ÇALIŞMANIN TASARIMI:
1. MENSTRUASYON OVULASYON 2 MENSTRUASYON 2 OVULASYON
Como visto, o atual cenário de desprestígio em que se encontra a docência, neste início da segunda década do século XXI, é produto de uma série de fatores historicamente constituídos. O mestre do ofício de ensinar, profissional autônomo e próximo à comunidade, detentor do conhecimento total sobre seu trabalho que, até as décadas finais do século XIX e o início do século XX, gozou de um prestígio social que não mais experimentaria. Esse profissional, ao longo desses últimos séculos, dá lugar a um trabalhador fragmentado, especializado, subordinado ao poder estatal e sujeito às políticas mais diversas (econômica, educacional, social, etc.). A busca incessante pela profissionalização da carreira segue sendo abafada, sobretudo por ações pautadas em justificativas econômicas, que negam a esses trabalhadores direitos básicos, como o pagamento do piso salarial profissional e o cumprimento de 1/3 da jornada de trabalho destinada a trabalhos extraclasse.18
18 Segundo a CNTE, em março de 2013, apenas 5 Estados cumprem a Lei 11.738/08 em sua totalidade. Outros 10 não pagam o valor do piso salarial determinado na lei e 11 Estados não cumprem a lei na íntegra. Disponível em: <http://www.cnte.org.br/index.php/lutas-da-cnte/piso-salarial-e-carreira/11118-estados-brasileiros-nao- cumprem-a-lei-do-piso-1>. Acesso em: 18 abr. 2013.
Nesse sentido, com base nas questões iniciais que orientaram este capítulo, nos deparamos, ainda que brevemente, com fatores que estão diretamente associados à crise de valorização e atratividade em que a docência se encontra nas primeiras décadas do século XXI. Observamos que as bases dessa crise encontram-se, em grande medida, atreladas ao processo de funcionarização dos professores, à sua subordinação ao poder estatal, desencadeado ao lado da organização e expansão do Estado Moderno e do capitalismo industrial. Esse processo retirou o clero da linha de frente das ações educativas e centralizou o poder nas mãos do Estado, destituindo toda forma de poder de organizações locais que recaíam sobre os docentes.
No Brasil, observamos que a crise de valorização e atratividade do magistério público que permeia os dias atuais tem suas raízes fixadas, sobretudo, na segunda metade do século XX. As políticas econômicas do período militar e das décadas seguintes, estas últimas no contexto do neoliberalismo, associadas com o processo de massificação do ensino alargado também neste período, desencadearam um profundo desgaste da carreira docente. Os efeitos desse desgaste vêm se refletindo de sobremodo nos quadros de trabalhadores das instituições públicas, onde a relação número de alunos por professor torna-se cada dia mais desigual. Comumente, mídia, agências de pesquisa e as organizações representativas do magistério denunciam o agravamento da situação nas redes públicas de ensino do país. Matéria veiculada no jornal Estado de Minas, de 7 de abril de 2013,19 por exemplo, demonstra que, em 2011, cerca de 40 mil docentes, professores de português e matemática, abandonaram a carreira. A matéria coloca que, dentre outros aspectos, o baixo salário e as poucas oportunidades de ascensão na carreira são as principais causas de abandono da profissão.
Como é possível observar, as políticas educacionais do período expressam uma relação em que a agenda econômica determina de sobremodo a organização dos sistemas de ensino. Aprofundar nossas análises sobre as peculiaridades da organização do Estado moderno e das formas de organização do capitalismo, nesse contexto, torna-se de especial relevância para nosso estudo.
19 Disponível em:
<http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/educacao/2013/04/07/internas_educacao,368423/carreira-de- professor-nao-atrai-estudantes.shtml#.UWGW_pnVQLU.facebook>. Acesso em: 18 abr. 2013.
CAPÍTULO 2 – ORGANIZAÇÃO DO ESTADO E A REGULAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE
Como visto no capítulo anterior, a profissão docente vem sofrendo um processo de degradação do seu status socioprofissional, acentuado, sobretudo, nas décadas finais do século XX e que toma hoje um amplo espaço nos debates públicos concernentes aos sistemas educacionais, especialmente no Brasil. Verificou-se que suas causas estão estreitamente relacionadas à constituição e expansão do Estado moderno, principal “empregador” desses profissionais, cuja organização assentou-se na racionalização e burocratização dos processos (WEBER, 1991) e suas ações, em grande medida, orientadas pelos interesses econômicos.
