4. METNO TRANSKRÎBEKERDE Û AÇARNAYE
4.1. Metno Transkrîbekerde û Açarnaye
Persiste no campo da Ciência Política o debate sobre a validade ou não dos partidos políticos como elemento de análise. Notadamente a partir das transformações da sociedade atual e com o fim do socialismo real, alguns teóricos passaram a apontar para a superação de antigas classificações e oposições, tais como esquerda e direita e, até mesmo, dos próprios partidos políticos que estariam, sob esta ótica, superados como organização definidora das estruturas estatais de organização política da sociedade. A crítica se funda na percepção da inexistência de propostas transformadoras, sobretudo, na falta de representatividade. Esse debate, de caráter universal, se amplifica no contexto político brasileiro diante da pouca organicidade da maioria dos partidos existentes.
A origem do termo ‘partido’ é resultado de um longo processo histórico, que passa pelo uso do termo advindo do latim, em que partire significava dividir. No contexto político foi apropriado como termo de uso corrente por volta do século XVII. Sartori (1982, p. 24) explica:
Sua predecessora mais antiga, com uma conotação etimológica muito parecida, é ‘seita’, palavra vinda do latim secare, que significa separar, cortar e, com isso, dividir. Como ‘seita’ já existia e estava consolidada como transmissora do significado preciso de partire,
‘partido’ prestou-se a um uso mais impreciso e obscuro. ‘Partido’
transmitia, então, basicamente a ideia de parte.
Para o autor supracitado, o termo ‘partido’ se consolidou aos poucos ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, em oposição ao termo ‘facção’. O primeiro com significado de algo necessário e legítimo à união de homens para promoção do interesse nacional com base em princípios que todos concordam. Enquanto que o segundo termo, ‘facção’, expressaria a luta mesquinha e interessada por cargos e vantagens individuais para seus membros (SARTORI, 1982).
Embora os termos, partido e facção fossem indistintos, aos poucos, coube à facção um sentido pejorativo e ao partido uma representação de uso mais positivo, mesmo considerando que um partido possa se comportar como facção e viceversa, os sentidos dos termos foram consolidados no uso corrente no século XIX.
Cabe explicitar que essa classificação servia para o contexto da realidade europeia e norteamericana e não para as colônias e ex-colônias na Ásia, África e América do Sul. A diversidade de modelos de organização política prova a existência de um descompasso entre a prática dos partidos e a teorização sobre os mesmos, no sentido de que “há cerca de 150 anos, os partidos se comportaram e se desenvolveram muito mais como uma prática do que como uma teoria” (SARTORI, 1982, p. 46).
Ao relacionarmos as facções com a ideia de busca de objetivos pessoais é certo que os partidos não as eliminam, mas criam limitações para motivações egoístas e inescrupulosas, ao menos no caso das restrições do sistema forem operativas. Dessa forma, “A diferença está então, em que os partidos são instrumentos das vantagens coletivas, de um fim que não é apenas a vantagem privada dos competidores” (SARTORI, 1982, p. 46).
Com relação à função que justificaria a existência dos partidos como aquela alojada na capacidade de dar voz a uma parte que representa, leva-nos a supormos que essa função também possa ser conseguida por meio de manifestações, motins e outras maneiras de se fazer ouvir. Portanto, para transmitir opiniões o partido poderia ser substituído por pesquisas e levantamentos de opinião. Porém, alerta Sartori (1982, p. 49), que “os partidos oferecem algo que nenhuma máquina ou pesquisa de opinião pode oferecer, transmitem reivindicações apoiadas por pressões”.
Embora esteja evidente que os partidos representam parte da sociedade, as contestações à esta formulação não são válidas, pois não existe um partido sem alguma capacidade de representação. Portanto, as críticas de que os mesmos não representam seus eleitores é uma simplificação de seu funcionamento, uma vez que “mesmo imprecisamente concebida, é bastante controversa a possibilidade de que os partidos representem os seus eleitores (e não os seus membros)” (SARTORI, 1982, p. 49).
Na definição de Sartori (1982, p. 93), um partido político pode ser compreendido como uma miniatura do sistema político, pois são múltiplos e não têm por princípio opinião e posicionamento monolíticos e imutáveis. Assim, “tem um sistema eleitoral, e subprocessos para recrutamento de líderes, definição de metas e solução de conflitos do sistema interno. Acima de tudo o partido é um sistema de tomar decisões”.
