ÖNLİSANS MEZUNU NİTELİK KODLARI
MEZUNİYET ALANI KODLARI
Um dos sentidos da educação japonesa que Carla integra é a civilidade, aspecto este que ela coloca como sendo puramente favorável, pois ela associa este fator com “respeito ao
próximo”. Assim, como acredita que os brasileiros expressam seus sentimentos aos extremos,
“muita felicidade e muita braveza”, estes acabam por ser mais suscetíveis às brigas e xingamentos. Na construção subjetiva de Carla, a civilidade seria um determinante favorável.
Contudo, a educação japonesa para essa adolescente ganha sentidos subjetivos outros, que são de disciplina e rigor consigo mesmo. Estes são sentidos que, apesar de diferentes, interagem entre si e que no contexto do discurso de Carla não podem ser compreendidos separadamente. Para Carla, estes sentidos são relativos, possuindo ao mesmo tempo uma valoração positiva e negativa. Assim, a educação japonesa para Carla, em sua estruturação dentro de casa, ganha sentidos negativos porque é sufocadora e rígida. Mas esta mesma educação usada
na realidade social, fora de casa, é um aspecto que ela significa como sendo favorável, porque os tornam mais rigorosos consigo mesmos e disciplinados.“Ah, o fato de serem mais civilizados (japoneses) eu acho que, eu acho legal, é legal você saber que se olharem pra você e te acham
um pouco mais educada sabe.”
É curioso que nem todos os valores aprendidos em casa são contestados. Carla integra alguns aspectos da educação japonesa e os acha favoráveis quando usados em suas relações sociais. Porém, isto se manifesta como um valor estritamente pessoal, pois acredita que aos olhos ocidentais, a disciplina japonesa é significada como submissão, se tornando, assim um aspecto negativo.
“Acho que, por exemplo, quando vai ter campeonato nas outras escolas, quando a gente chega lá, acho que os outros colégios devem olhar e perceber que a gente é um pouco mais disciplinados. Por exemplo, eu já fui num clube outra vez, (...), e vi que as meninas desrespeitam os professores, essas coisas, batem de frente com o professor. Aqui, não, o professor dá bronca, a gente aceita, eles falam pra gente fazer isso e a gente faz, a gente se esforça. Isso eu acho que eles percebem que a gente não vai sair gritando com os professores, mas ao mesmo tempo eles devem achar, não sei, a impressão que eu tenho nesses campeonatos é que, eles acham justamente por obedecer os professores, a gente é meio submisso, às vezes ficam zoando da nossa cara, essas coisas. (...)”
Igualmente, serem rigorosos consigo mesmos faz com que os japoneses sejam disciplinados, mais esforçados e trabalhadores, mas aos olhos ocidentais, segundo Carla, isso significa que os japoneses só pensam em estudos (são “nerds”).
“(...) Por um lado é bom porque talvez respeitem o japonês como um povo que leva as coisas mais a sério, que estuda, batalha pra conseguir o que quer entendeu, isso eu acho um lado bom entendeu. Mas o outro lado é que só pensam que: ‘Ah! Japonês só pensa em estudar, só fica na frente do computador’, sabe. Não é assim, a gente tem uma vida como qualquer outra.”
Carla em seu processo subjetivo mostra o conflito que vivencia e sente entre as duas culturas (ocidental e japonesa). Ela integra alguns valores japoneses, mas considera estes valores mal entendidos pela sociedade brasileira que, por conseguinte, os fazem enxergar os descendentes como submissos e que só pensam em estudos (são “nerds”). Vale ressaltar que tanto a submissão, quanto não saber se divertir são aspectos que, de maneira geral, são
desvalorizados na cultura brasileira e que fazem parte dos estereótipos construídos em relação aos nipo-brasileiros.
