O Moisés de Michelangelo (FREUD, 1914) é, para mim, a melhor produção de Freud no campo das artes. É um trabalho pessoal sem ser biográfico, preciso sem deixar de ser criativo. Em O Moisés de Michelangelo, podemos perceber a preocupação de Freud com o futuro da associação psicanalítica e seu embate com Jung, mas não é ai que está a sua genialidade. Depois de lermos a interpretação de Freud da estátua, podemos enxerga-la melhor e em mais detalhes: a estátua está mais viva. Por isso a leitura de Freud é extraordinária. Os dados biográficos só aparecem na medida em que todo livro é um testemunho da vida de seu autor (ou, se formos mais freudianos, de alguma maneira, as fantasias do autor, seu passado e seu presente se imprimem nas páginas)26.
O verdadeiro traço pessoal desse trabalho não se dá, portanto, pelos reflexos da vida de Freud em seu trabalho, mas porque nele Freud (1914) deixa de ser um divulgador da psicanálise e passa a praticar a sua arte. Em O Moisés de Michelangelo, não há necessidade que se prove nada. Há apenas uma pergunta sincera: o que essa obra que me fascina está dizendo? Esta sempre foi a pergunta que fiz para meus livros – e é a pergunta que eu gostaria de fazer para os Contos Novos. Aprendemos alguma coisa com a arte; o trabalho do interprete é tentar explicitar o que.
Quando pude perceber que O Moisés de Michelangelo de Freud (1914) me fascinava, porque essa pergunta simples permeava todas as suas linhas, pude encontrar, em outros textos dele, o mesmo espírito e aprender um pouco com cada um de seus trabalhos. A atenção aos detalhes geralmente negligenciados, e tão importante nas leituras da Gradiva e de Poesia e Verdade, por exemplo, é marca desse espírito investigativo de Freud. Mesmo a maneira como ele trata os protagonistas dos livros, como se fossem seus pacientes – prática que a princípio me deixava desconfortável –, ganha uma nova dimensão quando temos o objetivo de O Moisés de Michelangelo em mente. Em suma, quando buscamos saber, com Freud, qual a estrutura psíquica de Hamlet, podemos estar nos perguntando, também, qual o segredo que essa grande peça quer nos contar. O Moisés de Michelangelo abriu caminho para que eu soubesse
26 O interesse na interpretação que liga a interpretação de Moisés como o líder que controla seus
impulsos é muito interessante. Seu interesse, entretanto, recai exclusivamente naqueles que se interessam pela história da psicanálise.
o que procurar na interpretação freudiana de outros textos – que tipo de verdade me importa em uma leitura da arte.
O Moisés de Michelangelo, além de mostrar qual deveria ser o meu objetivo ao interpretar uma obra de arte (i,e, descobrir a verdade por trás da obra que a torna fascinante), permitiu também que eu descobrisse qual era o método que eu, enquanto psicanalista, poderia usar para fazer essa interpretação. A verdade da estátua de Michelangelo presente nesse trabalho do psicanalista, apenas uma das verdades que a obra comporta, só pode ser alcançada porque Freud tenta narrar a história presa no mármore. O ponto de partida, no caso, é um detalhe que ainda não havia sido analisado a contento: a posição da tábua na mão direita da estátua. Freud constrói o significado da posição da tábua recompondo os movimentos prováveis de Moisés, que explicariam tal posição. O trajeto imaginado por Freud permite que ele entenda o espírito de Moisés e sua perplexidade frente a obra. Trata-se de uma narrativa fictícia; a estátua, concretamente, sempre esteve parada na mesma posição. Mas é desse tipo de ficção que uma interpretação de arte precisa, isto é, uma ficção que se sabe ficção mas que se pauta em objetos precisos (a posição da mãe e da tábua) para tentar recuperar o significado escondido de uma obra de arte.
O Moisés de Michelangelo abarca duas posições que pareceriam contraditórias, mas que refletem a particularidade da psicanálise. O trabalho de Freud (1914) é, ao mesmo tempo, o mais preciso possível e ficcional. Da mistura desses dois polos, ele explica uma verdade que repercute naqueles que olham a estátua e permite que se admire um pouco mais e melhor a obra-prima de Michelangelo.
E é esse o meu objetivo com os Contos Novos. Recontar as histórias da forma mais precisa que eu puder. Mas me dar um pouco de liberdade para, da precisão, reconhecer que o interprete também faz ficção27. O objetivo é ajudar o leitor de Contos Novos a admirar um pouco mais e melhor a obra-prima de Mário de Andrade.
Ainda mais, acredito que Mário de Andrade, um dos fundadores do modernismo brasileiro, poeta constantemente preocupado com a questão da identidade nacional e leitor de Freud, gostaria de receber esse tipo de leitura. Minha escolha, portanto, é uma homenagem a esse pioneiro da nossa literatura – em especial é uma homenagem aos Contos Novos, uma obra prima frequentemente
27 A ficção, nesse sentido, não significa uma liberdade total para romancear. Ao contrário, toda a
história recontada pelo intérprete deve ser diretamente reconhecível no texto analisado. A liberdade ficcional se limita à ideia de reorganizar, com as minhas palavras (e as de Mário, ocasionalmente) e a minha visão de mundo, os contos estudados.
negligenciada28. Mas, mais do que isso, a obra de Mário de Andrade é, dos modernistas brasileiros, a que melhor se encaixa no tipo de leitura que proponho. De certa forma, ao recontar seus contos, estou trazendo a identidade do brasileiro do século XXI para a obra de Mário. Estou reestruturando, a meu modo, o objetivo dele ao longo de sua vida e obra: a construção da identidade brasileira (Lafetá, 2000). Acredito que Mário aprovaria esse tipo de trabalho. Espero que possa fazer jus ao artista29.
28
Até 2012, Contos Novos estava esgotado. Apenas em 2013, a Saraiva reeditou esse clássico.
29 Como todo trabalho dessa natureza, fui mais bem sucedido em alguns casos do que em outros.