2. METRO PROJELERĐNE GENEL BAKIŞ
3.8 Metro Yatırımlarında Fizibilite-YDM Karşılaştırması
Sistemas baseiam-se em leis que possibilitam seu funcionamento. Os sistemas políticos, econômicos e religiosos desenvolvidos na América sob a égide hispânica endossaram seus afazeres num instrumental teórico comum: as doutrinas da fé cristã, supostamente ancoradas na Bíblia. Isto se deve à romanização da península ibérica, a que Espanha herdou de Roma:
uma língua e uma cultura universais. Estes “logros”245 reforçaram-se com a difusão e arraigo do Cristianismo na totalidade das terras hispânicas [...]. O Cristianismo, nova religião que assumia grande parte do legado espiritual de antigo mundo e que se tinha estendido por todo o Império, chegou mais tarde à Hispania, mesmo assim, se enraizou nela profundamente [...]. A obra de Roma culmina com a difusão do Cristianismo, que, junto ao classicismo, constitui o alicerce da cultura ocidental246.
Isto não significa que houve homogeneidade de critérios entre as diferentes instancias de poder, nem mesmo ao interior da Igreja, no que se refere à maneira de interpretarem o ser humano, a sua relação com a natureza e seu papel na sociedade. Um mesmo texto, a Bíblia, usou-se tanto para criticar a colonização de América, quanto para legitimá-la.
Neste item, apresentar-se-ão essas duas maneiras de ler a realidade à luz do referido livro. Para tanto, tomam-se como referência quatro personagens para compreender ambas as vertentes: o escritor de o Parecer de Yucay247 e Antônio Nicolas
244 Frase tomada do artigo intitulado Cien poetas cubanos, da Revista Cubaliteraria:
http://www.cubaliteraria.cu/antologia/cien_poetas/autores.html. (Última consulta em 25-04-2010). 245
Aspas nossas. 246
QUESADA, Sebastián. Curso de civilización española, pp. 27-30. 247
Gustavo Gutiérrez, na sua obra intitulada Deus ou ouro nas índias, pp. 52, 53, numa nota de rodapé, explica que “foi muito discutida a autoria desse documento”, que se tem atribuído a Pedro Gutiérrez Flores, confessor e capelão dos vice-reis; a Jerônimo Ruiz Del Portillo, confessor de Toledo; e também a Frei García Toledo, dominicano. Segundo o autor, este último critério “parece pôr ponto final na
Duque de Estrada, como defensores da colonização e da cristianização dos povos subjugados, mesmo através de métodos violentos; e Antonio Montesinos e Bartolomeu de las Casas, como representantes do grupo que se opunha à exploração da população indígena.
O interessante é que, mesmo tendo fundamentos bíblico-doutrinais similares, as exegeses dos dois grupos, referidos no parágrafo anterior, eram bem diferentes. O catolicismo romano tem uma rica tradição doutrinal e uma considerável quantidade de documentos que explicam a sua filosofia de vida, a sua visão de mundo e a sua estrutura. Não é possível abranger aqui esse arcabouço doutrinal, por tal motivo, somente se apresentará uma narração concisa de alguns aspectos pontuais para destacar como apesar de o escritor de o Parecer de Yucay, Antônio Nicolas Duque de Estrada, Antonio Montesinos e Bartolomeu de las Casas, terem uma doutrina comum, a visão de mundo destes dois últimos difere muito da dos dois primeiros.
Uma tentativa de destacar alguns aspectos relativos à maneira da Igreja Católica entender o seu papel na sociedade, o surgimento do mundo e o agir dos seres humanos, aparece no seguinte trecho248. Adverte-se que muitos dos pontos a serem enfatizados também são compartilhados pelas outras vertentes do cristianismo, isto é, as protestantes e ortodoxas.
O Deus imutável, eterno, infinito, onisciente, onipotente e criador de tudo quanto existe, encarnou-se através de seu filho Jesus Cristo, que nasceu de uma virgem, Santa Maria. A sua vinda à terra tinha sido anunciada por meio das profecias contidas na Escritura Sagrada. Devido aos milagres que fez, à sua filosofia de vida, à pureza de sua doutrina e seus princípios morais, comportamento exclusivo de quem é Deus, teve problemas com as estruturas de poder, por isso foi condenado a morrer em uma cruz, na época em que Poncio Pilatos governava a Judéia. Foi enterrado num sepulcro vigiado por guardas romanos, ao terceiro dia ressuscitou, subiu ao céu e se sentou à direita do Pai, todo-poderoso. Desde lá observa os seres humanos e julga o comportamento deles, recompensa os bons e castiga os maus. Para que ninguém pereça, ou para conduzir os discussão”. Mesmo assim, no presente trabalho optou-se pela não utilização de um nome específico, mas pelo uso de um título que identifica o documento no qual estão contidas ideias teológicas que “justificavam” a presença da Espanha no vi-reinado do Perú.
