Com relação à origem histórica da multa coercitiva, merecem destaque o direito intermédio e do direito francês44.
Do direito praticado na Idade Média, cabe destacar as figuras coercitivas que, dirigidas ao patrimônio do devedor, cresciam na proporção da contumácia no cumprimento da ordem judicial. Entre essa medidas estavam a multactio (multa) e a missio in bona (imissão do credor na totalidade do patrimônio patrimônio do
44 Guilherme Rizzo do Amaral (2010, cap. 2, item 2.2) faz uma análise mais ampla da multa coercitiva sob a perspectiva histórica e de direito comparado, mencionando o Direito Romano, o Direito intermédio, o sistema da Civil Law (Direito francês, Direito italiano, Direito alemão e Direito português) e o sistema da Common Law. Marcelo Lima Guerra (1998, cap. 3), por sua vez, faz um aprofundado apanhado das medidas de execução indireta, dentre elas a multa coercitiva, no sistema da common law e, no sistema da civil law, no Direito francês e no alemão.
devedor) (cf. AMARAL, 2010, p. 32).
Como bem pontuado por João Calvão da Silva (apud AMARAL, 2010, p. 32), a multa coercitiva hodierna herdou duas características fundamentais dessas medidas, quais sejam, seu crescimento progressivo em função do prolongamento do descumprimento da ordem judicial no tempo e a ideia de que as medidas contra a recalcitrância do devedor em cumprir as ordens do juiz são também uma proteção à autoridade judicial.
O direito francês merece especial destaque pela influência marcante que exerceu na doutrina e jurisprudência brasileiras sobre a multa coercitiva. Na França, referida multa, que recebeu o nome de astreinte, foi fruto de uma construção jurisprudencial, no início do século XIX, em reação à impossibilidade de levar o devedor a prestar um fato, dogma esse positivado no art. 1.142 do Código Civil francês de 1804 (Código de Napoleão).
O que é interessante notar no direito francês é a vinculação inicial da multa coercitiva às perdas e danos, funcionando como uma espécie de adiantamento da indenização. Apenas em meados do século XX foi que se desatrelou definitivamente a multa coercitiva das perdas e danos, acentuando-se a distinção entre os institutos.
Esse atrelamento às perdas e danos foi decisivo para que o direito francês concluísse pela destinação do valor decorrente da incidência da multa cominatória ao credor, à semelhança do que ocorre com a indenização. Nesse ponto, o direito brasileiro não esconde a determinante influência francesa, pois aqui também, a despeito de qualquer previsão legal a respeito, o valor decorrente da incidência da astreinte é destinado ao credor45.
No que toca à previsão legal da multa cominatória no Brasil, é interessante começar destacando o CPC de 1973, que, em sua redação originária, tratava da figura em seus arts. 287, 644 e 645.
Sob a égide desses dispositivos, a multa cominatória não teve grande sucesso, mormente pelo fato de sua aplicação depender de requerimento do autor, 45 Marcelo Lima Guerra (1998, pp. 123-124) dá notícia de tentativas fracassadas de mudar, por meio de lei, a destinação do valor da astreinte na França. Note-se, porém, que, ao contrário do regime brasileiro, na França há autorização legal para o juiz destinar os valores decorrentes da
astreintes a instituições de caridade (ARENHART, 2008, p. 543), bem como o valor da multa
imposta por tribunais administrativos reverte, em parte, para fundos públicos (AMARAL, 2010, p. 62).
bem como pelo fato de o juízo da execução não poder cominá-la caso tenha sido omissa a sentença a respeito (AMARAL, 2010, p. 49).
A Lei da Ação Civil Pública (LACP) – Lei nº 7.347/1985 – previu a multa cominatória em seus arts. 11 e 12, § 2º, trazendo uma disciplina substancialmente diferente daquela prevista no CPC então vigente. Diversos outros diplomas legais que tratam do processo coletivo também versaram sobre a astreinte, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – Lei nº 8.069/1990 –, em seus arts. 213 e 214, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) – Lei nº 8.078/1990 –, em seu art. 84, e o Estatuto do Idoso (EI) – Lei nº 10.741/2003 –, em seus arts. 83 e 84.
A disciplina da multa coercitiva no processo civil coletivo, ao contrário do que ocorre no CPC, é marcada pelo reconhecimento de sua finalidade pública de aperfeiçoamento da tutela jurisdicional, que pode ser notada principalmente pela consagração da atuação oficiosa do juiz na sua cominação e modificação, bem como pela destinação dos valores decorrentes de sua incidência para um fundo público.
As Leis nºs 8.952/1994 e 8.953/1994, com clara influência dos diplomas legais extravagantes que versam sobre o processo coletivo, especialmente o CDC, trouxeram grandes alterações ao CPC.
A Lei nº 8.952/1994 modificou inteiramente o art. 461 do CPC, que tratava de um dos requisitos da sentença, para instituir todo um regime de tutela específica, regulando a astreinte nos §§ 2º e 4º.
A Lei nº 8.953/1994, por sua vez, procedeu a uma substancial alteração nos arts. 644 e 645 do CPC, instituindo a possibilidade de o juízo da execução fixar a multa cominatória mesmo diante da omissão da sentença ou do título executivo extrajudicial, bem como autorizando o juiz a modificar o valor da multa toda vez que ele se mostre insuficiente ou excessivo.
Ainda no campo do processo civil individual, a Lei dos Juizados Especiais – Lei nº 9.099/1995 –, em seu art. 52, V e VI, tratou do tema, tendo as últimas modificações relevantes no CPC sido empreendidas pela Lei nº 10.444/2002, que, mediante a inclusão do art. 461-A, estendeu o regime de tutela específica do art. 461 à obrigações de entregar coisa diversa de dinheiro e modificou a redação do art. 287, que, por não ter sido modificado pelas Leis nºs 8.952/1994 e 8.953/1994, havia
perdido a coerência com os demais dispositivos que tratavam da astreinte.
A Lei 10.444/2002 ainda modificou a redação do § 5º do art. 461 do CPC para arrolar a própria multa cominatória como uma dentre as medidas que podem vir a ser utilizadas pelo juiz para efetivação da tutela específica ou obtenção do resultado prático equivalente46 e incluiu, no mesmo artigo, o § 6º, no qual estabeleceu a possibilidade de atuação oficiosa do juiz para adequar o valor da multa quando ele se mostrar insuficiente ou excessivo.
É possível vislumbrar, assim, que a astreinte, inicialmente ligada, de modo umbilical, aos interesses do autor, tanto que sua incidência dependia da iniciativa dele, foi paulatinamente adquirindo, com a ampliação da atuação oficiosa do juiz na sua aplicação, o adequado caráter público de medida processual destinada a resguardar os interesses da jurisdição.