Numa acepção moderna, os partidos políticos originam-se a partir de “proto partidos” denominados como “ligas”, “facções”, “clubes” que se constituem na tradição parlamentar para renová-la ou combatê-la. Nessa perspectiva, Charlot ressalta:
Quanto mais as assembléias políticas veem desenvolver-se suas funções e sua independência, tanto mais os seus membros se ressentem da necessidade de se agruparem por afinidades a fim de agirem de comum acordo; quanto mais o direito de voto se estende e se multiplica, tanto mais se faz necessário enquadrar os leitores por comitês capazes de tornar conhecidos os candidatos e de canalizar os sufrágios em sua direção (CHARLOT, 1982, p.22).
Deve-se considerar que esse processo se aplica, particularmente, à realidade europeia e norteamericana, uma vez que “o mesmo não ocorre na maior parte dos novos Estados do Terceiro Mundo, onde os partidos aparecem ao mesmo tempo que o Estado, numa espécie de vazio institucional” (CHARLOT, 1982, p.09).
Na tentativa de definir a validade dos partidos políticos na contemporaneidade, Charlot (1982, p. 06-07) destaca quatro elementos que os caracterizam, destacando que esses critérios diferenciam o partido de outros grupos como os grupos de pressão, os clubes, os grupos parlamentares e as ligas. Um primeiro ponto de distinção reside no fato do partido ser uma organização durável, pressupondo que seu tempo de vida seja superior a de seus dirigentes. O entendimento do partido como uma organização completa, incluída em escala local, diferente de um mero grupo parlamentar, constitui o segundo elemento de diferenciação. O terceiro situa-se na vontade deliberada de exercer o poder e, por último, a vontade de procurar apoio popular no nível dos militantes e/ou dos eleitores.
Tomando esses critérios como válidos podemos situar o surgimento dos partidos políticos há pouco mais de um século. A partir de duas atividades distintas, a primeira, de criação eleitoral e parlamentar, pela ligação de parlamentares, de um lado, e comitês eleitorais, de outro, e, a segunda com os partidos advindos de grupos e organizações sociais situadas fora do sistema político propriamente dito como, por exemplo, “[...] grupos de pressão (associações camponesas, sindicais, cooperativa) [...] sociedades de pensamento (seitas religiosas, maçonaria) associações de antigos combatentes” (CHARLOT, 1982, p.08). Decorrente de sua origem, esse segundo grupo tem como característica nutrir certo desinteresse pelas lutas eleitorais, bem como possuir estruturas mais rígidas e severas, quando comparadas ao primeiro grupo.
Importante demarcar que existem partidos de origem exterior ao parlamento, no entanto, “a distinção entre os partidos de criação externa e os de criação eleitoral e
parlamentar, não é rigorosa, ela caracteriza antes tendências gerais do que tipos definidos” (CHARLOT, 1982, p.26) uma vez que todos partidos se relacionam de alguma forma com diferentes instituições da sociedade.
Os partidos estabelecidos por uma instituição pré-existente, cuja atividade se situa fora das eleições e do parlamento são classificados como de criação exterior. O exemplo mais comum desse modelo são os sindicatos, uma vez que “inúmeros partidos socialistas foram diretamente criados por eles, conservando, aliás, durante mais ou menos longo tempo o caráter de ‘braço secular’ dos sindicatos em matéria eleitoral e parlamentar” (CHARLOT, 1982, p.26). Outros agrupamentos também originaram partidos, em menor medida como, por exemplo, os agrupamentos de intelectuais, as igrejas ou seitas religiosas.
Considerando esses dois modelos, as diferenças que opõe uns aos outros de forma mais ou menos nítida é que os partidos de criação parlamentar tem nos deputados um papel essencial. Para Charlot (1982, p.29), “essa preponderância dos eleitos é explicada facilmente pelos mecanismos de nascimento do partido, onde os deputados têm tido lugar preponderante”. Já os partidos de criação externa são “constituídos fora de sua intervenção [dos parlamentares], compreende-se, portanto, que sua influência permaneça ali sempre menor.” Além de não conferir centralidade ao parlamento, esses partidos tendem a manifestar “uma desconfiança mais ou menos declarada no tocante ao grupo parlamentar, e uma vontade mais ou menos clara de submetê-los à autoridade de um comitê diretor independente dele” (CHARLOT, 1982, p.29).
