• Sonuç bulunamadı

A escola torna-se a instituição central da formação da civilidade, o espaço em que o tempo é regrado, o conhecimento é compartimentalizado e transmitido segundo certa didática. Fundamentalmente, porém, é o disciplinamento das mentes e dos corpos jovens, promovido pelo meio escolar, que garante a padronização de comportamentos requeridos pela nova vida

10 ARIÈS, Phillipe. Historia social da infância e da família. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 1978, p. 274. 11 SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. 6ª ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1999, p. 323-324 Apud BOTO, Carlota. “O desencantamento da criança: entre a Renascença e o Século das Luzes”. In: FREITAS, M. C.; KUHLMANN JR., M. (Orgs.). Os intelectuais na história da infância. São Paulo: Cortez, 2002.

citadina e social. A palavra-chave do mundo escolar é, portanto, disciplina. Nas palavras de Comenius,

Escola sem disciplina é como moinho sem água. Assim como o moinho pára quando lhe tiram a água, também a escola procede com lentidão se lhe for retirada a disciplina (...). No entanto, isso não significa que a escola deva ser cheia de gritos, pancadas, cóleras, mas sim de vigilância e atenção contínua dos docentes e dos alunos. Que outra coisa é a disciplina senão um método

seguro para fazer que os alunos sejam realmente alunos12?

A sociedade disciplinar que a escola ajuda a produzir e a manter é também a sociedade que aspira a instituir uma ordem nacional pública, laica e culta. A instituição escolar (em todos os seus níveis) torna-se uma peça chave na articulação que cada estado nacional moderno deve estabelecer entre o desenvolvimento econômico, a segurança militar, a pesquisa técnico-científica e a manutenção de laços simbólicos e de tradições culturais próprios (os regionalismos que nutrem o nacionalismo). A escola institui nacionalidade, conecta os desígnios abstratos e gerais do estado aos hábitos e linguagens cotidianas de crianças, jovens e adultos. Mediante a função reprodutora da escola, ao mesmo tempo em que a ordem social se divide segundo relações de dominação, de hegemonia e contra-hegemonia na luta de classes, toda população, “dominadores e dominados”, interiorizam valores, práticas e dispositivos de poder e micropoder. Estruturas de pensamento, gestos corporais e mesmo objetos de desejos e de aspirações subjetivas surgem em função da disciplinarização de todos e de cada um, ou seja, da interiorização do que Foucault nomeia como “métodos [de] controle minucioso das operações do corpo”, que as sujeitam às forças e lhe impõem produtividade13. Pelas diferentes formas de disciplina, a escola espelha a fábrica, que, por sua vez, é espelhada pelo exército, cujas estratégias são incorporadas pelos hospitais e assim por diante, em múltiplos dispositivos que penetram e se objetivam nas instituições, configurando uma vida cotidiana produtiva, otimizada, dividida, subdividida, hierarquizada e organizada. A sistemática organização urbana do tempo e do espaço das instituições modernas extrai da mente e do corpo operário, estudantil, recruta, comerciante e trabalhador a maior eficiência social possível, tornando até mesmo desejos dispersos e desorganizados em energia direcionada, útil, dócil e contida.

12 COMENIUS, op. cit., p. 311.

A moderna ordem disciplinar, no entanto, só se tornou evidente quando começou a ruir, quando, ironicamente, passou a revelar a face urbana de uma desordem violenta, caótica e desgovernada da modernidade – o pós-disciplinar, o pós-salarial, o pós-industrial. Ironias da história... Já ao analisar as grandes narrativas modernas de Goethe, Marx, Baudelaire e Dostoievski, Marshall Berman mostrou que a contradição e a ironia estão no cerne mesmo da experiência do moderno, uma “experiência vital (...) de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida (...) compartilhada por homens e mulheres em todo mundo”14.

Com efeito, a ironia é a forma fundamental de se vivenciar com saudável distanciamento, mas necessária seriedade, tempos marcadamente desiguais, cujas promessas de emancipação, liberdade e inclusão são diuturnamente desmentidas em interdições subjetivas, sociais, culturais, econômicas e políticas mediadas pelas assimetrias de poder e pelos antagonismos e conflitos de classe. Talvez a ironia maior dos tempos modernos (e pós) tenha se materializado no próprio corpo das cidades. Nelas, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento urbano desigual propicia o florescimento de uma civilidade cosmopolita (mistura de populações, línguas, costumes; proliferação de cafés, restaurantes, livrarias, teatros, cinemas, museus, escolas, universidades, centros culturais, empresas e associações de todos os tipos), força os indivíduos a um convívio massificante, apaziguador, entediado e indiferente às mais abomináveis formas de desigualdade. A justaposição de miséria, luxo, cultura, ignorância, requinte, vulgaridade, pobreza, violência, corrupção, fanatismo, esclarecimento e cinismo (enquanto forma social resultante do desenvolvimento objetivo da indiferença, da ironia e da impotência) é, hoje, experimentada massivamente como um choque, embora já elementar, na vivência do cotidiano apressado das grandes cidades. No começo do século XXI, a urbanização e a vida urbana, símbolos maiores de modernidade, pela primeira vez na história se sobrepõem ao mundo rural e generalizam-se a toda a humanidade, porém,

As cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como fora previsto por gerações anteriores de urbanistas, serão construídas em grande parte de tijolo aparente, palha, plástico reciclado, blocos de cimento e restos de madeira. Em vez de cidades de luz arrojando-se aos céus, boa parte do mundo urbano do século XXI instala-se na miséria, cercada de poluição, excrementos e deterioração. Na verdade, o bilhão de habitantes urbanos que moram nas

favelas pós-modernas podem mesmo olhar com inveja as ruínas das robustas casas de barro de Çatal Hüyük, na Anatólia, construída no alvorecer da vida

urbana há 9 mil anos15.