ANIMAL (ESPÉCIE E GÊNERO) TOTAL
Cadelas 929 Cães 183 Gatas 822 Gatos 458 Total 2.392 ANIMAIS RECOLHIDOS
ANIMAL (ESPÉCIE E GÊNERO) TOTAL
Filhotes de cadelas 258 Filhotes de gatas 407 Cadelas adultas 59 Cães adultos 47 Gatas adultas 41 Gatos adultos 42 Total 854 ANIMAIS DOADOS
ANIMAL (ESPÉCIE E GÊNERO) TOTAL
Filhotes de cadelas 285 132 Filhotes de gatas 281 Cadelas adultas 43 Cães adultos 15 Gatas adultas 13 Gatos adultos 11 Total 648
132 Esse dado em específico chamou-me a atenção, pois a mesma tabela informava que naquele ano (2010)
haviam sido recolhidos 258 filhotes caninos. De início não entendi por que, no mesmo ano, foram doados 285 filhotes (ou seja, 27 a mais do que os recolhidos). Andrea Dimis assim me explicou essa aparente discordância numérica: “a diferença diz respeito aos animais que ‘sobram’ de um ano para o outro e que não conseguimos doar, então são contabilizados na doação do próximo ano, pois já foram adquiridos no ano anterior. Por exemplo: se num ano recolhermos 30 e doarmos 25, os 5 que sobrarem vão para doação do ano seguinte. Então, se em 2010 recolhemos 258 [filhotes caninos] e doamos 285, esses 27 a mais são a ‘sobra’ do ano anterior”.
RELAÇÃO DE ANIMAIS ESTERILIZADOS EM 2011
ANIMAL (ESPÉCIE E GÊNERO) TOTAL
Cadelas 1.030 Cães 120 Gatas 874 Gatos 442 Total 2.466 ANIMAIS RECOLHIDOS
ANIMAL (ESPÉCIE E GÊNERO) TOTAL
Filhotes de cadelas 238 Filhotes de gatas 421 Cadelas adultas 61 Cães adultos 56 Gatas adultas 38 Gatos adultos 25 Total 839 ANIMAIS DOADOS
ANIMAL (ESPÉCIE E GÊNERO) TOTAL
Filhotes de cadelas 197 Filhotes de gatas 297 Cadelas adultas 49 Cães adultos 18 Gatas adultas 20 Gatos adultos 11 Total 592
Algo que os números acima nos mostram, e que pode não ser o mais surpreendente, diz respeito às populações não adultas que são recolhidas das ruas. Percebe-se que a maior incidência de animais filhotes resgatados é da espécie felina, o que pode revelar algum traço particular das relações interespecíficas em contextos urbanos. É fato, porém, que gatos tendem a ser menos desejados do que cães, algo que mereceria uma observação mais atenta em outra ocasião. Mas a informação que me parece mais significativa para o momento, dentro do que as tabelas acima apresentam, é justamente uma discrepância de gênero: há mais fêmeas do que machos a ser levados anualmente para a esterilização, o que também revela,
segundo as voluntárias, alguns aspectos da conduta machista da população em geral e que repercutem até mesmo nas relações interespecíficas. Adriana, mesmo não tendo conseguido obter para mim os dados da AAPA, confirmou essa recorrência e comentou: “Os donos acham que, se castrar o cachorro [macho], ele não vai mais ‘ser homem’, não vai mais latir, não vai mais guardar a casa, vai ficar medroso”. Laíde confirma e lamenta esse comportamento “genderizado” das pessoas: “Isso não tem nada a ver... mas existe esse preconceito ainda”. Mas há outros detalhes que antecedem esse contraste de gênero na população animal atendida pelas associações protetoras. Um deles é que, sempre que uma fêmea vem a reproduzir (“dar cria”), os filhotes ficarão com a mãe, ou seja, com o dono dela. Assim sendo, os donos de animais machos não se preocupam tanto em levá-los para castrar porque não terão esse dispêndio a mais. Além disso, ocorre o fato de que a esterilização de fêmeas é bem mais trabalhosa e, portanto, também mais cara nas clínicas veterinárias particulares. Para não ter esses gastos, muitos tiram proveito do trabalho das associações protetoras, passando-se por pessoas humildes na triagem que as elas realizam (para garantir o atendimento a baixo custo às populações mais carentes) e levando suas fêmeas caninas e felinas aos mutirões para castrar com o mínimo de despesa.
