2. MESLEK TANITIMI
2.6. Mesleğe İlişkin Diğer Gereklilikler
Ao final de seu discurso, depois de percorrer uma via-crucis e uma via-sacra, compondo os quadros lascivos de Emma Bovary, Pinard conclui que “A arte sem regras não é mais arte; é como uma mulher que tirasse todas suas roupas. Impor a decência pública à arte como única regra não é escravizá-la, mas honrá-la.”211
(PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 318). Para o Advogado Imperial, Flaubert e Emma Bovary representam uma ameaça à sociedade francesa oitocentista, que, por espelhamento, corre o risco de ver/ler no romance ações maléficas e maus
210 No original: « Est-ce qu'elle pouvait vivre ? Est-ce qu'elle n'était pas condamnée ? Est-ce qu'elle
n'avait pas épuisé le dernier degré de la honte et de la bassesse ? […] Il ne reste plus à la malheureuse qu'à mourir ! […] Et celui qui vous présente la femme adultère mourant honteusement, celui-là commet un outrage à morale publique ! » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 677-678)
211
No original: « L’art sans règle n’est plus l’art ; c’est comme une femme qui quitterait tout vêtement. Imposer à l'art l'unique règle de la décence publique, ce n'est pas l'asservir, mais l'honorer. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 633)
hábitos a serem reproduzidos, “pessoas” imorais a serem copiadas. Pinard demonstra temer que a ordem social seja subvertida quando a voz da lei não se faz ouvir. Ele se
exaspera diante da possibilidade de ver a lascividade e a volúpia tomarem o lugar da
moral e da ordem estabelecida, ou seja, Pinard teme que a vida imite a arte.
Ao final da leitura e da interpretação do requisitório, vemos que não são somente as ações de Emma que escandalizam Pinard; Flaubert também o faz, ao cometer, tal como sua heróina, outros tantos crimes. É curioso ver como Pinard confunde o escritor (suas ações) com as de sua personagem. O fato de Flaubert publicar o romance Madame Bovary provoca em Pinard uma grande revolta, mas não a única. Pois, se Flaubert não tivesse escrito o romance em questão, Emma não teria existido.
Em suma, Flaubert peca então, aos olhos de Pinard, também por seu estilo, já que ele criou um romance cujas personagens são tipificadas, estereotipadas, que incarnam lugares-comuns tais como o marido traído, a esposa adúltera, o farmacêutico grotesco, os amantes covardes, o comerciante inescrupuloso, dentre outras:
[…] a honra conjugal é representada por um marido piedoso [...] a opinião pública está personificada num ser grosseiro, no farmacêutico Homais, rodeado de personagens ridículos [...] [personificada também] no pároco Bournisien, padre quase tão grotesco quanto o farmacêutico, que somente crê nos sofrimentos físicos, nunca nos sofrimentos morais.212 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 317-318)
Desse modo, Pinard não perdoa ninguém, critica todas as personagens, por acreditar que nenhuma delas é um exemplo digno de ser seguido; todas representam, assim, riscos aos leitores, seres susceptíveis às estereotipias, aos clichês. Como podemos perceber, os julgamentos morais feitos por Pinard no excerto acima são, praticamente todos eles, construídos a partir de lugares-comuns e de pathemias a eles relacionadas. Convidamos Pierre-Marc de Biasi, para resumir a voz do Procurador Imperial:
212
No original: « […] l'honneur conjugal est représenté par un mari béat […] l'opinion publique est personnifiée dans un être grotesque, dans le pharmacien Homais, entouré de personnages ridicules […] au nom du sentiment religieux […] vous l'avez personnifié dans le curé Bournisien, prêtre à peu près aussi grotesque que le pharmacien, ne croyant qu'aux souffrances physiques, jamais aux souffrances morales […] » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 633)
Depois de um estudo detalhado das "obscenidades" relativas a cada uma dessas personagens, Pinard procura demonstrar que toda a obra é imoral pelas mesmas razões: a opinião pública, encarnada por personagens tais como o marido, o farmacêutico, o sacerdote, é ridicularizada a cada instante, enquanto a mulher adúltera beneficia constantemente da indulgência do romancista, que parece, em todas as oportunidades, lhe dar razão. As instituições consideradas as mais sagradas são desrespeitadas: o casamento é triste e desesperador, e o adultério é apresentado como salutar e poético, etc.213 (BIASI, 2009, p. 226-227)
No entendimento de Sénard, para incriminar uma obra literária é preciso valer- se de argumentos mais compatíveis com essa situação, ou seja, dominar o universo literário, sua estrutura e seu fazer. Certamente, diz o advogado, Flaubert receberia de bom grado toda e qualquer crítica literária, opiniões diversas sobre sua obra que tivessem fundamento literário, mas uma acusação como a apresentada por Pinard, que se baseia em estereotipias morais e religiosas, é algo inadmissível tanto para Flaubert quanto para seu advogado de defesa:
Defendo um homem que, se tivesse encontrado uma crítica literária sobre a forma de seu livro, sobre algumas expressões, sobre demasiados detalhes, sobre um ponto ou sobre outro, teria aceitado essa crítica literária com o maior prazer do mundo. Mas, ver-se acusado de ultraje à moral e à religião! O Sr. Flaubert não consegue acreditar; e protesta aqui, diante de vós, com todo o assombro e toda a energia de quem é capaz contra uma tal acusação.214 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 358)
