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1. INTRODUCTION

1.1 Cell Manipulation Techniques

1.1.2 Mechanical Manipulation

Através do estudo das psiconeuroses, Freud descobriu que os precursores imediatos dos sintomas histéricos eram as fantasias conscientes, ou sonhos diurnos, construídas com base em lembranças, não em eventos reais. Esse aspecto é discutido no

Rascunho L, no qual Freud afirma que as fantasias são fachadas psíquicas erigidas para

bloquear o acesso às lembranças originárias.

Freud dá às fantasias diurnas a mesma designação de “sonhos”. O “sonho diurno”, ou devaneio, é análogo à fantasia consciente na vida de vigília. As fantasias partilham com os sonhos noturnos um grande número de suas propriedades: “como os sonhos, elas são realizações de desejos; como os sonhos, baseiam-se, em grande medida, nas impressões de experiências infantis; como os sonhos, beneficiam-se de certo grau de relaxamento da censura” (FREUD, 1900-1901, p. 454). As lembranças infantis fornecem material para a construção dos devaneios e dos sonhos.

Os sonhos, diferentemente dos devaneios, substituem os pensamentos por alucinações e constroem uma situação a partir dessas imagens. Nos sonhos, as imagens sensoriais parecem ser vivenciadas; ou seja, atribuímos completa crença às alucinações. “É essa característica que distingue os verdadeiros sonhos do devaneio, que nunca se confunde com a realidade” (FREUD, 1900, p. 80). Além das fantasias conscientes, há as inconscientes, originadas de material que foi recalcado, as quais desempenham um papel considerável tanto no sintoma como no sonho. Freud observa que essas fantasias inconscientes “penetram nos sonhos em sua íntegra e, com frequência ainda maior, é possível vislumbrá-las claramente por trás do sonho” (1900-1901, p. 455).

Os devaneios são de natureza erótica, fonte das fantasias encontradas em todas as psiconeuroses, as quais podem ser conscientes ou tornar-se inconscientes, expressando-se através de sintomas. Freud formula uma série de definições para se compreender a natureza dos sintomas histéricos, passando, a partir de então, a afirmar que os sintomas histéricos são resultado das fantasias, e não mais, como afirmara nos Estudos sobre a histeria, que as histéricas sofriam de “reminiscências”. “Um sintoma histérico deve necessariamente representar uma conciliação entre um impulso libidinal e um impulso repressor, mas pode também representar a união de duas fantasias libidinais de caráter sexual oposto” (FREUD, 1908, p.168).

Há distinção entre fantasias inconscientes e lembranças que se tornaram inconscientes, no entanto não se pode menosprezar a importância das fantasias na formação dos sintomas, pelo fato de elas não se submeterem ao princípio de realidade.

A realização de uma fantasia inconsciente permite compreender-se a natureza dos sintomas histéricos. O sujeito pode apreender na consciência uma fantasia inconsciente. Freud relata, com um exemplo da clínica, que uma de suas pacientes contou ter-se surpreendido em lágrimas na rua e, ao refletir sobre o que causara o pranto, pôde capturar a seguinte fantasia: “Em sua imaginação ligara-se amorosamente a um conhecido pianista de sua cidade (embora não o conhecesse pessoalmente); em seguida, fora abandonada com o filho que tivera com ele (na verdade não tinha filhos), ficando na miséria” (FREUD, 1908, p.164). Nesse momento de sua fantasia, a paciente irrompera em lágrimas. As fantasias inconscientes podem ser sempre inconscientes e formadas no inconsciente, ou derivadas das fantasias conscientes deliberadamente esquecidas através do recalque. Quanto ao conteúdo delas, pode ou não ser o mesmo.

Freud percebe uma conexão entre a fantasia inconsciente e a vida sexual do sujeito, ou seja, a fantasia do período da masturbação. O ato da masturbação é abandonado

quando o sujeito renuncia a esse tipo de satisfação e a fantasia consciente se torna inconsciente, sob a forma de sintoma patológico. “Dessa forma as fantasias inconscientes são os precursores psíquicos imediatos de toda uma série de sintomas histéricos” (FREUD, 1908, p.165), com o propósito de restabelecer, de forma aproximativa, a satisfação sexual primária original. Para se conhecer uma parcela da vida sexual do sujeito, é preciso investigar-se que fantasias deram origem à histeria. Freud afirma que as fantasias inconscientes do histérico correspondem às situações nas quais os pervertidos obtêm conscientemente satisfação, e que os delírios são fantasias da mesma natureza, embora se tenham tornado diretamente conscientes.

Para Freud, os processos responsáveis pelas lembranças encobridoras são inteiramente análogos à formação dos sintomas histéricos. A formação de todos os sintomas neuróticos pode ser localizada no processo conflito-recalcamento-substituição, que envolve uma conciliação.

