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Inobstante a Lei 11.419/06 tenha acrescido dispositivos normativos ao Código de Processo Civil, com o intuito de adaptar os institutos vigentes à informatização do processo judicial, a prática forense evidencia a necessidade contínua de alterações, a fim de adaptar o procedimento ao atual desenvolvimento dos sistemas virtuais.

Com o arquivamento digital dos autos processuais, faz-se desnecessária a concessão de vista aos advogados (e procuradores) fora da secretaria e, por conseguinte, a concessão de prazo sucessivo ou diferenciado (dobro ou quádruplo) às partes processuais, conforme ainda presente nos artigos 191 e 454, §3º do Código de Processo Civil.

A norma do artigo 191 da lei processual civil estabelece a concessão de prazo em dobro aos litisconsortes (independentemente da sua natureza) representados por escritórios de advocacia distintos, com o objetivo de permitir o manuseio dos autos pelos procuradores e, com isso, facilitar a participação das partes no processo de elaboração da norma de decisão518.

515 A análise do compartilhamento de informações entre os órgãos jurisdicionais e entidades estatais abarca uma

ampla discussão que envolve a segurança na transmissão dos dados, o direito à intimidade e outras normas de cunho constitucional. Diante disso e tendo em vista os objetivos deste trabalho, tal tema não será devidamente analisado sob os parâmetros do Estado democrático constitucional.

516“Art. 399. O juiz requisitará às repartições públicas em qualquer tempo ou grau de jurisdição: I - as certidões

necessárias à prova das alegações das partes; II - os procedimentos administrativos nas causas em que forem interessados a União, o Estado, o Município, ou as respectivas entidades da administração indireta”.

517 ALVIM, José Eduardo Carreira; CABRAL JUNIOR, Silvério Luiz Nery. Processo judicial eletrônico.

Curitiba: Juruá, 2008.

518 FORNO, Pietro Toaldo Dal; RIGHI, Lucas Martins. A inaplicabilidade do prazo em dobro insculpido no artigo

191 do Código de Processo Civil (CPC), no processo judicial digital. Anais eletrônicos... Universidade Federal de Santa Maria, 2013. Disponível em: <http://coral.ufsm.br/congressodireito/anais/?page_id=61>. Acesso em: 10 ago. 2013.

Da exposição de motivos do Código de Processo Civil, infere-se que a finalidade da norma reside na necessidade de se facilitar o acesso e o manuseio dos autos processuais das partes representadas por procuradores distintos e, com isso, garantir a plenitude do direito ao contraditório e à ampla defesa.

Três delimitações são necessárias: (a) a lei não delimita as espécies de litisconsórcio atingidas pela norma do artigo 191; (b) a concessão do prazo em dobro não decorre da mera instituição do litisconsórcio, visto que, quando as partes são representadas pelo mesmo advogado (ou escritório de advocacia), o prazo é contado na sua forma simples; (c) o princípio da isonomia é favorecido com a contagem diferenciada dos prazos processuais.

No âmbito do processo eletrônico, os autos processuais estão disponíveis integralmente às partes processuais, de modo ininterrupto e sem a necessidade de comparecimento ao órgão jurisdicional519 respectivo no horário do expediente forense. Com isso, garante-se a isonomia processual necessária à institucionalização do discurso e a participação das partes no processo de elaboração da norma de decisão.

Se a finalidade de norma do artigo 191 do Código de Processo Civil é garantir o acesso e o manuseio aos autos processuais, tal premissa é respeitada no âmbito do processo eletrônico, sem a necessidade de se conferir prazo diferenciado. E mais: tendo em vista que todas as partes processuais têm acesso integral e ininterrupto (durante 24 horas por dia, em dias úteis, sábados, domingos e feriados) aos autos processuais, a concessão de prazo em dobro apenas aos litisconsortes com advogados distintos violará o princípio da isonomia processual, por criar uma diferenciação desnecessária entres os sujeitos processuais em condições semelhantes (todos têm acesso integral e ininterrupto aos autos processuais).

