Segundo Yasbek, a compreensão do serviço social no processo de reprodução das relações sociais só pode ser desvendada através da analise no interior da profissão, ultrapassando a analise do
55 serviço social em si mesmo e passá-lo a situar no contexto de relações sociais mais amplas da sociedade capitalista.
Então, um conceito fundamental para a compreensão da profissão na sociedade capitalista é o conceito da reprodução social que, na tradição marxista se refere ao modo como são produzidos e reproduzidos as relações sociais nesta sociedade. (Yasbek, 2009, 127)
A reprodução das relações sociais passa pelo entendimento de totalidade da vida social em reprodução, ou seja, além da reprodução da vida material e do modo de produção, está também incluída a reprodução da vida social e das formas de consciência social da qual o homem constrói ou toma posição ao longo da sua vida em sociedade.
Partindo do pressuposto de que a sociedade na qual estamos inseridos é dividida em classes com interesses antagônicos, independente das elaborações ideológicas, pois dada a apropriação privada dos meios de produção, a riqueza produzida é monopolizada por uma parte da sociedade – a classe dos capitalistas.
A reprodução desigual de acumulação, que é socialmente produzida, necessita da recriação e ampliação das classes e uma fundamental nesse processo é a dos trabalhadores e o aumento do poder da classe capitalista, portanto ocasionando uma ampliação da pobreza para a classe dominante, expressando assim a luta travada entre as classes.
A forma como o serviço social está inserido na sociedade está fundamentada na concepção de reprodução social num processo de totalidade das relações sociais, ou seja, de uma totalidade em
56 permanente movimento o qual cria as e recria os conflitos resultantes dessa relação.
O serviço social participa do processo de reprodução dos interesses de preservação do capital, assim como é demandado para responder as necessidades de sobrevivência dos que vivem do trabalho.
A analise do serviço social a partir dessa perspectiva nos permite apreender as implicações políticas do exercício profissional desenvolvido no contexto das relações entre as classes, ou seja, compreender que a pratica profissional é necessariamente polarizada pelos interesses das classes sociais. Como também nos permite apreender as dimensões objetivas e subjetivas do trabalho do assistente social, as quais de acordo com Yasbek, as objetivas se apresentam no sentido de considerar os determinantes sócio-históricos do serviço social ao passo que as dimensões subjetivas se apresentam no sentido de identificar a forma como o assistente social incorpora em sua consciência o significado do seu trabalho e a direção social do seu exercício profissional.
A influência neotomista e positivista nos pressupostos do serviço social ocultaram o elemento fundante da questão social e reproduziram um profissional inserido num processo de moralização13 da questão social. Na trajetória do trato da questão social observamos a naturalização da questão social em que os problemas sociais são vistos como algo natural do sujeito e como natural no processo de sociabilidade
13Explica os fatos exclusivamente por seus aspectos morais. A moralização trata a questão social de
57 moderna, como característica imanente de todo e qualquer processo de civilidade; há também a psicologização da questão social na qual os problemas sociais derivam de funções psicológicas. Essas formas de enxergar as expressões da questão social individualizam o sujeito, descaracterizando a questão social do seu caráter histórico vinculado à dinâmica da ordem burguesa.
Esses elementos que em determinado momento passam ser indicadores da intervenção da profissional dos assistentes sociais – naturalização, psicologização e a moralização – requer um profissional especifico, que desenvolve uma pratica particular e ocupa papel e função específicos, na ordem burguesa, ou seja, o da reprodução material e ideológica da classe trabalhadora.
A base de intervenção do serviço social, deste a sua gênese como profissão é a questão social. O significado social se dá na vinculação concreta que a profissão vai ter na sociedade capitalista, ou seja, na contradição de quem paga e quem demanda seus serviços.
Essa contradição não se revela de imediato como parte integrante da organização da profissão, mas é compreendida e adquire sentido no espaço das relações sociais concretas da sociedade da qual faz parte.
O assistente social atua no campo da mediação, no espaço de convergência e de contradições, que é a própria sociedade. Esse caráter contraditório do exercício profissional é configurado pelo campo dos interesses antagônicos entre as classes. Romper com o
58 pragmatismo/fatalismo14 – visão determinista da sociedade – ou messianismo/voluntarismo15 – visão heróica da profissão – é entender esse caráter contraditório, pois esse tipo de olhar são distorções dos processos sociais e que não reconhece a realidade do mercado de trabalho.
