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Belgede H-SILIKON SPREY 5 LITRE (sayfa 23-26)

Caminante Caminante, son tus huellas el caminho y nada más; Caminhante, no hay caminho, se hace caminho al andar. Al andar se hace el caminho, e al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se há de volver a pisar. Caminhante, no hay caminho sino estelas em la mar. Antonio Machado

Figura 2: Fotografia “Vaqueiro” do Fotógrafo brasileiro Araquém Alcântara.

Fonte: Disponível no google imagens.

Inicio este capítulo metodológico, com a poesia de Antonio Machado -

para explicitar que a minha reflexão acerca do método científico, considera a pluralidade de possibilidades não científicas. Considero essencial na escrita desta tese o reconhecimento das potencialidades das múltiplas linguagens, como formas de expressão e de tradução de outros aspectos também integrantes da realidade que o conhecimento científico tentar elucidar e explicar.

Reflito primeiramente, a partir da fotografia vaqueiro: quem guia? O vaqueiro? Aonde serão levados o vaqueiro e o cavalo? O que é mais essencial neste movimento do vaqueiro e do cavalo? Chegar ao destino? Percorrer o caminho? É possível uma alteração do trajeto desejado pelo vaqueiro se a natureza impuser o inesperado - algo que faça o cavalo não seguir as rédeas, nem as esporas e seguir um outro caminho, até mesmo sem o homem...

É presumível que o incerto, o imprevisto, estão presentes neste movimento, que integra o caminho, o vaqueiro e o cavalo, e os desconhecidos e conhecidos, que estarão à beira, ou no meio do caminho, que poderão ditar outros rumos e percursos para o vaqueiro e para o cavalo. O fotógrafo, por exemplo, que registrou a beleza do movimento deste momento, que pode dizer sobre tudo o que está expresso nesta fotografia?

Aceitando e considerando as incertezas próprias dos caminhos como ensina Antonio Machado procurei encontrar a forma de materializar nesta tese, um percurso metodológico, que integre elementos constitutivos da diversidade e da complexidade, que, a meu ver é uma exigência das abordagens que se esforçam no sentido de ampliar a sua compreensão acerca da vida humana.

Preciso ter a clareza, de que a utilização do método científico é objeto inerente e desafiante de quem escreve à luz da ciência. Exatamente, por isso, cabe o uso de método científico de forma crítica pelos cientistas, e não somente a mera reprodução de seus mecanismos. Acredito que é necessário perceber as inconsistências, as incoerências e lhes conferir certa tensão para que se renove e se recrie o método.

Santos (2009) afirma que a ciência moderna possibilitou a consagração como sujeito epistêmico, contudo retirou o sujeito empírico, que por ser exterior, tornou-se um objeto, sendo, portanto, a base desta ciência a distinção dicotômica entre sujeito e objeto.

Destaca o autor que “[...] a ciência moderna existe num equilíbrio delicado, entre a relativa ignorância do objeto do conhecimento e a relativa ignorância das

condições de conhecimento que pode ser obtido sobre ele”. (SANTOS, 2009, p. 82,

grifo nosso). Refere, ainda, que a separação entre sujeito e objeto do conhecimento se dá, portanto, num processo de cumplicidades não reconhecidas (SANTOS, 2009).

Reforça também, Santos (2009), que os métodos científicos são consubstanciados, como argumentos cuja sequência e a técnica de apresentação são da competência do cientista, sendo, portanto, o conhecimento científico, intrinsecamente pessoal. Tomando como base os ensinamentos de Michel Polanyi (1962) e Paul Feyerabend (1982), Santos (2009) destaca que:

[...] os métodos científicos, tal como a filosofia da ciência os define, são um resumo árido e deturpador da utilização concreta de métodos feita por cientistas concretos. Os métodos são ambíguos, e o seu uso é aceite apenas com base em muitas premissas de assentimento no seio da comunidade científica, as quais constituem a “componente tácita” do conhecimento. Pode, assim, concluir-se que a verdade científica é uma ‘verdade fiduciária’ baseada na determinação da credibilidade dos cientistas e da genuinidade das suas motivações. (SANTOS, 2009, p.101, grifo nosso).

