Segundo os autores americanos LaRose e Straubhaar, as implicações da convergência são aspectos importantes de serem observados e analisados por profissionais, estudantes e pela academia, no sentido de que:
Quanto melhor eles entenderem essa mídia e sua evolução, poderão decidir mais inteligentemente como pensar a respeito delas, como planejar para elas, o que mais terão de aprender, a que atribuir maior importância [...] poderão começar a pensar não apenas sobre como o novo ambiente de comunicações de mídias os afetará, mas também como eles poderão afetá-los (LAROSE; STRAUBHAAR, 2004, p. XIV).
Ainda de acordo com esses autores, a convergência tecnológica traz consequências relevantes e específicas para cada meio. A abundância de canais, o
controle do usuário e a emergência de novas formas de multimídia são três dessas
implicações constatadas pelos referidos pesquisadores, cujas ocorrências serão examinadas a seguir com intuito de compreendê-las no contexto do rádio digital.
a) A abundância de canais: “quando as mensagens são codificadas digitalmente, torna-se possível o uso de compressão digital43” (LAROSE; STRAUBHAAR, 2004, p. 20). Tal implicação técnica, consequentemente, ocasiona a possibilidade de transmissão de mensagens por meio de múltiplos canais. Trata-se do surgimento de uma das potencialidades mais significativas, revolucionárias e motivadoras para o rádio digital: a multiprogramação. “Enquanto mais programas podem ser apertados dentro de um canal existente, a disponibilidade de canais também está crescendo” (idem, ibidem).
Para Bianco, esse aspecto da multiprogramação ocasiona relevantes vantagens ao cenário radiofônico digital:
As vantagens da transmissão digital são, potencialmente, significativas e sugerem que essa revolução tecnológica irá revitalizar o rádio tanto no conteúdo quanto na forma de consumo. Uma delas é a diversificação do conteúdo, uma vez que a tecnologia permite a divisão do espectro em dois ou mais canais de áudio. Pesquisadores da área de várias partes do mundo apontam para a necessidade de uma “reinvenção” do rádio analógico para que possa se adaptar à nova tecnologia (grifo nosso) (BIANCO, 2006, p. 02).
43A compressão de sinais reduz o número de dígitos que devem ser transmitidos. “Trata-se da subtração de informação redundante do conteúdo da mídia [...] ou a descoberta de maneiras mais eficientes de codificar a informação transmitida” (LAROSE; STRAUBHAAR, 2004, p. 20).
A maior preocupação nesse sentido é em até que ponto a multiplicação da oferta de canais será aproveitada com qualidade técnica e criatividade pelos empresários da comunicação, produtores, radialistas, jornalistas e outros profissionais do meio. Na realidade atual, com a existência de canais únicos de transmissão, a maioria das emissoras inseridas no dial analógico tem deixado grande proporção de ouvintes sem opções diferenciadas em relação à disponibilização de conteúdos, os quais precisam atender cada vez mais à lógica da hipersegmentação e da hiperespecialização das audiências, que por sua vez estão cada vez mais exigentes. Consideramos, portanto, que somente a oferta de novos conteúdos pode fazer valer tal consequência.
Paradoxalmente ao sugerido por LaRose e Straubhaar (2004, p. 20), uma ressalva recai sobre o debate a respeito da compressão e da disponibilidade de canais. Segundo a Benton Foundation (2000 apud TOME, 2004, p. 07), “ao ocupar os canais adjacentes e efetivamente aumentar a largura do canal ocupado por uma estação, está-se reduzindo a disponibilidade de espectro para eventuais novos atores”. Essa abordagem sugere um amplo debate sobre a questão das políticas públicas de comunicação para o rádio brasileiro (Cf. BARBOSA FILHO, 2009, pp. 121-141), o que não é foco principal desse estudo, todavia, reconhecemos a necessidade de se desenvolverem pesquisas especificas sobre tal temática.
b) O controle pelo usuário: “como o usuário vai manter-se em compasso com a proliferação dos canais?” (LAROSE; STRAUBHAAR, 2004, p. 22). A partir desse questionamento propomos a reflexão sobre a considerável inovação nos procedimentos de escolha de conteúdos por partes dos usuários-ouvintes do rádio digital. Segundo os referidos autores americanos (idem, ibidem), as “novas tecnologias digitais vêm permitindo a programação de nossos receptores com regras cada vez mais complexas de personalização”.
Essa afirmação nos ajuda a delinear perspectivas convergentes para o rádio digital, por exemplo: ao ligar o receptor inteligente, o usuário-ouvinte, auxiliado por um sistema instrutivo, poderá pré-estabelecer a sua programação de várias maneiras – um delas seria, com a utilização de um sistema de busca, procurar certos tipos de gêneros ou formatos radiofônicos, ou mesmo a sua música ou cantores preferidos. Ou seja, no rádio digital, a exemplo do que já ocorre em receptores de informação via satélite (Cf. LAROSE; STRAUBHAAR, 2004, p. 22), o usuário-ouvinte poderá criar a sua própria programação.
