O corpo profissional que atende às mulheres encarceradas compreende o secretário, grupo de planejamento setorial, grupo de Inteligência e segurança penitenciária, coordenador, núcleo de apoio administrativo e a equipe técnica composta por: médicos, psicólogos, assistentes sociais, dentistas, advogados, voluntários (médicos e dentistas). Há parcerias com o Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC; com a Universidade Paulista – UNIP; e com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.
Minhas visitas semanais à Penitenciária Feminina de Sant’Ana, na cidade de São Paulo, começaram todas às quartas, quintas e sextas feiras, das 9:00 às 12h e das 13:00 às 16:00. A coordenação da unidade foi quem definiu as datas e os horários dos encontros. Nas datas marcadas me dirigia a unidade e lá permanecia pelo período de pelo menos três horas na fila, juntamente com os familiares das mulheres presas que aguardavam o recebimento do pagamento família (pecúlio).
Os encontros com as mulheres encarceradas começaram tímidos. Falávamos sobre temas genéricos como situação prisional, situação processual e saudade dos familiares, algumas queriam saber sobre a novela das oito, outras ainda queriam saber minha opinião sobre as eleições que se aproximavam. As conversas, que pareciam paralelas ao interesse de pesquisa, se revelaram momentos etnográficos importantes para entender subjetividades, dor psíquica, angústias.
Apesar de possuir autorização para entrar na unidade, foi necessária a autorização da responsável técnica da saúde para que eu tivesse contato direto com as mulheres a serem entrevistadas. Na primeira visita, ainda na fila, fui atendida pela psicóloga que, após questionar sobre a pesquisa, me encaminhou à coordenadoria técnica da saúde, que me orientou a preencher um formulário denominado de “requisição” para as entrevistas. Acompanhada de uma agente carcerária até o setor de requisição, ainda esperei 40 minutos até ser atendida. Nesse tempo de espera, a agente justificou o barulho de gritos das mulheres vindos do interior do pátio dizendo: “é normal, só é preocupante quando está barulho de músicas vindo de lá, por que demonstra que tem algo errado”. Ela
explicou que a música, em volume excessivo no interior da unidade, seria sinal de agressões entre às próprias mulheres presas.
Naquela ocasião a agente ainda disse que nos dias de visitas dos familiares, o barulho era mais intenso, pois algumas delas apresentavam ataques da “síndrome da tranca”. Quando questionada sobre o que seria tal síndrome, ela disse: “quando as mulheres são trancadas nas celas elas choram, gritam, fingem estar doente para não ser trancada”. A agente ainda me alertou sobre o
descompromisso das mulheres com pesquisadores, dizendo: “se prepara para esperar. Às vezes elas nem vem, principalmente quando sabem que é trabalho de faculdade”.
Após os ditos 40 minutos e já com a requisição em mãos, tive acesso ao pavilhão I, e, logo na entrada, percebi a frase na frente do prédio: Instituto de
Regeneração. Aqui, a bondade, disciplina e o trabalho resgatam a falta cometida e reconduzem o homem à comunhão social”. A unidade prisional foi inaugurada
Brasil. A capacidade é para 2.580 presas, e se encontra, no momento com 2.377 mulheres. Tive acesso a dois pavilhões I e III. Todas as mulheres entrevistadas encontravam-se com uma companheira de cela. Os pátios (área de banho de sol) são intercalados: uns têm recreação, outros não. Há um hospital desativado, um sanatório, 30 locais para oficinas de trabalho de marcenaria. A comida servida é terceirizada e há setor de dietas. São sete os tipos de dieta, e existem ou funcionam ainda, a padaria e o refeitório. Há assistência religiosa aos sábados e, apesar de ser penitenciária, existem muitas mulheres presas provisoriamente.
Nesse primeiro contato na unidade, permaneci em pé, encostada a parede da área de banho de sol. Estava acompanhada dos membros da Pastoral, e aos poucos as mulheres se aproximavam. A primeira constatação registrada foi a precariedade da área de banho de sol, as celas estreitas, apertadas, sem espaço para transitar e, apesar de comportar apenas duas mulheres em cada, a unidade mais parece depósitos de pessoas. As estruturas físicas e funcionais deixam a desejar com as condições bastante precária, o que compromete, de modo geral, o tratamento dispensado às mulheres privadas de liberdade.
Tive acesso ao primeiro pavilhão do Regime de Observação – RO, local reservado às mulheres em fase de adaptação da pena e com transtornos psiquiátricos e/ou de abstinência. A unidade prisional foi estruturada para o público masculino, porém, ao entrar no pavilhão do RO, percebi que ss mulheres encarceradas, apesar de tentar manter suas feminilidades, estavam todas trajadas com uniformes que as deixavam com aspectos masculinos (calça amarela e camisa branca com números da unidade), inclusive mulheres evangélicas que têm por princípios religiosos usar saias longas ou vestidos.
No setor de RO, elas estavam espalhadas entre um andar e outro, além de algumas permanecerem no corredor lavando o chão, gritando, cantando e outras sentadas e isoladas. Numa fila, algumas estavam recebendo medicação. Entre um andar e outro havia redes de proteção para evitar suicídio, segundo informações das próprias informantes.
Nos primeiros encontros com as mulheres as principais queixas foram sobre históricos de agressões físicas nas vistorias feitas pelo Grupo de Intervenção Rápida – GIR, composto por Policiais Militares, subordinado à Coordenadoria dos Estabelecimentos Prisionais de São Paulo e Grande São Paulo – CCAP. O GIR atua nas unidades prisionais de São Paulo, na contenção de presos ou em apoio aos demais agentes que trabalham no interior dos presídios, durante uma operação de revista, por exemplo. O grupo utiliza armamento não letal e equipamentos de proteção balística, bombas de efeito moral, entre outros aparatos de contenção, que o tornam um verdadeiro pelotão de elite dentro da Secretaria.
2.4. Participantes
Foram realizadas entrevistas com dez mulheres do Pavilhão I e III, autodeclaradas negras, entre 20 a 72 anos de idade, que cumprem pena em regime fechado, e se dispuseram livremente a conceder entrevistas, respeitando as normas institucionais da unidade prisional. Apenas uma das participantes desistiu da entrevista. A escolha das participantes primeiramente se deu através dos meus primeiros contatos com a Pastoral Carcerária, onde pude estabelecer
meus primeiros contatos e desenvolver diálogos sobre suas trajetórias de vida e assim estabelecer também amizade. Na ocasião das entrevistas autorizadas pelo CEP/SAP eu já dispunha dos nomes, histórico de vida, contatos familiares das participantes, e da mesma forma, elas já havia estabelecido vínculos de amizade comigo e isso facilitou na segunda abordagem para a pesquisa, pois já existia a relação de confiança. As participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa e sua finalidade estritamente acadêmica. Na mesma ocasião, foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE, no qual consta, principalmente, a preservação de suas identidades e a garantia de sigilo. Além disso, foi elaborado relatório mensal para a SAP sobre todos os desdobramentos da pesquisa, que constam como parte documental desta investigação.