I. BÖLÜM
2. SELÇUKLU DEVLETİ’NİN KURUMSALLAŞMAS
1.6. Mervâniler ile Selçuklu Devleti İlişkileri
Passemos a alguns exemplos práticos destes dilemas, mirando casos não abordados por Foucault em “Os Anormais”, mas que guardam relevância com os pontos abordados pelo filósofo. Na hipertricose lanuginosa congênita, por exemplo, o indivíduo apresenta pelos profusos espalhados por todo o corpo. Tais pelos são muito finos e felpudos, podendo chegar a vinte e cinco centímetros de comprimento. Também conhecida como “síndrome do lobisomem”, é tão rara que só foram relatados cerca de cinquenta casos desde a Idade Média até os dias atuais. Uma pessoa com hipertricose não costuma apresentar problemas de saúde física ou mental, e tem o tempo de vida médio igual ao de outro ser humano. A única diferença é o seu aspecto animalesco, decorrente da profusão de pelos que lhe confere aspecto animal, às vezes lupino, eventualmente leonino.61 Um dos
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E mesmo a Astrologia contemporânea, ainda que baseada no pensamento renascentista, não segue mais a uma ética da resignação, comprometendo-se antes com um desejo de normalização. Às descrições astrais, fazem-se acompanhar conselhos, terapias e “curas” que inexistiam nas obras clássicas. Se a Astrologia antiga tinha um papel descritivo, a atual tem um objetivo normalizador.
61 A larga maioria dos portadores de hipertricose da história recente tiveram como destino o circo, onde sua existência era aceitável e lhe possibilitava o sustento. O circo era o gueto, o lugar onde a existência do “monstro” era tolerada. Exemplos: a mexicana Julia Pastrana (1834-1860) e o polonês Stephan Bribowski (1891-1932).
mais famosos casos de hipertricose e que expõe a “ambiguidade jurídica” descrita por Foucault é o do espanhol Pedro González (1537-1618). Segundo o historiador italiano Roberto Zapperi (nascimento em 1932), González foi levado aos dez anos de idade como presente (ou seja, tratado como animal) para o rei Enrique II (1519-1559), da França, e por ele alçado à posição de “cavalheiro” (ou seja, tratado como humano). A mentalidade francesa do século XVI relacionou González à figura do “bom selvagem” e, em decorrência disso, o menino foi tomado como discípulo por Enrique II, que lhe proporcionou acesso à uma refinada educação. Instruído em humanidades e latim (língua acessível apenas à aristocracia), González se torna “somelier de panneterie bouche du roy” e passa a receber um salário alto para a época: 240 libras anuais. Além disso, recebe o título de “Don”, e passa a ser conhecido como Don Pedro González, tornando-se um dos mais famosos personagens europeus de sua época e deixando seis descendentes – sendo que apenas dois não portavam hipertricose (ZAPPERI, 2006, p.43).
Figura 17: retrato (óleo sobre tela) de Pedro González, “el selvaje gentilhombre”, autor anônimo. Fonte: (WIKIPEDIA COMMONS, 2013)
Figura 18: fotografia do artista performático polonês Stephan Bribowski (1891-1932), um dos mais famosos casos de hipertricose na história recente. Fonte: (WIKIPEDIA COMMONS, 2013)
Outras condições de “seres mistos” eram previstas nas obras antigas de Astrologia, como “monstros sagrados”. A criatura emergida do interregno de dois mundos podia ter um
status sacro. Vejamos o que diz Maternus (2001, p.237) em seu “Matheseos Libri VIII”.