Ainda nesse sentido, podemos destacar as “mensagens pessoais” que poderão ser pré-configuradas para exibição diária nos futuros receptores de rádio digital, desde simples saudações até informações sobre o trânsito, tempo, cotação de bolsa de valores, astral, dicas, funções de agenda etc..
Outra consequência do controle pelo usuário sobre os conteúdos do rádio digital seria a personalização dos anúncios publicitários, os quais terão que ser produzidos por profissionais cada vez mais capacitados e criativos, capazes de persuadir os seus possíveis consumidores sem que eles sejam impulsionados a trocar de frequência. Nesse sentido, percebemos que a noção de controle pelo usuário aliada ao crescente
abundância de canais sinaliza também que:
[...] algum dia poderemos alterar os conteúdos dos anúncios de acordo com tipos específicos de lares ou introduzir variações em programas de entretenimento para atender os gostos de audiências cada vez mais específicas, ou até mesmo indivíduos específicos (LAROSE; STRAUBHAAR, 2004, p. 22)
Ao se refletir sobre esses aspectos múltiplos, pode-se perceber que a convergência digital tende cada vez mais a levar o usuário-ouvinte a atuar como um produtor de conteúdos. Além disso, podemos inferir que o “controle pelo usuário” em relação ao rádio digital e aos conteúdos veiculados pelo mesmo deve ser valorizado principalmente a partir dos níveis de interatividade, consideravelmente também ofertados pela convergência tecnológica.
c) A emergência de novas formas de multimídia. A priori, essa consequência da convergência se refere à questão de que o próprio conceito de multimídia, “que integra áudio, imagens e textos digitais em redes de dados – está apagando as antigas distinções rígidas entre os meios de comunicação” (LAROSE; STRAUBHAAR, 2004, p. 23). Isso significa que, embora cada meio de comunicação tenha sistema de produção e transmissão específico, a atual conjuntura propiciada pela digitalização determina o fenômeno da convergência entre eles.
O rádio digital deve estar dentro dessa lógica, afinal, como afirma Cordeiro (2004, p. 01): “o estilo hipermidiático agora utilizado recorre a quase todos os recursos da comunicação em rede, fazendo distinguir os meios de comunicação modernos [...] pela interatividade, hiperligações, personalização e atualização constante”.
Ao citarmos o termo hipermidiático44 precisamos apontar que, segundo LaRose e Straubhaar (2004, p. 23) essa é outra denominação para se descrever o fenômeno da convergência dos meios.
Dessa forma, como o intuito de compreendermos melhor tal definição, corroboramos o pensamento de Nunes, que analisa:
Os sistemas hipermídia [...] se apresentam como ferramentas de aprendizagem, produção, armazenamento e disponibilização de informações multimídia integrando diferentes tecnologias que absorvem a dinâmica das mídias predecessoras ajustando-se a nova realidade digital com especificidades ainda em delineamento. Destacamos a hibridização como uma característica auxiliar importante no contexto de construção da feição dos sistemas hipermídia (grifos nossos) (NUNES, 2009, p. 222).
De acordo com o referido autor, o fenômeno da convergência das mídias, assim como do processo de produção de seus conteúdos, tem nesse aspecto “híbrido” uma base para o seu desenvolvimento. No caso do rádio digital, a característica de hibridização proposta por Nunes pode ser entendida como a capacidade que tal mídia terá de se configurar sob a ótica da convergência, recuperando, atualizando e potencializando suas características basilares, ao mesmo tempo em que irá expandir sua ação para outras mídias. Ainda segundo o autor:
Esses translados corporificados em forma de passagem das características significantes de outras modalidades de articulação expressiva ao suporte digital denotam que os sistemas hipermídia se desenvolveram como um espaço de confluências intersemióticas (NUNES, 2009, p. 223).
Esse ambiente de convergência semiótica abordado pelo autor, e também mencionado por Santaella (2004), refere-se, tomando como exemplo o rádio digital, ao que já entendemos como o processo de hibridização entre os aspectos do suporte e da linguagem analógica, bem como das experiências do rádio na internet, que possam ser reaproveitadas, com as novas características que surgem com as potencialidades no aparato digital.
44
Segundo NUNES (2009, p. 230) “o prefixo hiper significa acima, posição superior ou mais além. O termo hiper foi utilizado na física por Einstein para descrever o novo tipo de espaço na teoria da relatividade, o hiperespaço: espaço visto de outro modo”.