Os sintomas neuróticos são resultado de um conflito. A libido insatisfeita, que foi repelida pela realidade, procurando outras vias para satisfazer-se, tenta encontrar satisfação pelo caminho da regressão – a épocas de escolha objetal ou de organização, ou seja, ao tempo em que a libido não se privava de satisfação. O sintoma repete a forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito. Aquilo que, para o indivíduo, era tão ardentemente desejado em determinada época e que constituía uma satisfação, no sintoma passa a originar resistência e repugnância. Em lugar de modificar o mundo externo, para a satisfação, a modificação se dá no próprio corpo dos indivíduos: eles “estabelecem um ato interno em lugar de um externo, uma adaptação em lugar de uma ação – uma vez mais, algo que corresponde, filogeneticamente, a uma regressão altamente significativa” (FREUD, 1917 [1916-1917], p. 428).

Os processos pertencentes ao inconsciente – condensação e deslocamento – têm seu desempenho na formação dos sintomas, tal qual o fazem na formação dos sonhos. As satisfações experimentadas na infância podem, pelo processo de condensação, ser comprimidas em uma só sensação ou inervação e, por meio de um deslocamento, podem restringir-se a apenas um pequeno detalhe de todo o complexo libidinal.

Por meio da análise, Freud verificou que a fantasia desempenha um importante papel na formação dos sintomas. A partir destes, pode-se chegar ao conhecimento das experiências infantis, às quais a libido está fixada e das quais se formam os sintomas. Essas cenas infantis, na maioria dos casos, nem sempre são verdadeiras: em alguns, são o oposto da verdade histórica. Ou seja, os sintomas podem representar eventos que realmente ocorreram

ou representar fantasias do paciente. As lembranças infantis isoladas, lembradas conscientemente desde os tempos imemoriais, podem igualmente ser falsificadas. Isso se explica, porque, no mundo das neuroses, como já foi dito, a realidade psíquica é a realidade

decisiva, de modo que se torna difícil assegurar se foi a fantasia ou a realidade que teve maior

participação nesses eventos da infância.

O objetivo fundamental da atividade psíquica pode ser descrito como um esforço para se obter prazer e se evitar desprazer. Consequentemente, a insatisfação faz o homem afastar-se da realidade, por achá-la insuportável, e transferir todo o seu interesse e a sua libido para as construções, plenas de desejos, de sua vida de fantasia. Com a atividade do fantasiar, que começa nas brincadeiras e, posteriormente, é conservada como devaneio, a dependência de objetos reais é abandonada, no entanto o devaneio permanece subordinado ao princípio do prazer.

O ser humano obedece ao princípio da realidade e, dessa forma, é obrigado a renunciar às fontes de prazer obtidas. Mas, como é difícil renunciar ao prazer, ele tenta alguma forma de compensação, de modo a assegurar as fontes e os métodos de prazer através da atividade da fantasia. Assim, o mundo das fantasias, apartado do princípio da realidade, encontra um paralelo, mas as “reservas naturais” preservam seu estado original livre da aprovação da realidade, o que torna possível a obtenção de prazer. Os devaneios não são necessariamente conscientes: há também os devaneios inconscientes, fonte dos sonhos noturnos e dos sintomas neuróticos.

Nas Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911), Freud opõe fantasia e realidade: a fantasia, submetida ao princípio do prazer, busca a satisfação pela ilusão; e a realidade, imposta ao sujeito pelo exterior, busca a satisfação pelo princípio da realidade. A fantasia se mantém independente do princípio da realidade, submetida unicamente ao princípio do prazer.

Laplanche e Pontalis (1986, p. 229) sublinham que “realidade psíquica” – no seu sentido mais fundamental – não é sinônimo de mundo interior; “ela designa um núcleo, heterogêneo nesse campo, resistente, o único verdadeiramente ‘real’ em relação à maior parte dos fenômenos psíquicos”. Freud (1900-1901, p. 560) afirma que não sabe se devemos atribuir realidade aos desejos inconscientes, mas que, reduzida a sua expressão mais fundamental e verdadeira, “a realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a realidade material”.

Na Interpretação dos sonhos (1900-1901), Freud distingue três tipos de realidade: “realidade material”, “pensamentos de transição e de ligação” e “realidade psíquica”. A

“realidade material” é realidade externa e só pode ser parcialmente conhecida pela percepção e pela consciência; os “pensamentos de transição e de ligação” são cadeias de associação que conduzem à expressão mais verdadeira do desejo inconsciente; e a “realidade psíquica” é o núcleo irredutível do psiquismo. O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; “em sua

natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo”

(FREUD, 1900-1901, p. 554). O desejo se expressa pelas fantasias, às quais constituem a realidade psíquica e, “apenas o inconsciente é psiquicamente ‘real’, são as fantasias inconscientes que têm o privilégio de serem comparáveis à realidade ‘material’” (MEZAN, 1990, p. 404).

Benzer Belgeler