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I. BÖLÜM

1. Genel Anlamda Melek / Ferişte

1.1. Güzellik Açısından Sevgilinin Meleğe Benzetilmesi

1.1.1. Melek-peyker

O trabalho domiciliar deste período, apropriadamente estudado por Esmeralda B.B. de Moura148 revelou nuanças como expressão de um momento de adensamento populacional continuado na cidade que, se por um lado se via incapacitada de absorver à crescente demanda de mão-de-obra, também apresentava “soluções”, melhor dizendo, brechas que foram percebidas por uma parcela dessa população pobre. Conforme sustenta a autora, o “trabalho a domicílio não era exclusividade das mulheres”, demonstrando entretanto que, mais do que ninguém, elas souberam integrá-lo ao seu cotidiano driblando a conjuntura da cidade, na execução de tarefas “no lar”, adaptadas e complementares à cidade que se industrializava. Nessa direção, a autora destacou, dentre outros, o ofício de costureira “muitas vezes por conta própria [que] surge como uma das principais atividades desempenhadas no lar por mulheres que tinham filhos e precisavam trabalhar” e que esse trabalho mostrou-se essencial para a “história da mulher de condição social inferior”149.

As costureras que acorreram ao CGE, assim autodenominadas, concentraram sua inscrição apenas entre os anos de 1910 e 1915. No período total de 30 anos abrangido pela pesquisa, entretanto, no caso dos registros femininos, dentre as modalidades ocupacionais declaradas para as residentes na Capital, subtraindo-se a categoria majoritária de sus labores, identificada com as donas de casa e aparecendo no período compondo 16,4% do total geral, a categoria das costureras destacou-se, permanecendo numericamente atrás apenas das “jornaleras”, das “artistas” e das “sirvientas” (domésticas).

Queremos crer no entanto, que a alta cifra de inscritas sob a rubrica sus labores ocultava uma realidade inerente ao seu cotidiano: a necessidade de ajudar na manutenção da casa, de buscar algum meio de ganho para somar aos reduzidos, e muitas vezes, descontínuos ordenados do homem. À instabilidade e insuficiência do salário de seus parceiros e no intuito de aumentar a renda doméstica, essas mulheres respondiam com “trabalhos para fora” realizados no lar, onde se multiplicavam para conciliá-los com as obrigações domésticas e familiares.

Quanto às costureras, as indicações constantes nestes registros mostraram-se, de imediato, insuficientes para o diagnóstico da natureza de seu trabalho, não permitindo identificar se estavam referidas a operárias de alguma fábrica ou oficina de costura, ou se esse labor era praticado no lar.

148 MOURA, E. B. “Trabalhadoras no lar: reflexões sobre o trabalho domiciliar em São Paulo nos primeiros anos da República”. In: Diálogos. U.E.M., Maringá, PR: v.4, 2000, pp. 161-181.

Alguns indicativos, contudo, podem ser sugestivos nessa elucidação: primeiro, muitas delas apresentaram-se ao CGE sem documentos, acompanhadas por uma testemunha, cujo nome se fazia constar do registro, que as “apresentava”; supomos que se tratasse de pessoa conhecida na colônia e, eventualmente, de seu empregador; segundo, o estado civil declarado, apresentando pequena vantagem para as solteiras e terceiro, o local do domicílio declarado, revelando vias pouco habituais de moradia, como as Ruas Florêncio de Abreu, General Carneiro, Ipiranga e Marquês de Itu que seriam, muito provavelmente, o local do exercício da profissão150. Em que pese tais evidências, por outro lado também não se pode esquecer o fato de as indústrias têxteis terem se instalado geralmente no Brás ou no Belenzinho, portanto, longe da área central em que declaravam trabalhar.

O fato é que, contornando todos esses senões, parece razoável aceitar a hipótese de que, pelo menos nesses casos ocorridos, não se tratasse de trabalho domiciliar, mas possivelmente de trabalho exercido em alguma oficina ou atelier de costura dos muitos que surgiram na cidade151, ou até mesmo em alfaiatarias, conforme evidenciamos.

