Há quem defenda, nesta mesma direção, a tese de que as experiências de ativismo em rede corresponderiam a um processo ecológico de transubstanciação. Para Massimo Di Felice (2017b)230, a qualidade da ação em rede nos nossos dias
evidencia um novo tipo de ação: não somente social nem mais direta em relação ao externo, tampouco somente fruto de um condicionamento informativo e técnico. Seria, portanto, algo capaz de alterar a própria substância dos atores e actantes envolvidos naquilo que denomina como ato conectivo231
, característico da dimensão ecossistémica e conectiva dos contextos reticulares.
“O processo de digitalização remete à necessidade de repensar a ideia de ação além de seus significados sociológico, político, antropomórfico, pondo em relação as interações entre as diversas entidades da biosfera” (Di Felice, 2017b, p. 62).
De acordo com este autor, a tradição sociológica da teoria da ação segue duas linhas imaginárias que não contemporizariam suficientemente a complexidade da lógica reticular impulsionada pelo digital. A primeira corrente é explicada como aquela que parte da obra de Émile Durkheim (2007)232 ao estrutural funcionalismo norte-
americano de Talcott Parsons (2010)233, interpretando a ação social como circunscrita
no âmbito de normas e vinculantes relações institucionais capazes de limitar seus impactos e suas geometrias. Já a segunda, num sentido oposto, descreve a ação social
230 Cf. Di Felice, M. (2017b). “O Net-ativismo e as dimensões ecológicas do agir nas redes digitais: 20
teses em busca de uma linguagem”. In I. Babo; J. Bragança de Miranda; M. J. Damásio & M. Di Felice (Orgs.). Constelações do Ativismo em Rede (Vol. 1, pp. 61-69). Porto: Edições Universitárias Lusófonas (no prelo).
231
“A distinção entre ação e ato (no sentido do aiov grego, que ressalta sua dimensão espontânea,
impermanente e sua não reprodutibilidade) especifica a qualidade das ações em rede como a emergência de um ato conectivo (Di Felice, 2013), que interpreta o agir não mais do ponto de vista do sujeito-ator, nem do sujeito teleológico – consequências de uma estratégia racional humana – mas a partir da condição ecossistêmcia e conectiva própria dos contextos reticulares” (Di Felice, 2017b, p. 64).
232 Cf. Durkheim, E. *1895+(2007). As Regras do Método Sociológico. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes. 233
Cf. Parsons, T. *1937+(2010). A estrutura da ação social: um estudo de Teoria Social com especial
referência a um grupo de autores europeus recentes (Vol I. Marshall, Pareto, Durkheim). São Paulo:
171
como teleológica234, ou seja, como um processo resultante de um sujeito-ator que
decide segundo seus próprios ideais e valores.
A socióloga portuguesa Isabel Babo-Lança também questiona a aplicação de tais correntes teóricas sobre a ação nos nossos dias, ao argumentar que o modelo reticular que hoje vivenciamos não pode ser resumido à linearidade de um esquema causal propagado nas teorias de comunicação de massa. Do mesmo modo, como modelo de pensamento, também não poderia ser conciliável com o determinismo ex post facto ou o método da “imputação causal singular” (Max Weber e Raymond Aron) que explica os acontecimentos históricos, nem se ajusta à explicação teleológica ou finalista da ação.
Na rede em que vigora a interatividade, a causa pode, por efeito de retorno, tornar-se consequência e inversamente, o que rompe a irreversibilidade de sequência linear; logo, não há fluxo causal porque a causalidade não é mais irreversível. As noções de causa, efeito e consequências não se mantêm (Babo, 2017, p. 37).
Em linhas contrárias às duas grandes matrizes enumeradas anteriormente, Massimo Di Felice acrescenta ainda uma tradição minoritária proposta pelo sociólogo e economista italiano Vilfredo Pareto (1984), que considera a ação social na perspetiva de um agir irracional, nem ideológico-político nem social económico. Há, ainda, uma quarta via teórica relacionada à ação social, aquela da Teoria Ator-Rede, desenvolvida por Michel Callon Law (1992) e Bruno Latour (2012) – a qual sintetizamos na perspetiva deste segundo capítulo anterior. Apesar de apresentar uma noção mais complexa da ação social, como resultante das associações entre actantes de diversas naturezas em torno de controvérsias, esta última continuaria a descrever o agir “num tempo e numa espacialidade materiais, arquitetónicas e, embora opinativa (…) numa geografia material e agregativa” (Di Felice, 2017b, p. 63).
