O caminho de Norbert Elias na Sociologia foi longo e dificil, no entanto, ao mesmo tempo muito determinado. Sua carreira, no sentido de aumentar a divulgação do conhecimento científico a um grande público começou em uma idade em que muitos se aposentariam. Seu mais famoso trabalho O processo civilizador é um monumental estudo é de grande valoar e tornou-se uma das principais obras da Sociologia.
Na Sociologia eliasiana encontramos livros que fazem análises de longo prazo como A sociedade de corte e O processo civilizador; de reflexão epistemológica (Envolvimento e Alienação e Introdução à Sociologia); socio-biografias, como em Mozart: a Sociologia de um gênio; estudos sociológicos sobre o esporte como Em busca da excitação. Em sua obra Elias deu também atenção a análise de fatos contemporaneos, como em Os Alemães, obra que fecha o ciclo da teoria da civilização, já que para Elias o nacional- socialismo e o Holocausto eram vists como um ‘colapso da civilização’, algo descivilizador.
A obra de Elias esta ligada a Sociologia, aos estudos culturais, a História, a Psicologia e a Psicanálise, a Antropologia, as teorias do desenvolvimento, ao estudo da literatura e de teoria da arte.
A principal conclusão que podemos tirar sobre a sociologia eliasiana é que análise dos processos civilizatórios não significava um assunto encerrado em O Processo Civilizador, há espaço considerável para o seu desenvolvimento e refinamento. Nos seus últimos escritos, principalmente com a ideia de ‘barbárie civilizada’, de como é possível que a violência desumana continue tanto a nível individual, como a nível coletivo, no mesmo tempo que parecem estar se tornando cada vez mais civilizada. Uma questão importante, que a civilização gera conduta bárbara, ao invés de simplesmente ser seu oposto.
Em Os alemães, Elias passou de uma passou de uma concentração exclusiva no processo civilizatório para incluir uma análise dos processos de descivilização. Até começar tal análise, Elias negligenciou o lado ‘escuro’ da civilização.
Baseado em Freud, Elias estava discutindo em sua obra, que com o advento do Estado moderno a natureza da restrição exercida sobre os nossos corpos e as disposições psíquicas mudaram de forma, que em um primeiro momento era baseado em agências sociais externas, e que passou a estar dentro de nós mesmos como autocontrole. Neste movimento a
partir de uma coerção externa para o autocontrole, as restrições tornaram-se mais eficazes que os instintos e desejos individuais efetivamente estavam mais subordinados às exigências das relações sociais complexas e diferenciadas caracterizadas por longas cadeias sociais.
Elias tendia a ver o supereu como uma agência que opera exclusivamente em oposição aos instintos, desejos, e as emoções, o que Freud chamou de ‘isso’, e como estando apenas a serviço das necessidades das relações sociais. Nas próprias palavras de Elias, o supereu como “a marca da sociedade no ser interno”122. Freud, por outro lado, o via superego
como o ‘herdeiro do complexo de Édipo’ e assim é expressão dos instintos mais poderosos e vicissitudes libidinais mais importantes do ‘isso’. Para a criação do ‘ideal de eu’, o ‘eu’ dominou o ‘complexo de Édipo, colocando-o como sujeito do ‘isso’. Considerando que o ‘eu’ é essencialmente o representante do mundo externo, da realidade, o supereu está em contraste com ele, como representante do o mundo interno, do ‘isso’123. O supereu está dessa forma,
ancorado dentro da nossa economia dos instintos, ao invés de simplesmente contrário de nossos impulsos e desejos. Notamos que quando Freud propôs a mudança da teoria dos instintos, falando de ‘instinto de vida’ e ‘instinto de morte’, ele coloca os instintos humanos não só como adversários da civilização, mas também a sua base.
O conteúdo do supereu não é, portanto, as regras morais contestáveis, mas a partir do silencioso ‘código’ do comportamento praticamente necessário, ele é a transformação dos constrangimentos sociais nas regras de autocontrole.
