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MEAK ve PD Kontrollü Sistemin Deney Çalışması

“Serestando” não é um espetáculo, é uma demonstração técnica. Como tal, não seria

necessário haver trajes de cena, pois se trata de uma apresentação de métodos de trabalho

cênico do Lume, ou seja, normalmente em outras demonstrações técnicas os atores usam

roupas comuns de trabalho.

Mas, ao contrário de outras demonstrações técnicas, “Serestando” tem figurino, e por

um bom motivo: é uma demonstração que revisita figuras e matrizes criadas pela atriz Ana

Cristina Colla, desde 1993 até a mais recente delas (Nataly de “Os Bem Intencionados”). A

demonstração refaz a trajetória da atriz de maneira mais poética do que outras demonstrações,

com ligações e passagens suaves entre figuras. Essas transições são marcadas não apenas pela

corporeidade da atriz como também pelo figurino, pensado por Colla e por Silvana

Nascimento.

A seguir, na figura 58, podemos ver a sequência de mudanças no traje usado pela atriz

durante a demonstração. As figuras apresentadas são:

48 As fotos do espetáculo foram tiradas por mim no dia da estreia do mesmo. A atriz pediu que não fossem feitas fotos dela usando o bigode, para não estragar a surpresa para outros futuros expectadores.

A: roupa base que aparece somente na transição entre a criança e Nataly,

mas é usada por baixo de todas as outras camadas.

B: cena canção de abertura e a cena da mãe.

C: cena de Dona Maria (espetáculo “Contadores de estórias”).

D: cena da Maroquinha (espetáculo “Café com queijo”).

E: cena com várias matrizes da rua e de animais (espetáculo “Um dia...”)

F: cena da criança (segundo a atriz a corporeidade é da Pao, personagem

do espetáculo “O que seria de nós sem as coisas que não existem”. Ainda

segundo Colla, os poemas dessa cena fazem parte do material do

espetáculo “Você”).

G:cena da Nataly Menezes (espetáculo “Os Bem Intencionados”).

H: cena da Velha (espetáculo “Você”).

Figura 58 - fotomontagem das etapas e transformações do figurino da demonstração “Serestando”. (Fotos e montagem: Laura Françozo).

O desejo da atriz de usar algum tipo de traje, para a demonstração, fazia necessária a

criação de algo novo, já que seria pouco prático para a intérprete levar todos os figurinos, de

todas as figuras, e trocar de trajes durante a demonstração. Com isso em mente, Silvana

Nascimento criou um vestido-base, em que se sobrepunham outras saias e roupas, de acordo

com cada figura apresentada por Colla. Sobre a relação entre a atriz e a figurinista, durante o

processo de criação dos trajes, Ana Cristina Colla diz:

(...) ela [Silvana Nascimento] criou esse vestido base de uma maneira que eu pudesse estar tirando; pra cada figura foi criada uma saia que tinha relação, então, sei lá, a Maroquinha, que é uma coisa mais interior, tímida, é um tecidinho florido... isso a gente foi junto até uma casa de tecidos e ficamos lá provando “ah, será que esse tem a ver, será que esse tem a ver”. Texturas pra gente era interessante, a estampa, maneiras práticas de colocar e tirar ele, então como se fossem camadas também de figuras. (Ana Cristina Colla, entrevista apêndice A1)

Percebe-se pelo excerto acima que havia uma relação de troca e cumplicidade entre

atriz e figurinista, característica também presente na relação entre Luís Otávio Burnier, atores

e o figurinista Fernando Grecco. A recorrência desse tipo de relacionamento entre ator e

figurinista, no processo de criação dos trajes de cena do Lume, será um dos itens analisados a

seguir.

7. Apontamentos finais do capítulo

Neste capítulo, pudemos entender vários aspectos diferentes tanto do processo de

criação dos trajes, nos espetáculos de mímesis corpórea, como, também, da relação entre ator

e figurinista. A seguir, retomaremos e analisaremos os principais tópicos levantados durante o

capítulo.