Em outras palavras, por um lado o sociólogo italiano reconhece os contributos da Teoria Ator-Rede para o debate da crise sociológica do social. Por outro, critica os seus postulados no que se refere ao social ainda ser visto como uma ecologia de atores
234 De acordo com Massimo Di Felice (2017b), esta teoria estaria relacionada à obra de Max Weber
(1961) e influenciaria boa parte da teoria social da ação, “chegando a condicionar o pensamento
económico (teoria do consumidor) e político, tendo seus efeitos no pensamento da teoria do agir de Jürgen Habermas (2012) e em diversos outros autores” (p. 63).
172
que – mesmo não visto como apenas humanos – dialogariam entre si num contexto espaço-temporal concreto, real e composto por entidades em relação.
O processo de digitalização, sobretudo nas suas dimensões mais recentes, social networks, internet of things e big data, parece expressar uma dimensão informatizada do agir, não mais material nem apenas relacional ou associativa. A informatização das coisas, das pessoas, do meio-ambiente e do território transforma em bits e em informação as diversas entidades, criando uma alteração das naturezas das diversas substâncias e tornando-as concretas, isto é, portadoras de uma relação não agregativa nem articulada por um agir, mas “trans-substanciativa” (Di Felice, 2017b, p. 63).
Num esforço de demonstrar tal complexidade empiricamente, podemos nos arriscar a rastrear casos próximos desse processo de transubstanciação. Uma folha de papel quando digitalizada; uma canção, gravada acusticamente, quando remetida para sites de compartilhamento de músicas; as próprias fotografias na era digital podem ser exemplos de coisas que alteram as suas substâncias quando circuladas nas redes. A água em Marte, transformada em informação pelas diversas sondas colocadas na órbita daquele planeta; assim como uma planta, digitalmente monitorada, que pode nos fornecer informação sobre a sua espécie, idade e proveniência; ou mesmo as tornozeleiras eletrónicas que informam a localização de presos em regime aberto, os chips implementados em animais domésticos etc. são exemplos que nos fazem pensar se ainda existiria substância “pura” nesta nova ecologia digital.
As explosões de bombas nos ditos atentados terroristas propagados em diversas latitudes pelo autoproclamado Estado Islâmico, assim como o sangue de manifestantes reprimidos pela polícia nos movimentos de ativismo em rede mundo afora ou dos foguetes lançados ao espaço a partir de impressoras 3D somam-se ao volume de coisas que, no momento em que são digitalizadas e reproduzidas nos ecrãs de computadores e dispositivos móveis, mudariam substancialmente frente à nova condição digital contemporânea:
(…) que antecede e forma pessoas, circuitos informativos, dispositivos, redes sociais digitais e territorialidades informativas, apresentando-se (…) como a constituição de um novo tipo de ecologia (eko-logos) não mais opositiva e separatista, mas expandida e portadora de uma substância comum que a torna reticular e conectiva (Di Felice, 2017b, p. 64).
173
Tal dimensão das redes e conexões supera o entendimento apenas associativo da qualidade da ação em rede – como pensado pelas teorias de Rainie e Wellman (2012), Tiziana Terranova (2004) e Manuel Castells (2013) apresentadas no Capítulo 4 – seria inaugurada uma condição habitativa inédita235. Para o sociólogo italiano, estamos
emaranhados em um novo tipo de ação em rede que não expressa mais a atividade linear de um único sujeito-ator em direção ao exterior e ao território, motivo pelo qual devemos pensá-la, também, além da dimensão mediática-informativa236 das trocas de
informações.
Enquanto Bruno Latour (2012) tratava da mudança de pressão e de agência de cada actante no decorrer de uma ação em rede, Massimo Di Felice (2017b) sugere a aletração da própria substância dos envolvidos, no qual cada um se redefine por meio do distanciamento do seu nível de equilíbrio originário provocado pelo conjunto das ações interativas.