Para o mercado da moda, em alta numa cidade que buscava aderir às metáforas da modernidade, convergiam distintos profissionais, em especial as modistas, algumas das quais se apresentaram no CGE. É o caso de Asunción Gabaldo Navarro, casada e com 20 anos que, em 1913152, indicou residir à Rua do Carmo, 17, local onde possivelmente atendesse sua clientela. Outras, mais articuladas, divulgavam seu estabelecimento publicando anúncios no EDE e se especializavam em segmentos afins: “Hermanas Garcia, modistas, especialidad en vestidos para novias. Rua Conselheiro Ramalho,102”153.

Enredos policialescos também envolviam essas profissionais da moda. A esposa do espanhol Enrique Castro, uma modista, o traía “com um rico comerciante”, com quem passaria a viver, abandonando-o. Sem mais, o insuspeito cidadão passa a ser perseguido pela Polícia, e é ameaçado de expulsão. Indefeso, procura ajuda com Eiras Garcia e este imediatamente se insurge154, convocando o cônsul para que o acompanhasse à Polícia Central, com a intenção de protestar contra esse procedimento155. Meses mais tarde o assunto vem novamente à baila, ocasião em que uma carta anônima é enviada ao diretor do EDE para que se prevenisse contra possíveis agressões que a polícia secreta estaria preparando contra ele e o motivo alegado seria o

150 Relatório Access 15.

151 De 1914 a 1929, o número de oficinas de costura para senhoras teria passado de 21 para 170 unidades.

Cf. RIBEIRO, M. Op. cit., 1996, p. 352. 152 LRC 10.04.1913.

153 EDE 08.01.1912. 154 EDE 13.09.1913. 155 EDE 14.09.1913.

seu posicionamento de denúncia quanto à questão da expulsão de Castro que, por fim, acabou não acontecendo. Houve intensa movimentação da colônia da cidade de São Paulo e também de Santos, em solidariedade a Eiras Garcia para, por fim, descobrir-se que o “rico comerciante” com quem a modista se amasiara, não passava de um “alto escalão da Polícia Central”156.

O setor da moda movimentava outros segmentos correlatos, especialmente o comércio. A Casa Guerra, de Valentin Guerra & Hermano, funcionando desde 1885 na Rua São Bento, 86, comercializava, além de tecidos (ou fazendas), “modas, armarinhos, confecções, viés de linho”157. A revista espanhola semanal ilustrada El Hogar y la Moda, contendo “dezesseis páginas de modas, trabalhos de todos os tipos, figurinos e padrões” promovia um concurso em que um dos prêmios seria uma máquina de costura e o outro, cortes de tecido. Tinha seu representante exclusivo em Augusto Fernandez & Co., estabelecido à Rua Maria Matarazzo, 18158. Seu concorrente, Pablo Cornadó, com centro de assinaturas de revistas espanholas na Av. Rangel Pestana, 119-A, apressou-se em divulgar suas representadas, três dias após haver circulado o anúncio anterior159.

As referências literárias acerca da permanência de algum hábito costumeiro no vestuário dos imigrantes ou do uso de algum traje típico espanhol na cidade existem, porém são esparsas e ambíguas. Everardo Vallim P. de Souza, por exemplo, refere-se de passagem àqueles “idos tempos em que a capa espanhola constituía granfinada moda”160. Sobre as mantilhas, tradicional xale utilizado na Espanha, destacamos duas cenas breves em Geraldina Marx, acerca das mulheres idosas que “seguiam para a igreja” [Matriz do Brás], “de mantilha na cabeça” e, em outro momento, atentando especialmente para Dona Pepa, a autora informava que esta, nas mesmas circunstâncias, “usava uma mantilha de renda negra que trouxera da Espanha”161.

