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5.6. Sinirsel Ağlarõn Sõnõflandõrõlmasõ

5.6.4. Melez ağlar

Em 1995, o Lume foi surpreendido pela perda inesperada de Luís Otávio Burnier,

vítima de uma infecção súbita. Com a ausência de Cafa, o espetáculo “Valef ormos” deixou

de ser apresentado. Carlos Simioni e Ricardo Puccetti decidiram, então, criar um novo

espetáculo. Para essa nova fase de Carolino e Teotônio – Simioni e Puccetti respectivamente –

eram necessários novos trajes, mas sem que esses trajes abandonassem a essência da lógica

estabelecida durante os retiros de clown. No caso de Carolino, por exemplo, a lógica

estabelecida durante os retiros era que ele deveria usar roupas curtas e justas, acentuando o

físico mais cheio de curvas do ator.

Em entrevista, Carlos Simioni relatou como foi o processo de mudança de figurino de

“Valef ormos” para Cravo, Lírio e Rosa. Segundo o ator, seu colega Ricardo Puccetti, durante

Figura 11 - Da esquerda para a direita: Ricardo Puccetti, Carlos Simioni e Luís Otávio Burnier. (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Tereza Dantas.)

a criação do novo espetáculo, foi a um brechó onde encontrou paletós xadrez “cafonas”, nas

palavras de Puccetti, que poderiam ser os novos figurinos. Os trajes tiveram as medidas

alteradas, de forma a manter a tal “lógica” dos figurinos de cada clown. No caso de Simioni,

as roupas foram ajustadas ao corpo e encurtadas para ressaltar o físico do ator, em contraste

com a forma longilínea de Ricardo Puccetti.

Figura 12 - Ricardo Puccetti, Carlos Simioni e Luís Otávio Burnier. Espetáculo “Valef ormos”. (Fonte: Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Autor desconhecido)

Figura 13 - Ricardo Puccetti e Carlos Simioni espetáculo “Cravo, Lírio e Rosa”. (Fonte: Arquivo do Lume Teatro Foto: Juliana Hilal.)

Simioni relatou também, na mesma entrevista, a elaboração de um novo figurino para

o espetáculo “Concertato”, feito em parceria com a Orquestra Sinfônica da Unicamp em

2011:

Por exemplo, na orquestra que fizemos o “Concertato”, na roupa do Carolino [clown do Simioni] é tudo pequeninho, curtinho, uma baratinha atrás, curtinha, do maestro. E o do Ric [Ricardo Puccetti] já é grandona, compridão. Usamos o mesmo princípio. Já a mulher, a dona Gilda [clown feminina do Simioni], a dona Gilda, foi engraçado porque quando ela surgiu como clown era um vestido que tinha da mãe do Luis Otávio, dona Thais, que tinha no armário do Lume, tinha umas coisas que ela dava para o Lume, tanto é que a peruca que eu uso até hoje era dela e o vestido que tem até hoje era exatamente de alça, ele mudou logicamente, mas é o mesmo modelo. Eu tive que fazer para o espetáculo “Valef ormos”, que foi o Fernando Grecco quem fez, passaram-se 25 anos com o mesmo vestido, até que fazer um outro, mas é o mesmo modelo e para a cantora de ópera lá, sempre barriguda, mas era o sonho dela assim na ópera de dourado, com cauda, vestido de cauda, mas é sempre com aquelas alcinhas. (Carlos Simioni, entrevista apêndice A2)

Figura 14 - Ricardo Puccetti e Carlos Simioni em “Concertato” (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Alessandro Soave.)

Figura 15 - Ricardo Puccetti em “Concertato” (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Alessandro Soave).