Finalmente, o advogado de defesa interpela o júri e lhe passa a palavra, transferindo-lhe a responsabilidade de julgar. Sénard diz ter feito seu trabalho de maneira honrosa e pede que Flaubert seja julgado a partir de tudo o que foi dito nessa audiência de julgamento. E volta a repetir: “Cabe a vós agora deliberar. Julgastes o livro em seu conjunto e em seus detalhes, não vos é possível hesitar.”215(SÉNARD,
1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 358). Assim, Sénard encoraja, de certa forma, o
213 No original: « Après une étude de détail des « obscénités » relatives à chacun de ces personnages,
Pinard cherche à démontrer que l’ouvrage tout entier relève en fait de la même immoralité : l’opinion publique, incarnée par des personnages comme le mari, le pharmacien, le prêtre, se trouve ridiculisée à chaque instant, tandis que la femme adultère bénéficie constamment de l’indulgence du romancier qui semble, en toute occasion, lui donner raison. Les institutions les plus sacrées sont bafouées : c’est le mariage qui est triste et désespérant, tandis que l’adultère est présenté comme salutaire et poétique, etc. »
214 No original: « Je défends un homme qui, s'il avait rencontré une critique littéraire sur la forme de
son livre, sur quelques expressions sur trop de détails, sur un point ou sur un autre, aurait accepté cette critique littéraire du meilleur cœur du monde. Mais se voir accusé d'outrage à la morale et à la religion! M. Flaubert n'en revient pas ; et il proteste ici devant vous avec tout l'étonnement et toute l'énergie dont il est capable contre une telle accusation. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 680)
215 No original: « A vous maintenant de statuer. Vous avez jugé le livre dans son ensemble et dans ses
júri a não hesitar na sentença, a aceitar seus argumentos positivos, ainda que
pathemizados. Mas, afinal de contas, no âmbito da Justiça, todos os argumentos,
venham eles da acusação ou da defesa, são pathemizados e pathemizantes: vemo-nos em um grande teatro!
O veredito final traz em si uma lição, também ela moralizante, sobre o fazer literário. Os juízes, ao dar a sentença, pregam a maneira “correta” pela qual uma obra de arte deve ser construída. No caso da literatura, é mister priorizar o ornamento do espírito, elevar a inteligência e depurar os costumes. Não se deve, ainda segundo o veredito, usar a Literatura para imprimir a repulsa pelo vício e oferecer o quadro das desordens que podem existir na sociedade. Ser educadora e moralizante é função da “boa” literatura, sim! Mas, para isso, não cabe a exposição dos vícios e dos desvios, enfim, das fragilidades humanas. Mais uma vez convidamos Biasi, que resume bem o desfecho do processo:
O tribunal reconhece que o romance contém realmente uma lição de moral (que teria sido mais perceptível se o autor tivesse sido mais "severo na linguagem" para castigar os excessos de sua heroína), que o livro “foi longa e seriamente trabalhado do ponto de vista tanto literário como de estudo de personalidades", e que as passagens duvidosas marcadas pelo ministério público não foram assim tão numerosas e não permitem pensar que o objetivo do escritor tenha sido o de encorajar, nos leitores, um espírito licencioso e lascivo.216 (BIASI, 2009, p. 227- 228)
Resumindo: para a acusação, os réus mereciam punição por terem sido injuriosos e obscenos; para a defesa, mereciam a absolvição por terem sido exemplares e inspiradores. Apesar de reconhecer a existência de faltas graves no romance de Flaubert, a Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena inocentou os envolvidos nesse caso. Enfim, Flaubert, Madame Bovary, a Revue de Paris e seus editores foram absolvidos em fevereiro de 1857: “O tribunal os absolve da acusação feita contra eles e os libera sem custas.”217(FLAUBERT, 2007b, p. 360)
216
No original: « Le tribunal reconnaît que le roman contient en effet une leçon morale (qui aurait été plus visible si l’auteur avait usé d’une plus grande « sévérité de langage » pour fustiger les débordements de son héroïne), que le livre a été « longuement et sérieusement travaillé, au point de
vue littéraire et de l’étude des caractères », et que les passages douteux signalés par le ministère public
restent finalement peu nombreux et ne permettent pas de penser que le but de l’écrivain ait été d’encourager dans le public l’esprit de licence et de débauche. »
217 No original: « Le tribunal les acquitte de la prévention portée contre eux et les renvoient sans
É importante destacar o fato de os juízes se pronunciarem sobre o fazer literário no veredito. Como foi dito anteriormente, o século XIX na França é marcado pela força da Lei sobre a Literatura. Há, nessa reflexão do júri, uma descrição crítica do estilo de escrita de Flaubert, uma censura ao realismo do escritor. Para os juízes, fazer literatura valendo-se de descrições pormenorizadas de tipos, de pinturas coloridas de caráter, mostrar as fragilidades do ser humano, seus vícios e a crueza da realidade em que vivem, vai de encontro às funções da arte, quais sejam, as de instruir e mostrar “o belo e o bom”.
Em razão da especificidade do veredito, achamos por bem retomar, na próxima seção, a temática do Realismo, por ter sido ela objeto de discussão entre os advogados e Flaubert.