Sobre os leques, componente essencial da indumentária andaluza, encontramos duas alusões, nos mesmos autores. Marx comentando do alvoroço que ocorria no cortiço quando lá chegava o “turco da prestação” que, dentre outros objetos, trazia “leques espanhóis” para vender e em Marques, ao narrar uma fatídica tourada no Campo dos Curros – em que os toureiros eram “todos uns míseros amadores” e na qual “o Tam-Tam, um pobre diabo manco de uma perna”,

156 EDE 06.02.1914. Trad. da autora. 157 EDE 02.05.1922. Trad. da autora. 158 EDE 26.01.1914. Trad. da autora.

159 EDE 29.01.1914. As publicações oferecidas eram: Por esos mundos; Blanco y Negro; Nuevo Mundo;

Mundo Gráfico; Unión Ilustrada; Los Sucesos; Sol y Sombra; El Motim; Alrededor del mundo.

160 SOUZA, E. V. “A Paulicéia há 60 anos”. In: Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: CXI, 1946, p. 65.

morreria – salientando que, no momento do impacto com o animal, as damas teriam coberto os olhos “com os leques”162.

As cigarreras

Mas os meus olhos daquela hora traiçoeira, enviesada, sinuosa como os caminhos pérfidos, escorrem atrás de uma operária moça: muito penteada, accroche-coeurs violentos, oleosos, na testa e nas faces, e uma écharpe verde no pescoço. Uma cigarrera, como Carmen? ...163.

A Souza Cruz, cuja maior parte dos trabalhadores era de nacionalidade espanhola, também trabalhava assim [dando serviço a domicílio]. De manhã, as mocinhas saíam de casa com um baú de lata, iam até a Souza Cruz, pegavam o fumo e o papel, voltavam para casa e ficavam nas janelas enrolando os cigarros. No dia seguinte devolviam os cigarros prontos”164.

Essa prática, a do trabalho domiciliar de embalar cigarros, é outra daquelas atividades pertencentes à economia invisível, de difícil mensuração. Dela participavam as mesmas figuras anônimas que exerceram inúmeras atividades “inexistentes” do ponto de vista formal. As cigarreras espanholas, apesar disso, representavam mão-de-obra muito requisitada, senão preferida, e seu envolvimento com o setor parece indiscutível. É novamente na evocação de Geraldina Marx que temos a possibilidade de reconstituir alguns cacos dessa história. Tratava-se de trabalho compartilhado que, sob a liderança de D. Pepa, congregava toda a família, no esforço para produzir mais. Assim relata Geraldina Marx:

[D. Pepa] ia enrolando o fumo turco na cartolina colada à mesa e com uma ponteira de madeira introduzia o tabaco na cigarrilha de papel, cujas sobras das pontas eram aparadas com a tesoura por Margarita [a filha menor, de 13 anos].

Fazia os cigarros para o sírio Elias Jacob & Cia., firma estabelecida à Rua Florêncio de Abreu. Depois de prontos os cigarros, Lola [a outra filha, mais velha] os acondicionava nas caixas forradas de papel prateado e eram vendidos pomposamente como “cigarros de luxo feitos à mão”165.

Como vimos, a fabricação de cigarros no domicílio parece ter representando mais um dos nichos encontrados pela mulher economicamente oprimida para ajudar no sustento da família. No EDE, com regularidade observamos solicitações dessa mão-de-obra, em anúncios bastante explícitos: “Se necesita obreras cigarreras que sean competentes. Tratar na Rua dos Imigrantes, 43 (fábrica)”166, aos quais se entremeavam outros específicos: “Procura-se

162 MARQUES, G. Op. cit., s.d. (1ª edição 1957), p. 124.

163 ALMEIDA, G. “Um carvão de Goya”. In: Cosmópolis. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1929, p. 63. 164 Depoimento do Sr. Rômulo Carraro. In: A reconstituição da memória estatística, op. cit., vol. 2, p.133. 165 MARX, G. Op. cit., p. 36.

cigarreiras para fazer cigarros de palha”167 ou ainda “embaladoras de cigarro, com bastante prática. Fábrica de Tabacos e Cigarros Aliança. Rua José Paulino, 129168.