Tsuda (2000) considera que na maioria das vezes, os grupos étnicos minoritários vivem situações desiguais e injustas e que por isso, a identidade étnica é construída como contestação e subversão dos significados e categorias da cultura hegemônica. Porém, acredita que a população nikkei “Como uma minoria positiva, talvez eles (nikkeis) não precisem mudar a
percepção étnica dominante já que ela é favorável.” (Tsuda, 2000, p.17) Para o autor, de maneira oposta ao que Carla nos revela, as “identidades impostas” ou os estereótipos construídos pela sociedade brasileira com relação aos nikkeis geralmente são consoantes com as experiências individuais subjetivas destes porque tais “identidades impostas” são geralmente positivas.
Nesse sentido, percebe-se que Carla talvez não procure uma subversão das significações sociais em relação ao nikkei, mas nitidamente mostra um desconforto em relação a esta vivência da biculturalidade. Desta forma também, talvez, nem todas as significações sociais em relação ao nikkei sejam unilateralmente positivas, como afirma Tsuda (2000), e nem sejam tão consoantes com as experiências individuais destes, visto que Carla possui significações sobre os descendentes que divergem das da realidade social em que se insere. Esta contradição que emerge do individual e social, também parece um determinante que a faz não conseguir valorizar de maneira integral a sua cultura de origem.
Phinney (2004) aponta que valorizar o próprio grupo está associado com a valorização de si mesmo e que isso se relaciona com sentimentos de bem-estar, auto-estima, segurança, otimismo, etc. Carla, das significações que constrói sobre a sua própria etnia, os contesta em sua maioria e quando não, acredita que são desvalorizados pelos brasileiros. A vivência de Carla até aqui pode ser resumida da seguinte forma: dentro de casa, seus valores são distintos dos seus familiares, porque tendem a uma visão mais ocidentalizada de mundo e de homem e, fora de casa, seus valores também são distintos, porque Carla também carrega uma educação que possui uma carga de historicidade e cultura japonesas que não conseguem ser integrados pela maioria da população brasileira.
Pode-se dizer que as experiências de Carla quanto aos valores ocidentais e orientais se expressam num movimento ambíguo, parece mais brasileira dentro de casa e mais japonesa fora dela. Porém, no momento atual, é pelos ocidentais que Carla procura e isso parece um movimento mais claro para ela, em que ela argumenta como se não tivesse dúvidas, porque os considera mais legais, bonitos, acolhedores, felizes e extrovertidos. Mas ao mesmo tempo em que Carla procura claramente estar com os ocidentais, porque divide japoneses e brasileiros de maneira que um possui aspectos favoráveis e o outro não, vê-se também que essa tentativa de
inserção no mundo ocidental é tênue, ela se alicerça em bases escorregadias, pois os valores que Carla carrega se divergem desse mundo que ela tenta abraçar e que também a fazem ser uma pessoa diferente. Ela é diferente dos descendentes japoneses e diferente dos brasileiros.
“Eu sou sempre assim, ou sou a mais quieta dos mais felizes e a mais feliz dos mais quietos.Entendeu, eu sempre estou no meio termo. Deixa eu tentar ser mais clara, não é necessariamente estar mais à vontade (com os ocidentais), é uma sensação
estranha que eu não sei explicar. Eu sou a mais feliz dos quietos, que nem hoje, eu fico com as meninas do fundão que são ocidentais, e lá, eu sou a mais quieta. Até mesmo quando estou com o pessoal da banda, eu sou a mais quieta. Acho que quando estou com mais japoneses, mais quietinhos, aí eu sou a mais feliz.”
Ser feliz e ser quieta são as sensações que Carla possui na sua interação com os outros e que expressam seus sentimentos de inadequação. Possui sentimentos extremos na sua interação tanto com os ocidentais como com os orientais e ela não se encaixa em nenhum dos dois. Então, esta vivência que Carla coloca como viver sempre o meio termo, significa ser e não ser brasileira, e ser e não ser japonesa. “É, acho que eu sou os dois, minha família eu acho que eles
são muito japoneses, então eu acabo sendo japonesa, mas ao mesmo tempo, por viver no Brasil, toda hora festa assim. Eu também sou brasileira, uma coisa bem dividida.”
