, através da introdução de novas tecnologias, exigiram uma profunda reorganização desses processos, imprimindo uma nova sociabilidade nas formas de pensar e agir. O advento do “otimismo”, pautado na teoria da especialização flexível, conjecturou benefícios aos trabalhadores ao imprimir características de uma nova sociabilidade pautada no trabalhador mais qualificado, participativo, multifuncional, polivalente, dotado de maior realização no espaço de trabalho (ANTUNES, 1999). São expressões que reconfiguram o mercado de trabalho, atravessam-no com as novas tecnologias, ao mesmo tempo em que se diminui o investimento em capital variável e incrementa-se o capital constante de novas tecnologias. A pauta das mudanças reconfigura a sociabilidade contemporânea, aponta determinações que incidem sobre a vida cotidiana, cunhando novas necessidades e motivações de caráter moral e político (BARROCO, 2011). A realidade, apreendida sob o fragmento, instaura relações sociais efêmeras e instáveis, decorrentes de vivências objetivas, “num contexto de empobrecimento, de instabilidade e desregulamentação das relações de trabalho” (BARROCO, 2011, p. 206).
O capitalismo contemporâneo, sob a ideologia neoliberal, cumpre a função social de justificar as transformações operadas na vida social. Decorre daí a insegurança, a instabilidade e a fragmentação como componentes constitutivos de uma etapa histórica — “era pós-moderna” (BARROCO, 2011).
A cena dessa fase pode ser “resumida ao aqui e ao agora, sem passado e sem futuro” (CHAUI, 2006, p. 324), “ao individualismo exacerbado, num contexto penetrado pela violência, que dá origem a novas formas de comportamento, busca algum controle imaginário sobre o fluxo temporal” (BARROCO, 2011, p. 207).
Essa etapa imperializa o consumismo, acentua seus contornos como única via para a felicidade, “o indivíduo se expressa de modo privatista, voltado para o intimismo” (BARROCO, 2011, p. 209). O ethos dominante dessa sociedade é expresso no consumo, o templo da religião é o shopping e a virtualidade do mundo, a identidade dos indivíduos
é assegurada pelo que consomem e por quanto consomem, a vida pública e política é transformada em marginal aos interesses da nova sociedade. A nova ideologia enraíza-se no imaginário coletivo, pauta a racionalidade tecnocrática e impõe finalidades de produtividade: a competição pautada na burocracia informacional e no pragmático atravessa as instituições e a formação de quadros laborais, renasce o individualismo, a competição em busca do consumismo para, no fim, justificar a necessidade de mais consumo.
Alguns resultados analíticos e aproximativos mostram um acelerado processo de intensificação do trabalho a partir da introdução de tecnologias computadorizadas, bem como maior concentração de responsabilidades e não necessariamente maior qualificação do trabalhador. Embora uma fração dos trabalhadores assalariados seja transformada numa casta ou elite dentro dos estratos da classe trabalhadora, altamente qualificados e polivalentes para o capital, estes auxiliam a compor um discurso perverso que desqualifica o trabalhador médio.
Por certo, a gradativa ampliação tecnológica desestabilizou e excluiu muitos postos de trabalho do modelo produtivo anterior. Não obstante, outra falácia estava contida no discurso de que a nova arena de produção absorveria os trabalhadores dispensados do modelo antigo. Contudo, na realidade, o que se observou foi uma absorção marginal e paliativa. A nova chave de produção não deu conta de absorver e criar novos postos de trabalho na mesma demanda em que as novas gerações buscavam inserção no mercado de trabalho.
Ferramentas que reformaram as cadeias produtivas e de serviços foram publicizadas como a única via possível de manter-se no mercado. Assim, os sistemas de Qualidade Total, 5S e tantas outras estratégias de reorganização da produção são desenvolvidos e vendidos ao sistema produtivo, sempre buscando melhorias dos sistemas de produção e dos serviços, em favor do capital.
Todo esse conjunto, dado pela via da gerência científica e incorporação de tecnologias, ilustra a redução no investimento em capital variável. Por outro lado, uma massa de capital financeiro foi colocada à disposição do mercado. Esse entesouramento não foi convertido em capital produtivo — variável e constante — mas em uma nova forma de acumulação pautada na renda, nos juros e nos dividendos que o dinheiro passou a gerar sobre o próprio dinheiro.
O capital edifica novas facetas ao seu projeto, novos contornos estranhos ao capital produtivo na sua relação com o trabalho, ele aprofunda suas cercanias alienantes e fetichizadas, alcança seu ápice no capital que rende juros, em que o “capital dinheiro aparece, na sua superfície, numa relação consigo mesmo, como fonte independente de criação de valor, à margem do processo de produção, apagando o seu caráter antagônico frente ao trabalho” (IAMAMOTO, 2008, p. 93). A relação estabelecida é dinheiro versus dinheiro, afastando-se da base produtiva, sem o qual o capitalismo não se reproduz. É a representação máxima do capital fetiche em que desaparecem as mediações e só aparece sua forma e não o seu conteúdo.
Por si mesmo, o domínio estrito das finanças nada cria — “nutre-se da riqueza criada pelo investimento capitalista produtivo e pela mobilização das forças de trabalho no seu âmbito, ainda que apareça de uma forma fetichizada” (IAMAMOTO, 2008, p. 109).
Nessa esfera, projeta-se uma falsa concepção da produção da riqueza, expressa na apologia de que “o capital-dinheiro tenha o poder de gerar mais dinheiro no circuito fechado das finanças, independente da retenção que faz dos lucros e dos salários criados na produção” (IAMAMOTO, 2008, p. 109). Na análise de Iamamoto (2008, p. 109), “o fetichismo das finanças só é operante se existe produção de riquezas, ainda que as finanças minem seus alicerces ao absorverem parte substancial do valor produzido”.
Nesse amálgama, juro e lucro assumem posições distintas, apesar de que no capital industrial eles são parte da mais-valia, juntamente com a renda. Os juros estão inteiramente separados do processo produtivo. O valor medido pelo trabalho total do