Desde o final da década de 1960, o Estado utiliza o esporte de alto rendimento como instrumento de ação política, preocupando-se com o declarado desejo de conquistar medalhas olímpicas, na intenção de transferir o capital simbólico para o sistema político e econômico, visando o reconhecimento internacional do sistema financeiro do país. Entretanto, o discurso utilitarista do Estado se apoia no esporte como um mobilizador de massas, utilizando a prática esportiva como promotora da saúde, qualidade de vida e bem estar social. O discurso do Estado é fortalecido à medida que a escola é utilizada como base da pirâmide para desenvolver o esporte de alto rendimento (BRACHT, 2003; TUBINO, 2010).
No período da ditadura militar, o Estado se apoderou da censura de imprensa para massificar e manipular o povo, penetrando agilmente em diferentes camadas sociais, inclusive nos conteúdos a serem ensinados nas aulas de Educação Física escolar, fundamentados no desempenho físico e na iniciação esportiva. Neste momento, surge o modelo de pirâmide esportiva, deixando para o professor durante as aulas, a incumbência de descobrir talentos que pudessem participar de competições esportivas de alto rendimento (BRACHT, 2003; COLETIVO DE AUTORES, 1992; GHIRALDELLI, 1989; LINHARES, 1997).
Segundo Rangel-Betti e Betti (1996), a partir da década de 1970, o perfil de formação do professor de Educação Física estava pautada no currículo tradicional-esportivo, sendo o esporte, o principal conteúdo a ser ensinado nas aulas de Educação Física escolar. Esse currículo perdurou com forte adesão até o final da ditadura militar (COLETIVO DE AUTORES, 1992). Neste modelo curricular, o papel exercido pela Educação Física tornava-se reducionista. Buscando refletir a função social da Educação Física e a ideologia dominante do esporte-espetáculo, Ghiraldelli (1989, p. 20) identifica algumas concepções17 de ensino e aprendizagem, entre elas, a competitivista de caráter tecnicista, que objetivava para:
(...) o culto do atleta-herói, aquele que a despeito de todas as dificuldades chegou ao
podium. A Educação Física fica reduzida ao esporte de rendimento ao “desporto de
alto nível”. A prática desportiva deve ser “massificada”, para daí poder brotar os expoentes capazes de brindar o país com medalhas olímpicas. (...) Desenvolve-se assim o Treinamento Desportivo baseado nos avançados estudos da Fisiologia do Esforço e da Biomecânica, capazes de melhorar a técnica desportiva. A Educação Física é sinônimo de desporto, e este, sinônimo de verificação de performance.
Procurando superar o reducionismo da Educação Física no ambiente escolar, principalmente a partir da década de 1980, pesquisadores como Betti (1991); Bracht (1986;
1989; 1992); Castellani Filho (1988); Coletivos de Autores (1992)18; Kunz (1994); Medina (1983); Tubino (1987), entre outros, começaram a contestar o rendimento esportivo no espaço escolar e chegaram à conclusão de que o sistema piramidal, a especialização precoce, a apologia ao uso de doping o caráter mercadológico e alienante direcionados ao rendimento e a detecção de talentos no ambiente escolar, não condiziam com as finalidades socioeducativas, culturais, éticas, psicológicas e de saúde à qual o esporte, no contexto escolar, havia sido destinado.
O Estado ao transferir à escola a função social de produzir atletas para o alto rendimento valoriza os princípios capitalistas da sociedade industrial e reforça as desigualdades sociais e a perda de liberdade quando os alunos vivenciam situações de fracassos. A reprodução impensada do esporte hegemônico voltada à mercadoria e ao consumo no espaço escolar exclui a grande maioria dos alunos (BETTI, 1997; KUNZ, 1994).
Como exemplo, Taffarel (2012) em seu estudo, constatou que nos Jogos Escolares da Bahia, não há efetiva ampliação da cultura corporal, tampouco para a formação omnilateral19. A autora critica a negação da valorização histórica e cultural dos esportes em detrimento da repetição mecânica do treinamento esportivo, resultando na banalização do conhecimento da cultura corporal.