Com efeito, o autor evidencia como uso das metodologias da antropologia cultural e social, de um lado foram articuladas, e, por outro lado com as metodologias da sociologia, com vistas a harmonizar, em certa medida, a distinção epistemológica entre sujeito e objeto. O autor afirma:

Na antropologia, a distância empírica entre sujeito e objeto era enorme. O sujeito era o antropólogo, o europeu “civilizado”, o objeto era o povo “primitivo” ou “selvagem”. Neste caso, a distinção, empírica e epistemológica, entre o sujeito e objeto era tão gritante que a distância teve de ser encurtada através do uso de metodologias que obrigavam a uma maior intimidade com o objeto, nomeadamente o trabalho de campo etnográfico e a observação participante. Na sociologia, pelo contrário, era pequena ou mesmo nula a distância empírica entre o sujeito e o objeto: eram cientistas “civilizados” a estudar seus concidadãos. Neste caso, a distinção epistemológica obrigou a que esta distância fosse aumentada através do uso de metodologias de distanciamento: por exemplo, os métodos quantitativos, o inquérito sociológico, a análise documental e a entrevistas estruturada. (SANTOS, 2009, p. 82).

O referido autor reexamina a distinção entre sujeito e objeto de forma a aprofundar o que esta ocasionou e refere que este processo reforçou a distinção entre

natureza como a sociedade, conforme explicita Santos (2009). O autor propositor e defensor de um conhecimento emancipação reforça que:

Esta desumanização do objeto foi crucial para consolidar uma concepção do conhecimento instrumental e regulatória, cuja forma do saber era a conquista do caos pela ordem. Do ponto de vista do conhecimento emancipatório, a distinção entre sujeito e objeto é um ponto de partida nunca um de chegada. Corresponde ao momento da ignorância, ou colonialismo, que é nada mais nada menos do que a incapacidade de estabelecer relação com o outro a não ser transformando-o em objeto. O saber enquanto solidariedade visa substituir o objeto-para-o-sujeito pela reciprocidade entre sujeitos. (SANTOS, 2009, p.83, grifo nosso).

O autor assume uma postura ética de que no conhecimento emancipação a união e a integração do pesquisador e objeto de estudo são aspectos relevantes e presentes para se enfrentar os grandes desafios que estão postos para a humanidade. Esta visão aproxima e redireciona o método de forma radicalmente diferente do que está em vigência no paradigma hegemônico. Assume, portanto um compromisso com uma ciência pautada na legitimidade do Ser humano e das suas criações comprometidas com a vida. O autor apresenta, neste sentido, assumidamente o caráter autobiográfico na produção do conhecimento emancipação, como pode ser lido nas suas palavras:

No paradigma emergente, o caráter autobiográfico do conhecimento- emancipação é plenamente assumido: um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos. Não se trata do espanto medieval perante uma realidade hostil possuída do sopro da divindade, mas antes da prudência perante um mundo, que apesar de domesticado, nos mostra cada dia a precariedade do sentido da nossa vida, por mais segura que esta esteja quanto à sobrevivência, sendo certo que para a esmagadora maioria da população mundial não o está. (SANTOS, 2009, p.84, grifo nosso).

O autor aprofunda o debate acerca do método científico, apontando que:

A crítica do método não pode ser feita sem uma crítica do estilo. Nem o estilo é apenas o hábito, nem o método é apenas o monge. Ambos são as duas coisas. Contudo, a crítica do método científico não tem sido igualada por uma crítica do estilo científico, quer quanto ao discurso, quer quanto ao comportamento e atitudes. Isto deve-se, provavelmente, ao facto de que a crítica da ciência tem sido feita, sobretudo, por cientistas que escrevem em revistas científicas, normalmente com violações do método que com violações do estilo. (SANTOS, 2014, p.125, grifo nosso).

Estes aspectos aprofundados por Santos (2009; 2014) trazem uma leitura histórica do estabelecimento da ciência moderna, e como se concretizou a sua hegemonia, reconhecendo a necessidade de crítica e apontando novas possibilidades, a exemplo do conhecimento emancipação. Destaca Santos (2014), que desde o século XVII no continente europeu o discurso erudito tem travado uma

“[...] guerra santa contra o discurso poético e contra o seu dispositivo mais importante, a metáfora. Daí que pouca gente, hoje em dia, cultive metáforas nos seus jardins. A uns faltam as sementes, a outros os utensílios; a maior parte não tem sequer jardins. (SANTOS, 2014, p.125).