Nesse sentido, esta visão analisa a perspetiva dos movimentos de ativismo nas redes sociais digitais como uma forma de conflitualidade pós-política (Di Felice & Lemos, 2014), que ultrapassa os limites dos espaços urbanos ou identitários nacionais das esferas públicas antropomórficas em direção a uma atopia237 conectiva, um lugar
difícil de definir teoricamente, porém próximo ao sentido das dimensões cosmopolíticas teorizadas por Isabelle Stengers (2014), só que numa perspetiva digitalmente conectiva.
235
Conforme Massimo Di Felice já havia afirmado em Paisagens pós-urbanas: o fim da experiência
urbana e as formas comunicativas do habitar (Annablume, 2009).
236 O autor propõe a substituição do termo “media” (meio e instrumento), que exprime inevitavelmente
uma relação de instrumentalidade, pela expressão “forma formante” ou por “condição habitativa”, “capaz de projetar-nos em uma dimensão ecológica e não mais funcionalista dos processos de interação
e comunicação” (Di Felice, 2017a, p. 31).
237
“A Atopia não é um não lugar. A atopia não é um novo tipo de espaço, nem um território simulacro,
nem poderia ser definida inteiramente como uma pós-territorialidade, no sentido único do superamento das formas físicas e geográficas do espaço. Melhor seria defini-la como a substituição destas por uma forma informativa digital e trans-orgânica, cujos elementos constitutivos são as tecnologias informativas digitais, os ecossistemas informativos elaborados pelos sistemas informativos geográficos e territoriais e as redes sociais, compostas pela fusão de coletivos inteligentes e pelas formas híbridas do dinamismo das linguagens transorgânicas. O habitar atópico se configura, assim como a hibridação, transitória e fluida, de corpos, tecnologia e paisagem, e como o advento de uma nova tipologia de ecossistema, nem orgânica, nem inorgânica, nem estática, nem delimitável, mas informativa e imaterial” (Di Felice, 2009, op. cit., p. 291).
174 Assistimos hoje à passagem das dimensões políticas antropocêntricas – organizadas por meio das saturadas formas eleitorais de representação e baseadas na gestão do poder em sua monodimensão público-humana – em direção às práticas de interação atópicas (Di Felice, 2009), que expressam a formação de condições habitativas reticulares e emergentes. As quais, por meio das dimensões de conectividade deslocam, dos Estados Nacionais e da política, nossa condição habitativa em direção à biosfera e às metaterritorialidades (A. Abruzzese, 2006) nem internas nem externas de Gaia (J. Lovelock, 1979) (Di Felice, 2017b, p. 67).
É como se, na nova condição digital afirmada por Massimo Di Felice, os limites dos Estados Nacionais fossem ampliados para Gaia – ou, por que não, para além da Terra, se considerarmos a Lua, Marte e os novos planetas descobertos como actantes nos processos de interação contemporâneos. Ou como se a perspetiva política neste habitat contemporâneo tivesse saltado de uma lógica de representatividade parlamentar para a própria biosfera – na qual o parlamento das coisas (Bruno Latour, 2004) ganharia o seu espaço, com as vozes dos não-humanos transubstanciadas em bits, acessíveis por meio de informações exibidas nos nossos ecrãs. E, como já havíamos anunciado antes, como se passássemos de uma condição habitativa do sujeito, indivíduo da ação, para uma condição habitativa das redes, na qual atores e actantes, humanos e não humanos, participam da ação, numa dinâmica substancial não mais uniforme – como pensado na Teoria Ator-Rede.
Nesta nova ecologia digital anunciada pelo sociólogo italiano, além de apartidários, impermanentes e temporários (pela própria dinâmica de transubstanciação), os movimentos de ativismo em rede, definidos por este como net- ativismos, ganham também uma dimensão do agir “a-institucional”, num processo de agregação e desagregação que tende ao seu desaparecimento. Em substituição da dimensão política do poder estaria a dimensão ecossistémica e interativa própria dos organismos vivos e das formas emergentes de adaptação aos contextos abertos, como propõe a complexidade moriniana238.
