Paralelamente à utilização da via diplomática e do direito internacional para alavancar a discussão interna, as sufragistas procuraram também atuar para modificar a legislação brasileira. Além da óbvia (e primeira) luta pelo direito de sufrágio, também houve iniciativas para modificar questões-chave para as mulheres, como a modificação da capacidade civil e o fim da autorização marital. Neste momento, abordaremos apenas a questão do sufrágio, pois é ilustrativa dos mecanismos utilizados pelas sufragistas para modificar a legislação brasileira, conquistando o direito de voto feminino.
Art 70 - São eleitores os cidadãos maiores de 21 anos que se alistarem na forma da lei. § 1° - Não podem alistar-se eleitores para as eleições federais ou para as dos Estados: 1°) os mendigos; 2°) os analfabetos; 3°) as praças de pré, excetuados os alunos das escolas militares de ensino superior; 4°) os religiosos de ordens monásticas, companhias, congregações ou comunidades de qualquer denominação, sujeitas a voto de obediência, regra ou estatuto que importe a renúncia da liberdade Individual.
O artigo 70 da Constituição de 1891 era interpretado de forma literal, considerando apenas homens como eleitores. Porém, a legislação eleitoral não elencava mulheres nem como possíveis eleitoras, nem como proibidas de votar.
O decreto 200-A, de 1890, estabelecia a qualificação para eleitores Art. 4° São eleitores, e teem voto nas eleições:
I. Todos os cidadãos brazileiros natos, no gozo de seus direitos civis e politicos, que souberem ler e escrever (decreto n. 6 de 19 de novembro de 1889).
II. Todos os cidadãos brazileiros declarados taes pela naturalização.
III. Todos os cidadãos brazileiros declarados taes pelo decreto da grande naturalização.
Art. 5° São excluidos de votar:
I. Os menores de vinte e um annos, com excepção dos casados, dos officiaes militares, dos bachareis formados e doutores, e dos clerigos de ordens sacras.
II. Os flihos-familias, não sendo como taes considerados os maiores de vinte e um annos, ainda que em companhia do pae.
III. As praças de pret do Exercito, da Armada e dos corpos policiaes, com excepção das reformadas.
A legislação eleitoral foi reformada pela lei 1.269 de 15 de novembro de 1904. O capítulo I dispões sobre a qualificação dos eleitores, sendo que o art.1°
elenca quem pode votar, e o art. 2° elenca quem não pode votar:
Art. 1° Nas eleições federaes, estadoaes e municipaes sómente serão admittidos a votar os cidadãos brazileiros, maiores de 21 annos, que se alistarem na fórma da presente lei.
§ 1° São cidadãos brazileiros:
1°, os nascidos no Brazil, ainda que de pae estrangeiro, não residindo este a serviço de sua nação;
2°, os filhos de pae brazileiro e os illegitimos de mãe brazileira, nascidos em paiz estrangeiro, si estabelecerem domicilio na Republica;
3°, os filhos de pae brazileiro que estiver em outro paiz a serviço da Republica, embora nella não venham domiciliar-se;
4°, os estrangeiros que, achando-se no Brazil a 15 de novembro de 1889, não declararam, dentro de seis mezes, depois de ter entrado em vigor a Constituição, o animo de conservar a nacionalidade de origem;
5°, os estrangeiros que possuirem bens immoveis no Brazil e forem casados com brazileiras, contanto que residam no Brasil, salvo si manifestarem a intenção de não mudar de nacionalidade;
6°, os estrangeiros por outro modo naturalizados.
Art. 2° Não podem alistar-se eleitores:
1°, os mendigos;
2°, os analphabetos;
3°, as praças de pret, exceptuados os alumnos das escolas militares de ensino superior; 4°, os religiosos de ordens monasticas, companhias, congregações ou communidades, de qualquer denominação, sujeitas a voto de obediencia, regra ou estatuto que importe a renuncia da liberdade individual.
Não há nenhuma expressão referindo-se diretamente a mulheres, nem como votantes nem como proibidas de votar. Esta lacuna, e considerar que a expressão "cidadãos brasileiros” refere-se também a mulheres, foram a base dos argumentos das sufragistas para modificar a legislação eleitoral.
Alguns projetos de lei para estender o direito de voto às mulheres foram encaminhados ao longo do início do século XX, tais como os do deputado Maurício Lacerda em 1917 e do senador Justo Chermont em 1921. Mas a tramitação foi lenta, e foram arquivados.
