Em seu trabalho, Miozzo e Soete (2001) realizaram uma taxonomia do setor de serviços com base na tecnologia, classificando o segmento das lavanderias na categoria de empresas dominadas pelos fornecedores e pertencentes ao setor de serviços pessoais, conforme já referenciado. Os autores afirmam que a principal fonte de tecnologia advém do setor de manufatura, o que pode ser comprovado no segmento das lavanderias: apropriação de avanços tecnológicos no fornecimento de equipamentos de processo (máquinas com diversos tipos de lavagem e automação), de produtos químicos (associados a diversos tipos de lavagem), de automação e controle de processos (máquinas e dosagem automática de produtos químicos) e, finalmente, softwares específicos para a gestão do negócio como um todo, abrangendo as áreas de linha de frente, processamento de roupas e entrega do serviço.
Battisti; Vigorena e Alves (2012) indicam que as inovações tecnológicas no setor de serviços dominados pelos fornecedores (caso das lavanderias), são oriundas de fornecedores de equipamentos (ex.: máquinas para o processo de lavagem) e material (ex.: produtos químicos, insumos de processo, entre outros), visando a redução de custos e a utilização dessas tecnologias, como uma das principais estratégias do setor.
Gallouj (1997) identifica o uso de ferramentas técnicas (por exemplo, novas tecnologias em equipamentos e acessórios), como determinantes para a inovação em determinados serviços. O autor categoriza as empresas de serviços pessoais (no qual estão inseridas as lavanderias domésticas), como empresas de serviços dominados por equipamentos e fornecedores técnicos.
Ao estudarem a gestão da tecnologia nas empresas de serviços, Mc Dermott; Kang e Walsh (2001) desenvolveram um framework direcionado à geração de valor adicionado aos serviços com foco na tecnologia/sistema/processo (conhecimento dentro da organização) ou no trabalhador (conhecimento básico). As lavanderias domésticas são apontadas pelos autores como serviços de conhecimento básico do trabalhador, cujo maior foco na adoção e implementação da nova tecnologia é a resposta do trabalhador no processo de produção do serviço (como por exemplo, a aquisição de novas máquinas, automação, entre outros). Os operadores interagem e monitoram os equipamentos automáticos e não necessitam de habilidades especiais para desempenhar suas funções.
Na mesma linha, Kang (2006) classificou os serviços de acordo com o valor gerado ao cliente pelo uso do conhecimento:
a) Serviços baseados no conhecimento: a maior parte do valor ao cliente é dada pela pessoa que oferece o serviço (ex.: computação gráfica, salões de beleza, educação, serviços profissionais, serviços legais, cuidados com a saúde, consultores, contadores, entre outros);
b) Serviços que embutem conhecimento: são os que envolvem o valor ao cliente no sistema que fornece o serviço (ex.: lavanderias domésticas, restaurantes tipo fast food, transporte de passageiros, embarque e distribuição, empresas de seguros, teatros e museus, viagens e recreação, entre outros).
As lavanderias, conforme a divisão acima, encontram-se no grupo de serviços que embutem conhecimento. As características desse grupo, de acordo com o autor, são a repetibilidade e melhor conformidade da qualidade, porém o papel do funcionário interagindo com a tecnologia é diferente. Este funcionário é uma extensão da
tecnologia, que reduz ou substitui a necessidade de certas habilidades. Ou seja, a tecnologia é colocada em funcionamento por meio do funcionário que pressiona botões quando solicitado, escolhe programas, entre outros. Assim, o treinamento da mão de obra é efetuado para capacitação em um processo rotineiro e padronizado e não para que possa interferir no equipamento em si. Nesse tipo de serviço puro, o consumidor interage na seleção das opções de entrega.