Outra questão a ser levada em conta é a ‘consequência do processo civilizatório’, para ambos os autores. A visão de Freud em relação ao processo civilizatório era pessimista, como visto em O Mal-estar na Civilização, sugerindo que Civilização estaria sempre acompanhada por uma perda de felicidade e “numa intensificação do sentimento de culpa”.124
A própria conclusão a que Freud chega mostra a preponderância da sociedade sobre o indivíduo: a civilização massacra os desejos individuais. O pensamento freudiano é bem incisivo, todo processo civilizacional baseia-se numa opressão do indivíduo em favor dela. Nas palavras de Freud (2011 [1929], p. 57).: A liberdade individual não é um bem cultural. Ela era maior antes de qualquer civilização, mas geralmente era sem valor, porque o indivíduo mal tinha condição de defendê-la.
122 O Processo Civilizador, Vol. 1, p. 135.
123A sistematização da ‘segunda tópica’ está formulada na obra O Eu e o Isso (FREUD, 1923). 124 O Mal-estar na Civilização, p. 67.
A ideia freudiana contrasta fortemente com a esperança de Elias que reconhecia os ‘custos’ emocionais da civilização em consequência das restrições extremamente rigorosas dos afetos e dos instintos, porém ele acreditava que, finalmente, os benefícios trazidos pela Civilização superariam esses ‘custos’. O autocontrole se tornando cada vez mais estável e equilibrado, seu otimismo sobre as consequências do crescente controle sobre nós mesmos e nossas relações sociais, eram os pontos positivos que superariam esses ‘custos’, segundo Elias125.
O princípio teórico de Elias era que emoções e desejos foram socialmente constituídos, e não havia nenhuma natureza pré-social humana, que se opusesse ou resistisse às exigências das relações sociais.
Não podemos considerar Elias como um herdeiro do freudismo. Poderíamos designá-lo como um freudiano casual. O que ele faz é a adaptação de conceitos freudianos à sua teoria. O Supereu é o que define o progresso do processo de civilização. O Processo Civilizador de Elias é a concretização da teoria da Civilização de Freud, em uma narrativa de uma sociologia histórica. A teoria freudiana foi importante para Elias entender a condição animalesca em que os seres humanos nascem, haja vista que Freud foi o primeiro a sintetizar claramente essa condição. Os indivíduos, desde que nascem, são determinados a conviver com outros indivíduos. Tem a capacidade de controlar e moldar suas pulsões. Porém essa capacidade tem de ser ativada, e seu vetor de ativação são os processos de aprendizagem.
A capacidade para compreender os símbolos e os padrões, a concepção das regras e para controlar suas ações, é que o ‘eu’ exige um aprendizado ‘exterior’. A aquisição destas capacidades concentra-se na aquisição de uma linguagem simbólica, baseada sempre no desenvolvimento de um determinado autocontrole e distanciamento das emoções. Neste contexto, para além de teoremas de Freud, Elias também usa modelos do behaviorismo.
A Sociologia eliasiana inova quando traz dimensões psicanalíticas para a explicação histórica do comportamento em grupo e a ação individual. Outros autores, como Marcuse, também se questionaram como as teorias psicanalíticas podem nos ajudar a entender a vida em sociedade.
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Se para Freud, a neurose é algo ligado a cultura, para Elias ela se coloca como um fenômeno histórico: “as ‘neuroses’ que vemos hoje por toda a parte são uma forma histórica especifica de conflito que precisa de uma elucidação psicogenética e sociogenética”. (ELIAS, 2011 a [1939], p. 148).
Outro ponto a ser frisado, e reconhecermos a força da análise de um determinado processo direcional e seu desenvolvimento histórico. No caso mais específico, como se deu a transição da ‘coerção externa’, para uma ordem social mais regulada e inibida, e as muitas consequências para mentalidades e formas de vida. A tese de Freud em O Mal-estar na Civilização deram uma contribuição enorme à Elias, principalmente na explicação do desenvolvimento da repressão social e da sublimação dos instintos e dos desejos, quando conjugada com uma investigação histórica intensiva.
Por fim, percebemos o quão é frutífero os argumentos de Elias quando aplicados aos processos de 'descivilização', que ocorre quando os movimentos figuracionais definidos como cadeias ampliadas de dependência social, complexidade e diferenciação, são forçados, por alguma razão, a ir em ‘marcha à ré’.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS