1.5. Mahremiyet
1.5.5. Meslek Sırrı ve Mahremiyet
No trabalho de campo, a inserção do pesquisador no contexto da Associação envolvendo contato com outras cooperativas e instituições de fomento, possibilitou a análise de documentos, visitas e conversas informais com associados e lideranças. Como bases fundamentais desse trabalho de campo, foram obtidos elementos para elaboração de roteiro de entrevista, escolha de entrevistadas e realização de seis entrevistas bastante detalhadas.
O campo30 não é apenas o lugar específico onde ocorrem os estudos sobre as bordadeiras do Caicó e sobre a ABS e a Cobarts. Como Peter Spink (2003, p.28)
30 A questão do “campo”, inicialmente discutida pela Escola de Chicago da década de 1930, tem
esclarece, esse é um campo do tema, não só do que já é conhecido, mas do que está em discussão, em conflito e abrange redes de argumentações intersubjetivas que se interconectam em vozes, lugares e momentos diferentes, que nem todos os pesquisadores se conhecem.
Para Certeau (1994, p.201), a distinção entre lugar e espaço delimita um
campo, como aquele que autoriza práticas sociais. Como “lugar praticado”, é
possível pertencer a vários campos e também podemos ter acesso como parte de um campo do qual não somos participantes, pelo menos de maneira subordinada e tática. Dessa forma, como pesquisador, é possível participar de algumas conversas e ações que produzem e reproduzem o campo, mas o acesso pode ser claro ou discretamente vedado aos espaços de discussão e decisão.
As entrevistas foram semiestruturadas, isto é, orientadas por questões abertas que versavam sobre o histórico da inserção da artesã na atividade do bordado e na associação, as atividades de trabalho, a gestão da ABS e as relações cotidianas de trabalho e participação na Associação, estimulando-se a busca de exemplos do dia-a-dia, vividos pelas entrevistadas e reconstruídos pela memória.
O roteiro de questões abertas da entrevista foi organizado em cinco partes (Apêndice 1). Uma primeira parte especifica sobre informações referentes à associação e à cooperativa foi utilizada na entrevista de dirigentes da associação e da cooperativa (presidente do Cracas e vice-presidente da Cobarts, tesoureira da Cobarts e presidente da ABS). As outras quatro partes do roteiro foram aplicadas em todas as entrevistas de membros da associação e da cooperativa, incluindo também dirigentes. Essas quatro partes apresentam (1) questões sobre saberes do ofício/da profissão e dos processos educativos das bordadeiras (tradição/criação), (2) questões atinentes à de saberes dos processos educativos na organização do trabalho das bordadeiras, (3) questões acerca da cultura do trabalho31 e (4) dados gerais (pessoais, da família e do local de residência).
A rede de categorias ou sentidos é construída na vida cotidiana de forma dialógica e social. Portanto, as categorias dos saberes, práticas e processos pedagógicos das bordadeiras na Associação já estavam sendo suscitados nas questões do roteiro a partir das conversas e observações iniciais e têm continuidade
31 A cultura do trabalho é compreendida como um conjunto de práticas, valores e conhecimentos que
se materializam no processo de trabalho propriamente dito. Essa categoria será analisada no capítulo 2, na seção 2.2.
nas entrevistas realizadas. Essas entrevistas foram gravadas, ouvidas, transcritas e lidas, várias vezes, para que se pudesse comparar entrecruzar, juntar fragmentos para ampliar as vozes, argumentos e possibilidades de interconexões. Da metodologia de pesquisa qualitativa, que tem o reconhecimento de sua contribuição e de sua processualidade (PATTON, 1987), vem a orientação de criação de sistemas de categorias formais, tais como: temas, subtemas e padrões. Esses são criados a partir das próprias entrevistas, de todas as informações obtidas, dialogando com a literatura referente ao campo e tendo no horizonte o problema, as questões do estudo (SPINK, M., 2003).
Categorias e subcategorias foram feitas pela comparação das entrevistas, através do contraste, agrupando-se respostas das entrevistadas e identificando diferenças entre os sentidos localmente produzidos. Nesse processo, foi possível identificar dimensões, categorias, tendências, padrões, relações, utilizando-se, para isso, o relacionamento dos conteúdos temáticos das respostas32 e com o referencial teórico (BARDIN, 1977; SPINK, M., 2003).