Como “referente lógico-jurídico indispensável ao procedimento em contraditório (processo)”520, o princípio da isonomia garante a igualdade de condições às partes processuais

para apresentar seus fundamentos e contestar os argumentos opostos pela outra parte. Diante disso, argumenta-se no sentido da desnecessidade de concessão de prazo em dobro no âmbito dos processos judiciais eletrônicos521.

519 Ressalte-se a necessidade de cadastramento prévio perante o órgão jurisdicional para o acesso ao sistema virtual,

conforme reiteradamente exposto na segunda parte do trabalho.

520 LEAL, Rosemiro Pereira. Teoria geral do processo: primeiros estudos. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012,

p. 99, com grifos no original.

521 A supressão do prazo em dobro às partes processuais influencia no tempo de duração do processo, conforme

A par da discussão doutrinária que envolve a justificativa de concessão de prazo diferenciado para a Fazenda Pública522, é possível que seja repensada a norma do artigo 188 do Código de Processo Civil, visto que os órgãos que compõem o conceito de Fazenda Pública poderão ter acesso integral e ininterrupto aos autos processuais no sistema virtual.

A análise desse ponto deve, contudo, estar fundamentada nos direitos e garantias processuais de cunho constitucional, mormente diante da necessidade de se conferir um espaço amplo para a discursividade no âmbito processual, como elemento que outorga legitimidade à norma de decisão produzida pelo Poder Judiciário.

O anteprojeto do novo Código de Processo Civil523 mantém a previsão de prazo diferenciado à Defensoria Pública524, ao Ministério Público525 e à Fazenda Pública526. Além disso, preserva-se a concessão de prazo diferenciado aos litisconsortes (com procuradores distintos)527, sem qualquer ressalva quanto à aplicação (ou adequação) dessa norma no âmbito do processo eletrônico.

Cabe salientar que, nas audiências públicas realizadas para a averiguação da opinião popular sobre as normas que compõem o anteprojeto, a manutenção de prazos diferenciados é amplamente contestada, mormente diante da defesa da proposta da comissão de proteção aos direitos à razoável duração ao processo e ao acesso à justiça.

A formação do instrumento no recurso de agravo também precisa ser repensada (ou melhor, excluída) no âmbito da informatização do processo judicial. A finalidade primordial da formação do instrumento no recurso de agravo é permitir que o órgão julgador ad quem tenha acesso às principais peças e aos documentos necessários para o conhecimento dos fatos e argumentos que serviram como base para a decisão interlocutória impugnada528.

Considerando-se que a integralidade dos autos processuais está disponibilizada nos sistemas virtuais, a obtenção de cópias dos documentos arrolados no artigo 525, I e II da lei processual civil torna-se desnecessária, mormente quanto à certidão de intimação para aferição da tempestividade do recurso.

522 O questionamento acerca da justificação constitucional da prerrogativa conferida à Fazenda Pública, com a

concessão de prazo diferenciado no processo civil (em quádruplo para contestar e em dobro para recorrer), demanda uma pesquisa doutrinária extensa que tangencia os objetivos deste trabalho.

523 BRASIL. Congresso Nacional. Senado Federal. Comissão de Juristas Responsável pela Elaboração do

Anteprojeto de Código de Processo Civil. Código de Processo Civil: anteprojeto. Brasília: Senado Federal, Presidência, 2010. Disponível em: <http://www.senado.gov.br/senado/novocpc/pdf/anteprojeto.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2013.

524 Norma prevista no artigo 93 do anteprojeto do novo Código de Processo Civil. 525 Norma prevista no artigo 149 do anteprojeto do novo Código de Processo Civil. 526 Norma prevista no artigo 95 do anteprojeto do novo Código de Processo Civil. 527 Norma prevista no artigo 186 do anteprojeto do novo Código de Processo Civil.

Mesmo considerando que o órgão que julga o agravo de instrumento é distinto do que proferiu a decisão vergastada, é possível criar uma ferramenta que permita (ou autorize) o órgão

ad quem acessar não apenas os documentos obrigatórios e facultativos desse recurso, mas a

integralidade do autos, dispensando-se, portanto, a formação do instrumento.

