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III. BÖLÜM

3.5. Mesut Sabri Baykozi’nin Akıbeti

O rápido sobrevôo que fizemos ao desenvolvimento econômico brasileiro mostra como a distância e a centralização de poder, elementos tão distantes da cultura dos nossos nativos, fazem-se presentes desde o início da colonização portuguesa e estendem-se ao longo dos séculos. Holanda (1995, p. 38-39) vai ainda mais longe no tempo, argumentando que é característica ibérica a vontade de mandar e a predisposição para obedecer. Não haveria entre os ibéricos outra disciplina concebível além daquela calcada na centralização de poder e na obediência. Para Ribeiro (1995, p. 48), a vocação dos portugueses recém-chegados era de “autoridades de mando e cutelo sobre bichos, matos e gentes”.

O pequeno número de colonos portugueses e as grandes extensões territoriais com que se depararam e trataram de explorar em benefício da coroa portuguesa implicou na adoção de um modelo econômico sempre baseado na grande propriedade e no trabalho escravo, modelo que pouco se alterou na medida em que se sucediam nossos diversos ciclos econômicos. Poucos proprietários comandavam uma grande massa de mão-de-obra escrava, exercitando-se o mando com maior ou menor grau de violência (RIBEIRO, 1995, p. 26).

Se é verdade que um protótipo de nosso modelo de organização da produção já é encontrado na exploração do pau-brasil, uma vez que poucos senhores foram capazes de submeter grande número de escravos índios às atividades extrativistas, é no engenho que tal modelo encontra sua expressão mais típica.

O engenho configura-se como um mundo particular, onde tudo acontece, como se fora em si uma república independente, funcionando de maneira mais complexa e efetiva que as cidades (HOLANDA, 1995). Lá, o senhor de engenho reina sobre seus domínios, seus escravos de casa ou da produção e sobre a mão-de-obra livre a ele associado e dele dependente. Comanda ora com mais força e crueldade, ora com complacência e mesmo carinho, como aponta Freyre (1996), mas comanda de maneira única e absoluta dentro de suas largas posses. Como destaca Holanda (1995, p. 80), a autoridade do proprietário não sofre réplicas. Tudo se faz segundo sua vontade.

A senhora e as crianças do engenho não fogem à lógica do mando, muitas vezes carregado de sadismo em relação ao escravo (FREYRE, 1996, p. 336,337,369,370). O gosto de mando seria característica, ainda segundo Freyre (1996, p. 51), de cada brasileiro nascido ou criado em casa grande. Ao mesmo tempo, mulher e filhos deviam obediência ao senhor marido e pai (FREYRE, 2003).

Ribeiro (1995, p. 284) mostra que o empreendimento açucareiro, que cumpria papel de geração de riquezas, ocupação e defesa territorial, tem caráter oficial, instituído e estimulado pela coroa através da concessão de terras (sesmaria) e da atribuição de títulos e privilégios. Isto dava ao senhor de engenho poder hegemônico na ordenação da vida colonial. Assim, submetia-se a ele até mesmo a classe superior da esfera urbana, como o clero e a administração do reino.

O modo de organização da produção centralista e absoluto vai encontrar pouca mudança nas outras atividades de vulto da economia colonial, como a mineradora e a extrativista (PRADO JR., 1994). Guardadas as diferenças técnicas, são mantidas as características da grande propriedade em que um grande número de trabalhadores está subordinado ao mando do empresário, o que origina situação de grande concentração de riqueza e exacerbação das desigualdades.

A administração colonial, por sua vez, em nada destoa do modelo da organização da produção, copiando a administração do reino: poder centralizado e concentração de autoridade, com a agravante de reuni-las nas capitais e sedes, deixando desgovernado o restante do território (PRADO JR., 1994).

As fazendas de café trazem algumas nuanças que não interrompem a lógica reinante. O absenteísmo do fazendeiro de modo algum altera a estrutura da grande propriedade, além de levar às cidades a ordenação social do meio rural.