A profissão de serviço social também precisa ser analisada sob dois ângulos os quais são indissociáveis, por um lado as respostas dos assistentes sociais as demandas que são postas no cotidiano profissional, por outro lado as condições societárias que estabelecem o terreno sócio-histórico onde se realiza a profissão, remetendo as dimensões objetivas e subjetivas anteriormente explicitadas.
Essas dimensões da atividade profissional, como atividade vivida e representada pela consciência do profissional de serviço social e também como atividade socialmente determinada, apresentam-se de forma contraditórias. A dimensão objetiva é contraditória visto que estamos numa sociedade capitalista, pois o profissional encontrará limites dentro da conjuntura social e histórica, mas, contudo buscando possibilidades de apresentar, criticamente, as alternativas e possibilidades.
14Constitui uma escola de filosofia, com origens nos Estados Unidos da América, caracterizada pela
descrença no fatalismo e pela certeza de que só a ação humana, movida pela inteligência e pela energia, pode alterar os limites da condição humana. Este paradigma filosófico caracteriza-se, pois, pela ênfase dada às consequências - utilidade e sentido prático - como componentes vitais da verdade. Fonte: Wikipédia
15Caracteriza movimentos ou atitudes movidas por um sentimento de "eleição" ou "chamado" para o
59 O significado social da profissão está em responder as determinações históricas e sociais, para isto acontecer a profissão precisa estar inserida na própria sociedade criando e recriando essas determinações históricas e sociais. A profissão de serviço social situa-se no contexto das relações sociais e necessariamente precisa ultrapassar a situação de “em si mesmo”.
Para Iamamoto e Carvalho (2000) para compreender o serviço social precisamos considerar as condições e relações sociais que nos permitam apreender o significado social da sociedade capitalista, pois a profissão está situada como um dos elementos que participa da reprodução e das relações de classe, sem localizá-la de forma focalizada, a-critíca e a a- histórica.
Para Montaño há a necessidade de se compreender a gênese do serviço social a partir de duas teses as quais nos permite refletir sobre as abordagens utilizadas pelos assistentes sociais e suas perspectivas de superação frente aos rebatimentos impostos pela sociedade capitalista.
Os assistentes sociais, em diversas oportunidades, se “debatem” em torno de duas concepções, duas teses sobre a natureza e o processo da gênese do Serviço Social. Agora bem, tais concepções, que podemos com relativa generalização agrupar em suas perspectivas, se comportam como verdadeiras teses. Elas contêm um arsenal heurístico teórico-metodológico que extrapola a mera consideração sobre a gênese do Serviço Social. (Montaño, 2007, 07)
60 A natureza do serviço social, segundo Montaño, apresenta duas teses, antes já referenciadas como distintas e antagônicas. A primeira tese refere-se à perspectiva endógena a qual sustenta que a origem do serviço social advém de um processo de evolução e profissionalização das antigas formas de ajuda e da caridade. Os teóricos que defendem esta tese apresentam a idéia do serviço social tradicional, ou seja, uma profissionalização e sistematização da caridade e da filantropia. Essa tese aborda e entenda a profissão como sendo vista a partir de si mesma, ganhando autonomia histórica perante a sociedade, as classes e as lutas sociais, defende uma visão particularista ou focalista, pois compreende o surgimento do serviço social atrelado as atividades e ações de sujeitos particulares, como sendo resultado pessoal e a historia da sociedade entendida apenas como sendo uma crônica paralela ao desenvolvimento da profissão sem rebatimentos a esta. A segunda tese refere-se a perspectiva histórico- critica a qual entende a profissão como resultado da síntese histórica dos projetos políticos-ecônomicos, inseridos no contexto capitalista monopolista, reproduzindo-o de maneira material e ideologicamente, no qual o Estado toma para si a responsabilidade da precariedade do sistema materializado na questão social. Enquanto a primeira aceita e defende a continuidade existente entre Serviço Social atual e formas anteriores de ajuda, filantropia e até caridade; a segunda percebe e defende que houve, de verdade, uma ruptura na essência funcional do Serviço Social.
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