248
O trecho contendo o resumo sobre alguns aspectos da doutrina católica foi construído pelo autor a partir da leitura de vários dos credos cristãos – como, por exemplo, o Credo dos Apóstolos e o de Nicea- Constantinopla –, bem como de várias passagens bíblicas relativas ao tema.
seres humanos pelo caminho da “verdade”, Jesus Cristo fundou a Igreja Católica, que é guiada pelo Espírito Santo, que é tão verdadeiro Deus quanto Deus Pai e Deus Filho. Segundo a interpretação da tradição da Igreja Católica Romana, ela recebeu a missão de ensinar a todas as nações a “verdadeira doutrina”.
Na interpretação católico-romana, o fato de a Igreja ter sido fundada por Cristo e estar “dirigida” pelo Espírito Santo, a torna infalível – atributo do qual também, supostamente, o Papa é possuidor –, no que diz respeito às questões religiosas e aos costumes. Ela será responsável pelo estudo e ensino da Bíblia, bem como pela formulação de preceitos, ministérios, beatificações, entre outros aspectos. Como a grande maioria das pessoas comete erros, ou pecados, é preciso que exista uma via para redimi-los. Qualquer pecado, sem importar a sua gravidade, pode ser perdoado se o indivíduo que o cometeu se arrepender. Para tanto, Jesus Cristo instituiu o sacramento da confissão, que é ministrado através de seus representantes na terra, os sacerdotes. A pessoa que recusar a doutrina cristã e a confissão de seus pecados estará condenada ao inferno, pois a vida não termina com a morte: a alma da pessoa passará ao céu, purgatório – passo prévio à purificação da alma – ou inferno. O poder de perdoar ou condenar, a missão de evangelizar e a infalibilidade das decisões da Igreja seriam critérios decisivos que marcariam a atuação, positiva ou negativa, de clérigos, elites e governantes no processo de colonização da América hispânica.
Juan Manuel Pérez, na sua obra intitulada E estes, não são homens? A igreja e a
verdadeira historia da América, ao se referir à irrupção das hostes espanholas na
geografia dominicana, afirma:
A conquista e a submissão dos índios a serviço dos reis de Castela apoiavam-se em dois grandes princípios [...]. Em primeiro lugar está a doação do papa, em virtude de sua soberania temporal, conseqüência da soberania espiritual. Como conseqüência da doação, os reis de Castella são os soberanos das terras descobertas e têm direito de ocupá-las. Se os índios se negam a submeter-se de bom grado a seu serviço, o príncipe cristão pode declarar-lhes guerra e submetê-los à força.
O segundo pressuposto, admitido naquela época sem discussão, é a superioridade do cristão sobre o infiel. À condição de pagão está unida uma série de práticas e costumes contra a natureza, por transgredir a ordem estabelecida por Deus: antropofagia, sacrifícios humanos, sodomia, idolatria, etc. O príncipe cristão, que de certo modo considera-se o guardião da ordem natural criada por Deus, acredita-se com direito e obrigado a intervir para que não se continuem cometendo esses crimes. Pelo menos é sua obrigação erradicar esses vícios na terra dos cristãos. A extensão da fé cristã, a conversão dos pagãos dentro de seus territórios é uma das tarefas próprias de
que são incumbidos os governantes cristãos. O poder do Estado está a serviço do poder espiritual249.