A característica de nosso desenvolvimento pré-industrial ter sempre se estruturado sobre a grande propriedade escravocrata voltada ao mercado externo, com um proprietário comandando capatazes que controlam fisicamente uma mão-de-obra numerosa, barata e executora de trabalho físico, antecipa a lógica organizacional das indústrias nascentes do século XIX e início do século XX. Substitui-se o meio

rural pelo ambiente dos barracões fechados das fábricas, os feitores e capitães-do- mato pelos capatazes industriais, os escravos negros pelos imigrantes europeus assalariados. Permanece o poder centralizado e absoluto do empresário que manda, perfeitamente em acordo com os princípios da unidade de comando e de autoridade da teoria clássica (FAYOL, 1989), bem como a concentração de capital e a divisão social, como bem apontou Bresler (2000). Nas palavras de Vasconcellos (2000), o mundo do coronel passou também a ocupar o espaço fabril brasileiro.

A superação da agricultura pela indústria e do rural pelo urbano vem acompanhada, na história brasileira, pela centralização do poder e pelo fortalecimento do Estado. O autoritarismo, variando em graus de benevolência ou de truculência, marca a atuação do poder político no Brasil. O Estado mantém os privilégios da elite, impondo suas vontades à população (PRESTES MOTTA; ALCADIPANI, 1999, p. 8) ainda que muitos governantes sejam bem sucedidos em serem identificados como protetores do povo.

Chauí (2000) faz interessante análise sobre como no Brasil os governantes são sagrados, o que muito contribui para a centralização de poder e para uma sociedade autoritária. A autora lembra que a expansão ultramarina é contemporânea do absolutismo, e que a centralização e unificação foram condições essenciais para o sucesso das grandes navegações, como já comentamos no caso português. A unificação é dada sob a tese de que o fundo público é domínio e patrimônio do rei. A autoridade deste, por sua vez, tem fundo teocrático: o poder público vem diretamente de Deus. O rei é o escolhido de Deus, é aquele que deve cuidar do Seu rebanho. Assim, o que quer o rei tem força de lei, estando ele acima das leis.

No Brasil, o poder absoluto do rei é mantido através das capitanias e sesmarias, pedaços de terras concedidas por ele aos senhores. O rei é o representante de Deus, e o donatário é o representante do rei. Assim, cada fonte de mando local tende a reproduzir os princípios da vontade do senhor acima das leis e do direito natural ao poder. Assim como o Rei representa Deus e os donatários representam o Rei, assim, também, os políticos brasileiros acabam sendo percebidos não como representantes do povo, mas como representantes do Estado face ao povo, o que estaria na raiz e na força de nosso autocrático populismo (CHAUÍ, 2000, p. 86-87).

Nota-se a onipresença da centralização, do autoritarismo e da distância de poder na realidade econômica e política brasileira. Ribeiro (1995) destaca que nosso processo de formação foi capaz de gerar um forte distanciamento social entre dominantes e oprimidos a despeito de uma uniformidade cultural e étnica, fazendo as oposições de raça menos significativas que as oposições de classe. O desequilíbrio na distribuição das riquezas se reflete muitas vezes no descaso das elites pela população em geral, como bem exemplifica Sevcenko (2000) citando a expulsão dos pobres do Rio de Janeiro para os morros. A síntese da nossa desigualdade vem expressa na conhecida e arrogante interrogativa: “você sabe com quem está falando?” (DA MATTA, 1990).

Não há, portanto, como não crer que encontremos atualmente sinais destas raízes nas organizações brasileiras. De fato, vários estudos teóricos (BORGES DE FREITAS, 1997; AIDAR ET AL., 1995; VASCONCELOS, 2000; PRESTES MOTTA; ALCADIPANI, 1999; PRESTES MOTTA; ALCADIPANI; BRESLER, 2001) e empíricos (BRESLER, 2000; BARROS; SPYER PRATES, 1996; HOFSTEDE, 1991) apontam neste sentido.

Os dois últimos trabalhos citados são bastante interessantes, inclusive por mostrar dados comparativos do Brasil em relação a outros países. Em Hofstede (1991), a distância de poder é uma das dimensões de comparação. Entre os 53 países ou regiões analisados, o Brasil foi o décimo quarto com maior distância de poder, com pontuação em torno de 50% acima da média. Uma alta distância de poder significaria dependência e obediência em relação à autoridade, que as pessoas esperam e aceitam que o poder seja distribuído de maneira desigual, que o sistema hierárquico seja sentido como baseado em desigualdade existencial, que o poder seja centralizado em poucas mãos, que o chefe ideal seja o autocrata benevolente ou o bom pai e que símbolos de status sejam esperados e populares.