Segundo Jesser, o que determina o uso tanto de matrizes quanto de figurinos dentro da

mímesis corpórea é o próprio processo criativo, que sedimenta o uso ou desuso desses

materiais. Em suas próprias palavras:

Aquilo que surge mais de uma vez, num dia surgiu isso, no outro surgiu de novo, depois de três meses surgiu de novo, isso vai se configurando como material permanente, codificado, conhecido e aí vai permanecendo, tem coisas que são experiências que a gente vive um dia na sala e depois nunca mais volta e depois ficou lá, como parte do processo. Como trampolim para acessar outra coisa, eu acho que os figurinos, as maquiagens, essa metodologia, ou esse procedimento ele está

em todas as instâncias do próprio trabalho, até isso. (Jesser de Souza, entrevista apêndice A3)

Apesar da criação do figurino estar ligada aos trajes de pessoas reais, a atriz Ana

Cristina Colla reconhece que, com o passar dos anos, a necessidade de se ater fielmente aos

trajes dessas pessoas foi diminuindo. Se, no início, para fazer a mímesis de dona Maria, seu

Renato Torto e dona Conceição, era necessário se aproximar dos trajes que os registros

fotográficos mostravam; para fazer a mímesis de dona Maroquinha, em “Café com queijo” era

mais importante que o vestido tivesse o bolso para guardar a bolacha, do que ser semelhante

ao das fotos de dona Maroquinha. À medida que a linha de pesquisa da Mímesis Corpórea foi

se desenvolvendo, o figurino também passou a ser mais independente do material de origem.

O A atriz exemplifica essa mudança da relação entre a mímesis e o figurino em “Café com

queijo”:

(...) com ele [figurino] eu posso fazer homens, mulheres, com esse mesmo [figurino], independente se eu estou de vestido, eu posso fazer um homem com ele. Então também a maneira de encarar a mímesis também foi mudando. (Ana Cristina Colla, entrevista apêndice A1)

A partir da observação de Colla, podemos, mais uma vez, retomar o pensamento de

Jerzy Grotowski sobre o traje de cena. Para o encenador polonês, o figurino do teatro pobre é

aquele que não tem significado autônomo, ou seja, seu significado está submetido à ação do

ator em cena. Aparentemente, com a maior liberdade adquirida pelos atores, menos necessário

era que o traje fosse próximo ao da realidade observada em campo. Ao contrário, cada vez era

mais necessário que o traje pudesse ser neutralizado e reinterpretado de acordo com a ação

cênica. Como vimos, os espetáculos “Café com queijo” e “Alphonsus” são os que melhor

realizaram isso, já que, em ambos, o ator muda de matriz em cena, sem que o figurino

atrapalhe a verossimilhança.

Vimos também, neste capítulo, que o uso do guarda-roupa não se restringe aos

espetáculos de clown, onde primeiro abordamos sua existência. A recorrência do uso do

guarda-roupa e os depoimentos dos atores demonstram como esta é uma ferramenta dos atores

para iniciar o processo de criação dos trajes de modo autônomo. Se, em um momento

posterior do processo, haverá ou não a participação de um figurinista, fica a cargo da escolha

dos atores.

Quando existe figurinista nos espetáculos do Lume, ele é parte de um processo de

criação de trajes que já se iniciou previamente pelo(s) ator(es). O figurinista, portanto, é

convidado a partilhar um processo de criação. Vimos vários exemplos de como se dá a

relação entre figurinista e ator nos espetáculos de mímesis do Lume:

- Em “Taucoaauaa”, em que Fernando Grecco não só tinha uma relação de troca com

os atores, como também aceitava plenamente a intervenção de Burnier.

- Em “Café com queijo”, quando o mesmo Fernando Grecco auxiliava na escolha de

tecidos e na conversa com a costureira.

- Em “O que seria de nós sem as coisas que não existem”, em que Renato Ferracini

incorpora ao seu personagem um erro de costura da figurinista Sandra Pestana. A própria

figurinista também incorpora muitas sugestões dos atores, como o tênis que Ferracini usa,

remetendo a seu pai.

- Em

“Serestando”, assim como fazia Fernando Grecco, a figurinista Silvana

Nascimento leva a atriz Ana Cristina Colla a lojas de tecido para que juntas encontrem o

material mais adequado para cada figura de Colla.

Todos esses exemplos retomados acima nos mostram que a relação entre figurinista e

ator no Lume é de cumplicidade e troca, a criação do traje não parte primeiro do figurinista,

mas daquilo que o ator já percebe como necessidade. Além disso, a relação entre figurinista e

ator tem uma natureza colaborativa, análogo ao que Toyland aponta que existe nas produções

cinematográficas e televisivas (2013, p. 16).

Benzer Belgeler