Nas figuras 16, 17 e 18 podemos observar os diferentes trajes da clown Gilda. Na foto

à esquerda, vemos primeiro o vestido usado por Simioni como Gilda, aquele que ele

menciona acima como tendo sido doado por dona Thaís. Na imagem do centro, vemos uma

réplica do primeiro vestido que se desgastou devido ao uso intenso. Nota-se que a modelagem

dos dois primeiros vestidos é a mesma. Na foto à direita, pode-se ver o vestido de gala, talvez

o que mais destoa dos outros dois, mas, ainda se mantém a forma ajustada ao corpo

(salientando a barriga postiça) e o decote mais reto do vestido original, mas com alças finas.

Segundo o livro “Lume Teatro 25 anos” (2011), a clown Gilda seria um trabalho de

Mímesis Corpórea

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aplicado à comicidade, pois, Carlos Simioni criou essa figura após

observar dona Gilda, uma senhora que fazia limpeza em sua casa.

Figura 16 - Ricardo Puccetti, Carlos Simioni e Luis Otávio Burnier em “Valef ormos”. (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Gil Grossi.)

Figura 17 - Ricardo Puccetti e Carlos Simioni em “Cravo, Lírio e Rosa”. (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Juliana Hilal.)

Salta aos olhos, na citação anterior de Simioni, o uso do vestido doado pela mãe de

Burnier, dona Thaís, reforçando mais uma vez a importância do guarda-roupa como

ferramenta para o ator encontrar a lógica do traje de Gilda. Uma vez encontrada a lógica, foi

possível efetuar mudanças de estampa, cor, tipo de tecido e, no último caso, um pouco na

modelagem, mantendo uma coerência entre si, uma identificação de algo típico desta figura

em todos os três casos. É nessa coerência que reside a tal “lógica do figurino” descrita pelos

entrevistados. Justamente a lógica ou coerência é o princípio fundamental que rege a busca e

a troca de figurinos dos clowns do Lume.

Apesar de não constar como autor do figurino nem na ficha técnica do espetáculo, nem

nas entrevistas concedidas por Ricardo Puccetti e Carlos Simioni, foi o figurinista Warner

Reis que executou os trajes do espetáculo “Concertato”. Em entrevista, Reis relata o processo

de criação do traje de Gilda:

Teve um processo de ver qual seria a roupa. Então apresentei para ele [Carlos Simioni]. (...) Eu fiz uma pesquisa de vestidos de Divas e mostrei para ele. E ele amou, porque era um mais lindo que o outro. E aí foi tranquilo, porque de cara ele decidiu sobre qual iríamos trabalhar. (Warner Reis, entrevista apêndice A9)

Figura 18- Carlos Simioni em “Concertato”. (Fonte: Arquivo do Lume Teatro. Foto: Alessandro Soave.)

Reis relata que, após a pesquisa de imagens, ele buscou um pano de cortina como

material para construção do vestido. Ele atribui o uso de um material atípico à sua premissa de

que o figurino teatral não é como um traje comum, ele deve, nas palavras do figurinista, ser

sujo, não ser perfeito. Ainda sobre o processo de criação do vestido de Gilda ele relata:

(...) E eu fui trabalhando com moulage. Eu montei um corpo parecido com o da Gilda e fui modelando isso. De vez em quando o Simi [Carlos Simioni] vinha, experimentava. A Denise [Garcia] também esteve aqui um dia para ver se ela aprovava o vestido. (Warner Reis, entrevista apêndice A9)

Além de ser responsável pela criação e costura do vestido de Gilda, Warner Reis

também foi responsável por adaptar os fraques que os clowns Teotônio e Carolino usaram

durante o espetáculo. Apesar de terem sidos comprados prontos, os fraques precisavam de

alterações como mangas que saíssem (para a cena final em que um clown desmonta a roupa

do outro) e ajuste no tamanho das pontas dos fraques. Esse ajuste era necessário para que os

trajes mais uma vez obedecessem a “lógica” do figurino de cada clown. É possível observar

na figura 17 que as pontas do fraque do palhaço Teotônio (Ricardo Puccettti) alcançam quase

o chão. Mais à frente, analisaremos o significado da ausência do nome de Warner Reis na

ficha técnica do espetáculo e nas entrevistas de Puccetti e Simioni.