4. BULGULAR
4.2. MESLEKLE-İŞLE İLGİLİ OLANLAR
para mim, a relativa astenia da polícia política em relação à instituição. Certo, de tempos a tempos, anunciava-se a prisão de um dos membros da Casa, mas quase sempre esta operação repressiva encon- trava a sua razão de ser em actividades militantes,
sempre nas organizações políticas da oposição por- tuguesa. É certo que se sucediam as intervenções ministeriais, que provocavam as comissões admi- nistrativas, mas elas não pareciam chegar ao Esta- do-maior da rua António Maria Cardoso.
A maneira como foram negociadas as edições da CEI, que incluíam autores já então votados ao ódio nacional português — como nos casos de Agostinho Neto e de Viriato da Cruz — sublinha a consciência do risco corrido. Só a extrema cora- gem de Carlos Ervedosa e de Fernando Costa An- drade, permitiu que essas operações fossem levadas a cabo. Não sem choques, como o que resultou da proibição e da apresentação da segunda edição dos
Poetas Moçambicanos, que tinha organizado, tal
como já tinha tido em mãos a primeira edição, que continua assinada pelo Luís Pollanah.
A actividade conspiratória foi por vezes tão apaixonada que, à distância, ela revela a sua extre- ma periculosidade, como no caso dos militantes do PAIGC que se reuniam todas as quintas-feiras num dos cafés do outro lado da Duque d’Ávila, quase sempre sob a autoridade do Jorge Querido. Digamos as coisas mais simplesmente: houve um momento, difícil de datar, que se coloca entre 1961 e 1962, em que a CEI decide pôr em funcio- namento as suas próprias regras: a ilha rebelara-se. Tal foi de resto a sensação que experimentei após alguns meses de afastamento, entre 1962 e 1963, que me viram passar pelas prisões políti- cas da Rua do Hermo, no Porto, Aljube e Caxias. Carlos Ervedosa, que dispunha de uma extrema sensibilidade política, alterara as condições especí- ficas das edições da CEI, com pequenos cadernos de ensaios, de que saíram apenas três (o do pró- prio Carlos Ervedosa, o de Onésimo Silveira e o meu). Passava-se claramente da afirmação poética à actividade política, acompanhada pela reflexão teórico-política.
Quando é que a PIDE se deu conta do carácter inaceitável da CEI? Talvez tenha sido consequên- cia do prémio concedido a José Luandino Vieira, ou mais simplesmente resultado da intervenção de Amândio César numa emissão organizada por Jo- sé Mensurado na televisão da época e consagrada a este caso. Há quem diga que a intervenção poli- cial se deveu a uma fagulha de inteligência do mi- nistro Silva Cunha, um especialista da investiga- ção policial... Por que não? A verdade é que se esperava esta medida a partir de 1961. Não havia razão para surpresas, salvo a do carácter tardio desta decisão.
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Balanço
Haverá maneira de proceder a um balanço ob- jectivo? Há alguns anos atrás Fernando Mourão contou-me uma história que me parece reveladora: conversava ele com o malogrado Presidente Sa- mora Machel, em companhia de outras pessoas quando, a certo momento, verificou que tinha fica- do sozinho com o Presidente. Este, também sur- preendido, quis saber o que se passava e Fernando Mourão, após ter lançado um rabo de olho para a concentração que se refizera a poucos metros, esclareceu: “São os antigos da CEI, o senhor Pre- sidente tenha paciência, mas vai ficar sozinho, porque eu também sou um antigo.” Sereno, o Pre- sidente Samora Machel encontrou a solução: “Nesse caso, eu passo também a ser um antigo da CEI!”
Quer dizer esta história que a CEI participou muito activamente na elaboração e sobretudo no reforço das linhas internas das diferentes cons- ciências nacionais. A lenta mas constante degrada- ção da força do colonizador, deve-se ao trabalho teórico e prático de militantes que souberam liber- tar-se do peso dos modelos colonialistas, isto no preciso momento em que as autoridades políticas e científicas portuguesas pretendiam impor urbi et
orbi a lição do luso-tropicalismo freyriano. Se me
fora possível denunciar esta lição num jornal luan- dense, com pouco eco nacional e internacional,
Mário Pinto de Andrade pôde fazê-lo na Présence
Africaine, com um eco internacional que ainda se
não apagou.
Tal foi uma das forças desta ilha africana em plena Avenida Duque d’Ávila: impedir que a de- formação colonialista pudesse funcionar com ver- dade indiscutível e indiscutida. Quem teria dado o prémio a José Luandino Vieira se não se regis- tasse já a presença da lição e do combate da CEI, editando os “clássicos” de cada um dos países ain- da colonizados? Quem, em Moçambique, teria po- dido assegurar a edição de José Craveirinha, esse poeta-tambor, que queria assegurar a produção dos sinais mais violentos e definitivos da apaixonada consciência nacional moçambicana?
Creio ter percebido uma certa amargura na
Geração da Utopia do Artur Pestana (que durante
tantos anos foi o Pestaninha, para o distinguir dos dois “grandes” Pestana Heineken, antes de se me- tamorfosear, ajudado pela guerrilha, em Pepetela); o projecto afinal não só não foi realizado, mas re- gista-se uma perversão que o escritor não pode aceitar sem pelo menos um lamento. As utopias possuem uma condição particular, nisso parecidas com os gatos: têm, quando autênticas, sete fôle- gos. Ao evocar a CEI, não posso deixar de salien- tar o vigor dessa utopia que, mesmo amolachada, continua a perfumar a minha existência.