Segundo Ozga (2001), a relação Estado/docentes é historicamente marcada por conflitos. As diferentes concepções do papel da educação na sociedade entre esses dois atores é, para a autora, a pedra fundamental dessa tensão. Embora em ambos os casos essas concepções assumam distintas variações, enquanto os docentes defendem a educação como meio de equalização de oportunidades e/ou experiências enriquecedoras, os políticos tendem a dar maior ênfase às suas funções econômicas (OZGA, 2001). Sendo os políticos os responsáveis diretos pela gestão da força de trabalho dos sistemas educacionais, a referida autora observa que os professores, nesse sentido, constituem
um problema subsistente nos sistemas do Estado. São-lhes atribuídas as responsabilidades de porem em prática determinadas estratégias políticas de resolução de problemas, mas os professores identificam-se com ideias potencialmente contraditórias que encaram a educação como um bem público e positivo (OZGA, 2001, p. 42).
A regulação dos sistemas de ensino busca, dentre outros aspectos, orientar a conduta profissional dos docentes em direção à agenda do Estado, determinada seja pelas funções econômicas, seja por outras mais que divergem ou não do interesse ou concepção dos professores. As décadas finais do século XX ficaram marcadas pela reorientação dos modos de regulação dos sistemas educacionais em diversos países desenvolvidos e, consequentemente, daqueles em desenvolvimento. Essa reorientação, conforme veremos mais adiante, está estreitamente ligada à mudança do papel do Estado na condução de seus serviços, em que, determinado pelas funções econômicas, retirou-se (ora em partes, ora totalmente) da linha de frente deste controle (“Estado provedor”) em prol da regulação pelo livre mercado.
Em um contexto em que o Estado respalda suas ações no conhecimento técnico-científico, como meio de garantir a racionalidade das políticas e a eficácia das decisões (BARROSO, 2011),
concatenado ao forte determinismo econômico que lhe é imposto, as políticas educacionais impactam de forma crucial na profissão docente, determinando sua função “de cima para baixo”, de forma a reduzir o trabalho docente a um conjunto de competências sistematicamente avaliadas pelo Estado via desenvolvimento da aprendizagem do aluno (BALL, 2004; BARROSO, 2005, 2011; MAROY, 2011; OZGA, 2001).
Tais aspectos irão incidir diretamente sobre o trabalho docente, seja na sua condição profissional, seja na sua identidade. Segundo Ball (2005),
o gerencialismo desempenha o importante papel de destruir os sistemas ético- profissionais que prevaleciam nas escolas, provocando sua substituição por sistemas empresariais competitivos. [...] O trabalho do gerente envolve incutir uma atitude e uma cultura nas quais os trabalhadores se sentem responsáveis e, ao mesmo tempo, de certa forma pessoalmente investidos da responsabilidade pelo bem-estar da organização.
Assim sendo, o presente capítulo tem como objetivo discutir em que medida as reformas estruturais que se seguiram no capitalismo moderno e, consequentemente, no âmbito do Estado, sobretudo nas décadas finais do século XX, impactaram diretamente na profissão docente. Para tanto, serão abordadas as contribuições da Sociologia das Profissões e dos estudos sobre a profissionalização docente, apresentando em que medida tais transformações recaíram sobre a identidade profissional deste grupo.
Este capítulo pretende tratar dessa questão, para o que está dividido da seguinte maneira: no primeiro momento, discorremos sobre a organização do Estado moderno para balizar as características típicas do “maior empregador” do corpo docente. Em seguida, tratamos sobre a discussão em torno da profissionalização e identidade docente, apresentando as contribuições da Sociologia das Profissões e de estudos aplicados à temática docente que identificam o atual estágio desse grupo profissional e as relações com sua identidade. Por fim, apresentamos como as recentes reformas do ensino impactaram na organização do trabalho docente, apresentando um paradoxo que vem sendo atribuído às políticas de âmbito estatal na condução de um plano de ações que visam contribuir para a adequação do trabalho escolar às novas demandas sociais para a educação.