O autor avança no seu pensamento postulando que a literatura e a ciência, ambas transformam os fatos empíricos em artefatos, apesar das construções se darem de formas bem diferentes (SANTOS, 2014). Com efeito, destaca que:

[...] essa diferença se baseia numa semelhança igualmente crucial, ou seja, no fato de tanto a literatura como a ciência possuírem estruturas construtivas próprias para darem conta do mundo. Num período de transição paradigmática faz todo o sentido acentuar (e clarificar) a semelhança em lugar da diferença. (SANTOS, 2014, p.107, grifo nosso).

Na tentativa de clarificar as semelhanças o autor apresenta como foram desenvolvidos pela teoria literária e pela epistemologia os “tipos ideais”, entre aspas, conforme escreve o autor, em ambas. A partir do exposto sustenta que a formação

científica é descontínua tanto no momento em que ocorre, como no momento em que é recordada, e justamente por isso “[...] qualquer texto escrito constitui sempre uma

ponte entre (pelo menos) dois tempos.” (SANTOS, 2014, p.119). Precisamente “[...] é uma ponte entre diferentes percepções, cuja relação entre si chamamos identidade.” (SANTOS, 2014, p. 119).

Estes ensinamentos de Boaventura de Sousa Santos me encorajam no desenho metodológico que desenvolvo nesta tese. Reconheço, de imediato, as possíveis e desejáveis dificuldades de operacionalizar um desenho metodológico coerente com o paradigma emergente, como também a minha imaturidade na pesquisa, que precisa percorrer aspectos relativos a autobiografia e a teoria a partir de uma contra epistemologia. Contudo, o contexto no qual estou inserida e os temas em questão nestes escritos clamam por uma perspectiva criativa em termos de método, exercitando uma prática necessária como pesquisadora implicada na saúde coletiva.

Esta tese, por sua vez, no meu entendimento, busca uma prática de ecologia de saberes, enquanto uma contra epistemologia, que dá possibilidades de

integração e interação empiria-teoria, com inovações metodológicas. Não estou teorizando sobre a ecologia de saberes, mas estou assumindo-a como o modo de praticar ciência nesta tese.

Contudo é necessário dizer que isto só é possível para mim, porque adoto como premissa o pensamento complexo. Acato a reforma do pensamento proposta por Edgar Morin como subsídio para romper com uma forma de pensar que separa, para uma forma de pensar que reúne. Isto me ajuda a articular um pensamento que percebe as possibilidades de integração sujeito-objeto neste texto.

Reconheço, primeiramente, que é necessário escolher um recorte, que deve ser suficientemente adequado para a produção de um texto científico, mas que tenha abertura para uma interlocução com outras linguagens. Delineei um trajeto de pesquisa, e, constituí um esforço para avançar num percurso em direção ao fim, que, de pronto não é conhecido, mas que se constitui como uma imagem-objeto.

Identifico, contudo, alguns desafios: articular o conhecimento científico à adoção das múltiplas linguagens, a saber: fotografia, poesia, música e pintura na tessitura de um texto, que se esforça no sentido de romper com um estilo dito científico para um estilo que se aproxime da ecologia de saberes; e o imbricamento destas linguagens com a empiria, apresentada, a partir de uma narrativa, ou de um ensaio narrativo, que coloca o autor numa hermenêutica dialética e temporal frente ao cotidiano da práxis.

Destaco que estas linguagens fazem parte de um conhecimento que fui aprendendo ao longo da minha trajetória de vida, que expressam um saber, que não conseguiria ser explicitado no estilo do texto acadêmico. Estas linguagens traduzem um saber cultural, que foi se constituindo na identidade de pessoa-sertaneja.

Neste texto, portanto, entremeio a empiria que reconheço como estruturante e fundante da ação de pesquisa, advinda de um ensaio narrativo, a um debate teórico-conceitual, consubstanciado em uma base epistemológica, que é o pensamento de Boaventura de Sousa Santos.

Este processo de produção do conhecimento científico, sem abdicar da beleza e da sabedoria proporcionada por outras formas de ver a realidade dialoga com a crítica que tem sido pautada no âmbito da saúde coletiva, acerca da ciência moderna e os seus limites. Um exemplo desta crítica é a produção do Dossiê Abrasco:

mais vendidos da Abrasco e, está escrito nesta perspectiva de congregar diversos esforços de pesquisadores e movimentos sociais na produção científica de uma nova ciência, ou ciência engajada. Não se trata de negar a contribuição da epidemiologia, no campo da saúde coletiva, mas de reconhecer outras contribuições metodológicas. A parte 3 intitulada: Agrotóxicos, conhecimento científico e popular: construindo a ecologia de saberes, apresenta uma visão crítica acerca da ciência brasileira. Este livro foi elaborado por pesquisadores do tema saúde-ambiente e trabalho, que pesquisam principalmente os impactos dos agrotóxicos à saúde humana e movimentos sociais camponeses.

