Em suas origens, o “hospital médico”, pela definição foucaultiana, é moldado enquanto deslocamento da intervenção médica e disciplinarização do espaço hospitalar, disciplina que, segundo Foucault (1979, p.62), “terá como função assegurar o esquadrinhamento, a vigilância, a disciplinarização do mundo confuso do doente e da doença”. Ao investigar o nascimento dos hospitais, o autor argumenta que a disciplina trata-se de uma invenção técnica baseada numa nova maneira de “gerir os homens, controlar suas multiplicidades, utilizá-las ao máximo e majorar o efeito útil de seu trabalho e sua atividade, graças a um sistema de poder suscetível de controlá-los” (p.61).
Segundo Ribeiro (1993), a instituição hospitalar, enquanto aparelho formador é caracterizada como o lugar do exercício de um conjunto de práticas em saúde, configurando uma tecnologia do processo de trabalho que, na sua singularidade, exige do profissional de saúde respostas individuais e coletivas ao lidar diariamente com a dor, a doença e a morte (Pitta, 1989). E considerando-se a hipótese de Foucault (1979) de duplo nascimento do hospital pelas técnicas de poder disciplinar e médica de intervenção sobre o meio, podem-se compreender várias características que este possui.
O hospital é um estabelecimento que presta serviços específicos à população em geral e apresenta uma variedade de ações de saúde (Antunes, 1991) que expõe seus (suas) trabalhadores (as) a uma ou mais cargas, dentre as quais se destaca a exposição a doenças infecto-contagiosas e àquelas em contato direto com pacientes e/ou com artigos e equipamentos contaminados com material orgânico. A diversidade de serviços existentes no âmbito hospitalar como: administrativos, lavanderia, refeitório, manutenção, caldeiras, transporte, almoxarifado, laboratório, centro cirúrgico, raio x, isolamento, UTI, etc., impõe uma antecipada tomada de posição face à possibilidade de ocorrência de acidentes e doenças.
A partir do momento em que o hospital é concebido como um instrumento de cura, e a distribuição do espaço torna-se um instrumento terapêutico, Foucault (1979) defende que “o médico passa a ser o principal responsável pela organização hospitalar, devendo residir no hospital e poder ser chamado ou se locomover a qualquer hora do dia ou da noite para observar o que se passa” (p.64). O pensamento do autor apresenta significado próximo da caracterização do processo de RM.
Dessa forma, o trabalho médico tem como finalidade “a manutenção, recuperação e transformação de determinados valores vitais” (Arouca, 1975 apud Silva, 2001, p.70), ou seja, tem como objetivo a produção de saúde no âmbito individual e coletivo.
Por isso, no processo de trabalho do médico, enquanto atributo relevante para a determinação da dicotomia saúde versus doença, por gerar um consumo da força de trabalho, pode conduzir a um desgaste no homem. Tal desgaste se expressa sob diferentes maneiras, como o sofrimento mental ou psíquico, as doenças psicossomáticas, o estresse e os transtornos mentais, bem como as neuroses (Silva, 2001).
É possível encontrar em Silva (2001) que, durante o processo de trabalho dos médicos, percebe-se que estão condicionados a múltiplas cargas de trabalho, como demonstrado a seguir:
As características da organização e da divisão do trabalho determinam a duração da jornada, o ritmo de produção, o trabalho em turnos ou noturno, os mecanismos de supervisão dos trabalhadores, o controle do processo, o conteúdo da tarefa, os incentivos e gratificações para a produção, a complexidade e periculosidade das tarefas, a penosidade e insalubridade das atividades, etc.; estas desempenham um papel fundamental na determinação das características da atividade física e mental
dos trabalhadores, sendo, pois, uma categoria central no estudo da saúde dos trabalhadores (Silva, 2001, p. 60).
Sendo assim, os profissionais médicos estão sujeitos a problemas e desgastes de várias naturezas e níveis. Algumas das características inerentes à tarefa médica definem, isoladamente ou em seu conjunto, um ambiente profissional formado pelos intensos estímulos emocionais que acompanham o adoecer (Santos et al, 2011, Nogueira-Martins, 1991). Incluem, assim, o contato íntimo e frequente com a dor e o sofrimento; tratar pacientes difíceis – queixosos, rebeldes e não aderentes ao tratamento, hostis, reivindicadores, autodestrutivos, cronicamente deprimidos; o atendimento de pacientes terminais; lidar com a intimidade corporal e emocional; e lidar com incertezas e limitações do conhecimento médico e do sistema assistencial que se contrapõem às demandas e expectativas dos pacientes e familiares que desejam certezas e garantias.
Diante dessa variabilidade de possíveis agentes patogênicos, a noção de risco emerge nesse contexto requerendo maior discussão. A posteriori esse assunto será retomado e mais bem discutido. Entretanto, no momento, defende-se o risco como “eventualidade de um acontecimento não dependendo exclusivamente da vontade das partes e podendo causar a perda de um objeto ou qualquer outro dano. Por extensão, acontecimento contra o qual nos asseguramos” (Thébaud-Mony, 2010, p.72).
Vale ressaltar que a saúde dos trabalhadores é muito mais abrangente do que os riscos nos locais de trabalho, e relaciona-se com as condições mais gerais de trabalho e vida, como salário, moradia, alimentação, lazer, existência de creche no trabalho e a participação nas decisões da sociedade. Também é bom lembrar que o trabalho pode ser uma importante fonte de saúde, se é realizado de forma gratificante e num ambiente saudável.
