A banda também pode ser interpretada como a visão (estratégica) da organizaqão, no sentido que o desenvolvimento da banda como um empreendimento seguiu uma orientação inspirada pela banda em si, mais especificamente atendendo às demandas musicais de um grupo desse tipo, mas servindo, ao mesmo tempo, como guia para o desenvolvimento de toda a organização.
Na organização pesquisada no presente trabalho, o empreendedor é seu fundador, Flávio Pimenta. Foram feitas três entrevistas formais com ele. Durante a terceira e última entrevista, onde o entrevistado estava totalmente à vontade, o autor da presente dissertação argüiu se existiu essa visão estratégica em seu caso. Flávio relatou que realmente iniciara tudo como uma brincadeira musical com os meninos, não havia a idéia de se fazer uma ONG. Pode-se então dizer que inicialmente não houve uma grande idéia, um grande objetivo ou um grande projeto. Collins e Porras (1995) colocam, ao analisar o sucesso de empresas excepcionais, que o primeiro mito da visão estratégica a ser desmistificado é o da necessidade de ser ter uma grande idéia para se iniciar uma nova empresa. Assim foi com a Hewlett-Packard, e assim também foi com a Meninos do Morumbi. Não havia uma grande idéia, apenas uma intenção com algum foco. A brincadeira musical depois transformou-se em uma banda, para depois tornar-se uma instituição social. Um projeto musical transformou- se num projeto organizacional que, porém, manteve substancialmente os valores e as características do projeto musical inicial.
1) Fase informal: garotos pedem para Flávio ensinar-lhes a tocar.
“Quando eu comecei, aquele primeiro momento, o embrião de tudo, acho que foi a vontade de montar um grupo de percussão. Eu já estava com essa vontade, desde que eu hospedei o Robertinho Silva, e comecei a colecionar instrumentos de percussão. Também já tinha feito trabalhos com escolas de samba e achava legal o aspecto de comunidade”
Visão do fundador (ainda não estratégica): Seria bom para os meninos (ambiente, disciplina, música) e para ele, pelo prazer musical e de ensino. Compromissos principais: amizade, música.
2) Fase musical: começam a aprender a tocar e a ensaiar. Formam o grupo. O grupo cresce, e as necessidades sociais ficam mais evidentes. Nas palavras de Flávio:
“Logo que passou de dez meninos da favela comigo, as necessidades no campo social já eram muito maiores que a música. Eram de todo tipo: desde a roupinha, até um caderno, os meninos chegavam e falavam: “tem um rango aí? ainda não comi hoje!”. Ou então chegavam com o pé todo arrebentado. Quantas vezes eu não fiz curativo no moleque...parece que você está curando um bezerro...tem que pegar o moleque à força, porque se deixar ninguém cuida”.34
Ao mesmo tempo, Flávio percebe a oportunidade de mídia:
“A hora que eu chamei a meninada, da favela, a primeira jornalista que viu isso, já me levou para gravar um programa de rádio, alguém que ouviu falou com o governo estadual, que já trouxe as kombis do S.O.S. Criança, e aí eu descobri que o apelo social era a grande “freeway” de marketing do meu grupo de música. Eu já era do meio, tinha um feeling para isso. A primeira reportagem já chamou uma segunda, que já chamou uma terceira...eu pensei comigo mesmo: Você está fazendo a coisa certa duas vezes: você está fazendo a sua banda, e você está fazendo algo pelo outro, que é o social, e quando você faz alguma coisa social com criança, o apelo é muito forte, a mídia é muito forte, é tudo muito forte”.
Esse momento foi especialmente importante para a organização, pois ali surgia a visão da possibilidade de um projeto maior. História semelhante ocorreu com Ray Krock, co-fundador do McDonald´s: ele já fabricava copos de papel, e começou a
fabricas máquinas de milk-shake, quando conheceu os irmãos McDonald, que possuíam uma cadeia de lanchonetes de milk-shake, e a fusão dos copos, milk- shake e uma cadeia de lojas gerou a empresa que conhecemos hoje. Indagado a respeito das origens, do surgimento da idéia original, ele respondeu que não sabia bem o que tinha sido, mas que certamente não era uma inspiração divina. Talvez fosse uma combinação de experiências anteriores, instintos e sonhos. (BENNIS, 1988).
Flávio decide então fazer apresentações públicas, para estimular o grupo e aumentar a auto-estima dos meninos. Seus compromissos principais nessa fase eram o trabalho social e o projeto musical. Sua visão estratégica era usar o apoio de mídia para ajudar os meninos e crescer a banda.
