Existe uma coincidência de dois anos no período de circulação dos jornais O Farol (1850-1854) e O Telégrafo (1847-1852), por isso, muitas de suas matérias eram semelhantes. Apesar da predominância de conteúdos políticos, existiram, nos dois periódicos, divulgações
da prosa de ficção, inclusive com os mesmos anúncios; e no jornal O Farol foi veiculada ainda prosa de ficção, como veremos neste capítulo.
O Farol: Folha Política e Comercial circulou de 11 de maio de 1850 a 02 de dezembro de 1854. Possuía como epígrafe, durante os dois primeiros anos, estes versos: “Monarquia, Constituição e Liberdade / Ordem, Justiça e Tolerância”. A maior parte de seus exemplares apregoou com duas colunas, mas em 1851, algumas edições apresentaram três colunas. Era composto de 4 ou de 6 páginas. Faltam cópias de várias edições e do ano de 1852 não existem mais exemplares.
Em seu Prospecto, O Farol declarava-se como “todo político” e pertencente a um partido, mas não informava qual. Pelo conteúdo veiculado, assim como pela epígrafe, concluímos que seria o Partido Conservador. Defendia as ideias monárquico-constitucionais por acreditar que essas eram capazes de melhorar o serviço público, além de solidificar a ordem e a liberdade. Esporadicamente, o jornal seria comercial:
[...] apressamo-nos em dizer que o fim de nossa publicação é todo político (e também comercial, quando para isso houver lugar) e neste empenho defenderemos pontual e eficazmente as ideias monárquico-constitucional, atualmente dominantes, por estarmos persuadidos serem as ideias capazes de promover o melhoramento dos negócios públicos e de dar solidez aos negócios de ordem e liberdade (O Farol, Prospecto, 11 maio 1850, n. 1).
Era impresso, em Caxias, na Tipografia Independente, que, no período em que o jornal circulou82, mudou de dono três vezes e de endereço seis, tornando-se o jornal mais nômade encontrado nesta pesquisa. No início da circulação, a Tipografia era de Colattino Cidrônio de Tavares da Silva e funcionava na Rua da Boa-Vista n. 1; no dia 10 de maio de 1851, mudou- se para a Rua da Taboca n. 1; em 22 de setembro do mesmo ano, funcionava na Rua do Sol, s/n. Em 1853, a Tipografia Independente tinha como proprietário Filinto Elysio da Costa, e continuou na Rua do Sol, agora no n. 16. Em 1854, a tipografia mudou-se para o Largo dos Quartéis, n. 3, e o proprietário era Antônio da Costa Júnior; em 10 de novembro de 1854, O Farol estampava seu mais novo endereço: Largo da Independência n. 3, mas o jornal ainda pertencia a Costa Júnior.
As assinaturas custavam entre 9$000 a 8$000 réis por ano e 5$000 a 4$500 réis por semestre, pagos adiantados; pelas folhas avulsas, os leitores pagavam de 160 a 200 réis. Os assinantes tinham direito a 30 ou 20 linhas grátis; e as excedentes custariam 20 ou 40 réis
cada. Os preços variavam com os anos; os primeiros são os do início da circulação; os demais do último exemplar que encontramos.
O periódico veiculava matérias sobre política, economia, poesia, anúncios do comércio local, prosa de ficção, notícias de Caxias, São Luís, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, Pará, Pernambuco, Lisboa, Londres, Itália, França. Muitas dessas notícias internacionais eram extraídas do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, enquanto que as de outras cidades brasileiras eram copiadas dos periódicos destes lugares.
A prosa de ficção, no jornal O farol, apresentava-se na sessão Variedades, dentro do corpo do jornal. Circularam os escritos: “Os sapatos encarnados”, anônimo, extraído de um jornal não identificado; e “Consequências de um casamento por cálculo”, obra aparentemente brasileira, copiada do Correio da Tarde; além de “Pensamentos de um rapaz sobre o casamento”, do novelista e dramaturgo francês Paul de Kock. Serão analisados aqui os dois primeiros escritos.
