Para falar sobre a crise filosófica da modernidade faz-se necessário definir o que seja modernidade, contemporâneo e o que seja o (pós) moderno. Em nossa abordagem, contemporaneidade é o que melhor representa o conceito de (pós) modernidade no pensamento filosófico. É imprescindível relatar que a modernidade aqui em evidência designa a época histórica da filosofia moderna, cronologicamente compreendida entre o século XV e fim do século XVIII e que o pós-moderno, enquanto advento da contemporaneidade filosófica representa uma superação conceitual daquele período, mesmo que carregue dele alguma herança. A contemporaneidade representa o advento de um novo tempo filosófico do pensamento, reconhecido em sua presença com a compreensão da crise da modernidade. Crise essa que também significou o atestado de falência dos modelos racionalistas de explicação da realidade.
Definir contemporaneidade pressupõe compreender o que é atualidade, que na tradição filosófica se coloca como o que anuncia o fim do moderno enquanto o território da racionalidade monorreferencial. Benjamin problematiza o conceito de tempo presente como o elemento estético histórico da atualidade. Desta forma, o sentido da metafísica do tempo presente reside na compreensão estético-filosófica do ser em sua relação existencial com a atualidade; tendo no conceito de experiência kantiano o seu referencial teórico.
Uma bela intervenção para lançar luz a esse tema sobre a compreensão do que seja a contemporaneidade, podemos encontrar na argumentação poética e atual de Giorgio Agamben380, em sua obra “O que é o contemporâneo? Antes de uma definição de contemporaneidade, Agamben381 também lança as seguintes perguntas: “De quem e do que
somos contemporâneos? E, antes de tudo, o que significa ser contemporâneo?” Agamben,
seguindo o mesmo caminho que adoto, recorre a Nietzsche inicialmente e a outros contemporâneos como Roland Barthes, que afirma que “o contemporâneo é o
intempestivo.”382 Retomando Nietzsche em suas “considerações intempestivas”,
Agamben383 afirma que,
380 AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009. 381 AGAMBEN, Giorgio. Op. Cit. p. 57.
382 BARTHES apud AGAMBEN, Giorgio. Op. Cit. p. 58. 383 AGAMBEN, Giorgio. Op. Cit. p. 59.
pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo.
Nesse sentido, a questão inicial se desfaz e a reflexão nos apresenta a ideia de que não se pode “ser” contemporâneo, mas “estar” contemporâneo. Pelo caráter contingente e fugidio de estar inatual, portanto, sempre além e adiante do seu tempo, o contemporâneo não se caracteriza como um sujeito que carrega em si mesmo o predicado do seu tempo; mas apenas as características que o coloca como possibilidade que se renova constantemente. Um renovar que é um projetar-se sempre em um deslocamento para o futuro que lhe possibilite um olhar desconstrutivo do seu próprio tempo presente. Um olhar benjaminianamente alegórico que suspenda qualquer conceituação definitiva sobre si e o liberte do continuum historicista que tenta lhe aprisionar à corrente do progresso, da mesma forma que amarrava as asas do Angelus Novus. Um estar contemporâneo é um estar em seu tempo, mas com um olhar que o desloca para o desprendimento que lhe possibilite a capacidade de apreender seu tempo com a liberdade de poder se desvencilhar de qualquer determinismo que possa limitar e estruturar seu modo de pensar à uma condição de passividade.
É nessa perspectiva que Giorgio Agamben reforça a tese de que, em uma encruzilhada histórica, o homem contemporâneo se vê preso a um grande dilema: o de com a lucidez reconquistada poder lançar um olhar questionador e até odioso ao seu tempo, mas sem poder se ausentar dele, pois esse é o tempo presente de sua existência.
um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe, em todo caso, que lhe pertence irrevogavelmente, sabe que não pode fugir ao seu tempo. A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo.384
Essa é a condição para se inserir na condição de contemporâneo: ser ativo e questionador, ser o homem do caráter destrutivo anunciando por Benjamin. Aqueles que se
conformam passivamente e que são coincidentes em tudo com sua época não são contemporâneos porque não conseguem captá-la e vislumbrá-la com estranheza.