Para elucidar a metodologia de trabalho de campo na Associação consideramos as categorias de Certeau (1994, p.201) acerca da distinção entre
lugar e espaço que delimitam um campo. Um lugar é a configuração de posições
segundo a qual se distribuem os elementos nas relações de coexistência (artesãs mais experientes, artesãs dirigentes ou líderes, empresárias do bordado, por exemplo) e implica uma indicação de estabilidade. “O espaço é um lugar praticado”
(CERTEAU, 1994, p.202), é animado pelo conjunto de movimentos de direção, de
operações, de tempo (cursos, oficinas de ensino de bordado, criação de cooperativas, feiras, compra e uso de máquinas, ações de cooperação, por exemplo). Assim, podemos observar que “os relatos cotidianos contam aquilo que, apesar de tudo, se pode fabricar e fazer. São feituras de espaço” (CERTEAU, 1994, p. 207). Nesses espaços, se definem legitimidade e ações efetivas, ou seja, cria-se
campo que autoriza práticas sociais.
Por exemplo, uma bordadeira da ABS, entrevistada em nossa pesquisa, analisa a negociação de preços em encomenda de grande quantidade com margem de lucro muito pequena. Trata-se de uma “feitura de espaço”.
32 Categorias significativas, conforme orientação definida por Bardin (1977, p.117) foram trabalhadas
A gente chega e diz: ‘- olhe dá pra fazer isso?’ ‘- Dá. ’ Então vamos fazer vamos crescer isso aqui porque o SEBRAE colaborou. Já isso que já cansou de colaborar. O Banco do Brasil agora está aqui. Mas o Banco do Brasil vai ser a mesma coisa do SEBRAE, porque isso não sai do canto. Então eu estou sempre fazendo projetos aqui, é a minha colaboração como artesã que eu amo minha profissão, eu gosto disso. Então eu faço projetos aqui, eu nunca perdi um. Faço aqui, vem isso, vem aquilo, dou palestra aqui, dou acolá, vem feira, mas tudo isso participo. Elas são as sócias ficam então eu não preciso. Para eu colaborar eu não preciso ser sócia porque eu colaboro de livre e espontânea vontade, eu me aposentei. Então ela que é a presidente ela conta comigo toda hora, então eu mesma estou aqui, crio logo e nem peço opinião a elas: ‘_esta aqui, é isso aqui é um jogo americano.’ Então aqui eu crio: “’_está aqui, é isso aqui e vamos fazer o preço é isso.’ E mostro pra elas porque elas são sócias. Então, elas lá ficam tudo torcidas e não querem, então vamos arranjar minhas bordadeiras, vamos arranjar, eu converso com elas e bordam. Minhas irmãs também, para isso crescer, só por isso (MAÍRA, 59).
Percebemos a “feitura do espaço” de negociação de encomenda de bordado em que se definem posições, denominado de lugar, segundo a qual se distribuem os elementos nas relações em alguns trechos da citada entrevista (“eu estou sempre fazendo projetos aqui”, “elas são as sócias”, “a presidente ela conta comigo” etc.) e se definem legitimidade e ações (“vamos fazer o preço é isso”, “converso com elas e bordam”).
Em síntese, as entrevistas foram realizadas com o propósito de identificar os modos pelos quais diferentes elementos dos saberes, das práticas e dos processos educativos são articulados no interior de situações materiais e sociais específicas da Associação e como os materiais, as sociabilidades e as histórias que eram relatadas sobre eles separadamente em cada entrevista como retalhos poderiam ser costurados constituindo uma colcha.33 Nas entrevistas, buscamos os relatos
cotidianos sobre aquilo que as artesãs bordadeiras contam como tendo sido possível fazer na Associação, ou em outras palavras como foram feitos os espaços do bordado de Caicó34. Infelizmente, não tivemos acesso a Assembleias da Associação e da Cooperativa tampouco a reuniões de suas diretorias. A importância das entrevistas realizadas no contexto de um conjunto maior de referências a diversos documentos, à literatura pertinente e a outras experiências se destaca no quarto e no quinto capítulos.
33 Imagem baseada em Mary Jane Spink (2003).
34 Certeau (1994, p.207) denomina “feituras de espaço” quando se definem posições, operações,