Buscando combater a exploração alienada, hegemônica, midiática e, principalmente, da espetacularização do esporte, Betti (1997, p. 24) chama a atenção de forma crítica de como o esporte deve ser entendido nos espaços educativos e afirma que o esporte deve ser inserido com um propósito e uma intenção educativa, mas para que isso aconteça é o educador que deve fazer do esporte “ao mesmo tempo um objeto e um meio de educação”, no seu sentido amplo de humanizar as relações sociais.
Além disso, o autor considera que há outras pessoas responsáveis e que depende da união de outros espaços, instituições e organizações sociais que também possam contribuir de forma reflexiva e ressignificativa sobre o fenômeno esportivo.
Quando Betti (1997, p. 24) cita Belbenoit20, enfatiza que o esporte na escola deve ter um propósito e uma intenção educativa mediada pelo educador ao do fazer do esporte, conteúdo e meio de educação. Nesse sentido, Betti (1997, p. 24) destaca:
18 Os autores do livro Metodologia de ensino da educação física/ coletivo de autores são: Carmen Lúcia Soares; Celi Nelza Zülke Taffarel; Elizabeth Varjal; Lino Castellani Filho; Micheli Ortega Escobar e Valter Bracht. 19 O termo omnilateral refere-se à formação do ser humano tendo como horizonte a totalidade intelectual, física, corpórea e sensível com a finalidade de emancipação humana.
Antes de mais nada, para ele, introduzir a iniciação ao esporte de competição nos programas escolares não é aceitar para a escola a missão expressa de produzir atletas capazes de assegurar o prestígio esportivo do país. Este pode ser um efeito secundário, que não deve ser recusado, mas não poderia ser o objetivo principal, que continua a ser a extensão a todos de uma gama tão ampla quanto possível de atividades formativas.
A educação e o esporte para Betti (1997) estão relacionados e podem construir uma base sólida de qualidade de vida em seu sentido amplo, no sentido de humanizar as relações sociais. Isto compreende o conhecimento dos benefícios que sua prática proporciona aos aspectos biológico, intelectual, social, pessoal, estético e moral.
Nesta direção, Belbenoit citado por Betti (1997, p. 28) acredita que integrar o esporte na escola é:
(...) preparar o desenvolvimento do esporte para todos no quadro de uma política de saúde para todos, de cultura para todos, e de uma renovação da vida democrática; integrar o "esporte para toda a vida" à educação permanente é afirmar que esta não deve apenas permitir ao homem continuar na corrida da evolução tecnológica.
Já Bento (1999, p. 23), entende que os espaços educacionais são os maiores responsáveis em refletir o fenômeno esportivo ao considerar “a escola como oficina de humanidade e de humanização dos humanos, de enraizamento da liberdade, de aperfeiçoamento e aprofundamento da cidadania e da democracia”.
Para Bento (1999, p. 21-24), “o ensinar bem – escorado em técnicas e estratégias – deverá ceder lugar ao ensinar para o bem: do aluno, da sociedade, do desporto e também do professor”. Ele acredita que “todo o homem é um polo de qualidade, que o desporto é um dos meios de construir valores”, pois “não há nenhuma teoria pedagógica e também nenhuma prática educativa que não assente, explicita ou implicitamente, numa doutrina de valores” contida no resgate da formação ética e moral, na busca de um ser humano integral.
Após meio século, as atuais Políticas Públicas de esporte no contexto escolar ao considerar o professor de Educação Física como personagem central na busca da detecção de talentos e no desenvolvimento do esporte escolar de rendimento, mantêm propósitos semelhantes aos programas de pirâmide esportiva iniciados no final da década de 1960.
Constatou-se que as políticas de desenvolvimento do esporte escolar pouco se alteraram. Em relação aos estudos revisados, os autores não se posicionam contra o desenvolvimento da prática esportiva no ambiente escolar, mas contra a reprodução irrefletida dos propósitos das Políticas Públicas de rendimento esportivo na educação básica.
É imprescindível conceber o esporte como um fenômeno que transcenda o seu caráter utilitarista, pragmático e mercadológico, considerando em todas as suas instâncias a formação humana sempre em primeiro lugar, entendendo que o esporte não pode ser usado apenas como um meio de se alcançar a performance esportiva a qualquer custo. É o esporte que deve ser utilizado como ferramenta e meio de formação atlética e esportiva dentro dos preceitos éticos, morais, culturais, sociais e intelectuais. É necessário respeitar a individualidade dos alunos e compreender os significados e as finalidades que a prática esportiva representa em cada contexto.