A não concessão de prazos diferenciados e a desnecessidade da formação do instrumento influenciam positivamente no tempo de duração do processo, favorecendo a celeridade processual, sem macular qualquer direito ou garantia processual de cunho fundamental, em conformidade com a conformação constitucional do processo civil no âmbito do Estado democrático constitucional.

Saliente-se, ainda, que a informatização do processo judicial não restou devidamente regulamentada no anteprojeto do novo Código de Processo Civil529, conforme registram as atas das audiências públicas realizadas no processo de elaboração desse diploma legislativo. Certamente, a ausência de delimitação adequada das alterações promovidas no âmbito processual, com a utilização de recursos tecnológicos, poderá minorar os benefícios advindos dos sistemas virtuais.

As principais pontuações, no anteprojeto530, acerca da informatização do processo

judicial nas audiências públicas podem ser sintetizadas nos seguintes fundamentos: (a) necessidade de criação de um capítulo próprio que versa sobre a implantação do processo eletrônico no âmbito processual, com a finalidade de regulamentar amplamente as alterações viabilizadas pela Lei 11.419/06; (b) restrição inadequada do processo eletrônico ao âmbito das comunicações processuais – artigo 554 do anteprojeto; (c) não previsão do uso de novos recursos tecnológicos no âmbito processual.

A não regulamentação adequada da informatização do processo judicial no anteprojeto do novo Código de Processo Civil poderá ensejar dificuldades para a plena funcionalidade das ferramentas disponibilizadas pelos sistemas virtuais, bem como sobrelevará a necessidade de reformas pontuais para adequar o processo judicial à atual fase vivenciada com o processo eletrônico. Ademais, far-se-á necessário recorrer aos preceitos gerais da Lei 11.419/06, para justificar alterações procedimentais, quando a própria lei processual civil poderia regulamentar adequadamente tal fenômeno.

529 BRASIL. Congresso Nacional. Senado Federal. Comissão de Juristas Responsável pela Elaboração do

Anteprojeto de Código de Processo Civil. Código de Processo Civil: anteprojeto. Brasília: Senado Federal, Presidência, 2010. Disponível em: <http://www.senado.gov.br/senado/novocpc/pdf/anteprojeto.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2013.

3 DELIMITAÇÃO DO PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO (PJe)

À luz dos fundamentos que justificam a informatização do processo judicial, o CNJ531 desenvolveu o modelo de sistema virtual (um software) nominado de PJe, a partir da conjugação das experiências desenvolvidas em diversos órgãos jurisdicionais brasileiros.

Elege-se tal modelo em virtude da sua proposta de uniformização dos sistemas virtuais implantados nos órgãos do Poder Judiciário, abarcando os Tribunais Superiores, os Tribunais da Justiça Federal, os Tribunais da Justiça Estadual, os Tribunais da Justiça Militar e os Tribunais da Justiça do Trabalho.

O PJe propõe uma alteração substancial no modo como a função jurisdicional é exercida para obter a norma de decisão, em virtude da informatização e automação dos atos necessários para o regular andamento do feito. Assim, como o processo tradicional (de papel), esse modelo de sistema virtual deve estar atrelado aos pilares do Estado democrático constitucional, mormente quanto à concretização dos direitos fundamentais e à promoção de instrumentos de participação popular.

Desde o ano de 2009, o CNJ532 iniciou suas pesquisas e trabalhos para o

desenvolvimento do PJe, ressaltando a necessidade de se ter um software aberto (passível de modificação pelos órgãos jurisdicionais), a fim de atender às especificidades de cada um dos órgãos que compõem o Poder Judiciário.

Para isso, foi criada a Comissão de Tecnologia da Informação e Infraestrutura do CNJ, respeitando-se a necessidade de discussão democrática da implantação do PJe, com a participação de juízes auxiliares, bem como membros do Ministério Público, do Conselho Federal da Ordem dos Advogados, da Advocacia Geral da União, da Defensoria Pública da União e de procuradores de Estado e de município533.

