Em várias localidades da península arábica os povos nômades criaram cidades com níveis distintos de organização política. A mais importante delas foi Meca, na região do Hedjaz. Em seus primórdios, cada clã tinha sua majlis – espécie de conselho – e sua própria pedra de adoração, mas a união dos clãs propiciou a formação da cidade de Meca que, por consequência, uniu todas as pedras num único santuário, esse, ficou conhecido por Caaba. A partir daí, o conselho formado pelos majlis dos clãs congregou-se numa instituição denominada mala‟, nela, o poder dos sheiks acabou sendo suprimidos pela força de algumas famílias que passaram a exercer um poder oligárquico.
Os primórdios da cidade de Meca são incertos, o fato é que, com o fim do estado de paz entre os impérios Bizantino e Sassânida (Persa) houve grande dificuldade na utilização das antigas rotas de comércio entre eles, gerando, com isso, a necessidade de explorar outras. Uma vez que a cidade de Meca já era conhecida como um forte entreposto comercial, acabou tendo essa característica reforçada e um dos ramos de clãs que passou a exercer forte domínio sobre a cidade foi o coraixita.
Assim, num cenário em que a importância da cidade de Meca estava relacionada diretamente ao seu status de polo comercial e centro religioso, qualquer propositura de mudança, indubitavelmente sofreria forte reação do clã detentor do poder, nesse caso, o coraixita. Ainda que essa inquietação por mudança fosse algo proveniente de grupos de árabes que, insatisfeitos com a suposta inferioridade de suas religiões – por não terem tido, como judeus e cristãos, um profeta destinado a guiá-los – estivessem suscetíveis a novidades.
E, justamente no início do século VII, quando os questionamentos insurgentes logo eram abafados pelas lideranças locais que se beneficiavam do modelo estabelecido, surge Mohammad, o profeta da nova religião. Ele tem praticamente todos os seus registros de vida narrados no Corão. Fora essa fonte, pouco há sobre sua vida. Ele teria nascido em 570; não chegou a conhecer seu pai e tornou-se órfão logo aos seis anos com a morte de sua mãe. Primeiramente foi viver com seu avô, mas ele faleceu e passou a ser criado por seu tio Abu Talib, líder do clã Banu Hashim, que fazia parte da tribo dos coraixitas.
O clã de Abu Talib não era o mais poderoso dentre os coraixitas e dedicava-se ao comércio, contudo, quando Mohammad já tinha 25 anos e seu clã passava por dificuldades financeiras, um casamento com uma rica viúva mudou substancialmente a vida do jovem. Khadija era quinze anos mais velha que Mohammad, entretanto, apesar da tradição permitir a monogamia, durante o período em que Khadija esteve viva, Mohammad somente a desposou. Quanto aos filhos, Mohammad teve oito – de seus demais casamentos –, contudo, apenas quatro mulheres chegaram à idade adulta e a que maior relevância teve para a história islâmica foi Fátima, que se tornou a esposa de seu primo Ali. (MOMEN, 1985; ARMSTRONG, 2002)
A nova religião surgiu a partir das revelações que o profeta Mohammad recebeu do arcanjo Gabriel, por volta do ano de 610. Segundo a tradição islâmica, o processo deu-se a partir do momento que Mohammad, durante seu retiro ao monte Hira – nas proximidades de Meca – recebeu a ordem do arcanjo Gabriel para que recitasse.
Maomé, em vão, alegou que não sabia recitar; ele era uma kahin, um dos profetas extáticos da Arábia. Mas, disse ele, o anjo simplesmente o abraçou de novo até que, quando pensou haver chegado ao limite da resistência, sentiu saírem-lhe boca afora as palavras divinamente inspiradas de uma nova Escritura. A Palavra de Deus falava pela primeira vez em solo árabe, e Deus havia finalmente se revelado aos árabes em sua própria língua. O livro sagrado se chamava qu‟ran: a Recitação.
(ARMSTRONG, 2002, p. 56)
Após o primeiro contato de Mohammad com a palavra divina, o processo de recebimento das revelações tornou-se ininterrupto até sua morte, em 632. Entretanto, a difusão da fé islâmica não ocorreu de forma automática; nos primeiros anos das revelações Mohammad tinha muitos receio acerca de sua função. Sua esposa, Khadija, foi a primeira pessoa a crer na nova religião; na sequência houve a adesão de Ali, seu primo, com apenas nove anos na época, Abu Bakr e Zayd, outro membro do clã22.
Quatro anos após o início das revelações, Mohammad começou o processo de difusão da nova fé por Meca, no entanto, os membros mais velhos dos demais clãs não aceitaram a nova religião devido ao receio de que a cidade deixasse de ocupar a importância comercial e religiosa que detinha naquele momento. Segundo Momen, no início da pregação da nova fé os seus princípios eram simples (e assim continuam), quais sejam: 1) a existência de um único Deus; 2) Mohammad o profeta para difundir a palavra de Deus; 3) Proibição da Idolatria; 4)
22 Essa ordem seria contestada, posteriormente, pelos sunitas os quais consideram que Abu Bakr teria sido a
segunda pessoa a abraçar a religião islâmica. A contestação passara a ter mais importância na ocasião da disputa pela sucessão do profeta. Essa discussão será abordada nos próximos subcapítulos.