Interessante que Carla, quando diretamente requisitada para falar sobre a sua parte brasileira, isto é, sua identidade nacional, fez referência quanto a gostar de esportes, torcer pela seleção brasileira como sendo a sua brasilidade. Quando requisitada para falar da sua identidade étnica, sua parte japonesa seria saber fazer comida típica, falar e escrever o japonês e saber fazer dobraduras. Carla trouxe aspectos tanto da vivência de sua brasilidade como japonicidade, com sentidos bastante concretos (gostar de esportes e saber fazer algo relacionado ao japonês) e bem definidos. Mas ao mesmo tempo em que essas identidades, da forma como Carla colocou, parecem tão bem palpáveis, a linha divisória do que seja para ela ser japonesa e ser brasileira não é tão clara assim por todo o contexto de seu discurso. Pode-se dizer que sua vivência é sim “uma
coisa bem dividida”, mas que de maneira nenhuma essa divisão seja palpável com limites tão bem estabelecidos.
Talvez possa se analisar que a vivência de Carla seja ser brasileira, ser japonesa e também os dois dependendo da situação. Hoje ela tenta pertencer a um grupo que não é o da sua identidade étnica, grupo este com que se sente mais identificada, mas de modo algum poder-se-ia dizer que seja igual a eles. Vivência esta que parece deixar um vazio, de procurar e nunca encontrar o seu lugar de pertencimento. Berry (2004) coloca a integração como processo de adaptação bem sucedido, pois haveria o interesse e desejo do indivíduo em manter a cultura
original enquanto se interage diariamente com os outros grupos. Para o autor, este processo é tanto de continuidade quanto mudança, além de reciprocidade e acomodação mútuas, pois o indivíduo mantém alguns aspectos da sua herança cultural ao mesmo tempo em que se transforma para se acomodar às necessidades do outro grupo.
O autor nos dá a sensação de que quando este processo é conquistado o indivíduo se resolve definitivamente em termos de bem-estar, auto-estima, de saber nitidamente quem é, porque tem claro sua identidade étnica e nacional. O problema se encontra em saber se este nível de integração que o autor coloca é possível de ser alcançado pelo menos na realidade dos nikkeis no Brasil. Interessante que no Brasil atual poderíamos dizer que há todas as condições necessárias para que tal processo fosse algo que nos parecesse mais real, pois as condições que o autor coloca como fundamentais para que tal processo ocorra, como a realidade política, social, econômica e cultural do país que recebe o imigrante, parecem favoráveis no Brasil. Carla já é a terceira geração de japoneses no Brasil, isto é, ela representa quase 100anos de relação entre brasileiros e japoneses e o seu processo só pode ser definido como integração se fizermos várias ressalvas. Talvez possamos dizer que Carla está em processo de integração, mas as ambigüidades se apresentam.
Grosso modo, quando se analisa a comunidade japonesa no Brasil, é fácil dissertar sobre uma integração que parece inequívoca, porque a relação entre brasileiros e descendentes japoneses, como dito anteriormente, é respeitosa e muitos até diriam harmoniosa. Porém, não se pode compreender Carla, em sua singularidade, como uma pessoa que possui sentidos claros e definidos sobre sua identidade étnica ou nacional, que ela transita entre essas identidades de maneira tranqüila e bem resolvida.
Pode-se até argumentar que Carla é uma adolescente e que esteja vivendo suas crises de identidade, mas se formos pensar nesse tempo de convivência entre brasileiros e japoneses, será que discorreríamos sobre os processos de adaptação de forma tão veemente? Isto é, mesmo que Carla seja uma adolescente e que algumas linhas psicológicas afirmem que esta tenha que passar incondicionalmente por uma crise de identidade, ela carrega também toda uma historicidade de relações entre brasileiros e japoneses que poderiam fazer com que sua vivência da biculturalidade nem fosse aspecto relevante no contexto do seu discurso. Mas o que se apresenta para Carla é diferente, ela vive constantes ambigüidades, é como se vivesse sempre o
“meio termo” de forma que nunca se encaixa num lugar. Ela integra o ser japonesa e o ser brasileira mas, em seu subtexto, essa vivência não lhe traz um sentimento pleno de bem-estar e auto-estima.