Inclusive com relação a ambiente de trabalho, faz-se relevante para fins de melhor caracterização e identificação dos riscos existentes nesse ambiente, refletir sobre o local onde esses médicos residentes atuam, o hospital universitário (HU).
Segundo Médici (2001) e Machado e Kuchenbecker (2007), a concepção mais consensual define um hospital universitário como uma instituição caracterizada por: a) ser um prolongamento de um estabelecimento de ensino em saúde (de uma faculdade de medicina, por exemplo); b) prover treinamento universitário na área de saúde; c) ser reconhecido oficialmente como hospital de ensino, estando submetido à supervisão das autoridades competentes; d) propiciar atendimento médico de maior complexidade (nível terciário) a uma parcela da população. Tal caracterização já denota, pois, as múltiplas atribuições, vínculos e atores envolvidos na organização e funcionamento dessas instituições.
Historicamente, o HU é um subsistema no contexto universitário, que é por sua vez, parte do sistema educacional de saúde do país. A partir de 1975, o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) realizou um convênio com o Ministério da Educação e Cultura (MEC) remunerando os serviços prestados pelos HU’s aos seus segurados. Essa arrecadação passou a ser a maior fonte de custeio daqueles Hospitais, entretanto, tal convênio acabou por afetar a qualidade da formação acadêmica, transformando os alunos em meros repetidores de técnicas, dada a impossibilidade de conciliação do processo ensino x assistência (Onofre, 1988). Nessa época, a característica essencial e definidora da RM, enquanto treinamento em serviço, encontrava-se descaracterizada em virtude dos alunos serem vistos exclusivamente como meros repetidores de técnicas, não sendo oferecido o preconizado suporte teórico para sua formação profissional.
Segundo Pilotto (2011), até a década de 80, os hospitais universitários tinham a única missão de serem hospitais-escola. O foco do atendimento eram as pessoas não credenciadas no Instituto Nacional de Medicina e Previdência Social (INAMPS). Naquela época, só aqueles que tinham carteira-assinada eram atendidos por esse instituto.
Atualmente, os HU’s de várias universidades públicas passam por processo de sucateamento, falta de insumos materiais dos mais elementares aos mais complexos por falta de treinamento especializado, dentre outros problemas. No cenário paraibano, Medeiros et al (2000) assumem a existência de enormes dificuldades para se manter um curso médico e um hospital do porte do que existe no estado.
No intuito declarado de gerenciar e tentar enfrentar a crise pela qual passa os HU’s, a EBSERH foi criada pela Lei nº. 12.550, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, no dia 15 de dezembro de 2011, e publicada no Diário Oficial da União, em 29 de dezembro, que aprovou o estatuto social da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), como responsável por administrar os recursos financeiros e humanos dos hospitais universitários das Instituições Federais de Ensino Superior (March, 2012).
Por meio do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (REHUF), como afirma o sítio eletrônico da EBSERH, foram realizadas ações no sentido de garantir a recuperação física e tecnológica e também de atuar na reestruturação do quadro de recursos humanos das unidades.
Pode-se encontrar ainda que a partir da criação da EBSERH, empresa pública vinculada ao Ministério da Educação, a instituição passou a ser a responsável pela gestão dos hospitais universitários federais, cabendo a cada universidade aceitar ou não passar a gestão de seus HU’s para a EBSERH. Entre as atribuições assumidas pela empresa, estão a coordenação e avaliação da execução das atividades dos hospitais; o apoio técnico à
elaboração de instrumentos de melhoria da gestão e a elaboração da matriz de distribuição de recursos para os hospitais.
Segundo o texto da Lei regulamentadora, a EBSERH tem por finalidade a prestação de serviços gratuitos de assistência médico-hospitalar, ambulatorial e de apoio diagnóstico e terapêutico à comunidade, “inseridos integral e exclusivamente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)”. Prestará também serviços de apoio à geração do conhecimento em pesquisas básicas, clínicas e aplicadas nos hospitais universitários federais.
Convém destacar a sua relevância para a RM, pois o sítio eletrônico da EBSERH, dentre as competências desta empresa está “apoiar a execução de planos de ensino e pesquisa de instituições federais de ensino superior e de outras instituições públicas congêneres, cuja vinculação com o campo da saúde pública ou com outros aspectos da sua atividade torne necessária essa cooperação, em especial na implementação de residência médica ou multiprofissional e em área profissional da saúde, nas especialidades e regiões estratégicas para o SUS”. Devido ao seu caráter incipiente de atuação, não se pode afirmar que tal competência está sendo ou poderá ser considerada na prática.
O estatuto prevê, ainda, que a empresa observará as diretrizes e políticas estabelecidas pelo Ministério da Saúde, além de ser orientada “pelas políticas acadêmicas estabelecidas no âmbito das instituições de ensino com as quais estabelecer contrato de prestação de serviços”. Como a referida empresa está no momento de sua criação, não se sabe ainda se ela servirá efetivamente para melhorar o nível de funcionamento dos HU’s ou se será um artifício para que o Estado se retire mais uma vez de sua função de cuidar dos cidadãos.
Diante do exposto e no intuito de possibilitar a compreensão acerca do que objetiva esse estudo, no capítulo subsequente será exposta, através do método, a descrição das
características dos instrumentos utilizados, do procedimento de coleta e futura análise dos dados. No capítulo são apresentados: a exposição do posicionamento ético e o protocolo de aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Hospital Universitário Lauro Wanderley.