Um exemplo dessa lógica o constitui o Parecer de Yucay250, documento que Gustavo Gutiérrez aborda num trecho de seu livro intitulado Deus ou ouro nas Índias (século XIX). O autor, no seu comentário, auxilia-se da seguinte parábola, de Garcia de Toledo:
Deus se comportou com esses gentios miseráveis e conosco como um pai que tem duas filhas: uma, muito branca, muito discreta e cheia de graça e donaires; a outra, muito feia, remelosa, néscia e rude. Para casar a primeira, não é necessário dar-lhe dote, mas deixá-la no palácio, que lá irão os pretendentes, com um dos quais ela se casará. À feia, desajeitada, néscia, desgraciosa, não basta isso, sendo necessário dar-lhe grande dote, muitas jóias e roupas ricas, suntuosas e caras, e, com tudo isso, deus e ajuda [...]. O mesmo fez Deus com eles e conosco. Todos nós éramos infiéis, a Europa, a Ásia, mas, no natural, grande formosura, muitas ciências, discrição [...]. Foi necessário pouco para que os varões apostólicos desposassem essas almas com Jesus Cristo pela fé do batismo. Essas nações daqui eram criaturas de Deus e, por felicidade, capazes desse matrimônio com Cristo, mas eram feias, rústicas, néscias, inábeis, remelosas e precisavam de grande dote [...]. E assim [Deus] lhes deu até montanhas de ouro e prata, e terras férteis e deleitosas, para que nesse odor houvesse gente que por Deus quisesse ir a essa pregação evangélica e os batizassem, e se tornassem essas almas esposas de Jesus Cristo [...]. Mas digo e ouso afirmar que, se é verdade que, na ordem da predestinação, não só os bens da graça, como graça, caridade e virtudes, são meios de predestinação e salvação dos homens, mas também os bens temporais, em alguns são meios de predestinação e salvação, e, ao contrário, a falta deles pode ser motivo de condenação, há alguns que por ocasião das riquezas se salvarão, e outros que, por falta delas, se condenarão [...]. Assim, digo desses índios que um dos meios de sua predestinação e salvação foram essas minas, tesouros e riquezas, porque vemos claramente que onde elas existem o evangelho vai voando e porfiando, e onde elas não existem, mas as terras são pobres, isso é meio de reprovação, porque jamais chegará lá o evangelho, como com grande experiência se vê que para a terra que não tem esse dote de ouro e prata não há soldado nem capitão que queiram ir, sequer ministro do evangelho251.
Tais afirmações poderiam parecer um exagero e até escandalizar qualquer pessoa que nos dias de hoje respeite os Direitos Humanos, mas esses postulados, no século da
249
PÉREZ, Juan Manuel. E estes, não são homens? A igreja e a verdadeira historia da América. São Paulo: Editora Letras & Letras, 1993.
250
Gutiérrez explica que “trata-se, sem dúvida, de um testemunho importante nas discussões teórico- jurídicas motivadas no Peru pela presença espanhola nas Índias”. O autor acrescenta que “o texto se encontra na Biblioteca Nacional de Madri e foi publicado na Colección de documentos para La historia de
España com o seguinte cabeçalho: Cópia de uma carta que, segundo uma nota, se achava no arquivo geral das índias e que retificamos com outra, que temos à vista, na carta se trata do verdadeiro e legítimo domínio dos reis da Espanha sobre o Peru e se impugna a opinião de Pe. Fr. Bartolomeu de las Casas”.
Cf. GUTIÉRREZ, Gustavo. Deus ou ouro nas Índias (século XIX). São Paulo: Edições Paulinas, 1993, p. 52.
251
colonização espanhola na América eram comumente admitidos. Gutiérrez, reagindo a esses pronunciamentos, afirma: “É difícil encontrar expressão mais clara de racismo e eurocentrismo. Afirmação de superioridade da raça branca e da cultura ocidental”252.
Num outro trecho, este mesmo autor, adverte que “sua posição [a de Garcia Toledo] a respeito da fundação das minas no anúncio do evangelho não é isolada”253. Seguindo essa lógica evangelística, no ano de 1797, o presbítero Antonio Nicolás Duque de Estrada cria o que poderia considerar-se uma “pedagogia” da evangelização para converter os negros bozales ao cristianismo. Manuel Moreno Fraginal, no seu livro intitulado El ingenio, 254 ao se referir às relações entre as usinas e a Igreja, o descreve assim:
A vida é uma tarefa diária, um trabalho contínuo como o dos negros que vão ao mato para cortar lenha. A lenha cortada mede-se em tarefas, que o capataz confere rigorosamente. Jesus Cristo é assim como o capataz: tudo anota, de nada se esquece. Um dia o mundo acabará e será como o dia da semana em que acaba o corte de lenha. Do mesmo modo que o capataz castiga se não realizarmos as tarefas, Jesus Cristo nos condena se não cumprirmos com nosso dever espiritual [...]. A alma limpa, pura do homem bom, do escravo bom, é como o açúcar branco, com seus grãos reluzentes, sem mistura nem impureza. Mas nenhuma alma é assim. Todas têm impurezas como a rapadura [...]. Para limpá-la devem ir à Casa da Purga, como as almas vão ao purgatório. As almas totalmente sujas perdem-se para sempre, condenam-se, como o açúcar queimado que se joga fora. Mas as boas vão ao purgatório, e permanecem lá até tirar a sujeira do pecado, e vão ao céu, que é como ir ao secadouro. [...] se houver almas tão limpas que nem precisassem ir ao purgatório, seria como obter açúcar branco sem necessidade de passá-la pela Casa da Purga. Esta iria diretamente para o Secadouro-Céu255.