Proibição de enterrar meninas (bebês) vivas; e, 5) A necessidade de o homem purificar seus pensamentos e ações para o Dia do Juízo Final. (1985, p. 03)
Devido à forte resistência imposta pelos líderes dos clãs de Meca contra a nova religião, a vida de Mohammad foi colocada em risco e só foi preservada porque houve a ação de seu tio Abu Talib que, mesmo diante de fortes pressões e ameaças, não retirou a proteção sobre seu sobrinho. Ainda, para que não houvesse o desencadeamento de vinganças sangrentas entre os clãs – conforme determinava o costume árabe quando algum membro era assassinado – a vida de Mohammad foi preservada.
Em 619, com a morte de sua esposa, Khadija, assim como do tio e protetor, Abu Talib, Mohammad passou para a proteção do clã de Abu Lahan, outro tio do profeta. Todavia, Abu Lahan sempre fora seu inimigo inveterado e não estava disposto a defendê-lo dos demais inimigos que conquistara com suas pregações. Essa situação desconfortável para Mohammad fez com que ele fosse banido de seu clã e tivesse que deixar a cidade em busca de outra proteção. Para sua insatisfação e humilhação, somente encontrou proteção junto ao clã Nawfal, cujo líder era um idólatra.
A situação de desconforto para o profeta Mohammad passou a mudar quando, em 620, fez seus primeiros contatos com membros da cidade de Yatreb (atual Medina) e conseguiu angariar mais alguns fiéis para sua religião. Na sequência, em 622, foi programada sua retirada de Meca para Yatreb. Primeiramente iriam apenas o profeta, Ali e Abu Bakr para Yatreb e depois seus seguidores, contudo, após os líderes dos demais clãs de Meca tomarem conhecimento do plano de Mohammad, resolveram que apenas com sua morte poderiam impedir essa evasão e o consequente prejuízo político-econômico gerado com a saída dos muçulmanos da cidade.
Com a ajuda de seu primo Ali, a tentativa de assassinato do profeta não logrou êxito e Mohammad conseguiu rumar para Yatreb. Para ratificar a forte ligação entre Ali e o profeta, esse episódio é enfatizado pelos xiitas como uma entrega de fé e total dedicação. Futuramente, essa migração passaria a ser conhecida por Hégira e marcar o início do calendário islâmico.
Já em Medina, apesar de os muçulmanos serem minoria, devido ao prestígio que o profeta Mohammad gozava dentre as lideranças das demais tribos – de judeus e de árabes convertidos –, conseguiu promover a paz e a cooperação entre ela. “He was a builder of bridges between the rival factions in the town”. (MOMEN, 1985, p. 05) Em pouco tempo o profeta Mohammad se tornou a liderança de toda Medina e da comunidade muçulmana (ummah).
Muhammad promulgated a chapter, sometimes called the constitution of Medina, that set out the rights and duties of all citizens and the relationship of Muslim community to other communities. Muslims constituted a community whose primary identity and bond were no longer to be tribal ties but a common religious faith and commitment. Jews were recognized as a separate community allied to the Muslim
umma, but with religious and cultural autonomy. (ESPOSITO, 2005, p. 09)
Nos anos subsequentes, o profeta Mohammad ainda teve de lidar com levantes em Medina por parte de tribos judaicas que passaram a não concordar com o pagamento de taxas para a manutenção de uma guerra contra Meca. Esse fato trouxe uma mudança no cerimonial das orações, ou seja, devido ao desentendimento, o profeta Mohammad resolveu mudar o lado para o qual os muçulmanos deveriam se voltar, de Jerusalém para Meca.
Depois de anos de enfrentamentos, em 630 o profeta Mohammad retorna a Meca, agora com um exército poderoso e impossível de ser enfrentado pelos habitantes da cidade; assim, o chefe da família Omíada declara sua aliança ao profeta e, gradualmente, a população local se submete à liderança de Mohammad. E, como primeiro ato em Meca, o profeta Mohammad dirige-se à Caaba para, juntamente com Ali, destruir os ídolos que se encontravam no templo.
O ano subsequente (631), conhecido por “Ano da Delegação” marcou a ida de várias delegações de toda a Arábia para oficializar a submissão à liderança do profeta Mohammad. E, a cada uma dessas localidades, eram enviados missionários para ensinarem o Islã, inclusive nas localidades cristãs.
Finalmente, em 632, Mohammad realizou sua última peregrinação à Meca e, a partir de então esse procedimento acabou sendo assumido como obrigatório para os muçulmanos. Em seguida o profeta retornou à Medina aonde veio a falecer.