Também nesse segmento, florescente, a oportunidade para os pequenos investidores iniciarem e a chance de progresso (quase) garantido. Tivemos a oportunidade de rastrear os anunciantes espanhóis pequenos produtores que, através das páginas do EDE, faziam publicidade de suas pequenas fábricas de tabaco. Notamos porém que, ao surto de novas fabriquetas, verificado nos primeiros anos da década de 1910, não correspondeu o movimento nos anos posteriores, fato que pode estar associado à instalação na cidade da Souza Cruz, cuja concorrência foi praticamente impossível agüentar.

Os nomes atribuídos a essas marcas de cigarros eram bastante excêntricos. “Mima Pancha” era a denominação da Fábrica de Cigarros de Caruso Hermanos existente desde 1912 pelo menos, data do primeiro anúncio, ocupando um imóvel na Rua XV de novembro, nº 59169. Divulgava regularmente seu produto pelo EDE nesse período e consta que fosse detentora de uma marca registrada170.

As marcas “Sereia”, “Monarca” e “Andaluza”, pertenciam ao espanhol José Alvarez, fabricante estabelecido na Rua do Gazômetro, nos nºs. 83 e 85”171. Também na Rua do Gasômetro, a Fábrica de Tabaco de Juan José Pereira172 e, próximo dali, na Av. Celso Garcia, 93, a famosa Fábrica de Tabacos Progredior produzindo os tipos “puro e cigarrillo”173.

Passada essa fase inicial, contudo, os anúncios publicitários desses fabricantes foram escasseando e praticamente sumiram das páginas do EDE. A isto se seguiu, anos mais tarde, já na década de 1920, anúncios de casas importadoras pertencentes a espanhóis, nas quais havia a “Seção de Tabacos”. Anunciavam-se marcas especiais de tabaco em corda174 e, especialmente os cigarros da Fábrica Castelões”, especialmente os da marca Goal – “Jogadores! Os cigarros Goal contêm em cada carteira o retrato artístico de um jogador paulista. Tabaco escolhido, ótimo sabor. Novo êxito da Cia. Castelões e Aurora”175.

A Casa Importadora de João Bobadilla (ou “Juan”, nos primeiros anúncios do EDE), é ilustrativa da trajetória de alguns desses bem-sucedidos imigrantes. Estabelecido em 1921, com fábrica e depósito à Rua dos Italianos, 67, 69 e 73 e escritórios à Rua Júlio Conceição, 35, é

167 EDE 15.02.1912. Trad. da autora. 168 EDE 21.01.1921. Trad. da autora. 169 EDE 08.01.1912.

170 EDE 29.01.1914. 171 EDE 24.08.1912. 172 EDE 18.10.1913.

173 EDE 20.06.1914. Cigarrillo é cigarro, em português. Puro talvez fosse o cigarro de palha. 174 Poço Fundo; Moreira; Carangola; Corina; Ouro Fino e Tacape, eram algumas das mencionadas. 175 EDE 04.11.1921; EDE 21.02.1922 e outros nesse intervalo de tempo.

difícil de imaginar que, inicialmente, sua família, natural de Logroño (La Rioja) tenha estado em Atibaia, e que, por ocasião do primeiro registro no CGE, já estivesse há 20 anos no Brasil. Provavelmente colonos, esse primeiro registro deu-se pelas mãos do Agente Consular daquela localidade, no ano de 1911, e Juan Bobadilla Martin, casado, comerciante e com 6 filhos, tinha então, 34 anos de idade176. Entre esse primeiro registro, de 1911, e o próximo efetuado 10 anos depois, em 1921, já domiciliado na cidade à Rua José Paulino, 22 e pelo qual se declarou industrial, não parece descabido presumir uma trajetória de trabalho e esforço continuado, a que muitos, como ele, se submeteram177.

