A primeira base (e primeiro passo), conforme Kahn e Wiener, é diferenciar eventos e tendências que se baseiem em circunstâncias únicas, ou em uma seqüência especial de acontecimentos, dos que dependem de fenômenos cumulativos. Fenômenos cumulativos seriam, por exemplo, a educação de um indivíduo, o planejamento urbano e o controle da população, ou seja, eventos que “continuam” de forma ordenada, constituindo uma seqüência padronizada. Por outro lado, os eventos únicos seriam, por exemplo, as questões de relação internacional e de segurança nacional. Uma vez diferenciados os tipos de eventos, as previsões deveriam ser feitas baseadas nos cumulativos114, pela própria natureza seqüencial deles, diferentemente daqueles que são únicos.
Continuando no sentido de mostrar que o planejamento futuro é possível, os autores identificam um novo problema: o timing115. Ele relaciona os momentos de decisão e de realização das decisões, entendendo-os dentro da seguinte lógica: o presente é resultado do passado que o decidiu, e, por sua vez, o presente decide o futuro que se realizará. Há, nessa formulação, uma teoria de articulação temporal, a qual constitui a segunda base para o método. Os autores defendem-na, pois, segundo eles, os planejamentos, programas, políticas e sistemas de governo e militares mudam de forma relativamente lenta frente às decisões atuais, porém, mudam de forma rápida frente às decisões do passado. Crendo que este ritmo se manteria, os futuristas afirmam que o momento em que a decisão é tomada não corresponde ao momento da realização da mesma. Assim, algumas mudanças contextuais, que não foram cogitadas na decisão, poderão ter ocorrido no momento da realização. Porém, pouco poderá ser feito no futuro, pois, quando presente, as respostas não terão efeito imediato116. Ou, como os autores escreveram:
podemos fazer menos para modificar situações sociopolíticas que estão mais próximas de nós e sobre as quais mais sabemos, enquanto que podemos exercer maior influência sobre aquelas situações futuras, das quais sabemos relativamente pouco, até mesmo quanto às nossas preferências117.
Tal problema já fora percebido quando ocorreram as primeiras intervenções estatais. A importância do planejamento econômico nos governos ocidentais, como Myrdal mostra, foi um acontecimento não planejado, já que resultara de intervenções estatais, no período da
114 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 2.
115 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 2; Traduzido como “ritmo” na edição brasileira, KAHN, H.; WIENER, A.J., 1968, p. 28.
116
KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 2. 117 KAHN, H.; WIENER, A.J., loc. cit.
Revolução Industrial, para otimizar algumas circunstâncias comerciais, como a construção de ferrovias, ou para resolver algum tipo de problema. Contudo, elas eram temporárias e limitadas, pois, se não fossem, contrariariam o ideal liberal do período. Porém, tais intervenções passaram a ocorrer em maior número e de forma mais complexa e a coordenação delas tornou-se uma necessidade. Assim, a intervenção não se mostrou temporária, como também não se restringiu somente à esfera em que tinha sido feita. Isso aparecia, por exemplo, quando uma decisão concernente a uma área rural acabava repercutindo nos setores urbanos. Além de não se limitarem ao espaço em que tinham sido efetuadas, as intervenções também se estendiam além do período em que tinham sido tomadas118. O planejamento acabou se tornando, então, “a alternativa ‘liberal’ ao verdadeiro caos criado pela intervenção estatal descoordenada e desorganizadora”119.
