Uma vez definido o universo de 151 decisões encontradas através do método de prospecção exposto na seção 3.2, foi realizada uma análise prévia de todas elas, com o propósito de identificar quais eram os problemas considerados em cada uma. O resultado dessa triagem foi o seguinte:
41 (quarenta e uma) decisões que foram consideradas irrelevantes para a pesquisa. Entre as quais havia: decisões sobre problemas processuais sem relação com a pesquisa; decisões de Agravo de Instrumento sobre admissibilidade de Recursos Especiais; decisões de extinção de recursos, incidentes ou processos originários por perda de objeto; despachos de mero expediente; e uma decisão excluída por se ter descoberto que não havia sido proferida em processo coletivo.68 Todas estas decisões estão relacionadas no Anexo 3.
19 (dezenove) decisões que negaram conhecimento a recursos, incidentes processuais ou processos originários. Estas decisões estão relacionadas no Anexo 4;
28 (vinte e oito) decisões discutindo problemas relacionados a competência
processual, especialmente a competência da Justiça Federal para julgar as ações
coletivas e a divisão de competência entre os órgãos julgadores do STJ para apreciar os recursos, incidentes ou processos originários. Estas decisões estão relacionadas no Anexo 5;
14 (quatorze) decisões proferidas em processos de ―Reclamação‖,69 em que, basicamente, verifica-se se decisões das instâncias inferiores descumpriram decisões do STJ. Estas decisões estão relacionadas Anexo 6;
2 (duas) decisões tratando sobre a possibilidade de controle de constitucionalidade nessas ações coletivas;70
68 Trata-se da decisão ―Reajuste de tarifas – REsp 948150 – 26/8/2008‖, cujo teor, originalmente, não permitia ter certeza sobre a natureza do processo de origem (se individual ou coletivo). A confirmação de que se tratava de processo individual só foi obtida com investigação das origens do processo, no TRF4.
69 O procedimento da Reclamação está previsto nos artigos 187 a 192 do Regimento Interno do STJ. Seu propósito e suas potencialidades são bem descritos pelos arts. 187 e 191: ―Art. 187. Para preservar a competência do Tribunal ou garantir a autoridade das suas decisões, caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público‖; ―Art. 191. Julgando procedente a reclamação, o Tribunal cassará a decisão exorbitante de seu julgado ou determinará medida adequada à preservação de sua competência‖.
70 São as decisões ―Créditos de celular – MC 7481 – 05/12/2003‖ e ―Créditos de celular – Resp 623325 – 28/9/2004‖.
1 (uma) decisão afirmando a legitimidade ativa do Ministério Público para propor este tipo de ação coletiva;71
26 (vinte e seis) decisões apreciando o mérito72 das ações coletivas, relacionadas no
Anexo 7;
20 (vinte) decisões julgando conflitos de competência que buscavam reunir as ações coletivas que versavam sobre o mesmo assunto e impor-lhes uniformidade de
decisões. Estas decisões estão relacionadas no Anexo 8;
Com essas informações preliminares foi possível perceber que as discussões travadas nos dois últimos grupos de decisões são as que mais se relacionam com as preocupações que orientam a presente pesquisa. Como se disse, o principal propósito desta investigação é compreender como o potencial normativo das ações coletivas é usado em face da regulação de telecomunicações. Evidentemente, essa investigação não poderia prescindir da análise das decisões que apreciaram o mérito das ações coletivas, onde – é de se supor – serão travadas discussões sobre os limites desse potencial normativo e as diversas implicações disso. Além disso, também são particularmente interessantes para a pesquisa as decisões dos conflitos de competência através dos quais se pretende reunir as ações coletivas sobre o mesmo assunto, já que esta discussão parece ter estrita relação com o problema vigência territorial fragmentada.
É certo que a análise dos outros grupos de decisões também poderia trazer conclusões interessantes, mas estas não teriam relação com o cerne da pesquisa. Especificamente quanto às duas decisões que tratam da possibilidade de controle de constitucionalidade nas ações coletivas, foram excluídas por se considerar que esse problema, pela sua relevância e repercussão, é autônomo em relação ao objeto da presente pesquisa. Trata-se, na verdade, de uma discussão que já vem se desenvolvendo há alguns anos entre processualistas e constitucionalistas, sendo objeto de muito polêmica. Além disso, essa parece ser uma questão
71 Trata-se da decisão ―Detalhamento de conta – REsp 162026 – 20/6/2002‖.
72 A acepção com que se adota a palavra ―mérito‖ nesta classificação não abrange apenas os pronunciamentos definitivos sobre o mérito da demanda, o que incluiria apenas as sentenças de mérito e os recursos contra elas interpostos. Incluem-se aí quaisquer decisões que se pronunciem sobre a tutela pleiteada nas ações coletivas, em caráter liminar (tutela antecipada) ou definitivo (sentença de mérito). Por conta disso, este grupo inclui, em regra, as decisões proferidas recursos ou quaisquer incidentes processuais manejados contra decisões que concederam ou indeferiram a tutela pleiteada nas ações coletivas (novamente: seja em caráter liminar, seja em caráter definitivo).
eminentemente constitucional73, de modo que o STJ não seria um tribunal adequado para pesquisar acerca dela.
A seguir serão analisadas com maior detalhe os dois grupos de decisões escolhidos, sendo que para cada um deles foi usada uma metodologia de análise própria, desenvolvida empiricamente em função das peculiaridades do grupo de decisões e das preocupações da pesquisa.
73
A questão é constitucional especialmente em função dos argumentos esgrimidos em torno dela. Aqueles que opõem-se à possibilidade de controle de constitucionalidade através de ações coletivas afirmam que a eficácia erga omnes das decisões da tutela coletiva faria com que o controle difuso (que se pretende realizar através de ações coletivas) tivesse todos os efeitos de um controle concentrado, e que isso importaria em usurpação de competência do STF.
5) Decisões que analisaram o mérito das ações coletivas