Pode-se afirmar que também houve teologias diferentes das anteriores, que tentaram devolver ao cristianismo seu antigo papel de religião das classes oprimidas256. Neste sentido, acrescenta-se:
São lições de humanismo, de espiritualidade e de esforço para dignificar o homem as que nos ensinam Antonio Montesino, Córdoba, Bartolomeu de las Casas, e que terão eco em outros lugares [...]. São homens nos quais palpita a preocupação pelo fraco, pelo indefenso, pelo indígena, sujeitos dignos de todo respeito como pessoas portadoras da imagem de Deus, destinados a
252
GUTIÉRREZ, Gustavo. Deus ou ouro nas Índias (século XIX), pp. 107, 108, 109. 253
Idem. 254
MORENO FRAGINAL, Manuel. El ingenio, pp. 157, 116. 255
Idem. Ibid., pp. 157, 118. 256
uma vocação transcendente. Daí nascera o primeiro direito Internacional, com Francisco de Vitória257.
Aqui somente se destacarão algumas idéias relativas ao sermão de Montesinos, do qual existe somente o resumo legado por Las Casas, no seu livro Historia de las
Indias. Essa pregação representava não somente o sentir de Montesino e Las Casas, mas
o de toda a comunidade de frades dominicanos258 residentes em 1511 na Hispaniola. Frei Carlos Josaphat, referindo-se a de Las Casas afirma que “em seu espírito combativo, diríamos espontaneamente dialético, ele se compraz mesmo no gosto de mostrar que América nada tem de inferior. Ele a exalta em sua superioridade, em suas excelências e belezas, buscando contrabalançar os preconceitos e o menosprezo dos colonizadores”259. Tal sentimento também era compartilhado por vários de seus irmãos de ordem. Em seguida, apresenta-se um trecho do referido sermão, pregado no Advento de 1511:
Todos vós estais em pecado mortal e nele viveis e morrereis, por causa da crueldade e da tirania que usais com essas gentes inocentes. Dizei: Com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão esses índios? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a essas gentes, mansas e pacíficas, que estavam em suas terras, onde tão infinitas delas, com morte e estragos nunca ouvidos, fizestes desaparecer? Como as tendes tão oprimidas e fatigadas, sem dar-lhes de comer nem cuidar delas em suas enfermidades, nas quais incorrem pelos excessivos trabalhos que lhes impondes, e morrem, ou, para melhor dizer, as matais, para extraírem ouro e o ajuntardes cada dia? E que cuidado tendes para que elas sejam doutrinadas e conheçam seu Deus e Criador, sejam batizadas, ouçam missa e guardem as festas e domingos? Eles não são homens? Não tem almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis isso? Não sentis isso? Como podeis estar em sono tão profundo e letárgico? Tende por certo que no estado em que vos achais não vos podeis salvar, não mais que os mouros ou turcos, que não têm e não querem a fé em Jesus Cristo.
Essas duas vertentes de interpretação teológica, a expressa no Parecer de Yucay e a contida no sermão de Montesino, não ficaram circunscritas aos territórios de Peru e a Dominicana, mas estenderam-se a todas as colônias espanholas. Em Cuba, infelizmente, o eco da que legitimava a escravidão escutou-se com maior força, mesmo assim
257 Texto tomado do prólogo de MANUEL PÉREZ, Juan. E estes, não são homens? A igreja e a verdadeira historia da América, que cita um trecho da homilia de João Paulo II em Santo Domingo, em 25 de janeiro de 1979.
258
CAMPOS VILLALON, Luisa. Pedro de Córdoba precursor de uma comunidad defensora de la vida. Tese para a obtenção do grau de Bacharel em Teologia, na Escola Dominicana de Teologia, na cidade de São Paulo, no ano de 2001, p. 63.
259
JOSAPHAT, Carlos Frei. Las Casas. Todos os direitos para todos. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p. 89.
perdurou o exemplo de algumas daquelas pessoas que decidiram se colocar do lado dos oprimidos.
Pode-se concluir que o catolicismo praticado em Cuba instaura-se ao estilo e interesses dos aventureiros colonizadores, do catolicismo popular espanhol, porém não totalmente coincidente com a ortodoxia oficial, expressando-se, predominantemente, em termos de aperfeiçoamento espiritual e de salvação da alma, do contato mágico com o sobrenatural, apelando ao milagre através de petições, promessas, mortificações associadas com o temporal e a vida terrena, recorrendo a santos, virgens e objetos que servem para estas relações. Mais que ao ensino da Bíblia o catolicismo popular recorreu às imagens, estampas, novenas, peregrinações e aos rosários260.
3. Considerações sobre as influências culturais dos povoadores autóctones e