Outro fator, desde a Revolução Industrial, que estimulou a intervenção, foi a possibilidade de indivíduos ou organizações fortes conseguirem controlar o mercado, normatizando e manipulando-o conforme seus interesses. Com isso, o Estado de ideologia liberal precisou intervir para evitar esses favorecimentos unilaterais120. Acompanhando esse processo, a própria democratização e o sufrágio universal colaboraram, pois, conforme as maiores camadas da população recebiam sua parte do poder político e tomavam consciência dessa força, elas pressionavam o Estado esperando uma intervenção ao seu favor, buscando a igualdade econômica121. Esses dois processos, atrelados às crises internacionais, contribuíram ainda mais para que a intervenção estatal existisse e continuasse122. O fortalecimento do Estado sobre as questões econômicas por meio da política se deu quando não apenas ele precisou intervir, mas também coordenar suas intervenções, assim como as ações dos outros elementos participantes da nação. Isso se concretizou tanto pela normatização do funcionamento das relações entre as organizações que representavam os diferentes setores da sociedade, quanto pela legislação123.
O planejamento se intensificou ao longo do século XX, principalmente no período entre guerras, visando, a partir de então, a estabilidade interna, empregos, boas condições para a agricultura e assegurar a produção e o consumo, todas dentro de uma ótica protecionista124.
118 MYRDAL, Gunnar. O Estado do futuro: o planejamento econômico nos Estados de bem-estar e suas implicações internacionais. Rio de Janeiro: Zahar, 1962, p. 38-40.
119 Ibid., p. 40. 120 Ibid., p. 48-49, 58-60. 121 Ibid., p. 54-55, p. 74. 122 Ibid., p. 53. 123 Ibid., p. 63-64. 124 Ibid., p. 41-42.
Tal processo continuou no pós-guerra, principalmente no contexto da Guerra Fria, pois o direcionamento das despesas governamentais com armamentos e a necessidade de rivalizar com um oponente que apresentava tanto uma expansão física, quanto um desenvolvimento interno, fizeram necessária uma nova política de coordenação125.
A importância do planejamento econômico estendeu-se, ainda, até os anos 60, pois, conforme Myrdal, nenhum país ocidentalizado abriria mão do planejamento econômico. Ou seja, “país algum está em posição de permitir que os assuntos monetários fiquem fora da política econômica ou, mesmo, fora da Política”126. A idéia de planejamento econômico é posta por Myrdal como “as tentativas conscientes feitas pelo governo de um país para coordenar as políticas públicas mais racionalmente, a fim de atingir mais completa e rapidamente os fins desejados para desenvolvimento futuro, determinados pelo processo político em sua evolução”127. Ela, portanto, pouco se diferencia do planejamento mais geral proposto por Kahn e Wiener. A diferença se dá, pois, no planejamento econômico, a ênfase está na questão econômica, fazendo com que a política se torne um acessório. Contudo, ambos os planejamentos não fogem da previsão, pois, quanto mais o Estado coordena e normatiza a economia, mais ele tende a elaborar previsões de curto e longo prazo, visando alterar as diretivas em relação ao comércio, às finanças, ao desenvolvimento e à reforma social128.
Portanto, essas duas primeiras bases identificadas pelos futuristas são bases gerais para outros planejamentos também, pois elas são indissociáveis, complementando-se nessa idéia de como o planejamento acaba se tornando previsão, uma vez que se projeta para o futuro. Isso ocorre pela continuidade, o que, por sua vez, dá respaldo para os eventos chamados de cumulativos. A idéia de acúmulo refere-se às decisões e à coordenação das mesmas. Assim, os eventos cumulativos seguem limites determinados e que precisam ser refeitos com relativa constância, seguindo o resultado dos estudos e planejamentos. São, portanto, eventos que se realizam conforme o acúmulo de planejamentos que são elaborados e de decisões que são tomadas.
Então, os autores aproximam as duas idéias distintas que foram trabalhadas até agora. Uma, o planejamento político baseado no caráter acumulativo dos eventos e, portanto, na continuidade e, a outra, o hiato temporal causador das incertezas. Frente a isso, para os 125 MYRDAL, G., 1962, p. 47, 61. 126 Ibid., p. 46. 127 Ibid., p. 40-41. 128 Ibid., p. 78-80.
autores – e voltando a questão do “por que” – a preocupação não é somente antecipar os eventos futuros e fazer o desejável mais possível e o indesejável menos possível, mas – e como complemento disso – tentar expor quaisquer futuros que possam emergir. Por isso, afirmam que não há uma satisfação com planejamentos lineares, mas sim com planejamentos que permitam que um conjunto amplo de futuros possa ser considerado. Essa defesa se dá, pois, mesmo que a possibilidade seja pequena de que um desses futuros se concretize, é importante conhecer os problemas, perigos e oportunidades se tais futuros vierem a existir129, abrangendo, com isso, um número maior de opções de como proceder e decidir.
