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MECLİS ARAŞTIRMASI (Devam) A) ÖN GÖRÜŞMELER (Devam)

İKİNCİ OTURUM Açılma Saati: 17.54

IX.- MECLİS ARAŞTIRMASI (Devam) A) ÖN GÖRÜŞMELER (Devam)

A questão que envolve o Estado Frances não é exclusivamente calcada na religião, pois, existem, também, indícios claros de conduta xenofóbica113 por parte do governo.

O estrangeiro não pode ser discriminado pelo Estado, tampouco, pode ser tratado com indiferença ou em inferioridade a um nacional em situações idênticas.

E o que o governo francês tem feito de uma forma recorrente é deixar o seu caráter laico à margem e tomar medidas parciais no que tange a educação de suas crianças.

A laicidade francesa, como vimos, ocorreu mediante uma construção que se edificou ao longo da história, mas no que tange a educação a França ainda está longe de um consenso.

113 Segundo Fabíola Emilin Rodrigues: “A França abriga a maior população muçulmana da Europa. São cerca de cinco milhões de pessoas que reivindicam a sua plena integração no espaço nacional. RODRIGUES, Fabíola Emilin.

Princípio da Laicidade, Liberdade de Consciência e Neutralidade do Poder Político. In SILVA, Marco Antonio

E a França esteve, novamente, na agenda do dia em termos de discussão acerca da laicidade por conta da criação da Lei 228114, de 15 de março de 2004115, sobre o porte ostensivo de sinais religiosos, uma referência clara ao episódio que envolveu o uso de véu por parte de alunas muçulmanas em colégios públicos franceses.116

Como sinaliza Maria Claudia Pinheiro: “As manifestações particulares de crença no espaço público, longe de ofenderem a cláusula de separação, representam comportamento que prestigia a liberdade de exercício religioso, favorecem o pluralismo e maximizam a liberdade material de escolha individual, ao gerar um espaço de livre circulação de idéias. As proibições estatais dessas manifestações (...) podem se transformar num claro sinal de desvalor e hostilidade religiosa; num inaceitável reconhecimento estatal de que o conteúdo das religiões pregadas pelos cidadãos é nocivo ao espaço público e, portanto, deve ser reservado ao interior de templos e residências”.117

O efeito prático de tal medida é que os sinais religiosos ostensivos estão proibidos, nessa seara temos então: o véu islâmico conhecido como hijab, que cobre todo o rosto das mulheres muçulmanas, o kipá judaico, também conhecido como solidéu, e as cruzes de todas as formas e natureza.

Esta proibição enseja algumas reflexões: Será que uma moça com uma corrente com uma cruz não poderá freqüentar o colégio público ou haverá uma “tolerância” por se tratar de mero adorno? Garanto que a mesma tolerância não será aplicada ao hijab. Todavia, onde se encontra a laicidade do governo francês?

114 Essa lei foi promulgada após maioria de 496 votos favoráveis e 36 contrários na Assembléia Nacional e por 276 votos favoráveis e 20 votos contrários no Senado. A medida teve efeito para o novo ano escolar em Setembro de 2004, o que demonstra a ampla aprovação dos membros do legislativo Francês no que tange a intolerância religiosa e a direta afronta à laicidade.

115 Fonte: http://www.legifrance.gouv.fr/affichTexte.do?cidTexte=JORFTEXT000000417977&dateTexte=, acesso em 4 de fevereiro de 2011.

116 Article 1. Il est inséré, dans le code de l'éducation, après l'article L. 141-5, un article L. 141-5-1 ainsi rédigé: « Art. L. 141-5-1. - Dans les écoles, les collèges et les lycées publics, le port de signes ou tenues par lesquels les élèves manifestent ostensiblement une appartenance religieuse est interdit. Le règlement intérieur rappelle que la mise en oeuvre d'une procédure disciplinaire est précédée d'un dialogue avec l'élève. »

117 PINHEIRO, Maria Claudia Bucchianeri. A liberdade religiosa e o direito ao uso da burca. Revista Jurídica

Os problemas que envolvem a França, a educação de suas crianças e a laicidade remontam a épocas anteriores, como a Lei cria e regulamenta o funcionamento do Conselho Superior de Instrução Pública e Conselhos Acadêmicos, de 27 de fevereiro de 1880.

A referida lei institui que entre os membros destes Conselhos Acadêmicos deve estar presente um professor titular das faculdades de teologia católica e um de teologia protestante. Ora, se o Estado é laico, como pode haver uma predileção por esta ou aquela religião?

No entanto, foi uma forma que o governo encontrou para assegurar que as tradições e, em especial, a cultura religiosa católica e protestante estariam presentes e, por assim dizer, a educação estaria garantida.

Na França não existe uma disciplina de ensino religioso nos colégios, por conta da Lei Ferry, de 28 de março de 1882118, em contrapartida há uma tradição, nem um pouco laica, de não haver aulas à quarta-feira no primário para que, quem quiser, possa enviar os filhos à catequese.

Mesmo nos colégios é possível a presença de um padre como professor, desde que não se caracterize como tal, ou seja, esteja em trajes “civis” e, pronto, já estará consagrado perante governo francês como um educador com absoluta neutralidade religiosa119.

Existe uma diferença sensível entre o que preconiza em teoria o governo Francês e o que o faz na prática, uma vez que a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789 é clara ao estabelecer em seu artigo 10: “Ninguém deve ser inquietado por suas opiniões, mesmo religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei”.120

118 Determinou que as escolas públicas devessem prover de forma não onerosa a instrução de forma obrigatória do ensino laico, portanto, as aulas de instrução moral e religiosa deixavam de existir.

119 Apesar da existência da Lei Goblet, de 30 de outubro de 1886, que previa a obrigatoriedade no ensino fundamental das escolas públicas o ensino ser ministrado por uma pessoa sem qualquer tipo de influência ou ligação com a religião de forma direta.

120 COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos Direitos Humanos. 3 Ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 155.

Da mesma forma o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948: “Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos”.

Sendo assim, medidas como a de proibição do hijad, do solidéu, do uso da cruz podem traduzir não apenas uma questão de intolerância religiosa, mas também, uma xenofobia em relação aos povos islâmicos e a suposta ameaça que o governo os considera, em especial após os ataques de 11 de setembro aos Estados Unidos.

Evidentemente que o governo francês não veio a público e reafirmou a questão da xenofobia, mas seguiu sua linha xenofóbica com a questão dos ciganos. O que denota que as questões relacionadas à França transcendem à laicidade e atingem diretamente a questão da tolerância.

Benzer Belgeler