O referido documento afirma reconhecer no campo científico elementos do produtivismo tayloristafordista. Relembra que Taylor constatou as dificuldades de implantação do seu sistema de controle da produtividade no processo de trabalho, porque os trabalhadores na época se negaram a aceitá-lo. Taylor, por sua vez adotou como estratégia monetarizar a imposição, e experimentar na fábrica da Ford a contratação de jovens trabalhadores, que seriam remunerados de acordo com a sua produtividade, contabilizada em número de peças, auferida e comparada pelos cronometristas - que então podiam ir elevando os patamares, à medida que a resposta era favorável (AUGUSTO et al., 2015).

O dossiê abrasco de forma provocativa indaga aos pesquisadores: poderíamos ler em nosso contexto atual alguns indicadores de premiação monetarizada da obediência aos valores do sistema de avaliação, por exemplo, através da bolsificação do trabalho docente (em tempos de bolsificação também da pobreza em nosso país)? Qual o impacto disto em nossa capacidade de reflexão, de crítica e de contestação? Ou a resposta seria a subordinação? (AUGUSTO et al., 2015). E, por fim reforça:

Se os sujeitos acadêmicos da produção do conhecimento são prejudicados, certamente também o é a própria produção: vale a pena abraçar objetos de estudo complexos – como é a realidade? Não é mais prático recortar, simplificar, reduzir? Os necessários diálogos interdisciplinares não demandam um tempo de maturação prejudicial à produtividade exigida, e não complicam o acesso às revistas científicas? Não é melhor eleger estratégias de publicação que resultem num número maior de artigos, a despeito de desconfigurar a totalidade do objeto investigado? Estamos construindo uma fast-science, ferida por um pragmatismo que releva a fragmentação do conhecimento produzido, e tende a afastá-lo cada vez mais da complexidade do real, reduzindo as possibilidades de que ele dialogue com os reais problemas da sociedade e venha a contribuir para melhor compreendê-los ou

A meu ver, em se tratando de produção de conhecimento emancipatório, não se ganha com o produtivismo científico, sendo acertadamente incertos os resultados desta lógica. Fulgura um paradoxo no campo da saúde coletiva, que tem como hegemonia, a epidemiologia, que está assentada na ciência clássica, onde se coadunam distintas visões de mundo: por um lado o movimento sanitário e o ideário do sistema defendido pela saúde coletiva, como movimento, que tem como princípios a justiça e equidade, trazendo para o SUS, o desafio de dialogar com temas complexos da realidade em termos de práticas e de pesquisas; e por outro lado a adesão à atual política de produtividade científica, que regulamenta e normatiza a produção científica em que são pontuados a relevância do conhecimento produzido, a depender do periódico onde tal estudo foi publicado.

Desconsidera-se, que o acesso a tais periódicos, por exemplo, é muito mais para os pesquisadores já reconhecidos, e, que jovens pesquisadores, que podem inovar e produzir novos conhecimentos tem muito mais limites na concorrência, sendo, portanto, esta uma questão que remete a invisibilidade de um determinado grupo de pesquisadores, que não interessa ao padrão hegemônico.

Devo dizer que, além de apresentar uma tese de doutorado, entre os meus anseios, está o de contribuir com o Programa de Doutorado em Saúde Coletiva, no qual estou vinculada com um debate teórico-metodológico que tencione para novas rupturas no modo de pensar e fazer saúde.

Outro aspecto que me condicionou a buscar outras referências teórico- metodológicas relacionou-se à minha curiosidade acadêmica, como também à busca de me aproximar um pouco das ciências humanas e sociais, como a Educação e a Sociologia. Isto, porque acredito que estes campos disciplinares podem ampliar sobremaneira a minha atuação como pesquisadora na saúde coletiva, que desenvolve pesquisas voltadas para grupos populacionais vulnerabilizados.

Belgede H-SILIKON SPREY 5 LITRE (sayfa 23-26)

Benzer Belgeler