Mainwaring (2004) analisa que a Igreja Popular sofreu o declínio entre o período de 1983 e 1985. Argumenta que desde 1976
(...) a Igreja brasileira era provavelmente a mais progressista do mundo. Continuou a se desenvolver numa direção progressista durante os seis anos que se seguiram, por volta de 1982, as pressões conservadas contra igreja brasileira aumentaram e ela começou a se movimentar num ritmo mais cauteloso e se tornou um agente político de menor importância178
O declínio se deve duas causas: 1) quando surgiu o processo de abertura democrática as organizações de base foram assimiladas pelas políticas estatais; 2) surgem correntes “neoconservadoras” que restringem a atuação da Igreja Popular.
É importante também ressaltar quatro fatores que Mainwaring (2004) estabelece para considerar o caráter singular da Igreja Católica Brasileira diante das Igrejas de outros países da América Latina e até do mundo: 1) A relação com a ala progressista do Vaticano favoreceu que as indicações ou nomeações fossem feitas também de bispos progressistas no Brasil,
176 Ibid., p. 104. 177 Ibid., p 115.
países também foi determinante para que a Igreja brasileira tivesse que trabalhar com laicato e, estes, atuaram proeminentemente nas bases comunitárias; 3) Durante o período republicano poucos foram os conflitos com a Igreja, o que lhe favoreceu uma melhor relação com o Estado se comparado também com outros países da América Latina onde se desenvolveu certo “anticlericalismo”; 4) O respeito pela religiosidade popular e a motivação de trabalhar com o bispo em vez de contra o bispo favoreceu para criar um ambiente progressista interconectado com a população de base.
No período de transição política, a Igreja iniciou seu afastamento com as questões políticas afirmando que com as instituições restabelecidas democraticamente não era mais necessária a mediação da igreja. Foi o momento também em que os conservadores aproveitaram para restabelecer o poder e reforçar a posição para que a Igreja se afastasse da arena política. Mainwaring cita a fala de Dom Ivo Lorscheider que é emblemática para situação da época:
(...) nos últimos vinte anos, a hierarquia da Igreja frequentemente teve que falar sobre problemas políticos, sociais e econômicos porque os leigos não podiam fazê-lo. De agora em diante, numa situação de maior liberdade e de organização popular, embora a hierarquia não vá ficar em silêncio, ela quer que os leigos se manifestem mais179.
O período inicial do pluripartidarismo também foi um reforço para que a Igreja perdesse sua força para atuação na política. Contudo, tal ausência institucional não impediu evidentemente de continuarem “atuantes” na defesa das classes populares”.
As diretrizes do Concílio Vaticano II trouxeram muitas mudanças no ponto de vista ecumênico como também da atuação com o laicato no mundo. Contudo, a partir da década de 1970 há uma reação dos conservadores. A partir de 1982 e 1983, com a condenação de Leonardo Boff é que se acirram as disputas internas. É possível dizer que há um descrédito pelo Concílio Vaticano II ou uma vontade de anular suas diretrizes ou até mesmo em ignorá- lo ou aceitá-lo de sua existência. Os ataques dos neoconservadores foram diretamente direcionados à ala progressista com acusações de insubordinação ao Papa, condenando a Teologia da Libertação e as CEBs. Além disso, as diversas formas de oficiar missas foram condenadas pelo Vaticano e as formas tradicionais foram enunciadas e determinadas para serem seguidas e não desrespeitadas.
Os neoconservadores também criticam a forma como tem evoluído as comunidades de base. Embora não se oponham à noção de pequenos grupos eclesiais, acham que as CEBs deviam ser antes de qualquer coisa organizações eclesiais. A Igreja e não as classes populares deveriam determinar a orientação básica da CEBs. Como declarou o arcebispo Sales, ‘as CEBs são a Igreja e, portanto nasceram do Cristo; sua missão não é determinada pelo povo’. AS comunidades de Base deveriam ser voltadas para a evangelização, compreendida da forma tradicional de melhorar a religiosidade popular180.
É claro que a força da Igreja Popular e seus representantes hierárquicos não se configuram em maioria, mas isto não significa que perderam força. É verdade que as indicações aos novos bispados a orientação do Vaticano, especialmente a partir de João Paulo II, tenham sido de alinhamento para o conservadorismo. O Vaticano adotou uma posição mais conservadora nos últimos 40 anos, mas não é possível esquecer também o caráter da Igreja Católica que precedeu este período. O que acontecerá no futuro sobre esta disputa ainda está por vir. Nas bases é que de fato se observa certo enfraquecimento da relação entre a política e a Igreja.