Em 1922, Mirtes de Campos, primeira advogada brasileira, havia defendeu o direito de voto no Congresso Jurídico do centenário da Independência do Brasil, em 1922 (RODRIGUES, 1982). Anteriormente, já havia tentado se alistar como eleitora por ser portadora de título científico, mas sem sucesso.
Também em 1922 ocorreu a Conferência Panamericana de Mulheres, e Bertha Lutz foi delegada do Brasil neste evento. Ela conheceu a sufragista norte-americana Carrie Chapman Catt, que teve papel importante tanto na fundação da FBPF quanto no primeiro evento realizado pela FBPF, ainda em 1922, denominado Primeira Conferência para Mulheres. Norte-americana, Catt sucedeu a sufragista histórica Susan B. Anthony na presidência da National American Woman Suffrage Association (NAWSA), principal organização sufragista dos Estados Unidos, e foi uma das responsáveis pela conquista do direito de voto, realizada através da Décima Nona Emenda, aprovada em 1919 e ratificada em tempo recorde em 1920 (KEYSSAR, 2014). Em entrevista a Branca Moreira Alves, Bertha Lutz descreve o contato com Catt:
Quando acabou a reunião eu pedi à líder americana, Mrs. Catt, que me ajudasse a fazer um estatuto porque eu queria começar uma associação. Então ela fez o estatuto da FBPF. E disse: 'se você quiser fazer um Congresso eu vou...' Eu perguntei a ela como é que se fazia um Congresso, e ela disse: 'Vocês fazem assim: vocês convidam um político de proeminência para a sessão de abertura e outro para a sessão de encerramento. Nós dirigimos, eu falo, você fala, mas precisa ter um homem de projeção para dar importância' (ALVES, 1980, p.111)
No segundo semestre de 1922 foi fundada a FBPF, e realizado o Congresso seguindo as instruções de Carrie Chapman Catt. Efetivamente houve repercussão na mídia, e as falas masculinas foram importantes não só para tornar público e organizado o apoio ao sufragismo, mas para sugerir estratégias de atuação.
O senador Lauro Muller, vice-presidente do Senado Federal, no encerramento do conclave, tem como profético o conselho: "Os homens são como os carneiros. Aonde um vai, os outros vão atrás. Se um fura a cerca, os outros vão atrás. As senhoras procurem um Presidente de Estado que fure a cerca e os outros vão atrás” (RODRIGUES, 1982, p.195)
Com efeito, foi exatamente o que as sufragistas fizeram nos anos seguintes, procurando apoio de presidentes de estado. No Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine se comprometeu com o movimento sufragista. As negociações foram bem-sucedidas, e a lei n° 660 de 1927, art.77 das Disposições gerais, declarava: "No Rio Grande do Norte poderão votar e ser votados, sem distinção de sexo, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas por esta lei” (RODRIGUES, 1982, p.196). O Rio Grande do Norte se destacou por ter a primeira eleitora (Celina Guimarães Vianna, em 1927) e a primeira prefeita, Alzira Soriano, eleita em 1929.
O exemplo do Rio Grande do Norte foi fundamental para legislação favorável às mulheres em outros estados. Em 1930, dez estados admitiam a mulher no colégio eleitoral. A resistência estava na esfera federal, e vinha dos juristas (RODRIGUES, 1982, p.197). Foram bastante utilizados artigos em jornais dos mais variados matizes ideológicos, passeatas, uso de relações sociais para alavancar discussões no Legislativo, e acompanhamento minucioso de cada debate público sobre o tema, procurando mobilizar toda a sociedade.
Conseguir a cooperação masculina era essencial, uma vez que dependia dos homens modificar a legislação para incluir mulheres como eleitoras e candidatas. Esse processo foi bem-sucedido, pois havia um objetivo mais amplo em comum que superava estereótipos de gênero e divergências internas. As sufragistas brasileiras conquistaram o direito de voto em 1932.
A luta por modificar a legislação interna, no entanto, não se restringiu à luta sufragista. Ela foi um elemento aglutinador ao longo da década de 1920, e que se mostrou importante na década de 1930. As sufragistas, especialmente a FBPF, procuraram criar leis e promover a modificação da situação das mulheres em relação ao trabalho e educação. Bertha Lutz foi a voz desses projetos por ser deputada, propondo um Estatuto da Mulher para centralizar as discussões sobre direitos das mulheres. Este Estatuto será analisado em capítulo à parte, pois é a espinha dorsal da luta por direitos das mulheres no Brasil.