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O Maneirismo surge originariamente na Itália, como movimento artístico e literário de reação anticlassicista. Movimento este, gerado a partir da crise do Renascimento, a qual começa por emitir sinais de fragilização do sistema de valores do Humanismo já no início do

século XVI, atingindo seu ápice ao final da segunda década com a extinção da Escola de Rafael, última representação da arte renascentista italiana.

Diversos fatores deram causa a essa crise, destacando-se os de ordem política, social, econômica, ideológica, religiosa e moral, os quais determinaram a extinção do ânimo do espírito renascentista, cuja ideologia, de fundamentos humanistas, centrava-se na fé incondicional no homem.

Nessa época tem-se a consolidação das monarquias absolutistas em detrimento do sistema feudal agonizante, apoiada na doutrina do realismo político de Maquiavel; a afirmação da burguesia como classe dominante, conquistando gradativamente o prestígio e o poder, anteriormente pertencentes exclusivamente à realeza e ao clero; na religião, as ações reformistas de Lutero, baseadas na liberdade de pensamento e na crítica à dogmática da Igreja Católica, de verdades até então indiscutidas, reforma esta que provoca a reação alucinada da Igreja, no afã de preservar, a qualquer custo, seus valores tradicionais, que, enfim, serviriam à manutenção dos privilégios de seus membros, sob o protecionismo do Estado, tendo como conseqüência o movimento de Contra-Reforma.

Nesse contexto dá-se o florescimento do Maneirismo, cuja literatura contemporânea não poderia ficar indiferente às contradições e à instabilidade geradas nessa época, pois, como afirma Moreira (2001, p. 20): "Produzida nessa atmosfera, ela participaria, forçosamente, do espírito de contradição e de mudança de sua época, partilharia das suas angústias e expectativas".

Em Portugal, embora um pouco tardiamente, mas ainda na primeira metade do século XVI, observam-se também os sinais de decadência do sistema de valores do Humanismo, que sucumbe em razão da mesma diversidade de fatores que causaram a sua falência nos demais países da Europa Ocidental.

Essa decadência gera nos portugueses da época o sentimento cada vez mais profundo de angústia e insatisfação, devido ao distanciamento do esplendor da era da expansão

33 portuguesa, marcada pelo triunfo das descobertas de novas rotas comerciais e pelo domínio das novas terras conquistadas na vastidão dos continentes de além-mar, motivos de orgulho nacional e de prestígio perante as demais nações européias. Ademais, a perspectiva de um futuro nebuloso, mercê dos requintes com que eram praticadas as atrocidades pela Igreja, através da Inquisição com o aval do Estado, no movimento da Contra-Reforma, produz nos espíritos da época a mais terrível morbidez.

Nesse quadro desolador surge a primeira geração de poetas maneiristas portugueses tendo em Camões seu vulto proeminente.

Tendo participado ativamente de expedições marítimas empreendidas, principalmente no Oriente, Camões vivenciou as duras experiências de se fazer ao mar em naus de madeira com propulsão à vela, sem qualquer recurso tecnológico para a navegação segura, nem conforto pessoal básico, conforme denúncia explícita em sua queixa às Ninfas, "A fortuna me traz peregrinando/Novos trabalho vendo e novos danos/Agora o mar, agora exprimentando/Os perigos Mavórcios inumanos" (VII, 79, vv. 3 a 6). Também conheceu, in loco, a opressão aos povos conquistados da África e da Índia. O saque de suas riquezas, pela avareza da Corte portuguesa e pela corrupção dos governantes designados para representar a corte nos longínquos territórios, especialmente na Índia e na China, cuja denúncia encontramos de maneira freqüente em toda a obra camoniana, épica, lírica e dramática. Convém destacar como exemplo da denúncia velada que emana da escrita do poeta, um trecho da Carta II que escreve da Índia a um amigo em Lisboa:

[...] Da terra vos sei dizer que é mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados. Porque os que se cá lançam a buscar dinheiro, sempre se sustentam sobre água como bexigas; mas os que sua opinião deita á las

armas, Mouriscote, como a maré corpos mortos à praia, sabei que, antes que

Temos no trecho destacado uma amostragem sintética do testemunho de Camões sobre as desigualdades entre aqueles que iam para o Oriente buscando enriquecer-se, cuja ganância não tinha limite, "como bexiga" que se elastece à medida que sorve a água até estourar, e os que arriscavam as suas vidas nas batalhas pela dominação, corpo-a-corpo, expostos à morte provável, ainda jovens, "antes que amadureçam se secam".