Ainda que, nesse primeiro momento, a forma de participação na criação do PJe tenha se limitado a representantes dos órgãos que compõem o sistema de justiça (Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Advocacia Geral da União e Defensoria Pública), a abertura do espaço de discussão para profissionais da área jurídica que não compõem o CNJ é essencial, visto que o PJe promove alterações substanciais no modo de exercício da função jurisdicional,

531 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. PJe Processo Judicial Eletrônico. Cartilha. Brasília, 2010.

Disponível em:

www.cnj.jus.br/images/dti/processo_judicial_eletronico_pje/processo_judicial_eletronico_grafica2.pdf. Acesso em: 25 jul. 2013.

532 Ibid. 533 Ibid.

a qual, no âmbito do Estado democrático de direito, necessita pautar-se em elementos democráticos534.

Ademais, como a informatização do processo judicial é um fenômeno contínuo e gradativo, a participação popular no âmbito de implementação do PJe é viabilizada com uma rotina, criada pelo CNJ, de inspeções e audiências públicas535 realizadas nos tribunais que utilizam tal software.

Tendo-se como parâmetro a perspectiva democrática proposta por Jürgen Habermas536 e de abertura da participação popular decorrente das lições de Peter Häberle537 e de Joaquim José Gomes Canotilho (democracia participativa)538, infere-se que a previsão desses dois instrumentos de acompanhamento do PJe nos órgãos jurisdicionais se traduzem como elementos de viabilização da participação democrática no processo de informatização instaurado no país.

De fato, com as audiências públicas, a Corregedoria Nacional de Justiça abre espaço para a população apresentar as suas opiniões sobre o PJe, mediante críticas, reclamações e sugestões para o desempenho da função jurisdicional da sua localidade. Além de viabilizar a participação popular, as audiências públicas apresentam-se como instrumento imprescindível para a transparência e controle do órgão jurisdicional no processo de elaboração da norma de decisão, fatores imprescindíveis ao modelo de Estado democrático constitucional.

As inspeções judiciais, por conseguinte, destinam-se à análise interna do exercício da função jurisdicional, averiguando o funcionamento dos órgãos jurisdicionais, sob os pontos de vista processual e organizacional (ou administrativo), consoante ressalta o CNJ539. Viabiliza- se, com isso, um espaço para análise dos efeitos decorrentes da implantação do PJe, colhendo- se informações acerca dos aspectos positivos e negativos do software, a fim de viabilizar o aprimoramento desse modelo.

534 VIEIRA, Renato Stanziola. Jurisdição constitucional brasileira e os limites de sua legitimidade

democrática. Rio de Janeiro: Renovar, 2008.

535 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Inspeções & Audiência Públicas. Disponível em:

www.cnj.jus.br/programas-de-a-a-z/eficiencia-modernizaçao-e-transparencia/inspecoes-e-audiencias-publicas. Acesso em: 25 jul. 2013.

536 HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,

1997.

537 HÄBERLE, Peter. Hermenêutica constitucional – A Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição:

Contribuição para a Interpretação Pluralista e “Procedimental” da Constituição. Tradução: Gilmar Ferreira Mendes. Porto Alegre: Fabris, 1997.

538 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 4. ed. Coimbra:

Almedina, 2003.

Ademais, a inspeção judicial permite a identificação de eventuais equívocos praticados pelos órgãos jurisdicionais durante o trâmite processual, facilitando-se a fiscalização e o controle contínuo do exercício da função jurisdicional, como fator de legitimidade na atuação do Poder Judiciário. Tendo em vista todas as alterações decorrentes da informatização do processo judicial, torna-se imprescindível acompanhar a implantação e o desenvolvimento do modelo do PJe nos diversos tribunais do país.

A presente pesquisa elege como objeto de estudo a versão nacional mais recente do PJe, elaborara pelo CNJ, no entanto, ao longo do trabalho, poderão ser feitos apontamentos a fim de elucidar a automação das atividades desenvolvidas nos órgãos jurisdicionais, bem como a sua desburocratização.