175
6.2.1 As três ecologias da ação em rede
Enquanto Bruno Latour (1994, 2012) questiona se algum dia fomos realmente modernos239, chegando até mesmo afirma que jamais fomos apenas humanos240,
Massimo Di Felice (2017a) acrescenta que a comunicação nunca foi, realmente, uma atividade exclusivamente humana. Primeiro, pelo fato desta ter sido desenvolvida em colaboração com entidades não humanas (voz, alfabeto, escritura, eletricidade e, mais recentemente, as redes digitais), as quais não são vistas pelo autor como meros instrumentos, mas como constituintes da forma e do modo artificial do próprio comunicar. Depois, porque mesmo se excluirmos os dispositivos tecnológicos e nos concentramos em uma comunicação face a face, ainda resta evidente que as interações dependem de um conjunto de processos comunicativos adicionais, tais como:
a respiração, o batimento cardíaco, as interações de nosso corpo com o meio ambiente, o fluxo de nossos pensamentos e a comunicação em geral com o meio ambiente em torno (odores, sons, ruídos, informações visuais etc.), além do contínuo movimento dos fluxos informativos que, embora tecnicamente ausentes naquele momento, contribuíram ativamente para a formação de nossas opiniões e nosso conhecimento. Portanto, rejeitando a ideia de uma centralidade do corpo nos processos comunicativos, é necessário, provavelmente, assumir a dimensão ecológica, complexa e não sujeito-cêntrica dos processos de comunicação (Di Felice, 2017a, p. 32).
Tal fundamentação inspira-se em teóricos que defendem uma ideia ecológica da comunicação, como Walter Benjamin241, que observou as transformações operadas
239 Latour (1994) faz uma crítica ao pensamento moderno, destacando o caráter antropocêntrico das
teorias fabricadas naquele contexto, que ajudou a cristalizar as separações entre homem, natureza e tecnologia, negligenciando a questão das redes formadas por estes elementos. “E se jamais tivermos
sido modernos? A antropologia comparada se tornaria então possível. As redes encontrariam um lar. (…) “Enfim, se jamais tivéssemos sido modernos, pelo menos não da forma como a crítica nos narra, as relações tormentosas que estabelecemos com outras naturezas-culturas seriam transformadas. O relativismo, a dominação, o imperialismo, a má fé, o sincretismo seriam todos explicados de outra forma, modificando então a antropologia comparada” (pp. 14-16). Cf. Latour, B. (1994). Jamais fomos modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34.
240 Ao propor o resgate do sentido original de social, uma visão que inclui também atores de outras
naturezas no desenvolvimento da ação, à luz da Teoria Ator-Rede, tratada no Capítulo 5 deste estudo. Cf. Latour, B. (2012). Reagregando o Social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede, op. cit.
176
pela máquina fotográfica e pelo cinema sobre a percepção do ambiente e das formas do habitar; ou como Marshall McLuhan242, com seus estudos sobre a estreita relação
entre as mudanças tecnológico-comunicativas, a condição habitativa e as relações entre o humano e o ambiente; ou ainda como Joshua Meyrowitz243, que mesmo sem
se referir explicitamente a tal ideia, estabelece uma relação comunicativa entre as tecnologias, os fluxos informativos, as pessoas e o ambiente social.
Massimo Di Felice (2017a), contudo, atribui a Abraham Moles244 a conceção
mais explícita de uma ecologia da comunicação, baseada na ideia de um continuum e de formas de interação não opositivas:
o qual defende a ideia de uma comunicação que ocorre entre diferentes organismos e/ou sistemas que interagem entre si, caraterísticas essas que diferenciariam a abordagem conteudística daquela realizada pela sociologia ou pela psicologia e que justificariam a criação de um novo âmbito de estudos: a ecologia da comunicação (Di Felice, 2017a, p. 33)
Lado a lado das alterações comunicativas e das transformações tecnológicas existiriam, na visão do sociólogo italiano, três tipos distintos de ecologias de comunicação e interação: ecologias comunicativas sociais, ecologias comunicativas da colaboração e ecologias comunicativas transorgânicas. Cada um deles, enquanto ecologia comunicativa, estabeleceria diferentes modelos e práticas de participação e interação, os quais tentamos resumir abaixo.
O primeiro, relacionado às ecologias comunicativas da democracia, forjado nas formas da disseminação e do diálogo, teria como característica fundamental a questão da centralidade. Ainda situado numa dimensão social antropomórfica, por arquiteturas comunicativas sociais centralizadas e disseminativas, tal ecologia consistia na produção
significado de uma transformação ecológica: “Entende-se, assim, como a natureza que fala à câmera
seja diversa daquela que fala ao olho”. Cf. Benjamin, W. (198SD). “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”. In Magia e Técnica, Arte e política (Obras escolhidas I). São Paulo: Brasiliense.
