Um desdobramento necessário da análise do instituto da discricionariedade administrativa é analisar o princípio da eficiência administrativa, constitucionalmente estabelecido como objetivo a ser alcançado pela Administração Pública.
Avaliando a dicotomia entre o Direito Privado e o Direito Público, Batista (2012) diz que aquele possui a sua essência na autonomia da vontade dos indivíduos, enquanto que este, e em especial o ramo do Direito Administrativo, “está na obrigação dos agentes públicos de realizarem os interesses que as normas lhes entregam para que cuidem” (BATISTA, 2012, p. 72). Indica existir entre a administração pública e a lei uma relação muito próxima à subsunção, e não somente uma relação de não contradição, que prevalece no campo do Direito privado.
Precipuamente, deve a administração pública buscar o bem comum, mediante o firmamento de interesses públicos específicos estabelecidos através de lei. Para tanto, o ordenamento jurídico se presta a conferir poderes-deveres aos agentes públicos, que não conferem a estes a prerrogativa de ação em proveito próprio, exercitando uma atividade não em virtude de seu desejo pessoal, mas como um dever legal de assim o fazer. Com efeito, toda norma que estabeleça uma função de um ente estatal, atribuindo a seus agentes poderes funcionais, indica um fim específico a ser atingido. (BATISTA, 2012, p; 74-75). Constata que “o dever ínsito no exercício da função não se reduz a uma obrigatoriedade de mero cumprimento, mas acarreta, antes de tudo, um dever de bom cumprimento, de melhor satisfação da função” (BATISTA, 2012, p. 75).
Com efeito, assevera o autor que, quando a lei indica uma função, não há que se falar em liberdade ou autodeterminação de finalidades, bem como sequer em autonomia de vontade do agente. O que há é a obrigatoriedade de cumprimento de uma finalidade preestabelecida, submissão da vontade do agente público ao objetivo previamente traçado por lei. (BATISTA, 2012, p. 76).
Nos dias atuais, precisamente após a Emenda Constitucional 19, ao avaliar-se a atuação de qualquer órgão pertencente à administração pública, não há como não passarmos pela análise do princípio da eficiência administrativa, norteador da busca por um modelo de
administração voltado para que a finalidade do ente estatal seja atingida com o menor dispêndio de recursos possíveis, inclusive financeiros.
Os princípios expressam os valores superiores que inspiram um determinado ordenamento jurídico, introduzindo no sistema constitucional a direção das normas e regras, sem tratar da valoração das mesmas. São proposições estruturantes e componentes do ordenamento jurídico. Revestem-se de duas funções principais: positiva, influenciando a elaboração de normas e decisões, auxiliando na interpretação e integração das normas inseridas no ordenamento; e negativa, rejeitando mandamentos e normas que os contrariem, afastando-as do universo jurídico. (BATISTA, 2012, p. 85-88).
Batista indica que o princípio da eficiência possui raízes não jurídicas, apontando que outras ciências, tais como a econômica e a da administração, se anteciparam na observação do seu significado. Na Ciência Econômica, referencia-o a uma relação técnica entre entradas e saídas, servível ao conceito econômico de eficácia, referente à capacidade de satisfação das necessidades da sociedade através do suprimento de produtos – bens e serviços. Já na esfera da Ciência da Administração, “tem a ver com o fazer corretamente as coisas, com a melhor utilização dos recursos disponíveis, enfim, com a otimização da relação meio/fim”. (BATISTA, 2012, p. 92-93).
Historicamente, Batista indica que o conceito de eficiência para a administração pública surge com o discurso proferido por Getúlio Vargas em 1930, no ato de sua posse como Presidente da República. Naquela oportunidade, asseverou Vargas a necessidade de se buscar a eficiência e a economia no serviço público, propondo, assim, uma reformulação de peso nas atividades da administração pública. Em que pese ter ocorrido um processo de reorganização, que resultou no fortalecimento da administração federal, pouco avanço obtivemos quanto ao emprego do conceito da eficiência no universo jurídico após a Constituição de 1934. Apenas na década de 90, através de legislações esparsas, o conceito de eficiência passou a ser introduzido em nosso ordenamento – destaque para a Lei 8.666/93 (licitações), introdução conceito de economicidade componente do princípio da eficiência; e a Lei 8.967/95 (concessão e permissão de serviços públicos), exigência da eficiência para configuração de um serviço público adequado. (BATISTA, 2012, p. 109-112).
A elevação da eficiência ao patamar de princípio constitucional no ordenamento jurídico pátrio se deu com a promulgação da Emenda Constitucional nº 19, de 1998 (EC/19), colocando-o como um dos princípios norteadores da administração pública, ao inseri-lo no caput do art. 37 da CR/88:
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência [...]
Segundo Hely Lopes, o princípio transparece o dever de atuação com rendimento funcional, mediante exercício das atividades com presteza e perfeição, pautadas no atendimento ao princípio da legalidade. Não é suficiente que o Estado aja secundum legem, deve, outrora, buscar o resultado satisfatório com rapidez e perfeição, perseguindo o atendimento das necessidades dos interesses coletivos. (MEIRELLES, 2007, p. 96). Em consonância a este preceito, Silva (2008, p. 671).aponta a obtenção da eficiência desde que a administração atenda aos anseios coletivos através do emprego de recursos institucionais, materiais e humanos menos dispendiosos.
Com efeito, Aragão (RT 830/709) assevera que o princípio da eficiência encorpa o princípio da legalidade, incrementando a legalidade meramente abstrata e formal ao determinar a observância, pelo administrador, de uma legalidade finalística e material, em que toda a administração deve estar pautada na concretização efetiva e material da finalidade atribuída pela lei.
Para Batista (2012, p. 256), na verdade, “o princípio da eficiência administrativa é a expressão juridicizada do princípio da boa administração”. Neste sentido, Bandeira de Mello (2008, p. 118) indica que estão intrinsecamente ligados os princípios da legalidade e o da eficiência administrativa, devendo o agente estatal, por conseguinte, buscar a eficiência para agir em consonância com os ditames legais, configurando-se, com efeito, o princípio da eficiência do bem administrar.
O autor enfatiza o dever da administração pública em buscar sempre a “solução ótima”. Exige-se do ente estatal a busca pela melhor solução, restando insuficiente perseguir uma solução mediana. Aponta, inclusive, a possibilidade de responsabilização do agente público se restar, no caso concreto, caracterizada a não busca da solução ótima. Deve-se sempre visar à maximização dos resultados almejados, inclusive na margem discricionária conferida pelo legislador. O melhor resultado não é apenas o que implica menor custo financeiro (economia), mas aquele que maximiza o atendimento das necessidades sociais e a persecução do interesse social ou do bem comum. (BATISTA, 2012, p.272-273).
Com efeito, realizando a internalização do princípio da eficiência nos atos exarados pelos agentes públicos pertencentes aos quadros do INPI, tem-se que, a partir do pressuposto de que a propriedade intelectual possui funções social e econômica, quais sejam possibilitar o
progresso e o desenvolvimento econômicos do país, através de geração de riquezas para os inventores e a sociedade como um todo – requisito dos direitos de propriedade industrial, como no capítulo III, a eficiência desses agentes no exercício de suas funções está em promover esse desenvolvimento. O desenvolvimento econômico do país, como será demonstrado, se passa, num primeiro momento, pela aquisição de tecnologia estrangeira, gerando o efeito de acúmulo de conhecimento, uma das características da inovação tecnológica.