A sentença de mérito transitada em julgado tem o seu conteúdo tornado imutável. Ela faz a coisa julgada material que é uma qualidade que a sentença ganha após o trânsito em julgado. Quem melhor estudou o tema, deixando clara a distinção entre a coisa julgada e os efeitos da sentença foi Enrico Tullio Liebman133.
Após apontar que, tradicionalmente, a doutrina confunde a coisa julgada com os efeitos da sentença, Liebman destaca que constitui erro de lógica definir a autoridade da coisa julgada como efeito da sentença e, por conseqüência, identificá-la com a eficácia declaratória da sentença por, principalmente, a lei já conferir efeitos à sentença antes do trânsito em julgado.
Em síntese, anota Liebman que “a autoridade da coisa julgada não é efeito da sentença, como postula a doutrina unânime, mas sim modo de manifestar-se e produzir-se dos efeitos da própria sentença, algo que a esses efeitos se ajunta para qualificá-los e reforçá-los em sentido bem determinado”.134
Ao contrário de ser um efeito da sentença, a coisa julgada, a partir de Liebman, em que é acatado por quase unanimidade da doutrina brasileira, é uma qualidade, um elemento novo, o plus que qualifica todos os efeitos da sentença.
A coisa julgada, portanto, não se confunde com o trânsito em julgado, que é o momento da passagem da sentença da situação de mutável para a de imutabilidade, quando não há mais possibilidade de a sentença vir a ser alterada.
Não obstante acolhida pela doutrina nacional, há algumas observações que merecem ser feitas, considerando principalmente críticas feitas por José Carlos Barbosa Moreira e Ovídio Baptista da Silva.
132 Op. cit. p. 344.
133 LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia e Autoridade da Sentença e Outros Escritos sobre a Coisa
O primeiro defende que a coisa julgada não consiste propriamente na imutabilidade dos efeitos da sentença, mas na imutabilidade do conteúdo do comando da sentença, pois (i) os efeitos da sentença podem vir a ser modificados ou extintos, e (ii) se o objeto for Direito disponível, as partes podem ajustar, após o trânsito em julgado da sentença, solução distinta.
O segundo concorda com Liebman e com José Carlos Barbosa Moreira, com a ressalva de que a coisa julgada seria a qualidade de imutabilidade que recai (não sobre o conteúdo do comando jurisdicional), mas apenas sobre a declaração contida na sentença. Nas suas palavras:
“Pelas considerações precedentes, cremos que se pode concluir, com LIEBMAN, que a coisa julgada não é um efeito, mas uma qualidade que se ajunta não, como ele afirma, ao conteúdo e a todos os efeitos da sentença, tornando-a imutável, e sim apenas ao efeito declaratório, tornando-o indiscutível (que é o meio de a declaração tornar-se imutável!) nos futuros julgamentos.”135
Isso porque, segundo Ovídio, os demais efeitos, como o condenatório, podem extinguir-se ao longo do tempo, mas o efeito declaratório permaneceria incólume. Por exemplo, uma dívida reconhecida em juízo pode vir a ser perdoada ou paga, mas os efeitos declaratórios (de que alguém foi reconhecido como devedor de outrem) permanecem íntegros.
Parece-nos, todavia, que as posições de Ovídio e Barbosa Moreira não se excluem. Este entende, em síntese, que a imutabilidade se limita ao conteúdo, não aos
134 Id. p. 36. 135 Op. cit. p. 496.
efeitos (que seriam plenamente mutáveis). Já Ovídio liga a imutabilidade aos efeitos, que podem se alterar, exceto a eficácia (aptidão para produzir efeitos) declaratória.
Eduardo Talamini bem condensa os entendimentos e explica a oposição de José Carlos Barbosa Moreira de quando as partes podem dar outra solução ao litígio que já foi resolvido e fez coisa julgada: quando a norma abstrata aplicada pelo julgador não for cogente:
“Note-se que a possibilidade de as partes darem outra solução para a questão (inclusive, tendo por existente o que se reputou inexistente) não é afetada nem mesmo pela idéia de que a coisa julgada ‘imuniza’, estabiliza, a
norma concreta para a situação objeto do processo. Se a norma em abstrato não era ‘cogente’ (i.e., não estabelecia posições jurídicas indisponíveis), a norma
concreta da mesma natureza se reveste. A ‘maior intensidade’ de que norma em
concreto se reveste, se comparada com a norma em abstrato, está retratada na sua intangibilidade em face da lei, de novos pronunciamentos jurisdicionais e, conseqüentemente, da insubordinação do vencido. Todavia, o conteúdo disponível da relação não se altera. Sustentar o contrário implicaria atribuir caráter material à coisa julgada e função criadora de direito à sentença. Já quando a norma abstrata era ‘cogente’ (no sentido acima indicado), assim como a parte titular da posição jurídica ativa já não podia dispor dessa posição antes, não poderá igualmente fazê-lo depois. Nesse sentido, haverá de se submeter cogentemente também à sentença que declara a norma in concreto (i.e., ‘atua a vontade concreta da norma’). A ‘indisponibilidade’ não está na coisa julgada, mas na norma atuada.”136
E, de fato, faz sentido a colocação do ilustre autor, considerando que a sentença nada mais faz do que criar a norma concreta a partir da norma abstrata. Assim, a característica da disponibilidade está na natureza da norma posta pelo legislador, que transmite esse seu conteúdo material à norma concreta. E o próprio artigo 850, do Código Civil vigente, reconhece que a transação pode ser nula “apenas se algum dos transatores não tinha ciência da anterior coisa julgada”.