Figura 49 - Página do jornal O Farol com o início de “Os sapatos encarnados” (26 abr. 1851, n. 52, p. 2)
O escrito “Os sapatos encarnados”, que circulou no jornal, dia 26 de abril de 1851, n. 52, narra a história de M. de..., um jovem francês que reuniu, em sua casa de campo, parte da sociedade aristocrática de Paris. A caça era a ocupação das mulheres no evento, por isso, todas as manhãs, ao sinal dos cavaleiros, elas montavam a cavalo, armadas de faca de mato à cintura e espingarda, em seguida perseguiam veados e javalis no bosque. Na volta eram acolhidas pelos cavaleiros; tornavam-se simples mulheres da sociedade, desejosas de conversas agradáveis e aventuras. Posteriormente se reuniam em festas cheias de confusões causadas por alguns homens apaixonados pela anfitriã, que externavam seus sentimentos, mesmo na presença do esposo da jovem.
Essa prosa de ficção revelou alguns costumes dos franceses, como os bailes, a caça e a equitação; além da grande importância que davam às roupas e aos calçados. As vestimentas das personagens eram muito luxuosas e os sapatos da protagonista causaram brigas e disputas na festa. De acordo Broca (1979, p. 129), no período do Romantismo, no Brasil, eram conhecidos apenas dois esportes: “caça e equitação”; mas ao contrário do que demonstrou o escrito francês, no qual as mulheres conduziam os cavalos, aqui eram os moços elegantes que precisavam saber cavalgar com desenvoltura, porque esse animal, além de servir-lhe como “meio de locomoção, [...] tornava-se excelente veículo para o passeio e o namoro”. Dessa forma, a equitação entrou para muitos romances brasileiros do Romantismo, às vezes, praticada por homens e mulheres, como em Sonhos d’ouro, de José de Alencar, que apresentou os protagonistas Ricardo e Guida, passeando na Floresta da Tijuca, a cavalo (ALENCAR, 1998).
“Consequência de um casamento por cálculo”, aparentemente uma obra da Bahia, os caxienses leram nas páginas do jornal O Farol em 28 de junho de 1851, n. 61. Possui cenário baiano e parece incompleta, visto que há muitas linhas pontilhadas. Narra a história de Adélia e Artur, casal com um passado e um presente bem conturbados, por motivos não esclarecidos.
Figura 50 - Início de “Consequências de um casamento por cálculo” (O Farol, 28 jun.1851, p. 3)
Fonte: http://www.memoria.bn.br/.
Adélia era uma cantora louca que morava no adro de uma igreja, em Salvador. Sua rotina resumia-se a dormir, conturbadamente, e cantar músicas de casamento, que sugeriam que ela foi abandonada no altar. Sobrevivia do dinheiro que ganhava entoando cantiga de esmolar. Artur da Silveira Portugal viajou para Portugal e não sentia remorsos pela situação da ex-amada.
Quando retornou ao Brasil, planejou insultá-la. Sem reconhecê-lo, Adélia aproximou- se, cantou a trova de esmolar, mas, ao ser tocada no ombro por ele, dizendo “Toma a esmola, mulher”, ela recuperou a razão, começou a chorar de ira e disse: “Maldito sejas tu!” (O Farol, 28 jun. 1851, p. 4). No dia seguinte, a cantora foi sepultada em um humilde cemitério, ao mesmo tempo em que Artur foi enterrado em um grandioso mausoléu.
O que aconteceu com as personagens Adélia e Artur era frequente no Romantismo, como observamos nas ideias de Candido & Castello (1997), quando mencionaram que as personagens românticas adoeciam, ou morriam em consequência de amores não correspondidos ou malsucedidos, em vista de fatalidades, ou porque foram vítimas da sociedade. Como exemplo dessa temática, existe, O Seminarista, de Bernardo Guimarães, entre outros.