As parteras - $ : $ $ $ % ,: % / 0 6 4 # 1 C ! ' E 1 F 6 2 ) $ G 4 / 0 C ! D $ ? $ $ $ , 1 $ $ $ " 7 # " C ! 7 # E $ % 7 8 ' 8 : ( > 5 $ H " C $ , C " 6 6 $ D I $ " $ 1 J $ H ! , 1 $ $ 1 $ * $ E & $ $ 8 1 $ : ( > $ $ ? B ? " ' & ? $ $ , , $ 7 61 $ 8 ( B : " C # $ K 4 $ ' < " 6 , $ 8 , 1 $ 1 6 , $ : C ! 8 C 9 $ 8 $ (

176 LRC 05.09.1911. Outros “Bobadilla” de Rioja já haviam passado pelo CGE no ano de 1906. Eram eles Andrés Bobadilla Santamaría e Eugênio Bobadilla Gandasegui, sem domicílio declarado.

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O ofício de partera, dada a sua natureza e apesar de sua importância constitui, como muitas das atividades femininas daquela época, uma ocupación de difícil mensuração. Muitas delas, como D. Maria Espanhola não eram tão somente “práticas”, como a maioria que “atendia nos partos”. D. Maria Espanhola, por exemplo, que na verdade se chamava Maria Edo, diplomara-se pela Universidade de Barcelona em 1887, o que muitos ignoravam178. Nem todas as mulheres, aliás, podiam ter esse acompanhamento, ainda que fosse irrisória, na primeira década, a quantia cobrada para a assistência aos partos179. No mais das vezes, as mulheres davam à luz apenas acompanhadas pela solidária companhia das vizinhas do cortiço180.

Havia, contudo, profissionais que atendiam em hospitais, antes mesmo da virada para o Novecentos, indício de que a cidade já comportava uma outra camada social, de hábitos distintos e que podia arcar com os altos custos da internação. Juana Iglesias Martin, viúva, natural de Salamanca e com 44 anos de idade registrou-se como partera no CGE em 1896, indicando como seu domicílio apenas “Maternidade”, local onde provavelmente trabalhasse e residisse181.

Para os imigrantes e os paulistanos pobres os casos de emergência eram atendidos na Santa Casa de Misericórdia que, a partir de 1884, ganhara um novo prédio na Vila Buarque, transformando-se, a partir de 1913, em hospital-escola da Faculdade de Medicina e Cirurgia para onde afluíam inúmeros pacientes também do Interior do Estado. Para a população endinheirada, entretanto, havia no mesmo período o Hospital Santa Catarina e uma série de clínicas especializadas, apesar de que, para casos de enfermidades mais complexas “é provável que a elite paulistana recorresse a hospitais estrangeiros, fato que pode ser confirmado pela freqüência de registros de transportes de cadáveres da Europa para São Paulo” assinala Cláudio Bertolli Filho, na pesquisa aos Livros de Enterramentos dos Cemitérios Araçá e Consolação182. Ser um médico clinicando na Santa Casa era motivo de respeito e reconhecimento, de cujo mérito se valiam alguns profissionais. Era o caso do jovem Dr. Benedito Montenegro, cirurgião e ginecologista espanhol, atendendo desde 1913 – coincidentemente o mesmo ano em que aquela Instituição transformara-se em hospital-escola –, residindo na Alameda Barros, 97, porém com consultório à Rua Líbero Badaró, 11, em cujos anúncios publicitários sempre

178 PENTEADO, J. Op. cit., 1963, p. 54.

179 O autor comenta que, em 1923, D. Maria Espanhola estaria cobrando 20$000, porém que, quando nasceu sua irmã Yara, em 1928, D. Maria Portuguesa, outra parteira que assistiu ao parto, cobrou 50$000. In: Idem,

ibidem, p. 54.

180 A esse respeito, ver relato de MARX, G. Op. cit., pp. 91-92. 181 Relatório Access 37.

182 BERTOLLI Fº, Cláudio. A gripe espanhola em São Paulo, 1918: epidemia e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2003, pp. 61 e ss.

exaltava essa condição: “Médico da Santa Casa de Misericórdia”, acrescentando ainda que realizava “partos”183.

Em seu consultório particular, o atendimento era realizado das 14:30 às 16:00 horas. Era filho de Enrique Montenegro e compunha a parcela que se diferenciava da grande maioria dos espanhóis aqui residentes. Sua família viera da Galícia (Vigo), para onde seu pai viajava com regularidade184. O reduzido horário de atendimento em seu consultório particular é indicativo provável de uma carteira limitada de clientes.