O uso de patentes/licenças, universidades e institutos de pesquisa foi considerado de baixa relevância para as empresas de serviços pesquisadas por Evangelista e Sirilli (1998) (somente 25% das empresas inovadoras consideraram relevantes). No mesmo estudo, os autores pesquisaram as fontes de inovação para as mesmas empresas e constataram que a aquisição e o desenvolvimento de softwares e máquinas/equipamentos foram as principais atividades nas quais as empresas investiram na busca da inovação. No segmento de limpeza, 77% das empresas investiram em software e 73%, em máquinas e equipamentos. Apesar disso, esse segmento teve o menor custo de investimento de inovação por empregado entre todos os setores pesquisados.
Ao analisarem as características estratégico/operacionais das empresas de serviços do tipo "fábrica de serviços" (onde se incluem as lavanderias domésticas), Kellogg e Nie (1995) consideraram essas empresas, como usuárias do tipo de tecnologia com longa conexão. Esta classificação confere características de racionalização da tecnologia, de modo que o processo de serviço pode ser padronizado e repetitivo, levando assim a uma elevada eficiência, a exemplo do que ocorre nas lavanderias domésticas. Conforme os autores, outras características das "fábricas de serviços" e que têm aderência com o segmento das lavanderias são: o ajuste prévio dos passos do processo (no caso, processos de lavagem e acabamento das roupas); o balanço de tarefas ao longo das estações de trabalho (no caso das lavanderias a recepção, separação, processamento, acabamento, conferência e entrega). Estas tarefas exigem certas habilidades técnicas para aumentar a eficiência e que são conseguidas pelo treinamento no próprio local de trabalho, como realmente ocorre no segmento das lavanderias domésticas.
2.8.1.2.1 Equipamentos
A revista Laundry and Cleaning News (2012) aborda o setor de lavanderias na America Latina e Caribe, analisando as tendências para o mercado brasileiro das lavanderias. O artigo mostra o crescimento do mercado nacional, porém acentua o elevado custo de importação dos equipamentos de lavagem com tecnologia mais avançada vindos da Europa e Estados Unidos da América, além de barreiras de importação como procedimento para proteger os fabricantes nacionais. O artigo também evidencia que, no Brasil, o fator econômico é mais importante que o ambiental (sustentabilidade) às lavanderias.
A redução do peso do efluente, visando a um procedimento de lavagem mais sustentável em lavanderias domésticas, foi estudada por Fijan S., Fijan R. e Sostar- Turk (2008). Os autores abordam a implementação de procedimentos de lavagem sustentável em lavanderias domésticas de modo a reduzir o efluente líquido nos processos, com foco no uso de túneis de lavagem (processo contínuo de lavagem em lugar do convencional por batelada) e o reuso de água de lavagem.
A viabilidade do uso da lavagem wetcleaning como alternativa ao emprego de solventes clorados (especificamente percloroetileno) foi estudada por Sinsheimer e Latif (2007), que afirmam que a tecnologia wetcleaning não foi adotada plenamente, como uma tecnologia substituta ao percloroetileno, mas, sim, uma alternativa, ou seja, as lavanderias manteriam as duas tecnologias ativas no mesmo empreendimento. Os autores explanam a respeito do histórico da regulação da utilização do percloroetileno, intensificada a partir da década de 1990, e o interesse em alternativas com foco ambiental e ocupacional (ex.: solventes isoparafínicos, siliconados e wetcleaning).
A tecnologia wetcleaning demanda, conforme referem Sinsheimer e Latif (2007), agentes de limpeza biodegradáveis, que maximizem a limpeza, minimizem a mudança de cor e o encolhimento. Com relação aos fatores ambientais, o estudo concluiu ser wetcleaning uma alternativa viável ao processo de lavagem a seco tradicional nas áreas de gasto energético, tecnologia com baixas emissões (ar e líquidas), minimização de efluentes perigosos (no caso de percloroetileno, há o
descarte monitorado da sujidade de fundo que contém solvente) e a minimização da contaminação do solo e água do subsolo. O sistema é constituído por uma máquina de lavar que opera com baixos níveis de água e agitação lenta e controlada. O sistema de secagem também controla a umidade residual das roupas por meio de um sistema automático, minimizando o encolhimento das peças.