Observado isso, arrisco dizer que até mesmo um procedimento altamente invasivo como a castração não deixa de ter um fator de questionamento sobre gênero aqui transportada para o âmbito da vida animal. Ainda que não haja uma inviolabilidade do corpo do animal assegurada por quem os defende, um dado também importante trazido pelo ato da castração é o de uma possibilidade de se pensar acerca das atitudes e dos pontos de vista que ainda predominam sobre as questões de gênero e também ao que tange à vida dos animais. Trata-se de um questionamento que não chega a – e nem pode – se configurar como uma “resistência biopolítica” (FARAGE, 2011), tal como no processo das vacinações ocorrido no período das reformas sanitárias no Rio de Janeiro do início do século XX. Sendo assim, a castração pode ser entendida, por ora, como uma violabilidade “benigna” ao permitir suscitar um questionamento à incompreensão de parte das pessoas sobre seus propósitos e também a um olhar machista que permanece sobre ela. E essa incompreensão alheia quanto às atividades empreendidas por essas ativistas, bem como as próprias “escolhas” que fizeram para suas vidas são o que também marcam o peso carregado por quem se dedica à proteção dos animais. A “escolha”, entre aspas, remete a uma advertência de Giseli, do DEDIA, feita a mim, quando tocamos nesse assunto do peso, das dificuldades e das adversidades envolvidas na tarefa de proteger os animais, de “pensar nos bichos”:
E alguém faz isso por opção? Alguém aqui escolheu passar por tudo isso? Eu escolhi passar por isso? Eu escolhi sofrer por cada animal que vai embora da minha casa? Quando eu escrevo lá no Facebook “mais um anjinho que passou pela minha vida e que eu tive o prazer de cuidar...”, eu tive realmente e é gratificante. Mas o outro lado ninguém conhece. Você tem de conviver [com a ausência do animal], você vai dormir chorando, você começa a ficar angustiada... Mas da porta pra fora, acabou.
Se essas relações interespecíficas no contexto da proteção aos animais realmente resultam numa “simbiose domesticada” (como eu sugiro no primeiro capítulo), ela deve também abarcar esse peso de proteger, traduzido nas dores e angústias que também vêm como efeitos da dedicação aos bichos e, poder-se-ia dizer, como contrapartida a essa simbiose. Ou, melhor dizendo, como parte dela. Mas a despeito desse peso – ou mesmo por causa dele – as voluntárias também param para refletir sobre até onde chegaram, se valeu a pena, se há algum arrependimento. Adriana reconhece que há um preço que se paga pela dedicação à causa pró- animal, mas que não deixa de trazer a sua recompensa:
Acho que é a vida pessoal da gente. Porque você larga... Você não pode mais viajar porque você tem 70 bichos e não tem com quem deixar. Você vai largar na mão de quem? Porque tem aquele que não pode encostar naquele outro, senão tem briga. Aquele outro não pode dormir fora do quartinho, senão chora. Aquele outro está doente. E só a gente sabe desses detalhes. Então eu acho que... não é uma perda. Mas você tem de abrir mão de alguma coisa para fazer isso. Não que eu me arrependa. Porque eu me pergunto também: “Você está arrependida? Você poderia estar casada, com filhos, comprar um carro novo, viajar...”. Mas eu penso também neles, né? [apontando para os animais anestesiados na sala de repouso do centro de castração] Porque a gente se sente recompensada por eles.
Carla também identifica qual é a maior recompensa que recebe por fazer o que faz: “saber que eu salvei muitos”. E ainda que possa ser não só a maior, mas talvez sua única recompensa, é justamente através dela – a compensação do convívio com os bichos – que elas se realizam enquanto pessoas e os realizam também enquanto pessoas, conseguindo assim manter um mínimo equilíbrio diante desse peso de proteger por meio dessa realização mútua, próxima do que Donna Haraway chama de “becoming with” (“tornar-se com”):
Relations are constitutive; dogs and people are emergent as historical beings, as subjects and objects to each other, precisely through the verbs of their relating. People and dogs emerge as mutually adapted partners in the naturecultures of lively capital. It is time to think harder about encounter value133 (HARAWAY, 2008: 62).
133 Tradução: “As relações são constitutivas; cães e pessoas são emergentes enquanto seres históricos, enquanto
sujeitos e objetos, um em relação ao outro, mais exatamente através dos termos de suas relações. Pessoas e cães emergem enquanto parceiros mutuamente conectados no âmbito das naturezaculturas dos grandes centros. É o momento de pensar seriamente sobre a importância desse encontro”.
Beth costumava dizer às pessoas, inclusive quando a criticavam por despender tanta atenção e tempo para aqueles animais: “eu não vivo para eles, mas com eles”. E, assim, a luta ainda segue em prol de uma causa que muitas vezes priva essas pessoas de parte de sua própria vida pessoal – que, na verdade, se confunde com a luta –, além de obrigá-las a lidar com a incompreensão alheia, o estresse cotidiano e o sofrimento compartilhado com os animais por quem se empenham em proteger e que tentam, por vezes, salvar. Esses são alguns dos aspectos desse fardo carregado somente mesmo por quem “se lança a essas dores”, como Sueli, do DEDIA, disse a mim certa vez.