Também o Dr. Dominguez Lopez “parteiro – moléstias de crianças e sifilíticos” e que atendia na Galeria Cristal, tinha um horário bastante limitado, clinicando apenas das 15:00 às 16:00 horas. Atendia também na Lapa, à Rua da Trindade, local onde provavelmente residisse e que, como vimos, concentraria crescente número de imigrantes espanhóis185.

Os problemas de saúde e a necessidade de atendimento aos mais carentes eram tão cruciais que vimos despontar, em todo o período examinado, iniciativas nesse sentido por parte das sociedades beneficentes, que tinham nessa assistência a sua principal razão de ser, conforme veremos no capítulo específico. É o caso da Liga Defensora de los Españoles que, inicialmente instalada no populoso bairro do Brás, à Travessa do Brás, 29, realizava inclusive o “atendimento a domicilio” a seus associados186. Como tantas outras, lutava com dificuldades para se manter, alternando constantemente de endereço, tendo se estabelecido, numa das ocasiões, na Rua do Gazômetro, 49-A, “onde residem também seu presidente e secretário, D. Fermín Barnó e D. Eduardo Burgos, estabelecidos com a Sastrería La Villa de Madrid187. A questão central residia na manutenção de um corpo de associados que pudesse auxiliar nas despesas – a maior parte de suas receitas vinha de doações – o que, nas condições dadas era praticamente impossível. Esse fato também ocasionava enorme rotatividade no profissional contratado para o atendimento que se via às voltas com pacientes não associados e sem condição de arcar com as consultas. O Dr. Nuno Guerner que sucedeu ao Dr. José de Asprer informava, por isso, que passaria a atender “aos associados mediante apresentação dos cupons” em seu consultório à Rua S. Caetano, 156188. O Dr. José de Asprer era médico “operador e parteiro” formado em Sevilha e em seus anúncios no EDE gostava de informar que era “médico do Consulado”189.

183 EDE 04.08.1913. 184 EDE 25.02.1913.

185 EDE 24.08.1912. Trad. da autora. 186 EDE 05.04.1913. Trad. da autora. 187 EDE 29.07.1913. Trad. da autora. 188 EDE 28.11.1913. Trad. da autora.

Nesse mesmo ano de 1913, e revelando que mesmo iniciativas dessa natureza – que não foram escassas – não conseguiam resolver a questão da demanda e tampouco dar atendimento às parturientes, o EDE noticia com certo estardalhaço a “instalação na cidade da Sra. Maria Muñoz Ramos”, à Rua Carneiro Leão, 62, no Brás, “excelente professora em partos, que gozava na Espanha de reputação invejável”, recomendando-a às mulheres que necessitassem de seus serviços190.

Outras sociedades beneficentes tendo como principal encargo a assistência médica e farmacêutica aos associados serão criadas no período, como é o caso da Beneficência Española (vide fig. 11, p. 295), cujos anúncios acompanhamos desde 1912, e que, como tantas outras, sempre às voltas com questões financeiras insuperáveis e rotatividade médica191 apresentava a agravante das freqüentes querelas entre os sócios e as juntas diretivas, e desta entre si, quando não a processos judiciais e a prisões192. Esses fatores somados talvez possam ser responsabilizados pelo aparecimento temporário e descontínuo da maioria delas, muitas das quais de efêmera duração.

Estas sociedades necessitavam de constantes “doações”, algumas delas, curiosamente registradas no CGE como “doação para os espanhóis necessitados” ou “doação para a Beneficéncia Española”193. Em 1918, em resumo, continuava a Beneficência Española, sem sede fixa, a comunicar, pelo EDE, nova transferência de sede, depois de tentar uma fusão com o Centro Español194, enquanto inalterável permanecia a condição dos novos brasileritos, filhos de emigrantes aqui nascidos. Simultaneamente, era crescente o número de parteiras e médicos particulares, não apenas espanhóis, que utilizava as páginas publicitárias do EDE195.

Benzer Belgeler