É dentro desse contexto histórico de relativa rigidez e de conservadorismo político que as recentes mudanças da Igreja romana devem ser compreendidas. Por um lado, o catolicismo romano tem sofrido mudanças significativas e coube à Igreja brasileira um papel de liderança nesse processo. Em raros períodos, desde a fusão entre a Igreja e o Estado (sob Constantino), a Igreja vivenciou mudanças de tamanha magnitude. Depois de mais de um século de combate à modernização, desde a Segunda Guerra mundial e especialmente depois de João XXIII, a Igreja tem aberto ao mundo moderno. As imagens tradicionais da igreja (a Igreja como instituição e a Igreja como sociedade perfeita) tem sido, em anos recentes, desafiadas por uma rápida sucessão de novas imagens: Igreja como povo de Deus, como serva e como símbolo de salvação do mundo181.
As mudanças nas instituições dependem, em grande parte, da politização da sociedade. A Igreja Católica, durante boa parte do século passado, foi bastante intransigente e imune a qualquer mudança exigida pelos conflitos de classe. Quando a sociedade entrou em polarização, especialmente na década de 1960, e, a Igreja se abria a discutir os problemas sociais e se motivava em fazer a defesa dos pobres, começava a também sofrer consequências políticas no seu interior. Isso exigia de uma revisão da missão da Igreja que não era somente evangelizar. Muitos autores ao referirem-se sobre a situação da Igreja nos conflitos sociais desconsideram sua força frente aos problemas que envolvem a luta de classes. A Igreja Católica, devido à sua grande estrutura e abrangência, possui disputas internas que
180 Ibid., p. 278. 181 Ibid., p. 23.
determinado momento na história da Igreja do Brasil, a mesma tomou partido pelo lado conservador, mas em outro momento as forças progressistas conseguiram apresentar um projeto diferente e esta oportunidade facilitou o surgimento dos movimentos de base. Estes movimentos, por si só não se efetuariam ou não se legitimariam sem apoio da hierarquia eclesiástica.
O processo de mudança era dialético. Movimentos leigos só poderiam emergir havendo receptividade institucional, e foi só a partir do momento em que a igreja passou a defender energicamente a causa dos direitos humanos. Dada a estrutura hierárquica da Igreja Católica, movimentos que não recebem o apoio dos bispos permaneceram relativamente isolados e são incapazes de modificar as tendências dominantes 182.
Além disso, as análises sobre as mudanças que ocorreram na Igreja do Brasil devem considerar o próprio fenômeno político do Brasil de rediscutir a estrutura do Estado e a transformação na Igreja Internacional. A experiência com a Segunda Guerra Mundial marcada pelo silêncio da Igreja Católica é polêmica até os dias de hoje e a postura no decorrer da “Guerra Fria” levou também a hierarquia em determinados momentos a ter que tomar uma decisão política, rompendo com o tradicional silêncio ou com a postura de não se imiscuir em assuntos terrenos. É altamente simbólico o que se deu no final da década de 1960 na América Latina, com a realização do Concílio Vaticano II e, ao mesmo tempo, a instalação de mísseis soviéticos direcionados para os Estados Unidos. Logo após o evento de Cuba, os regimes endureceram no Brasil e na América Latina.
O decorrer do último século caracteriza-se pela preocupação de Roma em exercer influência na Igreja Brasileira e dado o seu prolongado período de isolamento criou uma postura mais autônoma. A relação do Estado com a Igreja no decorrer deste período tende muito mais para um lado, ou seja, vincula-se preferencialmente ao conservadorismo político. Exemplo emblemático é a relação tão próxima da Igreja Católica com o populismo de Vargas. Durante a década de 1960 e 1970 surge uma Igreja que os autores denominam de popular. Esta Igreja se fortalece no período mais endurecido da ditadura militar, mas não seria possível subsistir se não houvesse um apoio hierárquico, um apoio institucional. No momento que abertura política se instaura no Brasil, a ala conservadora retoma sua hegemonia, pois desde a década de 1980 a Igreja vivencia um período extremamente conservador.
Não conseguimos esquecer no momento da declaração do resultado da escolha do novo Papa que veio substituir João Paulo II - depoimento estava sendo dado pelo teólogo Leonardo Boff ao vivo a uma rádio paulistana. Várias vezes o teólogo utilizava a palavra “perplexidade”. O símbolo do conservadorismo na época do Papa João Paulo II era justamente o Cardeal Ratzinger e temos hoje a estrutura obediente à sua infabilidade.
Enfatizamos nesta pesquisa a história da Igreja Católica e sua relação com a política porque nosso sujeito político está totalmente inserido neste contexto e encontra-se vinculado à Igreja Popular. Os impactos, os embates, as mudanças internas afetam diretamente o grupo que iremos analisar a seguir.
Capítulo 3