Apesar da crise de representatividade, de considerar cada julgador do STF uma “ilha19” (PEREIRA, 2013, p.59) e de que, tendenciosamente não percebe- se no Judiciário a melhor representação da democracia, o povo não está totalmente ausente na atuação em controle concentrado já que existem instituições estatais para representá-lo, além das formas de participação direta já utilizadas.
O Estado já designa papéis institucionais na defesa da democracia, o que pode ser percebido pela lista de legitimados para proposição das ações em controle concentrado de constitucionalidade listadas no artigo 103 da Constituição da República.
Inicialmente, é prevista a legitimidade do Presidente da República, que é o expoente maior da democracia, com a fácil percepção de todas as características democráticas modernas elencadas por Bobbio registradas no item 2.1 desta pesquisa(eletividade, não perenidade, representação política). Além disso, o Presidente tem como compromisso “manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro” (BRASIL, 1988, art. 78),
19 Merval Pereira é Jornalista e fez publicar em 2013 o livro chamado “Mensalão”, onde registra o dia-
a-dia do julgamento da Ação Penal nº 430. No capítulo que denomina “As razões de cada um” registra: “Diz-se que os ministros do STF são onze ilhas, por decidirem isoladamente, sem o espírito de coletividade. Mas pelo menos uma questão preocupa o conjunto: a credibilidade da corte” (2013, p.59)
sendo crime de responsabilidade os atos deste agente que atentem contra a Constituição. (BRASIL, 1988, art. 85).
Em segunda posição, avançando entre os legitimados do artigo 103 da Constituição Federal, estão as mesas das casas legislativas federais, a mesa da assembleia legislativa ou da câmara legislativa do distrito federal. O Poder Legislativo está representado como legitimado para questionar a constitucionalidade de atos normativos. Sendo a competência típica deste Poder a elaboração de leis, a opção de tentar declará-las inconstitucionais também deve lhe ser afeta. Além da representação do povo traduzida no Poder Legislativo, a representação das minorias deve ser assegurada por estes legitimados já que cada mesa é eleita, sendo assegurada, “tanto quanto possível, a participação proporcional das representações partidárias ou dos blocos parlamentares com representação na casa”.20
Em simetria com o Chefe do Executivo federal, o Chefe do Executivo estadual (governador de Estado e do Distrito Federal) figura como representante eleito e representante das unidades federativas que compõem o Estado Brasileiro, devem também eles zelarem pela unidade e legalidade do sistema de normas.
Frise-se que a jurisprudência indica que estes últimos legitimados elencados devem observar a pertinência temática para a propositura das ações constitucionais, conforme já tratado no capítulo 3 deste estudo.
Além dos representantes de Estado, eleitos por voto direto, secreto, universal e periódico, representantes dos Poderes Legislativo e Executivo, existem no rol dos legitimados, instituições de representação cidadã e das minorias tais como o Ministério Público – representado pelo Procurador Geral da República, o Conselho Federal da OAB, partido político com representação no Congresso Nacional e confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.
Aqui cabe o questionamento sobre a legitimidade da Defensoria Pública, que não aparece entre os legitimados elencados no texto constitucional, o que entende-se por grande falha no sistema constitucional de legitimação das ações de controle concentrado. Havendo o reconhecimento da defensoria como essencial à função do Estado, consoante a nova redação do art. 134 da Constituição, conferida pela Emenda Constitucional no 45 do ano de 2004 (a chamada reforma do Poder
20 A eleição das mesas das casas legislativas é realizada em sessão preparatória, de conformidade
com o Art. 57§4º da CRF88, e a representação é determinada conforme o regimento interno de cada casa, no Senado, com previsão nos arts. 3º e 46 e na Câmara Federal no artigo 14 e ss, de seu Regimento Interno.
Judiciário) deveria figurar algum representante da defensoria entre os legitimados. Na atualidade, à defensoria foi reconhecido o direito de pleitear, por intermédio da ANADEP, em nome de seus próprios interesses. O que, entende-se já está disciplinado, tendo em vista a legitimidade das associações:
A Associação Nacional dos Defensores Públicos (ANADEP) dispõe de legitimidade ativa ad causam para fazer instaurar processo de controle normativo abstrato em face de atos estatais, como a legislação pertinente à Defensoria Pública, cujo conteúdo guarde relação de pertinência temática com as finalidades institucionais dessa entidade de classe de âmbito nacional.” (ADI 2.903, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 1º-12-2005, Plenário, DJE de 19-9-2008.
Ainda há muito a discutir-se sobre a legitimidade da Defensoria Pública entre o rol de legitimados mas algum avanço é percebido. Por exemplo, no âmbito estadual do Estado do Ceará, a constituição estadual já traz dispositivo que prevê ao Defensor Público Geral a proposição das ações em sede de controle concentrado estadual. O avanço à esfera federal é ainda aguardado.
Nada obsta que defensorias e procuradorias locais e regionais, diante da magnitude de alguma matéria, oficie ao legitimado que entender mais adequado e que este último ofereça a Ação Constitucional que entende cabível.
São estes então os legitimados corporativos ou institucionalmente aceitos para a representação democrática. É uma grande conquista do regime democrático instituído pela Constituição Federal de 1988, mas não é o suficiente.
Conhecer o Tribunal Constitucional é essencial ao Estado Democrático de Direito. Trata-se de uma Corte que cada vez mais ganha repercussão midiática e atinge a todos em seus pronunciamentos. Além de conhecer, defende-se a ideia de participação efetiva da sociedade, através dos meios instituídos, nos processos de tomada de decisão da corte.
Apesar da proximidade favorecida pela mídia, o distanciamento ainda é sentido, como já falava, no final da década de 60, Aliomar Baleeiro:
Conhecerá o povo seu Tribunal mas elevado, supremo por nome e definição? Alimento minhas dúvidas, fruto de observações de uma vida já longa em contato com os vários grupos da população. Fora dos meios forenses e políticos, de si restritos, o homem da rua, ainda quando relativamente educado, não forma nítida compreensão do papel que desempenha, no papel de nossas instituições, uma Corte de Justiça, cujos contornos políticos, no mais sobre o grego sentido da palavra, a distinguem dos outros tribunais. (BALEEIRO, 1968,p.10/11)
O entrosamento entre a alta corte judiciária e os cidadãos deve ser uma prática defendida, divulgada e praticada, além de amplamente incentivada. Mecanismos estatais já existentes não são utilizados em todo seu potencial, e uma maior participação garantiria maior legitimidade ao pronunciamento da Corte.
Sobre o necessário pluralismo de que tratou-se até o momento e sua relação com a legitimidade judicial, acredita-se que estes fatores estão diretamente relacionados, de forma que tão mais legítimos serão os pronunciamentos do STF quanto mais plurais e fundamentados sejam os seus pronunciamentos. Relação que é exposta através de uma curva de legitimidade.
4.2 Dos níveis de legitimidade na decisão judicial em Controle