Conforme Quincas Vilaneto (2008), O Telégrafo teve duas fases: a primeira com início em 1839; a segunda, em 1847. Verificamos que, atualmente (2017), só existem reproduções das edições da segunda fase, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Biblioteca Benedito Leite e no site do Projeto Jornais e Folhetins Literários da Paraíba no Século 19. Este período do jornal iniciou-se em 24 de outubro de 1847, com edições semanais, de quatro páginas, em dias indeterminados. A partir de 23 de novembro do mesmo ano, exemplar n. 4, passou a circular duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos sábados. O periódico propalou até 17 de julho de 1851, n. 357.
Era impresso na Tipografia Imparcial de F. R. de B. de Tatayra, no Largo da Matiz da Conceição, casa n. 2. Em 21 de maio de 1850, edições 251 e 252, veiculadas juntas, saiu uma declaração informando que a tipografia do jornal seria a mesma, no mesmo endereço, mas o editor seria José João da Silva Rosa. A partir de 13 de junho de 1850, n. 258, a Tipografia Imparcial mudou-se para a Rua das Flores, n. 9; agora J. J. da Silva Rosa era o proprietário, porque Tatayra faleceu, em 10 de maio de 1850, aos 36 anos. Notícia divulgada na primeira página do jornal O Telégrafo, em 21 de maio 1850, n. 251, 252, como vimos nesta tese. Em seguida a tipografia mudou-se para a Rua da Paz, casa n. 2, conforme consta na edição 323, de 3 de fevereiro de 1851.
O espírito político sobressaía-se nas páginas do jornal O Telégrafo, envolvendo questões locais, de outras regiões do Brasil e do exterior. Publicava também notícias, artigos sobre economia, ciências e anúncios diversos, com destaque para os relativos a escravos e ao comércio local.
Como ficou a Literatura, que foi colocada como uma das prioridades, quando o jornal mostrou seus objetivos, nesta fase? Quanto à prosa de ficção, restringiu-se a anúncios de venda através de subscrições (a mesma do jornal O Farol, sobre o romance O Conde de Monte Cristo), ou cobrança de livros que foram emprestados e não retornaram; bem como à criação da sessão Literatura e Ciências ou apenas Literatura, que esporadicamente veiculava, oscilando os artigos entre pouca Literatura e mais Ciências. Discorreu-se, por exemplo, a respeito das origens da História e da Literatura Brasileira; sobre os dramas de Goethe, a invenção de um novo aparelho de destilação, na França, este publicado, quando a sessão era denominada apenas Literatura.
Uma das visões oitocentistas sobre Literatura apareceu no jornal O Telégrafo no ensaio de 11 de dezembro de 1847, n. 9, p.1-3, na sessão Literatura e Ciências, denominado “Revista Científica e Literária — as Letras e as Ciências no Brasil; progresso da geração atual
— Revista das publicações literárias e científicas; algumas considerações a este respeito”, extraído da Gazeta Oficial, do Rio de Janeiro, fonte declarada no suporte caxiense.
Conforme o autor, anônimo, (mas como apelava para receber as notícias dos outros lugares a respeito da Literatura, poderia ser redator da Gazeta), no início do ano de 1847, o movimento industrial era mais sensível que o literário, “que passava somente na intimidade dos espíritos e que pouco se manifestava nos livros” (O Telégrafo, 11 dez. 1847, n. 9, p.1). No final do ano, ele percebeu um progresso na Literatura, impulsionado pela existência de uma nova geração que se entregava:
[...] aos estudos com ardor tão sabido, que parece disposta a conquistar em pouco tempo uma justa nomeada para si, e que tenha resultado de valor e utilidade para o Império. Muitos desses jovens se reuniam em Associações Literárias nas Províncias, criavam jornais e publicavam suas “inspirações generosas da poesia” (O Telégrafo, 11 dez. 1847, n. 9, p. 3).