De acordo com sua visão de mundo, Camões jamais poderia deixar de considerar o contexto no qual estava inserido. Daí ser-lhe impossível escrever uma epopéia isolada dos fatos presentes de sua sociedade, que eram conseqüências diretas das ações desenvolvidas no passado, não tão distante, que comporia sua matéria épica, e das ações no presente. Assim, vemos que o herói do poema de Camões é o povo lusitano representado na figura de Vasco da Gama, que empreendeu a viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia, em 1497, portanto, a menos de meio século do nascimento de Camões e a menos de um século da composição d'Os Lusíadas. Este é um fator relevante de diferenciação nas condições históricas para a criação de uma epopéia, já que esta, em sua concepção clássica, deve ser uma narrativa de acontecimentos transcorridos em um passado remotíssimo. Também depreendemos do poema camoniano fatos concretos relatados nos anais da história trágico- marítima, os quais colocam em relevo as viagens subsequentes à de Vasco da Gama, realizadas em circunstâncias aventureiras e irresponsáveis, visando tão-somente o lucro mercantilista em detrimento das vidas dos povos subjugados e dos próprio portugueses, alguns explorados (os marinheiros e soldados) e outros que, pela ganância de lucro e de poder, aventuravam-se com suas famílias em naus inseguras e superlotadas de gente e de mercadorias.

Nesse sentido encontramos relatos históricos que condizem com a censura do poeta em diversos pontos dos excursos, especialmente nas falas do Velho do Restelho, do gigante Adamastor e de Baco.

35 Vejamos um curioso relato histórico sobre o tratado da batalha do galeão Santiago, publicado na coletânea História Trágico-Marítima:

À ambição e cobiça dos mercadores (incluída a gente fidalga), carregando desmedidamente os navios, numa ânsia insofrida de lucro e de rápido enriquecimento de qualquer maneira, mesmo pondo em risco a sua vida e a dos demais passageiros e tripulantes [...] Trazia este galeão, só no porão, quatro mil quintais de pimenta; e no corpo da nau e debaixo da ponte e em cima dela, na tolda, no chapitéu, sobre o batel, no sítio do cabrestante e no convés eram tantos os caixões de fazenda e fardos ao cavalete, que não cabia uma pessoa nele. E até por fora do costado, pelas postiças e mesas de guarnição, vinham fardos, e camarotes formados, como todas estas naus costumam, de tal maneira que se não podiam nele marear as velas, e dezoito dias se não pôde andar com cabrestante. E sobretudo se embarcaram nele perto de trezentas almas, entre nautas, oficiais e alguns soldados ordinários e escravos e como trinta pessoas fidalgas e nobres [...] O que fez exclamar aos holandeses, depois de tomado o navio: Dizei, gente portuguesa, que nação

haverá no mundo tão bárbara e cobiçosa que cometa passar o cabo de boa

Esperança na forma que todos passais, metidos no profundo mar com carga, pondo as vidas a tão provável risco de as perder, só por cobiça; e por isso não é não maravilha que percais tantas naus e tantas vidas (BRITO, 1984b Vol. II, p. 17, grifo nosso).

A partir desse relato é possível ter-se uma noção da crueldade preponderante na exploração do Oriente em nome da "dilatação da Fé e do Império", cuja memória Camões promete cantar:

E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e Ásia andaram devastando, ... (I, 2, vv. 1 a 4)

Porém, tal proposição será contradita veementemente pelo Velho do Restelho, numa síntese de extrema expressividade, com a qual inicia sua fala: "Ó glória de mandar, ó vã cobiça" (IV, 95, v. 1), lançando sombras de dúvidas sobre a empresa que se ergue rumo ao Oriente.

Ante as circunstâncias políticas, sociais, econômicas, culturais e religiosas que marcavam a história do mundo ocidental pelas profundas transformações no campo do conhecimento humano, no século XVI (Humanismo renascentista/Maneirismo), Camões revela através de sua obra o espírito fracionado do homem de seu tempo, mergulhado em crise existencial, produzindo uma epopéia inédita.

Benzer Belgeler