BÖLÜM 1: VERĠ VE METODOLOJĠ
1.2 Metot
Para a análise da legitimidade, impõe-se, de antemão, centrar-se no conceito de parte, pois o legitimado será a parte (ativa ou passiva) em determinado processo. Na lição clássica de Chiovenda, “parte é aquele que demanda em seu próprio nome (ou em cujo nome é demandada) a atuação duma vontade da lei, e aquele em face de quem essa atuação é demandada”105.
E, para ser parte, a pessoa (física ou jurídica) deve ter legitimidade, pois só alcança a figura de parte aquele a quem a lei autoriza estar em juízo. Diante disso, extrai-se que legitimidade é “a qualidade para estar em juízo, como demandante ou demandado, em relação a determinado conflito trazido ao exame do juiz”106. A legitimidade é instituto de suma importância, pois é uma das condições da ação, ou seja, um dos requisitos mínimos e essenciais para que exista o processo, juntamente com o interesse processual e a possibilidade jurídica do pedido (artigo 3º do Código de Processo Civil Brasileiro). Sem legitimidade, o mérito da demanda jamais será analisado, extinguindo-se o processo sem que se julgue a questão controvertida, por carência de ação (artigo 267, VI, do diploma processual brasileiro).
105 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil, vol. 2, 3ª ed. São Paulo: Saraiva, 1969,
p. 234.
106 Cf. DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil, II, 2ª ed. São Paulo:
Em que pese o conceito de parte, como antes se anotou, refira-se exclusivamente à relação jurídica processual, pois só existe parte desde que exista lide, a regra geral utiliza como critério para demandar ou ser demandado (legitimidade ativa ou passiva) ser titular do direito material em controvérsia, existindo disposição legal expressa que determina que ninguém pode pleitear, em nome próprio, direito alheio (artigo 6º do Código de Processo Civil), salvo exceções previstas em lei, dispositivo esse que traz o conceito de interesse de agir. Assim, o enfoque dado pela regra geral da lei é eminentemente individualista, na linha, ressalte-se, de todo o diploma processual, pois, a princípio, somente aquele que tem interesse direto na demanda pode ser parte107.
Essa legitimidade, a daquele que faz coincidir a parte com o titular da relação jurídica de direito material, é a chamada legitimidade ordinária. Nesse caso, alguém pleiteará em Juízo, em nome próprio, um direito próprio, e será diretamente atingido pela decisão, o que é o modo normal de acontecerem os fatos, não existindo nesse conceito nenhuma particularidade.
No entanto, como antes se ressaltou, o próprio artigo 6º admite exceções à regra geral, de modo que existem casos em que não haverá a identidade entre o titular da relação jurídica e o participante do processo. Essa hipótese é a da chamada legitimidade extraordinária e pode se dar de duas formas: representação ou substituição. No primeiro caso, o representante pede (ou defende) em nome alheio um direito alheio, valendo-se de poderes que lhe foram conferidos pela lei ou pelo próprio representado, de modo voluntário. Nessa hipótese, a parte, em que pese não esteja “fisicamente” no processo, é o próprio representado, pois, aplicando-se a clássica lição de Chiovenda, é em nome dele que se está demandando ou sendo demandado108.
107 Como ressalta Jordão Violin, “o individualismo processual, sintetizado no princípio de que somente o
titular do direito material é legitimado a propor ação para tutelá-lo, encara o interesse como um patrimônio do indivíduo. Essa perspectiva privilegia a autonomia da vontade, na medida em que o próprio titular do direito decide como e em que momento buscar seus direitos, de acordo com critérios próprios de oportunidade e conveniência” (VIOLIN, Jordão. Ação Coletiva Passiva..., Op. Cit., p. 44).
108 Cf. CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de ..., Op. Cit., p. 272.
A representação pode ser, pois, voluntária, ou seja, outorgada pelo representado ao representante para a prática de atos de sua vida civil, ou conferida pela lei, tal qual o caso do inventariante, como representante do espólio, do tutor, como representante do tutelado. Em qualquer caso, quem estará em juízo como parte é o representado, fazendo-se apenas se ouvir por meio do representante.
Situação diferente é aquela da substituição processual. Nesse caso, o substituído atua no processo, em nome próprio, para defesa de um direito alheio, o do substituído. Há inúmeras autorizações legais para tanto, como a do gestor de negócios que age na defesa dos direitos do gerido (artigo 861 do Código Civil), a do denunciado da lide que defende em juízo os interesses do denunciante (artigos 71, I e 74 do Código de Processo Civil), a da promoção de ação civil decorrente de delito, pelo Ministério Público (artigo 68 do Código de Processo Penal). A esse rol poderiam ser acrescidas inúmeras outras hipóteses, mas como o escopo desse trabalho não é a discussão da legitimidade no processo civil clássico, mas, sim, apenas a realizarão um paralelo para se analisar a legitimidade coletiva, esses exemplos, longe de serem exaustivos, parecem suficientes para a compreensão do instituto.
De acordo com o antes mencionado artigo 6o do diploma processual, para que a legitimação extraordinária seja possível, é imperioso que exista autorização legal, quando essa não decorrer da vontade da pessoa em nome de quem se pede. Muito se questiona sobre o que se faz necessário para tanto, sustentando sempre os autores que é imprescindível uma motivação para que se autorize alguém a pleitear algo em juízo em nome de outrem, sob pena de ofenderem-se os mais elementares princípios do direito. De qualquer forma, como, com exatidão, anotou Donaldo Armelin, não se pode estabelecer, a
priori, um rol de razões, pois “a casuística predomina sobre o influxo das mais variadas
motivações”109. Diante disso, aos exemplos antes citados, inúmeros outros podem ser acrescidos, inclusive por força de alteração legislativa decorrente do incremento das relações sociais.
Ressalte-se que, por ser baseada no direito material essa autorização, configuradora do interesse do substituto processual, não significa que se deva analisar a legitimidade extraordinária a cada caso concreto, pois a autorização legal é suficiente para tanto, bastando o preenchimento dos requisitos especificados na norma para dar-se a substituição110. Essa circunstância será de especial análise quando adiante se tratar da
109 V. ARMELIN, Donaldo. Legitimidade para agir no direito processual civil brasileiro. São Paulo: RT,
1979, p. 121.
110 Nesse sentido, Cassio Scarpinella salienta que “esse verdadeiro amálgama que exige legitimidade e interesse para agir, sobretudo quando se trata de situações de legitimidade extraordinária, acaba por revelar
que só se pode cogitar de interesse (jurídico) para propositura de ação em nome próprio para pleitear direito alheio quando a condição de legitimidade para tanto estiver prevista no ordenamento jurídico”
legitimidade coletiva, que é extraordinária, pois não é possível a aplicação dessa regra geral aos processos coletivos.
No caso de legitimação extraordinária por substituição, ao contrário do que ocorre quando da representação, o substituto é parte, pois é ele que pedirá ou em face dele que se fará pedido numa demanda111. No entanto, os efeitos dessa decisão, como se analisará no capítulo atinente à coisa julgada, recairão em face do titular da relação jurídica de direito material, como não poderia ser diferente, já que o substituto nada tem com a relação material objeto da controvérsia.
Assim, a legitimidade no processo civil clássico parte do pressuposto de que o processo é um ato de provocação individual, que ocorre entre duas pessoas individualizadas (ou grupos, mas sempre com participantes individualizados e especificados), para a defesa de direitos subjetivos, estritamente considerados pelos seus titulares de forma direta, salvo autorizações legais específicas.