242 Cf. McLuhan, M. *1964+(2007). Os meios de comunicação como extensões do homem (understanding
media). São Paulo: Cultrix.
243
Cf. Meyrowitz, J. (1993). Oltre il senso del luogo. Bologna: Baskerville.
244 “A ecologia é a ciência da interação entre espécies diversas no interior de um determinado espaço; as
espécies às quais nos referimos aqui são as espécies de comunicação, próximas ou distantes, fugazes ou registradas, táteis ou auditivas, pessoais ou anônimas que reagem efetivamente uma sobre a outra dentro de um espaço delimitado, seja esse as vinte e quatro horas de um dia, seja o espaço social do planeta” (Moles in Moragas, 1982, p. 125 apud Di Felice, 2017a, p. 23).
177
e distribuição de conteúdos para o grande público. É a ecologia do teatro e das praças, inicialmente, e dos media de massa, mais recentemente, que teriam limitado a participação ao voto (decisório) e às fronteiras opinativas (dialógicas) diante do conteúdo produzido por outros. Ou seja,
como as arquiteturas que organizaram e restringiram as formas da cidadania e da interação à reação por parte apenas dos humanos – entendidos como sujeitos racionais –, às mensagens – sejam essas faladas, escritas ou filmadas –, à possibilidade do voto e à soma, assim, das vontades dos cidadãos, isto é, dos únicos “animais inteligentes” (ζοϖν πόλιτικον). Tal função apenas social da interação limitou também a ideia da comunicação a uma dimensão instrumental, centrada nos meios e nas mensagens (Di Felice, 2017a, p. 32).
A segunda ecologia comunicativa é definida pelo autor como aquela que inaugura um novo âmbito ecológico, que deixa de ser exclusivamente ligado às práticas da opinião e aos processos de interação racionais e relacionado somente ao homem da esfera pública, estendendo-se também a interações com circuitos informativos e bancos de dados, como os processos de personal media e das redes digitais. Tal extensão teria sido assim ampliada qualitativamente para a terceira ecologia comunicativa, aquela da interação, a qual é formada por ecologias comunicativas transorgânicas, “compostas por múltiplas conexões entre os diferentes elementos constituintes da biosfera e tornadas possíveis pelas novas formas de conexão entre diversos tipos de superfícies (wi-fi, Internet of things, RFID, via satélite etc.)” (Di Felice, 2017a, p. 36).
À luz desta teoria, o nosso estudo do net-ativismo e das ações colaborativas nas redes sociais digitais estaria, portanto, voltado para as duas últimas ecologias comunicativas de interação, aquelas colaborativas e transorgânicas. Embora reconheçamos que o primeiro tipo – dos media de massa tradicionais, da participação pelo voto da democracia representativa – ainda coexista245 com as transformações
implementadas pelas interação nas redes digitais, não podemos negar que vivenciamos a abertura de um tipo de interação participativa que não mais se limita à tomada de decisões ou expressão de opiniões, mas como algo que ativa a colaboração entre
245
Ao apresentar as ecologias comunicativas, Di Felice (2017a) tenta esclarecer que não se trata de estabelecer uma superação entre os modelos, mas de exprimir uma não temporalidade, distanciando a intenção de representar fases e etapas de um processo unitário e diacrónico.
178
diversas substâncias e elementos.
Desse modo, concluimos esta parte do estudo situando o net-ativismo como fenómeno emergido entre as possibilidades oferecidas pelas duas últimas ecologias sugeridas pelo autor. Na etapa seguinte desta investigação, voltada para o debate sobre os conceitos elaborados para traduzir o ativismo em rede, mostraremos também a nossa preocupação em analisar de que forma as inovações desenvolvidas nas arquiteturas informativas possibilitaram novas formas de participação nas redes. Por fim, além da discussão dos conceitos e da apresentação dos mapeamentos históricos, apresentamos a parte empírica da pesquisa, com as análises dos casos de net-ativismo nas redes sociais digitais portuguesas.
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