3) Fase Institucional: Com as primeiras ajudas, conseguem alugar uma sede e começam a ser desenvolvidas novas atividades além da banda. Flávio percebe, além do aspecto social, o educativo e o de cidadania.
“Os moleques que levavam (a banda) a sério estavam melhorando, estavam se transformando. Não só musicalmente. Colaboravam mais, ficaram mais educados, mais disciplinados. Eu percebi que, através da banda, dava para ensinar muito mais coisas para os meninos do que música e percussão. Essa era a fórmula que fechava o trabalho social, o educacional e o de cidadania”
A organização cresceu seguindo essa fórmula. Seus compromissos são agora com os aspectos sociais, educacionais e de cidadania. Sua visão estratégica desde que se institucionalizou, é fazer da banda (e das outras atividades) uma metáfora para a vida, onde o aprendizado na banda estimula o desenvolvimento de cidadania e de competências pessoais.
Notamos que, embora não se definam como tal, a Meninos do Morumbi tem todas as características de uma escola, pois pretende capacitar jovens, utiliza-se de métodos pedagógicos e tem claramente definidos seus corpos docente e discente. Vimos que, além de ter sido a banda o núcleo formador original e o maior projeto da instituição, ela foi também a origem e a inspiração de sua filosofia pedagógica. O sucesso da banda fez “transbordar” seus métodos e estratégias para os outros
projetos, todos com o mesmo caráter educativo. Nas palavras de um de seus visitantes ilustres:
Quando eu assistia ao show lá em cima, eu apreciei a música. Mas percebi que todos se alinharam como soldados. Era como uma de minhas velhas companhias de infantaria. Todos tiveram realmente que fazer seu papel corretamente para que a equipe inteira trabalhe. Isso é o que ele está ensinando, mais do que a música. Vocês aprendem sobre responsabilidade pessoal e tem pessoas contando com vocês. Lugares como este também mostram a vocês que há pessoas na sociedade que se importam realmente com vocês. O governo, as companhias como a Hewlett-packard, as pessoas que se importam. Você tem que responder. Vocês tem que retribuir sendo bem sucedidos na vida, e quando vocês não freqüentarem mais o projeto, certifiquem-se de que todas as lições que vocês aprenderam aqui vocês levam com vocês aonde quer que vocês vão. (Colin Powell, em conversa com jovens na sede da MM em 06/10/2004)35
Muitos jovens chegam à instituição na situação de retomar os estudos, ou seja, voltam a se matricular no ensino oficial para poder usufruir dos benefícios e atividades oferecidos pela Associação. Nessas condições, o envolvimento, a disciplina e o esforço necessários para se dominar um instrumento musical ajudam a criar uma postura positiva do jovem em relação ao aprendizado, à sala de aula.
“A banda, como ela demanda um aprendizado em sala de aula, ela demanda um conhecimento mínimo de música nos moldes acadêmicos, ela demanda um caminho que tem disciplina, e ela também é uma prontidão para o letramento. Ela também é uma armadilha para fazer a volta à rotina de sala de aula, para mandar o menino para a escola. Ele tem de fazer aula de música antes de ensaiar, antes de ir para o show, ele tem de evoluir, ele começa tocando um instrumento mais básico e vai até conseguir um instrumento mais difícil, onde talvez tenha de ler música mesmo, como os tamborins, caixa, chimbal, que é mais difícil”. 36
Assim, pretende-se que o jovem adquira gosto pelo estudo e pelo desenvolvimento que este possa proporcionar, como notamos na frase seguinte:
“Isso tudo vai enriquecendo e vai provando para ele mesmo, o menino da favela, que ele pode, que ele consegue, [...] reforça a auto-estima, nutre uma autoconfiança e ainda faz com que ele descubra, por si, que
35 Transcrição retirada do website da MM, acessado em 01/11/2004.
ele é cognitivo, ele volta a aprender a aprender, a aprender a conviver, aquelas bases da pedagogia”.37
Resumindo a análise da visão estratégica do fundador da MM, ela só surgiu conforme o projeto foi crescendo, e Flávio então viu novas necessidades e oportunidades, e adotou como estratégia explorar institucionalmente todas as características positivas da banda, como a arte, a diversão, o aspecto comunitário, a atração da mídia, e, finalmente, seu modelo de educação e cidadania. Ao longo da evolução da MM, a banda sempre esteve no centro de sua visão estratégica, como atrativo de marketing, como suporte organizacional, como isca, como escola, e, finalmente, como modelo filosófico para a organização.