É preciso esperar, para isso, a chegada de uma nova espécie de filósofos, daqueles que são animados de um gosto diferente, qualquer que seja, de um gosto e de uma inclinação que difeririam totalmente daqueles que estiveram em curso até aqui – filósofos de um perigoso ‘talvez’ (da suspeita), sob todos os aspectos. E para falar seriamente: já os vejo chegando, esses novos filósofos. 385
Agamben cita um poema do russo Osip Mandel’stam, escrito em 1923, que se intitula “O século”, como uma metalinguagem para compreensão do que é ser
contemporâneo. Para ele, na leitura do poema abaixo, o contemporâneo, tal como o poeta, deve manter firme o olhar em seu tempo, e que nele não procure perceber as luzes, mas o
escuro. “Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente.” 386
Meu século, minha fera, quem poderá /Olhar-te dentro dos olhos/e soldar com o seu sangue / as vértebras de dois séculos?/Enquanto vive a criatura / Deve levar as próprias vértebras, / Os vagalhões brincam / Com a invisível coluna vertebral. / Como delicada, infantil cartilagem / é o século neonato da terra. / Para liberar o século em cadeias / para dar início ao novo mundo é preciso com a flauta reunir / os joelhos nodosos dos dias. / Mas está fraturado o teu dorso / Meu estupendo e pobre século. / Com um sorriso insensato / como uma fera um tempo graciosa / tu te voltas para trás, fraca e cruel, / para contemplar as tuas pegadas.
O contemporâneo incorpora o espírito jovial contra o filisteíssimo dos antigos, com determinação e coragem. Assim podemos entender o tempo para o qual se anuncia a filosofia vindoura proposta por Benjamin em seu Programa. O século de acordo com o poema de Osip Mandel’stam é a fera desconstruída e fragmentada, tão alegórico quanto o
Ângelus Novus benjaminiano. Também o anjo da história, se detém desfigurado,
contrariando a ordem da racionalidade histórica. “Não apenas a época-fera tem as vértebras fraturadas, mas vek, o século recém-nascido, com um gesto impossível para quem tem o
385 NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Petrópolis: Vozes, 2009. p. 21. 386 AGAMBEN, Giorgio. Op. Cit. p. 63
dorso quebrado quer virar-se para trás, contemplar as próprias pegadas e, desse modo, mostra o seu rosto demente.387”
Como em um diálogo silencioso o anjo barroco de Klee, apropriado por Benjamin, e a época-fera se colocam como alegorias que anunciam o contemporâneo que é o futuro da filosofia anunciada por Benjamin no passado, a partir do seu Programa para uma filosofia vindoura. Mas essa contemporaneidade tem a crise da modernidade e a falência dos seus sistemas filosóficos como prenúncios do porvir.
A intenção benjaminiana era lançar para as gerações futuras do seu tempo o desafio de pensar uma nova filosofia que tivesse no conceito de experiência como apreensão estética da realidade o seu maior motivo. E a crise dos fundamentos da modernidade deixa para a contemporaneidade a compreensão de que sistemas fechados de pensamento tanto no campo das ciências lógico-matemáticas, quanto no campo do idealismo dogmático da tradição não encontram guarida em nosso tempo. A complexidade plural do tempo presente nos coloca a tarefa de convivermos com os ensinamentos da apreensão estética do mundo ao mesmo tempo em que nos abrimos para a meditação enquanto o afastamento do mundo para um melhor pensar especulativamente esse mundo, forjando o que poderíamos denominar benjaminianamente de Metafísica da experiência, ou metafísica do tempo-presente.
5.2 Crise da modernidade: considerações sobre Benjamin frente a alguns