O autor do ensaio “Revista Científica” destacou especialmente as Associações do Nordeste, em Pernambuco, Maranhão83 e Bahia, onde “a mocidade estudiosa reúne-se em associações literárias e trabalha em comum com proveito para si e para o país [...] e os escritos concorrem para o aperfeiçoamento e a glória das letras” (O Telégrafo, 1º dez. 1847, n. 9, p. 3). É relevante mencionar que nesse escrito, Literatura resumia-se a poesia e existia um tom que a direcionava para o ufanismo. Poderia ser uma manifestação do Romantismo que, de acordo com Antonio Candido (2012, p. 328) “[tinha] por mola o patriotismo, que se aponta[va] ao escritor como estímulo e dever” de contribuir para o progresso de sua pátria, com suas obras, na construção de uma Literatura nacional:
[...] a literatura foi considerada parcela de um esforço construtivo mais amplo, denotando o intuito de contribuir para a grandeza da nação. Manteve- se durante todo o Romantismo este senso de dever patriótico, que levava os escritores não apenas a cantar a sua terra, mas a considerar as suas obras como contribuição ao progresso. Constituir a “literatura nacional” é afã, quase divisa, proclamada nos documentos do tempo até se tornar enfadonha (CANDIDO, 2012, p. 328).
O ensaísta da “Revista Científica” ressalta que não recebemos um legado cultural em poesia, história, filosofia, estudo das ciências e o gosto pelas artes. “Tudo está para se criar no Brasil, e tudo há mister de grandes esforços, de muita harmonia e de muito bons desejos” (O
83 No Maranhão, a Associação Literária existiu entre 1845 e 1846 e apregoou o Jornal de Instrução e Recreio e O Arquivo, estudados nesta pesquisa.
Telégrafo, 1º dez. 1847, n. 9, p. 2). Nossa história foi escrita por padres, que apenas nos deixaram “crônicas de fundações de mosteiros, biografias dos mais célebres abades e priores, descrições de festas religiosas, [...] uma narração seca e cronológica das lutas entre os descobridores de nossas terras e seus ambiciosos conquistadores” (O Telégrafo, 1º dez. 1847, n. 9, p. 2). Agora não só a Literatura estava mudando, uma vez que junto com ela, apesar “das lutas malferidas da política”, apareciam também “elaborações do espírito, os trabalhos científicos, os estudos históricos” (O Telégrafo, 1º dez. 1847, n. 9, p. 3).
O que parecia estranho de ser encontrado numa sessão denominada Literatura (o caso do aparelho de destilação, por exemplo) era normal para a época, uma vez que essa arte ainda sofria os reflexos do século XVIII, quando Literatura era entendida como “conhecimento e não como conjunto de obras” (ABREU, 2003, p. 29). Além disso, no século XIX, os campos do saber ainda estavam se tornando autônomos, com os trabalhos de bibliógrafos ou de instituições culturais:
A crer em dois séculos de produção lexicográfica portuguesa o termo literatura — e seus correlatos como história literária — remetiam a um conceito bastante distinto daquele que recobre a noção moderna. Entretanto, a autonomização dos campos do saber estava em curso e se processava em diferentes instâncias, com ou por meio do trabalho de bibliógrafos ou no interior de instituições culturais [...] (ABREU, 2003, p. 31).
O lento processo de formação do conceito de Literatura trouxe para os jornais inúmeras tendências e variados leitores, conforme Barbosa (2005, p. 6): “[...] o literário une um variado número de tendências, assuntos, ideologias, agregando, como se deduz a um grupo variado de leitores”.
Neste capítulo, verificamos que a prosa de ficção veiculada nos jornais de Caxias foi predominantemente formada por traduções de obras francesas, espanhola e italiana. Contudo, a Literatura Nacional também foi representada nesse contexto, através de Joaquim Manoel de Macedo, com o romance Rosa, propalado no Jornal Caxiense. Existe ainda a presença de um escrito, aparentemente baiano, “Consequências de um casamento por cálculo”, anônimo, que circulou no periódico O Farol.
3 OS MODOS DE DIVULGAÇÃO DA PROSA DE FICÇÃO NOS JORNAIS DO MARANHÃO OITOCENTISTA
Pode-se dizer que a crítica literária nasceu nos periódicos brasileiros, primeiramente, a partir das notícias bibliográficas, do lançamento de livros, muitas vezes retirada de outros jornais, alguns estrangeiros (BARBOSA, 2007, p. 71).