Esse não era um problema novo com qual Kahn lidava. Ao pensar, ainda na época da RAND, sobre os jogos de guerra, entendidos como um conjunto de simulações de situações de guerra, que eram “jogadas” e desenvolvidas conforme suas diferentes possibilidades130, ele afirmava que não bastava os jogos tratarem de situações prováveis, mas que deviam abordar, também, situações interessantes. Procedendo dessa forma, por mais que as situações fossem de baixa probabilidade, caso ocorressem, seria algo extremamente importante conhecer. Assim, o jogo deveria ser elaborado como um estudo de situações para alguém que gostaria de se instruir sobre as mesmas e não somente pela possibilidade de se tornarem reais. A proposta dos jogos não era, portanto, ser um oráculo131.
Um elemento necessário para se delinear diversas possibilidades futuras seria um conhecimento amplo. Essa necessidade já era conhecida de Kahn também desde a época da RAND. Ao comentar, por exemplo, sobre a teoria dos jogos, como forma de simular e definir planejamentos, ele argumentava que não se poderia prognosticar as ações dentro de um jogo, sem conhecer a história e a personalidade de cada um dos envolvidos. Assim, ao simular um jogo, não era apenas matemática que os especuladores levavam em conta, mas também princípios de economia, política, sociologia, psicologia, história e etc132. Isso, então, resultou em um ambiente interdisciplinar, ainda na época da RAND133.
Essa questão da interdisciplinaridade remete, ainda, a outra prática que Kahn conheceu ainda na RAND, a qual foi denominada de método Delphi. Desenvolvido em 1954 e usado inicialmente em questões militares, consistia na estruturação de um processo de comunicação igualitária entre todos os membros dentro de um grupo que visava abordar questões
129 KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p.3. 130
KAHN, H.; MANN, I. War Gaming. Santa Monica: RAND Corporation, 1957. Disponível em: <http://www.rand.org/pubs/authors/k/kahn_herman.html>. Acesso em: 13 nov. 2008. p. 3. 131 Ibid., p. 11.
132
KAHN, H.; MANN, I. Game theory. Santa Monica: RAND Corporation, 1957. Disponível em: <http://www.rand.org/pubs/authors/k/kahn_herman.html>. Acesso em: 13 nov. 2008, p. 36-37.
complexas de forma ordenada134. Esse diálogo integrado intentaria um consenso aproximado a partir do conhecimento específico de cada um dos envolvidos. Kahn parecia preferir, contudo, o trabalho coordenado e com um responsável pelas decisões135. O futurista defendia a necessidade desses trabalhos conjuntos, pois um analista de sistemas ou planejador político acabava lidando com um contexto amplo e, por isso, deveria se cercar de experts de diferentes áreas e trabalhar de forma ativa e integrada136, evitando que o planejamento se tornasse um simples conjunto de relatórios137.
Frente a todas essas influências, e pela própria necessidade do que propõem como planejamento, os autores defendem a importância do trabalho interdisciplinar. Assim, afirmam que os estudos, se interdisciplinarmente bem conduzidos e integrados, têm maior capacidade de “incorporar introspecções relevantes”, além de serem mais capazes de enfrentar questões reais da política. Contudo, os futuristas sugerem que, apesar de um estudo interdisciplinar exemplar não possuir mais chances de chamar a atenção dos tomadores de decisão do que uma fantasia política, ele deveria ser feito tendo a finalidade de dar recomendações aos mesmos138.