Dada a complexidade das organizações partidárias, outros elementos podem ser acrescentados como critério de classificação a depender do referencial utilizado. Quanto à sua organização, o enfoque estrutural; quanto aos objetivos, um enfoque das ideologias; quanto às atividades do partido, o enfoque funcional; quanto ao ambiente dos partidos (cultura políticas instituições), um enfoque sistêmico ou enfoque marxista; quanto aos sistemas partidários, um enfoque sistêmico.
Essas classificações não serão aqui aprofundadas porque fogem aos objetivos deste trabalho, mas interessa-nos determinar os limites e possibilidades da atuação partidária para influenciar a realidade objetiva. Nesse sentido, foram os teóricos marxistas que de forma mais precisa “deduziram os limites da explicação pelos partidos políticos (...) o importante para os marxistas, é a infraestrutura social determinada pelas relações de produção e as situações que daí decorrem”. Nessa perspectiva de análise, “o poder político é apenas o poder organizado de uma classe social para a opressão de
outra e a variedade dos partidos políticos não esconderia o antagonismo fundamental entre a classe operária (...) e a capitalista” (CHARLOT, 1982, p.97).
Além dessa oposição, outras questões podem influenciar os partidos políticos na definição das políticas públicas. Uma mensuração dessa influência se torna pouco precisa, pois não é possível distinguir em que medida as alterações advém de organismos internacionais, agentes privados, dos partidos no poder ou de outros agentes.
Sem a pretensão de estabelecer uma relação mecânica de causa e efeito entre a ação e orientação partidária e as políticas educacionais implementadas, consideramos válido o conceito de “arenas de disputa”, por expressar as políticas públicas como sujeitas a múltiplas influências em diferentes esferas de decisão.
Os partidos políticos passaram por um processo de contestação, impuseram-se na prática, mas ainda hoje o “tema da substituição dos partidos pelas ‘forças vivas’, os ‘clubes’, a ‘democracia direta’” (CHARLOT, 1982, p.123), entre outras possibilidades, é constantemente apontada e alcançam certa popularidade. Essa contestação tem, ao menos, duas origens que podem ser localizadas em grandes correntes ideológicas:
Primeiro ponto de vista: o do cidadão individual que os partidos [...] privariam de seus direitos e deveres de cidadão. É a crítica liberal dos partidos na linha reta da doutrina de Jean-Jacques Rousseau sobre a democracia e o bem comum, ou ainda a crítica socialista de partidos burocráticos que esqueceriam seus militantes e seu ideal para salvar sua organização. Segundo ponto de vista: o do conjunto nacional, de do todo político que os partidos – divisores por natureza, agressivos por vocação – comprometeriam. É a crítica nacionalista dos partidos, aliada muitas vezes a uma das formas do que Marcel Merle denominou ideologia do apolitismo (CHARLOT, 1982, p.123). Portanto, as ideias que transitam entre o polo que expressa que os partidos seriam um mal necessário ou poderiam ser dispensáveis do sistema político não são novas, ao contrário, estão presentes muito antes da formação dos partidos políticos modernos. Se considerarmos essa origem como sua consolidação no século XIX, temos que levar em conta que foi necessário aos partidos vencerem essas resistências para se imporem na prática como instituições importantes dos sistemas políticos. Conforme já discutido, isso foi possível na medida em que os parlamentos e os processos eleitorais também se consolidavam no contexto europeu e norteamericano.
Não intencionamos, aqui, aprofundar o debate sobre as críticas aos partidos políticos, que perpassam polos opostos radicais dos liberais aos anarquistas, com críticas fundamentadas em princípios também díspares. Pretendemos apenas destacar
que apesar dessas críticas teóricas e práticas que remontam a própria origem dos partidos, eles continuam existindo com configurações diferentes na maioria dos países. Parece óbvio que mesmo na análise do mais raso senso comum isso não pode ser desconsiderado como evidência que de alguma forma os partidos são instituições que fazem parte dos sistemas políticos e, em alguma medida, influenciam as decisões governamentais.
Na próxima seção, discutiremos os critérios de distinção entre os partidos políticos, objetivando aprofundar a compreensão sobre as transformações que ocorreram no final do século XX e início do século XXI. Esse período recente da história é, particularmente, marcante para o debate das organizações políticas devido ao fim do bloco formado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o Leste Europeu. No caso específico de abordagem das reformas educacionais, esse debate ganha relevância ao assumirmos que as reformas propostas inicialmente em países centrais em meados dos anos 1980 e no Brasil na década de 1990 têm forte inspiração em uma ideologia neoliberal.