Nesta obra, podemos encontrar no sétimo capítulo do “Liber Septimus” a diagnose celestial dos “nascimentos monstruosos” (negritos meus):
Se a Lua se encontrar em signos curvos ou bestiais, ou seja, em Touro, Caranguejo, Escorpião, Capricórnio ou Peixes, e o regente desse signo estiver em aspecto à Lua, e um dos planetas maléfico estiver em quadratura ou oposição à Lua, ou junto a ela, e o segundo planeta maléfico estiver na anáfora do ascendente, em aspecto ao regente da Fortuna62, nascerão quadrúpedes de quadrúpedes, especialmente se o regente do ascendente e o regente da Fortuna estiverem nos signos listados. Mas, se o regente da Fortuna ou o regente do ascendente se encontrarem em signos humanos, na sexta casa, com os outros localizados como dissemos, nascerá um monstro de um ser humano. Se planetas maléficos estiverem localizados nos ângulos, juntos ou nas anáforas dos ângulos, e nenhum planeta benéfico se encontrar nos ângulos ou nas anáforas dos ângulos, ou ocultos pelos raios do Sol, nascerá um quadrúpede ou um monstro. Se Marte estiver em oposição ou quadratura ao Sol ou à Lua no ascendente, o quadrúpede que nascer será destinado ao sacrifício público. Mas se, com
tudo o que descrevemos, Júpiter e Vênus estiverem localizados fora dos ângulos, em aspecto ao Sol, Lua ou ascendente, o que nascer será criado pelos homens, ou consagrado em templos ou santuários.
Evidencia-se, portanto, que nem todo “monstro” seria temido, nem tampouco há um julgamento moral negativo sobre o caráter destes seres de aspecto híbrido. Ao contrário, há a consideração da sacralidade de alguns deles, em função da influência dos então chamados “planetas benéficos”: Júpiter e Vênus. Lembremo-nos que também Ptolomeu (1999, p.61) considera estes dois planetas como significantes de uma “monstruosidade positiva”, conforme citado anteriormente: “o tipo de monstro será respeitado e decente”.
Apesar de nem Firmicus Maternus e nem Ptolomeu citarem explicitamente o aspecto do “monstro consagrado em templos ou santuários”, temos algumas pistas. Um dos mitos mais recorrentes na Europa é o do “Green Man”, entidade sagrada cuja aparência reúne a mescla de humano com plantas e é abundante em esculturas eclesiásticas.
Figura 19: um “green man”: meio humano, meio planta, entalhado na Catedral de Bomberg, Alemanha, século XIII. Fotografia de Johannes Otto Forst. Fonte: (WIKIPEDIA COMMONS, 2013)
A epidermodisplasia verruciforme, também conhecida como doença de Lewandowsky-Lutz, é uma rara condição genética que faz surgir verrugas imensas por todo o corpo, assemelhadas a cascos de árvore. Pés e mãos parecem “criar raízes”, e os portadores são conhecidos como “homens-planta” ou “homens-árvore”. Ao contrário do que ocorre em outras condições genéticas, o portador de epidermodisplasia nasce com aparência perfeitamente humana, e passa a desenvolver o aspecto arbóreo em algum momento entre um e vinte anos de idade (às vezes mais tarde). Eis que temos um caso mais perturbador que o dos homens-lobo: o portador de epidermodisplasia nasce humano, definido, e trai nossa percepção, convertendo-se em “monstro”, em “misto humano-planta”, com o passar dos anos. Se a Medicina atual procura tratar os homens-planta, concedendo- lhes a normalidade, tais personagens eram considerados sagrados em várias culturas antes do século XVI e ainda hoje costumam ser venerados em algumas regiões da Índia. Podem ser os “monstros sacros” de Ptolomeu, presentes em diversas mitologias, não apenas pagãs, como também cristãs, simbolizando o renascimento e a aliança entre homem e natureza. Os homens-planta contemporâneos são submetidos a tratamentos ainda pouco
eficazes, que visam minorar63 os efeitos da doença. A doença de hoje é o sagrado de
ontem.
Figura 20: Dede Koswara, o “homem-árvore de Java”, portador de epidermodisplasia verruciforme. Fonte: (SÍTIO ELETRÔNICO DO GEOGRAPHIC CHANNEL64, 2012)
63 Geralmente com pouco êxito, pois os “cascos arbóreos” costumam retornar após serem extraídos com laser.