Claro, portanto, que a coisa julgada diz respeito ao Direito Processual, à imutabilidade de comando sentencial. Do ponto de vista do direito material, as partes podem transacionar, renunciar, reconhecer, etc., sem que isso interfira na coisa julgada. No máximo, a decisão transitada em julgado não produzirá efeitos concretos. O que se opera, com a coisa julgada, é que, em juízo, não se pode mais discutir a mesma questão já apreciada.
Mas o certo é que, amigo de definições, o legislador de 1973, definiu a coisa julgada material no artigo 467, segundo o qual “denomina-se coisa julgada material a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário”. Claramente inspirada em Liebman137, à definição podem-se apontar algumas falhas, como (i) a falta de distinção entre a coisa julgada material e formal, (ii) quais espécies de sentenças ganhariam o selo da imutabilidade e indiscutibilidade, (iii) o que determina que a sentença vai se tornar imutável e indiscutível é o trânsito em julgado, mais do que a coisa julgada material, que, na verdade, passa a existir a partir daí, e (iv) pode parecer que há uma vinculação entre a coisa julgada e a eficácia da sentença, que são coisas distintas (o que ocorre é que, no mesmo instante, surge a coisa julgada e a sentença começa a produzir efeitos).
Antônio Carlos de Araújo Cintra atribui função dúplice à coisa julgada: (i) define, de forma vinculativa, a situação jurídica das partes e (ii) impede que se volte a discutir em processo ulterior a lide que já foi objeto de julgamento.
E a importância da coisa julgada é tamanha que o legislador, nos artigos 267, § 3138, e 301, § 4139, do Código de Processo Civil, autoriza o julgador a reconhecer
137 Segundo Antônio Carlos de Araújo Cintra (Comentários ao Código de Processo Civil. v. IV. p. 309), o
artigo 507 do Anteprojeto do Código de Processo Civil era mais próximo da definição de Liebman do que o atual 467, embora não idêntico, pois Liebman via a autoridade da coisa julgada como qualidade da sentença e dos seus efeitos. O artigo 507 era do seguinte teor: “chama-se coisa julgada material a qualidade que torna imutável e indiscutível o efeito da sentença não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário”.
138 Art. 267. Extingue-se o processo, sem resolução de mérito: (...) V — quando o juiz acolher a alegação
de perempção, litispendência ou de coisa julgada. §. 3. O juiz conhecerá de ofício, em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não proferida a sentença de mérito, da matéria constante dos ns. IV, V e VI; todavia, o réu que não a alegar, na primeira oportunidade em que lhe caiba falar nos autos, responderá pelas custas e de retardamento.
139 Art. 301. §. 4. Com exceção do compromisso arbitral, o juiz conhecerá de ofício da matéria enumerada
de ofício140 sua ocorrência, caso haja a tentativa de novo ajuizamento de ação anteriormente julgada, sobre a qual já tenha se operado a coisa julgada material.
Há, também, uma relação entre eficácia (aptidão para produzir efeitos) e a coisa julgada, que, entretanto, não se confundem. Isso porque, no Código de Processo Civil, a sentença só começa a produzir efeitos quando se torna imutável. Há, é claro, exceções, como as antecipações de tutela, cada vez mais comuns, deferidas, em geral, com base no artigo 273, do CPC. Mais correto afirmar, assim, que os efeitos plenos e definitivos das sentenças são produzidos a partir da formação da coisa julgada.
A nova situação jurídica, da coisa julgada, que se verifica a partir do trânsito em julgado, dá à sentença uma autoridade que se corporifica na resistência a sucessivas tentativas de modificação de seu conteúdo. Ela existe para dar estabilidade à tutela do Estado, em razão da necessária segurança jurídica — valor fundamental do sistema.
E a coisa julgada material só pode ser rediscutida se verificado algum vício, em ação própria, que é a rescisória, a seguir referida.