A utilização de gás carbônico (CO2) como solvente alternativo também vem sendo
estudada pelos fabricantes de máquinas de lavar. Nesse caso, uma máquina especial contém o gás, que é submetido a certa pressão previamente estipulada e torna-se líquido, atuando como solvente. Emprega detergentes especiais na pré- lavagem e lavagem.
A tecnologia Green Earth utiliza máquinas que lavam utilizando um solvente especial à base de silicone, que permite a lavagem de roupas do cotidiano e peças especiais. Também utiliza detergentes específicos na pré-lavagem e lavagem.
2.8.1.2.2 Produtos Químicos
Gallouj e Weinstein (1997) citam que as características técnicas internas dos produtos podem prover um serviço; indicam, como exemplo, que produtos químicos em serviços de limpeza (como os de lavanderias) conferem características técnicas tangíveis usadas para produzir as características do serviço (ex.: roupas mais brancas, com aroma, com detalhes customizados, entre outras). Os autores complementam que a indústria de limpeza desenvolveu uma série de competências, como recrutamento, treinamento de técnicos, uso de produtos químicos e técnicas especiais que apoiam a prestação de serviço.
Palovita e Järvi (2008) estudaram o uso residencial de detergentes para lavagem de roupas, utilizando a Gestão da Cadeia de Valor do Meio Ambiente (EVCM ou Environmental Value Chain Management). A EVCM está ligada às necessidades dos consumidores, valor e informação com respeito a aspectos ambientais e relacionada com o impacto dos produtos de uso corrente dos consumidores, desde a aquisição de matérias-primas e energia, até a gestão de efluentes.
A EVCM tem como objetivo aumentar a atenção para os aspectos ambientais, por meio de informações sobre o comportamento do consumo para fornecimento de produtos e serviços com menor impacto ambiental. Os autores concluíram que os consumidores atentos ao meio ambiente usam utensílios para medir a dosagem, porém, de maneira geral as pessoas não percebem as residências como possíveis poluidoras, mas, que poderia ser benéfico adotar o pensamento ecoeficiente (melhora do valor econômico e redução do impacto ambiental, simultaneamente) em seu consumo. Apesar das versões concentradas, os fabricantes não tiveram sucesso em reduzir o excesso da dosagem de detergentes pelos consumidores (só a metade dosava corretamente) nem diferenciar produtos concorrentes em termos ambientais.
2.8.1.2.3 Tecnologia da Informação (TI)
Com o crescimento e diversificação da indústria de softwares no Brasil, o segmento das lavanderias também buscou agilizar sua operação, tanto na linha de frente (cadastramento de clientes, recebimento e entrega de roupas), como em todo o processamento de seus serviços (etiquetas com codificação e rastreabilidade das peças), que inclui a linha de retaguarda. Com a evolução tecnológica e o aumento da concorrência, muitas lavanderias vêm optando por sistemas informatizados que possam melhor atender às suas demandas, auxiliando na organização do processo produtivo e na recepção e entrega dos serviços prestados.
Algumas empresas de software, como a Equipe Sistemas iniciou suas atividades em 1996, para atender à necessidade do uso de tecnologia da informação para gerir os negócios das lavanderias. No início, havia poucas lavanderias que vislumbravam uma melhora em sua operação, mas gradativamente os softwares tornaram-se parte integrante do processo de inovação tecnológica. Nessa área, a inovação formalizou- se com o desenvolvimento de softwares customizados para lavanderias, com módulos que vão sendo desenvolvidos à medida que novas necessidades são criadas, desde as áreas financeira, estoque, controle de peças e gerenciamento
remoto de todo o processo pelos proprietários. A customização dos módulos hoje é efetuada por meio de treinamento e consultoria contínua.